sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).

Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto se grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta, enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Longos são os dias sem Jonas

A primeira vez que vi o Jonas jogar foi pelo telemóvel. Estávamos a viajar e enquanto a C. via um Porto-Braga (3-1?) no iPad, eu tive que sofrer com um Benfica-Arouca que esteve 0-0 até aos 70 minutos até Talisca (que se Eusébio quiser vai passar 2018/2019 a treinar com a equipa B de lançamento do peso, com a devida escolta de elementos ligados às claques do Benfica, que o levarão ao carro depois dos treinos) abrir a lata. Jonas entrou, marcou de cabeça e correu a apontar para Ola John - desconhecendo ainda que aquele centro perfeito vinha num pacote que incluía uma atitude imperdoável para os adeptos (eu ainda tenho esperanças no Ola John, vejam lá). Em primeiro lugar, notem que tive que ver o jogo no telemóvel e a C. num ecrã maior - roubados, outra vez - e em segundo: Jonas foi uma paixão imediata e assolapada, que dura até hoje. Pesquiso todos os dias novidades sobre a sua lesão, desespero por notícias como se fosse uma mulher da época dos Descobrimentos cujo marido partiu para enfrentar o Adamastor.

É-me difícil gostar mesmo de um jogador do Benfica. Já gostei de vários, mas a percentagem que me ganha é baixa. Embirro com Fejsa porque está sempre a sair da posição, não suporto quando o Salvio ou o Guedes não levantam a cabeça. Renato Sanches parecia-me tecnicamente inferior a mim mesmo, Di Maria era intrinsecamente estúpido, Lisandro é um perigo, Raul Jimenez joga com demasiada pressa. Sou uma pessoa horrível para estar ao lado a ver futebol. Acho sempre que a galinha do vizinho é sempre melhor. Na verdade, o meu pessimismo leva-me a achar que a galinha do vizinho é um dinossauro gigante com a inteligência de um robot do ano 2380 e armas que nós desconhecemos. Sou uma pessoa que desesperou pela partida de Jackson Martinez do futebol português, rumo à brilhante e feliz carreira internacional que lhe vaticinei. 


No Benfica vejo sempre defeitos, coisas a corrigir, fraquezas que os rivais vão explorar sem piedade. Mas em Jonas vejo a paz, o farol que ilumina todo o nosso jogo, a voz da calma no meio do pânico que é a minha cabeça quando o meu clube joga. O que eu mais amo em Jonas - e é "amo", não é "gosto", não é "adoro" nem "venero" - são os braços dele a dar indicações. Jonas várias vezes desce no terreno, recebe e começa com os braços a posicionar os colegas, com uma paciência paternal de quem ensina os filhos a fazer os trabalhos de casa.
Por exemplo: neste vídeo, Jonas parece dar apenas um toque para isolar Gaitan no tempo certo. Mas o que este vídeo não mostra, mas outros disponíveis na net na altura e que eu agora não encontro mostravam, é que Jonas, antes de receber de Raul, tem Renato na sua linha de passe. E grita-lhe e aponta com o braço que deve sair dali e correr para a frente. Renato, bem mandado, avança e leva o defesa (como se vê na imagem), a linha de passe abre, Jonas recebe e assiste. O golo é dele, por esse grito, por essa ordem.
Jonas é o treinador que eu sempre quis o banco. Passo os jogos a gritar indicações: "Abre!", "Olha o Hortinha, Grimaldo!", "MATA, JARDEL, MATA!", "Olha o Liedson ali, olha o Liedson, caralho! Foda-se, quero lá saber se estamos a atacar, olha o Liedson!", etc. Com Jonas, sinto que me posso poupar, sinto que ele faz isso por mim.


A imagem anterior mostra isso mesmo: o Benfica precisa de ganhar ao Setúbal e numa entrada generosa e muito anos 90, resolve sofrer um golo no primeiro minuto. Os próximos 20 minutos são de pressão intensa, mas com algumas precipitações. Jonas faz o empate, vai buscar a bola à baliza e no caminho dá indicações aos colegas. Jonas é o amor: é tudo o que queremos na vida, porque faz o golo do empate, e é ternurento e paciente, aceitando o erro, corrigindo, perdoando a Salvio cada vez que ele não toca a bola no tempo certo, acertando agulhas com Pizzi - com quem se entende às mil maravilhas - gritando horrores a Elizeu. Nunca grito a Jonas quando erra, não lhe peço nada, limito-me a confiar.
Não sei se vai ser um símbolo do Benfica, se sente ou não a camisola, mas digo-vos que pouco me interessa. Porque não lhe posso pedir mais. Eu sofria com Cardozo, sentia os falhanços dele como se fossem meus, mas não confiava em Cardozo. Tinha uma fé inabalável, mas sabia que muito daquilo estava misturado com a minha devoção. O meu amor por Jonas não é fé, é ciência. Se Jonas não tentou aquele passe que eu queria, era porque não dava e eu aceito isso. 


