Faz hoje 25 anos que fomos campeões europeus em Viena. Devido a factores temporais, não me recordo de absolutamente nada desse dia, pelo que pedi aos meus pais, os grandes culpados por esta minha doença, para o relatarem.
Não sei como foi o dia 27 de maio de 1987 até às 19:15 da tarde, mas daí para a frente nada mais esquecerei.
Juntei o meu colega de trabalho Filipe e o meu vizinho Esteves para assistir ao encontro em minha casa, e aí vimos essa primeira parte horrível, com os nossos jogadores parados, receosos, a verem jogar Matthaus, Brehme, Hoeness, o mais novo dos Rummenigge e o guarda-redes Pfaff.
Lembro-me dos comentários do Ribeiro Cristóvão e de um tal Prates, tristes, conformados, como se o nosso destino estivesse traçado: tínhamos estado numa final com o grande Bayern de Munique...
Mas não sabiam que num balneário, lá longe em Viena, alguém dava um murro na mesa e dizia aos homens de azul que era tempo de fazer história.
E fez-se, nessa segunda-parte linda, memorável, azul! Futre a mostrar que era possível, Frasco a jogar às escondidas com os gigantes e depois Madjer e Juary... Mlynarczyk de gelo a segurar a bola nos minutos finais e o João Pinto com a Taça.
E, de repente, o Esteves exemplifica o golo de Madjer, de calcanhar... e espeta um enorme pontapé no Filipe, que estava atrás dele... foi o calcanhar do Esteves!
Tu, C., estavas com a mãezinha em casa dos avós, com 6 mesinhos apenas. Dizem que, aquando da algazarra do primeiro golo, te assustaste muito e começaste a chorar, mas eu sei bem que era um choro de alegria, porque alguém te disse o que aí vinha nos próximos 25 anos...
Pai da C.
O dia não começou nada bem. Tinha dormido mal e a C., com 6 meses, tinha que tirar sangue para fazer umas análises. Correu tudo bem, mas o nervosismo continuava com a preocupação dos resultados das ditas cujas.
Vi o jogo em casa da minha mãe. Eram só mulheres: Avó - Mãe - Irmãs - Filha.
Começa o jogo, eles marcam. Intervalo e já lá quase no fim... GOLOOOOOOOOO! Do PORTO!!!! Tudo aos gritos, de tal maneira que a C. desata num choro a olhar para nós e a achar que estávamos malucas.
Peguei nela e, para a acalmar, fui até à janela. Mal tinha lá chegado... GOLOOOOOOOOOO! Tudo aos gritos outra vez. Não queria acreditar, o PORTO estava a ganhar e eu não vi o segundo golo do Juary, porque estava com a C. ao colo na janela para a menina não se assustar.
A primeira vez para a C. foi assim, há 25 anos. Depois foi sempre a andar por esses estádios fora, a telefonar: "Mãe, não te preocupes, está tudo bem. Ganhámos, carago!"
Mãe da C.
Tenho pena de não ter visto o grande calcanhar do Madjer... perdão, do Esteves, e peço imensa desculpa por ter impedido a minha mãe de ver aquele golo, mas lá que deve ter sido um grande dia para vocês, deve!
Lá em casa mando eu
Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
Domingo, 27 de Maio de 2012
Sexta-feira, 25 de Maio de 2012
O Porto, o benfica e os burros
A guerra está instalada. Porto e
benfica, Norte e Sul, Pinto da Costa e Luís Filipe Vieira. Tudo ou
nada por causa de um jogo de basquetebol. Todos e ninguém com razão.
Muito pouco a pensar em nós, os adeptos.
Longe mim apelar às tréguas. Também
eu gosto que o futebol dependa das rivalidades, das picardias, dos
gestos feios para os visitantes quando é golo nosso. Durante um
derby de Roma, olho sempre para as bancadas à procura dos insultos.
Antes e depois do clássico espanhol, leio com avidez as palavras de
ódio nos jornais de Madrid e da Catalunha. Não sou, nem pretendo
ser, nenhum arauto da moral. Só vos peço para pararem para pensar.
Só um bocadinho.
