sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O Diário Secreto de Rui Carlos com 48 anos e meio


25 de Agosto de 2018
Benfica 1 Sporting 1
Hoje empatámos com o Sporting 1-1. Sorte do caraças. Não estava nada confiante para o jogo. Hoje de manhã ligou-me uma das minhas filhas. Dá sempre azar, quando uma das minhas filhas me liga dia 25. Uma vez perdi com o Fátima com o Benfica de Castelo Branco num 25 de Março à custa disso. Quando eles marcaram pedi ao Arnaldo para ir lá dentro responder-lhe: “Obrigadinho, filhota, obrigadinho”. A imprensa tem boa ideia minha, mas é porque eu me controlo. Nunca os deixo ver este Rui Carlos rancoroso. Coitada da miúda, não tem culpa nenhuma, de certeza que achava que era dia 26. O que vale é que não perdi o controlo e fiz o costume: contei o número de letras da terceira palavra da próxima frase do Arnaldo e deu 4. Contei 4 cadeiras e saiu o miúdo, o Félix, ou lá o que é. Não é que o miúdo marcou? Há coisas que nunca falham. É uma ciência, esta das letras. Porra, nem sabia quem era o miúdo, os gajos do scouting é que não se calavam lol. Os gajos atrás de mim na bancada estavam sempre a dizer “o cabrão do forcado não percebe nada disto” e “foda-se, não ganhas a estes gajos, só vais a touradas!”. É indecente, acho o Peseiro um excelente treinador. E é grande prato. Mas pronto, isso as pessoas não podem saber. Agora, mandar vir com o homem, depois de tudo o que se passou no Verão? As pessoas não têm memória.

“O general que vence a batalha faz muitos cálculos antes de a travar. O general que perde a batalha faz poucos cálculos antecipadamente”



27 de Setembro de 2018
Chaves 2 Benfica 2

Há dias em que mais vale não se sair de casa, Rui Carlos. Correu tudo mal. Hoje cheguei e vi que aquele Conti se sentou à janela no autocarro. Um central à janela. Na la-te-ral do autocarro. Vê-se mesmo que vem de um futebol mais atrasado, estes argentinos chegam e temos que lhes explicar tudo. É nestas coisas que o futebol europeu não perdoa: um central à janela. Uma vez disse isto no Fórum dos Treinadores de Elite, no Mónaco: “In my team, I don`t allow centrals in the window of the bus”. Bem, ficou tudo maluco. O Wenger riu-se e contestou. Roguei-lhe uma praga que acabou por ser despedido. (Tu és danado, Rui Carlos, tens de parar de ser assim, má pessoa). O careca, o Pepê ou lá o que é (falava montes de línguas, acabei sem perceber que equipa é que ele treinava, há pessoas assim, mal sabem comunicar), disse muitas vezes “What is this guy doing here?” e eu respondi-lhe que a vida era mesmo assim, que o guy estava à janela porque vinha de um campeonato mais atrasado e que aquilo eram fases. "Phases" - em inglês, para o gajo ver que comigo não brincava e que são precisos dois para dançar o tango. Importante era pegar o touro pelos cornos e encarar esses problemas de frente. Senti-me a mais naquela reunião. Foi como se vivesse noutro planeta. Às vezes tenho de entender que nem sempre estou no balneário, onde sou rei e senhor e onde toda a gente me respeita.
Perdi-me. Bom, o estúpido do Conti foi à janela e a partir daí foi um descalabro: o Jardel lesionou-se, o Conti foi expulso. Foi uma coisa das trevas. Até o Rafa marcou! Duas vezes! Quando cheguei ao balneário ouvi o Pizzi a falar com o Gedson, a começar a dizer “fomos dominados, não fizemos dois passes. Se aquele gajo não percebe que levámos um banho do Chaves... Parecemos aquelas equipas de merda onde ele estava”, mas aí entrei logo na conversa e cortei logo aquele mal-estar. Expliquei ao Pizzi que ia falar com o Conti e que ia esclarecer tudo. O Pizzi ficou muito atrapalhado quando percebeu que eu estava a ouvir, mas eu meti-lhe a mão no ombro e expliquei-lhe que estava tudo bem, que também estava zangado com “ele” (e não disse o nome para ninguém perceber. Tu és de uma frieza, Rui Carlos...), mas que ele com o tempo ia ao lugar. No autocarro estava um silêncio... Bem, ninguém falava. Tudo lixado com o Conti. Ainda ouvi o Jonas a ligar ao Luisão e a pedir o indicativo da Arábia Saudita. Ri-me e disse-lhe que o mercado já tinha fechado. Está todo lixado, o Jonas.