Tinha acabado de trabalhar quando li online que Jonas se lesionara, há uns tempos atrás. Dei um gritinho e senti-me todo a tremer. E agora? Em quem confiar? Quem é que vai conduzir os ataques, quem é que vai organizar a equipa meticulosamente até ao golo? Quem vai finalizar com classe, tabelar, pausar e acelerar? Terei outra vez que gritar para o campo? Sim. E sofrer? Muito. E até quando? Não sabemos. Vejo diariamente notícias à espera da sua recuperação, acredito nas capas do Correio da Manhã, dos desportivos - mesmo quando se contradizem - e de utilizadores do twitter com 4 seguidores. Acho que em todos os jogos vamos perder pontos. Em todas as jogadas sinto a falta dele e acho que sempre que corre mal é porque Jonas não está, e há um "se ele estivesse cá" recorrente, a martelar-me a cabeça. Fujo sempre da pergunta "e quando ele não estiver?" sem ter coragem da resposta.
A equipa - quiçá treinada por ele? - tem-se aguentado bem, conquistado pontos e cimentado a confiança. Mas o inimigo é feroz e a luta é longa. Para a vencermos precisamos de Jonas. Do Jonas inteligente, matador, traiçoeiro, espertíssimo, sempre no lugar e tempo certo. Precisamos do Jonas que é Cardozo e às vezes é Aimar. Preciso que ele esteja em campo para voltar a confiar, para voltar a ter um mínimo de tranquilidade, para saber que tudo se desmonta com paciência, que não há nada a temer. Preciso de tê-lo em campo e anseio por vê-lo trocar a bola com Rafa.

Diz-se por aí que tudo o que nós queremos na vida é o amor. Eu quero o Jonas no ataque do Benfica. Porque amor é o que sinto quando ele tem a bola nos pés e a mete dentro da baliza. Até ao seu regresso, a vida será uma soma de inquietações que temos de vencer com a ajuda de tudo o que ele nos ensinou. Longos são os dias sem ti. Regressa rápido, Pistolas. Um abraço de coração apertado, à tua espera.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Carta da Maria ao Luisão

A nossa sobrinha mais velha, a Maria, que tem 9 anos e que a C. caracterizou como uma pequena Rui Gomes da Silva, é fã do Luisão. Quando pediu uma camisola do Benfica, disse que queria o número 4. 
"Porquê, Maria?" 
"Porque é o número do Luisão e ele é o chefe!"
  
Só por este episódio, a partir de agora, os capitães do Benfica deviam ser chefes, que é muito melhor.
Ora, a Maria está triste e preocupada com a saída do chefe e pediu esta manhã a morada do Estádio da Luz (que ela já visitou) para enviar uma carta ao Luisão. O blog dos tios, comprometido a ajudar, imprime a missiva deste jovem preocupada, espantada (porque quererá Luisão sair do melhor clube do mundo) e exigente (quer uma resposta).

Os tios adoram-te, Maria! 



segunda-feira, 11 de julho de 2016

Enquanto dormias

Às 20.35 do dia 10 de Julho de 2016, com o jogo Portugal-França a caminhar para o fim da primeira parte, o nosso filho adormeceu. Caiu no sono com ar de quem era capaz de dormir 12 horas, o que num bebé significa mais ou menos 3h de descanso para os pais. Enquanto o nosso filho dormia, a sucessão de eventos mais improvável e surrealista do desporto português aconteceu. Cristiano Ronaldo lesionou-se, a sempre patriota C. atirou um "só bolinha" na primeira repetição, um muito saudável "isto está tudo feito, este gajo só faz isso para as câmaras" quando Ronaldo tentou entrar em campo outra vez e eu disse umas três vezes "já está" quando os franceses ainda pensavam ser possível bater Rui Patrício. Os teus pais, P., não vibram muito com a selecção. 