O maior rival do FCPorto é e sempre
será o benfica. Por tudo. Porque têm mais adeptos, porque nos
incomodam mais, porque é com eles que disputamos o título de melhor
clube português. E sim, porque é um clube absolutamente detestável. Ir à luz será sempre o jogo mais excitante do
ano. Cantar a nossa versão do “glorioso slb” fará sempre
sentido. Lutar contra o domínio mediático vermelho terá de ser
sempre o nosso destino.
E o maior rival do benfica tem mesmo de
ser o FCPorto. Por muito que eles finjam que não querem. Porque
somos nós que ganhamos, porque somos nós que lhes espetamos cinco e
depois ainda somos campeões na luz, porque somos nós, sempre nós,
que não os deixamos dormir bem à noite. No dia em que eles não
ficarem em êxtase com um título de uma modalidade conquistado no
nosso pavilhão, estaremos muito mal.
O Porto e o benfica são o futebol
português. E ninguém pode estar à espera que se dêem bem por
isso. O que eu não aceito é ser tratada como burra, seja por quem
for.
Eu sou muito, muito portista, e espero
que isso se note. Penso no Porto, vivo o Porto e sinto o Porto
constantemente. Não consigo ouvir falar mal do Porto sem espernear.
Assim de repente, não sei o que não faria pelo Porto. E vivo com um
grande lampião. O M. é muito, muito benfiquista, e isso nota-se
bem. Pensa no benfica, vive o benfica e sente o benfica
constantemente. Não consegue ouvir falar mal do benfica sem
espernear. Assim de repente, não sei o que ele não faria pelo
benfica. Somos tão iguais que às vezes acho que um de nós deve
estar enganado (ele, claro).
E isso deve querer dizer alguma coisa.
Nós odiamos o clube um do outro, discutimos sobre arbitragens,
escutas e trafulhices e não concordamos em quase nada. Mas há uma
coisa que respeitamos, porque é inatacável: cada um de nós gosta
mesmo do seu clube. E é isso que pelos vistos custa tanto a
perceber: nós somos adeptos de clubes rivais, mas não somos burros.
Daí que tudo isto me entristeça. Não
há futebol e isso, por si só, já me faz mal. E em vez de estarmos
a pensar em que avançado pode substituir o Hulk, a discutir por
quanto é aceitável vender o Moutinho e a desesperar porque não há
bola a rolar, em vez de eles estarem a escrever nas paredes o que pensam, a questionarem outros candidatos às eleições que se aproximam e a criticarem a choraminguice da arbitragem que desculpa os maus resultados, estamos todos a assistir alegremente a esta infeliz troca de
palavras. Eu percebo a guerra, juro que percebo. Não percebo é como
é que os adeptos não vêem como estão a ser lançados para a linha
da frente pelos generais.
Quinta-feira, 24 de Maio de 2012
Eu, ignorante das modalidades, me confesso
Eu
e o M. somos, provavelmente, o casal mais competitivo do mundo. Não
conheço mais ninguém que tenha um campeonato de pontos para as
tarefas domésticas, onde todas as conquistas são discutidas ao
pormenor e onde, como não podia deixar de ser, eu estou a ser
extremamente prejudicada porque o meu namorado acha que arrumar
pensos higiénicos na gaveta dos guardanapos não dá direito a menos
50 pontos.
Como
já perceberam, há uma pequena coisa que não facilita: eu sou do
Porto, ele é do benfica. E se no futebol - porque adoramos o
desporto e até percebemos alguma coisa do assunto - é a paixão que
nos move, nas outras modalidades entramos num puro estado de
“quero-ganhar-mais-do-que-tu”.
É
normalmente nesta altura que percebemos que não somos os melhores
adeptos dos nossos clubes, embora isto vos possa chocar. É que nós
não somos daqueles que seguem os campeonatos de andebol,
basquetebol, hóquei patins, voleibol e futsal
acerrimamente, que vêem as deprimentes tardes desportivas nos canais
dos clubes ou que desejam uma camisola do Robert
Johnson
ou do Frederick
Gentry (sim, fui procurar os nomes no Google). Atenção: admiramos
muito a malta que vai aos pavilhões, que conhece os jogadores e que
não grita golo quando há um ponto. Gostávamos muito de ser assim,
mas não somos. E não o fingimos ser só porque a época
futebolística acabou e precisamos de algo que nos mantenha ligados
ao ventilador.