“Não estamos preparados para liderar a marcha de um exército a não ser que conheçamos a geografia da região, as suas montanhas e florestas, perigos e precipícios, pântanos e brejos”



7 de Outubro de 2018
Benfica 1 Porto 0

Jogaço. Epá, Rui Carlos, entraste para a história. História! Um a zero ao Porto. PUMBA. EMBRULHA. TOMA LÁ MORANGOS. 
Bem, tenho a certeza que este jogo vai entrar para a história como um dos mais bem jogados. Aquilo parecia a Red Bull Air Race. Bem, eu até dizia ao Arnaldo: “Olha a bola, sempre no ar, maravilha” "OLHA-ME A VELOCIDADE A QUE A BOLA VAI, ARNALDO!". Grande jogo do Porto também. Bola sempre lá bem no ar (os gajos chutam muito alto, mesmo. Amanhã vou pedir ao Benfica Lab a estatística, porque eu não quis estar a dizer nada em público, mas acho que os gajos ainda deram um chuto para o ar mais alto que o nosso. Tivemos sorte, porque a bola saiu directa, mas até me arrepio quando penso no lance. Se o Marega – QUE JOGADOR! – a apanha...), jogo super intenso, super duro, montes de faltas.... Hoje vou ver o que é que aquele gajo da RTP3 de óculinhos diz. De certeza que vai fazer aqueles gráficos todos cheios de linhas, mas connosco. E o golo? Bem, QUE JOGADA. Parecia futvolei. Aquele Pizzi, realmente... Chego ao intervalo e está o gajo a dizer: “Nem a cheiro, esta merda é pior que o Fão, bola na relva nem vê-la”. E eu – “o cheiro está dentro de ti, Luís Miguel”. E grande chapada no peito, tipo forcados. O gajo ficou com uma cara! E depois no golo, que é que aconteceu? O gajo cheirou a bola de cabeça junto à relva. Eu às vezes sinto-me como um jogador de xadrez e os jogadores são como peças para mim. Eu entro na cabeça deles e faço o que quero. O jogaço foi tal que até meteram a música da tourada, em minha honra.

“Quando combina a energia dos seus soldados, estes tornam-se numa força demolidora à semelhança de troncos e pedras”


23 de Outubro de 2018

Bem, eu às vezes tenho de respirar fundo. Não me dão condições para trabalhar. Aquele Ferreira ou Ferreiray (sei que tem um y, o gajo nem sabe falar português) é uma nódoa. O gajo passa os treinos de olhos abertos a olhar para mim, não percebe metade das minhas metáforas. Estou sempre a dizer ao scouting que não pode vir qualquer um, mas eles só vêm a dimensão futebolística, não percebem nada da humana. Vou meter um gajo a jogar que não percebe a “vai ser de rabo e orelha”? Já não estou no Paços, já não tenho que aturar jogadores destes. Estou irritado a pensar nisto e aparece-me o Pietra outra vez com a conversa do Zivkovic e que temos que lhe dar oportunidades. Expliquei-lhe outra vez que não. O Zivkovic é signo Caranguejo com ascendente Touro! Não percebo o que é que o Pietra não vê! Eu acho que isto é um lobby, porque o Pietra é Peixes e também é do elemento água, mas é nestas alturas que eu tenho de ser forte e astuto como o Sun Tzu. Os grandes clubes são assim, há lobbies, há grupos de interesse, há jogos de empresários e signos. Mas antes votar PAN do que meter um Caranguejo com ascendente Touro num jogo em Outubro. Irrita-me isto, o Pietra é de outro tempo em que era tudo à balda. Há umas semanas ouvi-o no gabinete: “Tenho saudades do Jo...” e eu entrei logo: “JÁ TE DISSE QUE SE DISSERES O NOME DO JONAS ENQUANTO ELE ESTÁ LESIONADO É UM AZAR DEZ VEZES PIOR E ELE NÃO VOLTA!” O Arnaldo nunca ia cometer uma gaffe destas. Tens de estar sempre alerta, Rui Carlos. Às vezes parece que só tu é que queres levar este clube para a frente.