Quando eu vi a primeira participação de Portugal numa grande competição - 1996 - vibrei e sofri muito, porque era a primeira vez (e a sensação de raridade faz-nos querer beber os pormenores todos). Fiz a colecção de bonecos de plástico d`"A Bola" - que guardo religiosamente e que tem o problema de ser tacticamente desequilibrada: Baía, P.Santos, Hélder, F.Couto (que cai para trás, devido ao peso do cabelo), Oceano, Paulo Sousa, JVP, Figo, Rui Costa, Sá Pinto e Domingos, obrigavam-me a adaptar Oceano a lateral e a dispor a equipa num arriscado 4-1-3-2 que anos mais tarde daria 3 campeonatos ao meu clube. Fiquei chateado cerca de 10 minutos com o golo do Poborsky e depois acabou e voltei ao sofrimentos dos anos 90 do Benfica. Sofreria duas vezes mais com a selecção na minha vida: o Alemanha-Portugal de Marc Batta, que vi colado à televisão com o meu primo N. e que me chateou profundamente, e com os quartos de final com a Inglaterra em 2004 (em 2000 disse logo que era penalty do Abel Xavier e tentei culpar Vitor Baía por ter largado a bola no lance, desconhecendo que 14 anos depois ele estaria sentado ao meu lado, com uma simpatia esmagadora, na apresentação do nosso livro). A selecção, P., sempre me passou ao lado. E isto não é uma coisa hipster para me armar em mais benfiquista do que os benfiquistas que sofrem por Portugal. É uma coisa que me aconteceu, como se o meu amor futebolístico tivesse sido todo canalizado para o vermelho da Luz. 


Espero que um dia percebas, no entanto, que o futebol é muito maior do que as nossas paixões. Às vezes emocionam-me relatos que não têm nada a ver comigo, por vezes fico com vontade de estar em bancadas só porque quero sentir aquele festejo de golo e acontece-me a mim e a muitas pessoas sonhar acordado com jogos, com emoções que nunca vamos sentir só porque sim, só porque o jogo nos permite isso. E apesar da selecção dizer pouco aos teus pais - podemos admitir publicamente que o golo de Éder foi o único que festejámos no torneio e já explico porquê adiante - é impossível uma pessoa não se emocionar com o país inteiro à nossa volta, como se toda a gente descobrisse um jogo que nos leva a loucuras há tantos anos. E, sobretudo, é impossível não ficar feliz pelas pessoas de quem gostamos e que estavam verdadeiramente felizes com a possibilidade de Portugal ser campeão europeu (o teu avô materno estava nervoso antes do prolongamento e a tua tia paterna telefonou-me hoje e contou a maneira como viveu o jogo e deixou os teus primos negligentemente à solta). Os teus pais podem ser doidos, mas não são nenhuns monstros: podemos chamar nomes ao Ronaldo e ao Adrien, mas também podemos estar contentes pela família e amigos (talvez este tenha sido o momento mais condescendente da história futebolística da internet, mas adiante).


O que é certo é que enquanto tu dormias, daquela maneira tranquila, amorosa e ao mesmo tempo falsa dos bebés de 3 meses, aconteceu um jogo absolutamente mítico. Rui Patrício fez uma exibição para os livros de história, Pepe tirou tudo o que havia para tirar, João Moutinho encheu o campo com inteligência com a sua entrada e o Éder transformou-se numa lenda. E foi por causa do Éder - que não é amigo nem é da família  - que os teus pais ficaram genuína e entusiasticamente felizes. Há muito que o teu pai - o mesmo pai que disse que Rui Vitória nem com o plantel do Bayern seria campeão português ou que Renato Sanches não era a solução para os problemas do Benfica (tendo Renato Sanches, após essa frase escrita pelo teu pai, sido campeão nacional, titular e campeão Europeu e nomeado Comendador pelo Presidente da República) - tem uma história para gozar consigo mesmo aqui no blog: quando o Benfica contratou o Lima - na altura com 29 anos, salvo erro - o idiota do teu pai confessou a dois ou três amigos que duvidava daquela contratação, porque o Lima já estava quase nos 30 e não parecia assim tão bom. Quem é que o teu pai achava que tinha mais potencial? O Éder, que jogava na Académica. Ora, o Lima transformou-se numa máquina de golos, assistências, bom futebol e deu dois títulos de campeão ao Benfica, e o Éder era só o ponta de lança mais gozado de sempre na internet. A história do meu palpite, que mais não servia do que para me rir para mim próprio, hoje seria ainda mais risível. 