Valha-nos
a competitividade para tornar esta altura do ano tão animada lá em
casa. No andebol, a coisa ainda foi mais ou menos pacífica. O
FCPorto tetracampeão é tão melhor que até o M. desistiu sem dar
luta. Mas não sem antes acompanharmos os jogos decisivos como burros
a olhar para um palácio, a chamar Varela ao Elias, a pedir
foras-de-jogo aos espertinhos que ficam na mama e a pedir penalties
quando nem sequer é falta (o que é falta no andebol? Não sei, os
gajos jogam com a mão!!!). O meu pai, ex-jogador e árbitro de
andebol, deve ter vergonha de ter uma filha e um genro assim.
Depois
passámos para o voleibol. Eu não tenho equipa, mas aprendi
rapidamente a torcer contra o benfica, embora a versão oficial seja
que tenho muitos amigos em Espinho. O M. sofreu um bom bocado.
Queixou-se dos árbitros (sem fazer a mínima ideia das regras) e
lamentou a falta de eficácia do benfica (num desporto em que bastam
três toques para realizar um remate, parece-me que a eficácia é
uma coisa muito subjectiva). Eu só fiquei contente.
Chegou
a vez do basquetebol. Eu sou claramente a mais ignorante. Mal conheço
os jogadores, para além do objetivo de acertar com a bola no cesto
não sei avaliar quem está a jogar bem e quem está a jogar mal, e
não consigo perceber a magia de um desporto em que é possível a
mesma equipa marcar 12 pontos num minuto e meio (o meu coração está
preparado para ver dois golos do man. city nos descontos, nada mais
do que isso). O M. tem a mania, só porque o pai é um ex-jogador da
modalidade. Diz “turnover” em vez de “AQUELE ESTÚPIDO PERDEU A
BOLA PORQUÊ?”. Avisou-me que o benfica tem melhor equipa, mas que
o Porto tem melhor treinador (vénia ao Moncho, este eu sei que é
enorme, quanto mais não seja pelos óculos).
Vimos
os jogos entre o Porto Canal e a benfica TV. Rimo-nos sobretudo dos
comentários da segunda, porque os senhores que lá trabalham não
sabem que, se um jogador lançou para três pontos e sofreu falta,
tem direito a três lances livres. Só faltou dizerem que estavam
a ser roubados pelo Proença, juro. Sofremos muito, verdade seja
dita. Jantámos ao som do último jogo, comigo a levantar os braços
para acompanhar o “Mágico Porto, graças a deus não nasci
lampião” arrepiante do pavilhão e o M. a pedir passos sem ter a
certeza do que isso significa. Desesperámos com os milhares de
pontos falhados e com aquela intensidade de, a cada segundo, tudo
poder mudar. E o benfica ganhou. Bem, parece-me, embora tenham havido
ali uma ou duas faltas duvidosas que se não tivessem marcadas
poderiam mudar a história. Que isto fique registado: só mesmo num
desporto do qual não percebo nada é que alguma vez direi que o
FCPorto perdeu bem e nem mesmo num desporto do qual não percebo nada
deixarei de atribuir alguma da culpa aos outros.
O
que se seguiu foi o Porto Canal a terminar a emissão à força, o
Twitter a especular sobre bancadas a arder e um cenário de guerra e
as reacções de hoje, que variam entre o “toda a gente sabe que os
adeptos portistas são uns atrasados mentais” e o “só no Porto é
que isto acontece”, ou o “a culpa foi do benfica, que provocou”
e o “se não fosse a polícia os adeptos portistas tinham batido
palmas à equipa vencedora”.
Não
estive lá, não sei o que se passou. Já vi as imagens dos objectos
atirados à equipa do benfica, os comunicados a acusar o treinador e
o roupeiro lampiões de interacção com os adeptos e os muitos
relatos sobre a incompetência da polícia. Se há coisa que a
experiência de bancada me ensinou é que nunca ninguém tem razão e
como, repito, não estive lá, não posso falar do assunto. Mas há
quem possa, pelos vistos.