27 de Outubro de 2018
Belenenses 2 Benfica 0

Meti o Zivkovic. Foi aos 84 minutos, mas fui eu que dei cabo de tudo, tenho a certeza. Rui Carlos: ou tu és firme e acreditas nas tuas convicções ou abandona. Se é para te venderes ao interesses do horóscopo do Pietra, mais vale estares quieto. É que foi só mesmo para o calar. Estávamos a perder e eu meti um médio. Porque é que não meteste um guarda-redes, Rui Carlos? Se estás a perder metes avançados, se estás a ganhar metes defesas, mas qual é a dúvida, o que é que te deu? Alguma vez fizeste alguma coisa sem acreditar nela? O gajo não fica maluco por tu passares jogadores da bancada para o jogo e do jogo para a bancada – MESMO JÁ LHE TENDO TU PROVADO COM NÚMEROS A SORTE QUE ISSO DÁ? No dia em que deixares de acreditar em ti e nos teus métodos, Rui Carlos, acabas mal. O que vale é que me voltei a sair bem na conferência de imprensa. (O jornalista era Sagitário, percebi logo que éramos compatíveis).

29 de Outubro de 2018

Esta semana vai correr bem. Já disse à equipa ao Zivkovic que com o Moreirense ia para a bancada e que o Félix que estava na bancada ia para jogo “porque em equipa que ganha não se mexe!”. Bem, o silêncio do plantel... Tudo a olhar para ti, Rui Carlos. Foda-se, até se sentia a aura da tua liderança no Seixal. Só o burro do yFerreira é que abanava a cabeça. É tão estúpido. Há gajos que não se adaptam a métodos mais avançados, parece que vivem parados no tempo.
À saída do treino passei pelo Presidente. Também estava a pedir o indicativo da Arábia Saudita. Disse-lhe que se queria vender o Feryreira em Dezembro que tinha todo o meu apoio. Ele abriu muitos os olhos para mim, ficou sem saber o que dizer. Tu às vezes parece que lês pensamentos, Rui Carlos. As pessoas até perdem o pio.


30 de Outubro

Hoje aconteceu uma coisa estranha: apanhei, depois do treino, o André Almeida com o Jardel, o Rúben e o outro espanhol pequenino, sozinhos os quatro a tentarem fazer uma dança. Bem, nunca tinha visto. Um subia, os outros também. Um ia para para a frente e os outros também, depois o Jardel levantava o braço. Depois é que reparei que estava o Luisão de apito. Ficou tudo a olhar para mim em silêncio, sentiram-se apanhados. Mas eu disse-lhes: “Continuem como se eu não tivesse visto nada!” e fui-me embora. De certeza que estavam a treinar a celebração de um golo. Depois vão dedicar ao Luisão. Tenho que me fingir surpreendido quando eles fizerem isto. Dá ideia que eles são livres e que eu não sou um ditador como às vezes as pessoas pensam.