Não sei se na altura em que tiveres idade para ler isto ainda existirão os registos, mas é quase impossível mostrar-te quão gozado e menosprezado era o Éder. O Éder tinha sido assobiado num amigável, havia uma petição on-line para o Éder não ser convocado para o Europeu e ir um civil e quando o André Silva marcou dois golos ao Braga na final da Taça perdida pelo clube da tua mãe em 2016, a opinião geral (incluindo dos teus dois pais) era que o miúdo de 19 anos merecia mais a convocatória do que o Éder. Basicamente, antes do Europeu, tu - com 3 meses - parecias um ponta de lança mais promissor do que o Éder. O mais fabuloso - e talvez isto não encontres logo quando quiseres saber coisas sobre o jogo - foi a maneira brutal como o Éder entrou na final (e só tinha entrado - e mal - nos dois primeiros jogos do grupo). Ganhou todas as bolas, segurou e deu com classe aos colegas. Apareceu muito bem num canto e quase resolvia a final antes do prolongamento. Fez uma mão estúpida, o árbitro achou que foi do francês e o Guerreiro mandou a bola à barra num livre. Confiante, astuto, descomplexado. Surpreendente.
"Estou pelo Éder", disse a tua mãe. E tu dormias, ignorando a História - com agá muito grande - que passava na televisão perto de ti. Eu e a tua mãe entrámos no espírito selecção (vamos esquecer a acusação que a tua mãe fez do Ronaldo ter simulado uma lesão no início do jogo para parecer mais heróico) e, sobretudo, entrámos no espírito Éder. Estávamos por ele. 


De repente - e oxalá que quando tu cresceres este flagelo que é o desfasamento entre televisões já tenha desaparecido - há um grito maravilhoso na rua. Um grito de estádio, daqueles que vem do fundo. Aquele grito do golo surpreendente, decisivo, maravilhoso, que marca vidas e do qual toda a gente vai falar a vida toda. Um grito de bancada argentina, misturado com o YEEEEEAAAAHHHH dos ingleses. Mas português e dali do lado. E quando os teus pais olham para a televisão, já sabem que não podem gritar golo porque tu estás a dormir. O Moutinho dá a bola ao Éder e eu digo à tua mãe "Vai ser do Éder!". Ela olha para mim e ri-se nervosa e eu ainda imagino que ele vá dar a alguém que vai aparecer na direita, mas ele chuta mesmo - com intenção, com certeza, à ponta de lança. História. História do patinho feio, história da equipa que se uniu com a saída do craque, história do futebol do nosso país. O Éder. 1-0, à França (a quem Portugal não ganhava há 41 anos - e que me lembrava derrotas infinitas em meias-finais e amigáveis, como aquele 3-2 no Parque dos Príncipes com golo do Rui Costa ao mítico Lama), em Paris, na final de um Europeu. Apeteceu-me que acordasses e que crescesses depressa, para eu te contar tudo. Mas felizmente tu acordaste só mesmo com o apito final, espreguiçaste-te daquela maneira irresistível e olhaste tranquilo para mim e para a tua mãe, com ar de quem pergunta se se passou alguma coisa de importante enquanto tu dormias.

P., enquanto tu dormias, aconteceu um conto de fadas de futebol. O dia em que o patinho feio ficou o cisne eterno. Um dia contamos-te tudo.

quinta-feira, 24 de março de 2016

O homem que mudou o jogo

"Ideas are bulletproof" 
(Alan Moore - V for Vendetta)

A minha primeira memória de Cruyff é má e serve este texto para lhe pedir desculpa e para me penitenciar. Estamos em Abril de 1992 e o Benfica joga o apuramento para a final da Taça dos Campeões Europeus em Barcelona, enfrentando o Dream Team. Perdemos 2-1, com uma exibição horrível de José Carlos, e chorei como chorava sempre que o Benfica perdia. Cruyff, aquele senhor de casaco longo (quase sempre de gabardina), era o mentor de uma derrota do Benfica e isso fez-me não gostar dele (eu tinha 8 anos e a minha cabeça funcionava assim. Em parte ainda funciona, mas menos) e não compreendi como é que o meu pai torceu pelo Barça na final contra a Sampdoria (1-0, Koeman, de livre, com Vialli no banco a tapar a cabeça para não ver). 


Só anos mais tarde percebi que o Benfica tinha enfrentado história. História de futebol, história do jogo, uma ideia peregrina. Não que isso tivesse mitigado a minha dor na altura - lembro-me perfeitamente da minha excitação antes do jogo, de pedir à minha mãe para ir mais cedo para casa e do lancinante choro no 2-0 - mas teria aceitado a derrota com outra dignidade e, sobretudo, não tinha guardado rancor a uma personagem cujas ideias criaram um futebol que me dá prazer, que me arrepia como nenhuma música faz, que me faz sentir bem com o mundo. 