O
que me irrita nem é a capa da Bola titular “benfica campeão no
Dragão”, como se a partir de agora eu nunca mais pudesse gozar um
lampião pelos 5-0, pelos campeões na luz, pela reviravolta na Taça
e pela vitória deste ano que nos empurrou para o bicampeonato. Acho
normal que o basquetebol se tenha tornado, de repente, o desporto
mais apreciado do país. Percebo os adeptos que festejam este título
como se a época, afinal, não tivesse sido desastrosa. Também já
fiz essa figura.
O
que me deixa doente é a superioridade moral. O “não sabem
perder”. O “nós pelo menos só apagámos as luzes”. O “no
Porto isto é normal, porque é uma cidade violenta, mal-educada e
animalesca”. Isso sim, tira-me do sério. Abstenho-me de
contra-argumentar sobre o povo portuense, porque esse não precisa de
qualquer defesa perante comentários ignorantes, que confundem
desporto com sociedade. Quanto ao não saber perder, é um facto:
nenhum portista sabe, porque não está habituado. O mais normal
ontem seria o FCPorto derrotar o benfica e ser campeão. Tudo o que
fuja à normalidade demora a entranhar-se. Não defendo a reacção
violenta, como é óbvio, mas admito que, ao contrário, não fosse
tão estranho. E, por último, em relação à comparação, acho-a
simplesmente idiota, principalmente vindo de um clube cujos adeptos
queimaram um autocarro com as portas fechadas, sem questionar se
estaria alguém lá dentro, e que, sei lá, mataram uma pessoa com um
very-light. Meus caros, deixem-se disso: anormais há em todo o lado
e, se há coisa que a nossa casa prova, é que no fundo somos todos
iguais.
Dito
isto, já estamos preparados para o hóquei em patins, aquele
desporto onde eu e o M. demoramos sempre uns bons segundos a perceber
se a bola entrou ou não. Vai ser rasgadinho, vai ser bom. Se o
FCPorto ganhar, será só mais um (já nem sei qual será a palavra a
colocar antes de campeões); se o benfica ganhar, será feriado
nacional. E ainda falta o futsal, essa modalidade que ficou conhecida
por ter deixado o Luís Filipe Vieira em cuecas, imagem que ainda
hoje me atormenta. Na natação e no bilhar nós não damos hipóteses
(não faço ideia, mas fica bem assim escrito) e infelizmente já não
temos secção de campismo para eu e o M. podermos, pelo menos, fazer
umas apostas a dinheiro sobre de quem será a melhor tenda.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.
Terça-feira, 22 de Maio de 2012
Eu quero ser o Vítor Paneira
El futbol es la recuperacion semanal de la
infancia – Javier Matias, “Salvajes y sentimentales – Letras de fútbol”
Quando jogava à bola com os meus amigos, na época onde nos
sentávamos na sala de aula no intervalo de jogar à bola, e onde cada um de nós
tinha um nome do seu jogador preferido, eu era o Vítor Paneira. Nunca quis ser
o Magnusson nem o Águas nem o Valdo. Eu queria ser como o Paneira.
Vem isto a propósito da Catarina ter chegado a casa e, com o
sorriso que me preenche, ter-me dito com ternura que tinha falado com o
Paneira, como quem diz “Desculpa, eu sei que gostavas que tivesses sido tu”. Eu
não gostava só de falar com o Paneira. Eu quis – e quero – ser como ele.
Vítor Paneira tem um nome tão português quanto invulgar e se
houve jogador que personficou o Benfica em campo foi ele. Paneira (havia um
tipo na minha escola que dizia “Páneira” e eu odiava-o por isso) era quem eu queria ser.
De Paneira guardo praticamente tudo. A finta letal para fora
e os arranques. Mas, sobretudo, a inteligência com que lia o jogo e a concentração.
Paneira jogava concentrado, como se tudo dependesse daquilo. Paneira jogava com
olhar sério, expressão dura, sem sorrisos. Quando marcava explodia para a
bancada, com os braços a rodar no ar, partilhando a alegria e o alívio que os
verdadeiros adeptos sentem quando marcamos.