2 de Novembro de 2018
Benfica 1 Moreirense 3

Não sei o que se passou. Pus o Zivkovic na bancada, o Félix a jogar e levámos 3. 1-3 do Moreirense. Grande barraca. Os adeptos no fim estavam todos a mostrar uns lenços brancos, como em Fátima. O adepto do Benfica é assim, é muito conhecedor. Se os meus truques não estão a dar, isto só lá vai com a Nossa Senhora. E os assobios para os jogadores do Moreirense quando eles iam fazendo quarto? Bem... Nem me ouvia a mim mesmo! Isto é que é o Inferno da Luz. Eu bem vi o olhar espantado dos jogadores quando lhes disse: “Quando se tem assim o público, é difícil não gostar deste lugar!”. Depois no fim começaram a pedir a demissão do treinador do Moreirense. Estes adeptos do Benfica, grande lata lol. Só porque um treinador nos ganha, não pode ser demitido. As pessoas às vezes não têm fair play nenhum...
Cheguei a casa e só ouvi a minha mais velha para a minha mulher “A sério, mãe, já era hora de ele assumir que não tem competência e que se devia demitir”. Bem... Dei-lhe uma chazada. Tinha deixado a novela da TVI a gravar e ela estraga-me logo o final. Andava há dias numa tensão para saber se o Rúben se demitia ou não da fábrica na novela e a garota faz-me isto. Estragou-me o dia. Mas a culpa foi minha. Já dizia o Sun Tzu: “Aquele que se empenha a resolver as dificuldades resolve-as antes que elas surjam. Aquele que se ultrapassa a vencer os inimigos triunfa antes que as suas ameaças se concretizem.”


9 de Novembro de 2018
Apanhei o Presidente ao telefone. “Está feito, Jorge. Sim, só estou à espera que o gajo perceba que tem que bazar. Porra, não há maneira”. Já acertou com o Jorge Mendes a saída do Ferrerya. É mortal, o Presidente.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Venham mais cinco


James Rodriguez é um futebolista colombiano de 27 anos que joga atualmente no Bayern de Munique. Ontem, em pleno Estádio da Luz, além de uma boa exibição e de uma assistência para golo, fez um gesto ao público: levantou a mão e exibiu cinco dedos enquanto era substituído debaixo de um coro de assobios. Mais tarde, confirmou o que já esperávamos: fê-lo para lembrar aquele dia em que o Benfica levou 5-0 do FCPorto no Estádio do Dragão. Podia tê-lo feito em alusão ao falhado penta, ou ainda aos aspersores avariados daquele mesmo local, mas afinal foi bastante específico e não andou para aí a gozar com tudo ao mesmo tempo. E ainda justificou: porque é portista.





James esteve três anos connosco. Foi tricampeão, ganhou uma Liga Europa e cresceu muito como jogador de classe mundial (em plantéis que hoje nos parecem tão distantes, de tanta qualidade que tinham), mas também viveu os melhores anos desta rivalidade. Não foram só os 5-0. James foi campeão na Luz e brincou com as luzes apagadas e o sistema de rega, James festejou o golo do Kelvin aos 92, James lembra-se daquela reviravolta para a Taça. Se James se tivesse esquecido do que é ser do FCPorto, seria estranho. Mas, se James se tivesse esquecido - ali, em plena Luz, ao ouvir a reação que ainda lhes provoca - do que significou ganhar tanto ao Benfica, então seria mesmo doido.

O que eu vejo naquele gesto é muito simples: rivalidade. FCPorto e Benfica são rivais, todos os dias, em todas as competições, e devem sê-lo para todos os profissionais que entendam estes clubes. E, já agora, para todos os adeptos dignos disso mesmo. Não se trata de desrespeitar o futebol. Trata-se, sim, de senti-lo verdadeiramente. Ao levantar aquela mão, James deu-nos uns segundos de pureza no meio de uma competição em que os grandes estão cada vez mais enormes, em que FCPorto e Benfica têm cada vez menos hipóteses, em que os sentimentos dos adeptos pouco importam quando comparados aos interesses dos clientes. James provocou, mas James, sobretudo, fez-nos (e fê-los) sentir vivos.

Mas, claro, entendo que do outro lado não tenham gostado. O M., pessoa mais calma do mundo quando ninguém está a provocar o Benfica, tornou-se um hooligan. E eu percebo isso. Se fosse comigo, com o meu clube, ficaria igual. E é aqui que isto se confunde tudo. Quando entra a brigada da moral e dos bons costumes e nos separa. Porque só um ex-jogador do FCPorto seria capaz de fazer aquilo. Porque só um adepto do Benfica seria capaz de querer bater-lhe. Epa, parem com isso, a sério. Não estraguem a beleza daquele momento. Se fosse ao contrário, não só o M. ficaria orgulhoso com o ex-jogador do Benfica, como eu viraria uma hooligan. Sabem porquê? Porque somos rivais. E vivemos muito bem com isso.