Há uns dias, a ver o Atleti-PSV para a Champions no sofá e à beira de ser pais, disse à C. que uma coisa que eu me lembro de invejar muitíssimo no meu pai era quando, num jogo que estivéssemos a ver, filmavam o treinador e ele dizia: "Este gajo era grande jogador". Eu invejava-o por nunca ter visto aquele tipo. E o exemplo que estava na minha cabeça era Cruyff. A C. completou, dizendo que um dia vamos dizer isso do Simeone e o nosso filho vai ter de ir vê-lo ao youtube. Mas mesmo se Simeone é hoje treinador do Atletico e foi um craque ou se Zidane é treinador do Real Madrid e foi campeão do Mundo e o melhor jogador do mundo, nenhum deles mudou o jogo como Cruyff mudou. Como jogador e depois como treinador. Porque é esse o seu legado, a sua ideia à prova de bala à qual todos aqueles amam o jogo têm de agradecer: o futebol é dos melhores. E os melhores são os mais inteligentes. E porra, a morte de Johan Cruyff chateia-me porque sublinha essa inveja: eu nunca o vi jogar nem sequer era suficientemente inteligente para o apreciar quando o enfrentámos. E agora, como é que eu lhe agradeço tudo?


Johan Cruyff foi 3 vezes Bola de Ouro, líder da mítica Laranja Mecânica e louco o suficiente para não ir ao Mundial de 1978 (por rebelião contra a ditadura ou por pressão da mulher, depende das versões). Fez a sua homenagem à Catalunha quando baptizou o filho como Jordi (em homenagem ao santo padroeiro da Catalunha), nome que era proibido pelo franquismo. Símbolo do Barça, símbolo do Ajax, mas mais do que isso: o génio que mudou o jogo. 
Até Pep Guardiola e Messi provarem ao mundo que não, o futebol era um jogo físico, para atletas, para corredores. Para os mais altos, para os mais fortes, para os que chegavam mais longe. Apesar de Cruyff já ter dito que não várias vezes: 

- We must make sure their worst players get the ball the most. You’ll get it back in no time.
- There is only one ball, so you need to have it.
Technique is not being able to juggle a ball 1000 times. Anyone can do that by practicing. Then you can work in the circus. Technique is passing the ball with one touch, with the right speed, at the right foot of your team mate.
There’s only one moment in which you can arrive in time. If you’re not there, you’re either too early or too late.

Estava lá tudo e Cruyff já o tinha visto antes. Mas talvez tenha chegado demasiado cedo a esta ideia, o senhor da gabardina. E nós chegámos todos tarde. A verdade é que hoje, no FC Barcelona, os treinos começam com aquele meinho que Cruyff sonhou. Os mais inteligentes (Busquets, Xavi e Iniesta, esse meio campo dos deuses) são preferidos aos mais fortes. A onda alastrou para a Alemanha e para o mundo, que precisou de ver resultados antes de acreditar no holandês que perdeu uma final por 4-0 contra o Milan de Capello. O futebol que Cruyff sonhou está todo nesta conversa com Xavi, um almoço para o qual eu dava tudo para estar presente:



Um dia, com o meu filho ao colo, hei-de ver um jogo com Guardiola no banco. Talvez ele esteja concentrado num jogador qualquer que admira, talvez até seja contra o Benfica e o P. estará demasiado nervoso a compor a nossa defesa para reparar quando eu disser: "Este gajo era grande jogador" quando filmarem Pep. Talvez o faça já no Bayern-Benfica, apesar de achar que, para um recém-nascido, já vai ser suficientemente complicado perceber à primeira porque é vamos abdicar dos dois avançados. Mas o que interessa é que um dia vou explicar ao P. quem foi Guardiola, como é que aquele senhor que fala as línguas todas mudou o jogo. Mas para isso vou falar-lhe de Cruyff. Porque foi Cruyff quem sonhou isto tudo. Quem pensou primeiro. Quem teve esta ideia, à prova de bala e à prova de matulões, "que o futebol se joga com os pés e as pernas estão lá para ajudar". Foi Cruyff o mentor deste maravilhoso mundo onde agora Messi se diverte. 
E eu, a primeira vez que o vi, não percebi isso. As minhas desculpas ao senhor da gabardina. As minhas desculpas ao senhor que mudou o jogo. Obrigado, muito obrigado.