O que eu não percebo é esta necessidade de “limpeza” no futebol. Agora, de repente, parece que temos de ser todos amigos, dar as mãos e cantar uma canção sobre a paz mundial durante um clássico. Parece que o grau de satisfação do adepto deve medir-se apenas na quantidade de Coca-Colas e pipocas disponíveis e nunca em vitórias nossas e derrotas dos outros. Parece que pagamos bilhete para apreciar aquele movimento do Lewandowski no primeiro golo do Bayern, mesmo que seja contra nós. Parece que é normal levantarmo-nos para aplaudir um golo do adversário, só porque é bonito (no caso de Renato Sanches, até posso tentar compreender por ser um miúdo da casa, porque o jogo já estava perdido e porque as palmas seriam mais para o pedido de desculpa. Mas recordem-se do que aconteceu após o golo de Cristiano Ronaldo em Turim no ano passado). Parece que nos querem, a todos os adeptos, iguais, certinhos, respeitadores, bons pagadores de bilhetes, a bater palmas ou a cantar para ficar bonito na televisão, mas sempre sem interferir com o espetáculo que nos querem vender. Parece que nos tratam como clientes. E parece que muitos gostam disso.

Quem não percebe o quão genuíno é aquele gesto de James só pode viver num de dois mundos: ou é incapaz de perceber a incoerência que seria aquilo acontecer ao contrário e ter a reação exatamente oposta, ou é precisamente um produto desta nova mentalidade. Quanto aos primeiros, nunca fui de perder tempo com esses. Quanto aos segundos, espero que ainda possamos ir a tempo de salvar alguns. Porque pode ser só ignorância. Se, por exemplo, acharem que são adeptos de futebol, mas nunca foram ver um Benfica-FCPorto ou um FCPorto-Benfica para o lado dos visitantes, se nunca foram insultados ou insultaram só por estarem de um lado da bancada, se nunca festejaram um golo com ar de grunho para aquele desconhecido que está do outro lado da grade com outra camisola, se nunca chegaram ao trabalho numa segunda-feira e foram gozados por um rival, bem, para mim falta-vos alguma coisa. E não falo de violência, falo sempre de rivalidade. Falta-vos viver isso, perceber isso, sentir isso.

E quando, numa quarta-feira à noite qualquer, num jogo da Liga dos Campeões em que nem está a vossa equipa, um ex-jogador vosso lembrar aos adeptos do vosso clube rival que um dia já lhes espetámos 5-0 e foi incrível, então vocês vão perceber rapidamente o que está ali em causa. Não é uma atitude pequenina, não é um desrespeito ao futebol. É provocador, porque nos provoca emoções. Não usa palavras ou gestos feios, mas desperta memórias negativas. Não bate ou maltrata alguém, mas faz-lhes mal pensar naquilo. Para mim, para nós, para o nosso lado, foi uma declaração de amor. E é, a meu ver e de quem consegue apreciar um momento destes, uma ótima maneira de nos lembrar que FCPorto e Benfica são rivais ali, dentro do campo, sempre.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Mulher, feminista e louca por futebol

"Não sou sexista, mas penso que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Não estão aptas"
Sinisa Mihajlovic

(Não sei se a frase é verdadeira, mas é um bom ponto de partida para o que tenho para vos dizer.)



Já perdi a conta à quantidade de vezes que me perguntaram como é possível ter casado com um benfiquista doente. Mais do que um casal de clubes diferentes (porque, felizmente, há muitos), compreendo que, para quem nos lê, seja difícil entender como é que dois adeptos tão fanáticos conseguem conviver. Ao longo dos anos, temos dado várias respostas, mas, na verdade, só uma é exatamente fiel ao que se passa cá em casa: nós adoramos futebol, amamos os nossos clubes, mas isso nunca nos impediu de gostarmos um do outro. Porque o futebol, e os nossos clubes, até são capazes de nos definir em parte, mas as coisas que temos em comum além disso são muito mais importantes na nossa relação.

Por exemplo, eu não poderia casar com alguém que até simpatize com umas ideias do PNR, que não goste lá muito de negros, ciganos ou homossexuais, que vote para os pobres ficarem mais pobres, ou que ache que as mulheres não deviam falar sobre futebol. Nisto, eu e o M. estamos sempre do mesmo lado e é muito por causa disto que cá em casa está tudo tão bem, apesar de eu ser campeã nacional e ele estar prestes a jogar na segunda divisão. E, com isto, vejam que comecei um texto sobre as mulheres no futebol a falar do meu marido. Que cena de gaja.

Sim, somos ambos loucos por futebol. Há, no entanto, uma grande diferença entre nós: eu sou mulher. E, por muito que achem que estamos em 2018 e no nosso grupo de amigos até somos todos muito cool e tolerantes e pra frentex, só esse simples facto deixa-me em desvantagem várias vezes cá em casa: as mulheres portuguesas, por exemplo, ganham menos 17% do que os homens, gastam pelo menos o dobro do tempo em tarefas domésticas e ainda têm de aturar os homens que não percebem nada de futebol e lhes falam com aquele tom de voz paternalista, como se nos estivessem a ensinar alguma coisa só porque têm uma pilinha.

(Por outro lado, somos nós que ficamos grávidas e, por isso, apesar de a ausência do trabalho nos poder prejudicar a carreira, apesar de termos de sacrificar a nossa vida e o nosso corpo durante 9 meses mais todos os outros em que os bebés dependem tanto da mãe, apesar de NÃO PODERMOS BEBER ÁLCOOL NO CASAMENTO DA NOSSA MELHOR AMIGA, somos nós que podemos ficar em casa a ver todos os jogos do Mundial, por isso a vida deles não é assim tão perfeita.)

Eu e o M. escrevemos há muitos anos sobre futebol, que é um tema que suscita bastante inconsciência e alarvidade, portanto estamos habituados a lidar com comentários negativos, insultuosos, ofensivos. Curiosamente, há coisas que ele nunca teve de ouvir, como por exemplo que devia ir para a cozinha e que era melhor ir passar a ferro. O que é injusto, porque a mim ninguém me precisa de lembrar para ir para a cozinha ou passar a ferro e ao M. é preciso, várias vezes, informá-lo de que há algo para fazer cá em casa. Ou seja, se é para nos avisarem, e obrigada por isso, incluam-no também nesses alertas úteis. Além disso, como eu sou mulher, provavelmente consigo ir para a cozinha, passar a ferro e falar de futebol ao mesmo tempo, portanto estes conselhos acabam por não funcionar na mesma.

Entre as observações machistas de que nós, mulheres que se atrevem a gostar e falar sobre futebol, somos alvo, também estão precisamente as relacionadas com os nossos maridos. Por exemplo, a julgar pela quantidade de "o teu marido deve ser corno" que eu leio, parece que uma mulher que tenha uma opinião futebolística tem várias vezes maior probabilidade de trair o marido. Reparem: não é de ser traída, deixando-nos emocionalmente devastadas, porque o adultério, quando cometido pelo homem, é obviamente um sinal de grande machice. É de sermos nós as traidoras! Imaginem, o horror! Portanto, por momentos até parece que o M. é que é a vítima deste comentário, mas, na verdade, sou eu, mulher que tem uma opinião sobre futebol, que sou capaz de ser uma grande porcalhona, ao ponto de enganar o meu marido. Bem visto.

Outro dos meus comentários preferidos é "como é possível teres marido...". Porque, como se sabe, uma mulher que não seja casada ou não esteja emocionalmente envolvida com um homem é o buraco negro da nossa sociedade. Deus nos livre dessas solteironas vadias que andam aí a fazer o que bem lhes apetece, vivendo sozinhas, saindo à noite, bebendo álcool e podendo fazer tudo aquilo que um bom marido não nos permite! Que cenário dantesco. Por outro lado, é quase bonito ver a sensibilidade com que tratam o M. nesta análise, como uma espécie de palmadinha nas costas de admiração pelo que ele atura. Apesar de ele ter uma mulher que fala sobre futebol, ainda assim, fica com ela. Fogo, vocês homens podem ser de uma grandiosidade incrível!

Não me entendam mal: vocês têm todo o direito de me insultar. Eu escrevo coisas bastante provocadoras e, tal como estou no meu direito de o fazer, há bastante gente que pode e deve não gostar. O problema é que poucas vezes me insultam por ser portista, por ser portuense, por gostar mais do Marega do que do Ronaldo. Normalmente, insultam-me por ser mulher. E é aí que isso passa a não ter piada (aliás, até há piadas machistas que me fazem rir, o problema é que não são estas). E vocês, machistas, têm de perceber uma coisa: não nos metem medo. Aliás, um machista que tem necessidade de escrever isto numa rede social dificilmente é algo mais do que precisamente uma pessoa com medo. Sim, há muitos homens que têm medo das mulheres, mesmo em coisas tão básicas como o futebol. Sentem-se ameaçados, querem calar-nos e fazer xixi naquele território só deles. E podem, e devem, ser insultados por isso.

"Men are afraid that women will laugh at them. Women are afraid that men will kill them."
Margaret Atwood, autora de The Handmaid's Tale

Agora, a juntar a estes, já podemos ter a alegada citação do novo treinador do Sporting. Porque o que nos faltava era precisamente uma voz machista no futebol! Não bastava, por exemplo, os clubes praticamente não terem mulheres em altos cargos, a Federação e a Liga idem aspas, as jornalistas desportivas serem vistas como caras bonitas, as atletas serem desvalorizadas e as nossas opiniões estarem em minoria em todos os painéis. Faltava esta desculpa. Agora já posso ler que o Mihajlovic é que tinha razão. IUPIIIIIIIIIII!!!

É por isso que lamento ver pessoas inteligentes a desvalorizar a imagem machista que o treinador do Sporting trouxe. Sim, o que interessa são as suas competências técnicas, ele até pode achar que as mulheres deviam ser proibidas de entrar nos estádios (já agora, as mulheres iranianas passaram agora a poder fazê-lo, viva!) que isso não influencia nada o seu trabalho. Claro que não, só influencia estes trogloditas que o vão citar para nos atingir.

Começa sempre assim: surge um maluco (machista, racista, o que for), diz umas coisas disparatadas, nós rimo-nos e gozamos com ele, os meios de comunicação social ridicularizam-no e dão-lhe o tempo de antena que ele precisa e depois lá há um momento em que alguém se identifica e pumbas. Trump quer construir um muro na fronteira com o México? AH! AH! AH! Que estupidez! E lá começam a surgir milhares de comentários nas redes sociais sobre como, afinal de contas, até pode ser uma boa ideia. E, de repente, ele é presidente dos Estados Unidos.

Não quero, com isto, comparar o treinador do Sporting ao presidente norte-americano, até porque para isso já há o presidente (suspenso?) do mesmo clube. Nem quero, assim, reduzir este tema a um problema de um dos meus rivais. Mas sim, quero desde já declarar que não vou tolerar este tipo de atitude - seja de um protagonista do nosso futebol, seja de um anónimo com tempo demais para escrever comentários no Facebook - sem dar luta.

Chega! Chega de filmar as mulheres na bancada e dos comentários sobre o jogo estar, assim, mais bonito! Há milhares de mulheres que vão à bola só porque gostam de futebol e muitas delas até são feias. Chega de entrar em campo com mulheres semi-despidas ao lado dos árbitros e dos jogadores! Porra, às vezes está um frio do caraças! Chega de fazer sorteios com decotes e sorrisos! Só queremos ver com qual equipa calha a nossa e torcer para que os rivais se lixem!

E viva! Viva todas as mulheres que têm de os aturar! Viva as mulheres que gostam de futebol! Viva as mulheres que vão ao estádio! Viva a Helena Costa que sabe mais do que muitos comentadores juntos! Viva as poucas que trabalham nos clubes e nas organizações ligadas ao futebol! Viva as jornalistas desportivas! Viva as atletas, as treinadoras e as árbitras! Viva as mulheres que têm opinião desportiva! Viva a minha avó, que não pode ver os jogos mais importantes porque se enerva! Viva a minha mãe e as minhas tias, que qualquer dia não podem ver os jogos mais importantes porque se enervam! E viva a nossa futura filha, que será mulher, feminista e, se tudo correr bem, louca por futebol!