A minha primeira memória exacta do 7 da minha infância – e,
logo, da minha vida – é de um Salgueiros-Benfica. Paneira estava no banco e
eu fiquei alarmado. O meu pai explicou-me que o escondíamos da temível Juventus
(do Trap), que viria à Luz jogar os quartos de final da UEFA. Ganhámos 0-3 com
um golaço impressionante do Kulkov (um chapéu a 30 e tal metros ao Pedro
Espinha) e o Paneira entrou no fim para defesa direito. Quando a Velha Senhora veio
à Luz, ganhámos 2-1 com dois golos do Paneira. Seríamos depois eliminados em
Turim, no jogo que me fez ficar a detestar a Juve para sempre, com o primeiro
golo a ser marcado pelo Kohler, que depois de partir o nariz ao Silvino (esse
frangueiro traidor que se desviou dos penalties com o PSV) encostou para o 1-0.
Mas dizia eu, ganhámos 2-1. O Paneira partiu-os todos. E lembro-me dos festejos,
loucos como um grito, a atirar-se para os abraços dos adeptos. Eu queria ser
assim. Eu queria ser jogador do Benfica, ter um nome português e invulgar,
marcar na Luz cheia e atirar-me para as bancadas.
Paneira tinha um semblante carregado como se jogasse xadrez. Parecia
imune às bancadas adversárias, parecia que vivia num mundo só seu, que sabia
esperar até à última pela entrada do defesa esquerdo adversário para, com a
parte de fora do pé direito, fintar para fora e arrancar para o cruzamento. Tive
sempre a sensação de que Paneira era a única pessoa no mundo que queria tanto
ganhar como eu.
Há um lance mágico na final da Taça de 92/93 contra o
Boavista em que a equipa troca toda a bola rápido, o Paneira tabela com o Águas
e à saída do guarda redes, Paneira pica a bola para golo. O vermelho que estava
no Jamor explodiu. Foi a coisa mais bonita que a melhor equipa que eu me lembro
do SLB fez. Estava em casa, numa tarde soalheira, com o Tiago Palma, Farense
fanático e simpatizante do Glorioso. Vimos o jogo felizes. A minha mãe tocou à
porta e eu, como era um puto (demasiado) bem comportado, desci os 3 andares
para a ajudar a carregar as compras. Quando subi, o Tiago – nunca me hei-de
esquecer da cara dele – disse-me com pena: “O Futre marcou um golão”. Eu perdi
aquele 3-1 porque ajudei a minha mãe com as compras. Tinha 9 anos e nunca mais
me esqueci disso. O Paneira faz parte disso, desse constante regresso à infância.
O Paneira é a minha ligação ao meu avô, quando festejámos os
dois um 1-0 ao Beira – Mar no último minuto, de penalty, em 93/94 (roubaram-nos
uns 4 penalties nesse jogo, antes que se ponham com bocas). O meu avô foi buscar-me
a casa do Tiago, eu desci a correr, pedi-lhe para por o relato e estávamos na
Avenida 5 de Outubro em Faro quando o Paneira rematou.
Foi a época de todas as épocas, para qualquer Benfiquista da
minha geração. Os verdes haviam-nos roubado Paulo Sousa (que é o maior verme, o
maior traste, a pessoa por quem tenho menos respeito no mundo) e Pacheco e
tinham uma super equipa. Nós estávamos destruídos, quase perderamos também JVP
e os russos bebiam como russos. Naquela noite maravilhosa de 14 de Maio de
1994, Paneira não fez os 3 de JVP nem os 2 de Isaías e nem sequer aquele último
do Hélder. Mas estava lá.
É ele quem salta sobre a bola no 3º golo, depois do livre do
Aílton e a mete ao segundo poste. É ele quem assiste o Hélder no 6º golo. Mas
guardo o 4º com carinho.
Para quem não sabe – e portanto não é do Benfica – a perder
por 2-3 ao intervalo, Carlos Queirós retirou o defesa esquerdo, Paulo Torres. A
ala esquerda ficou ali, ao relento. E Paneira, como bom xadrezista, explorou o
erro até ao limite. Fê-los sangrar. E hoje, ao rever pela enésima vez o resumo
do 3-6 (já sei quase tudo de cor), apercebo-me que Paneira os quis castigar por
todos nós. Por todos os que nos sentimos humilhados com a saída de Paulo Sousa,
por todos os que – como eu – fomos gozados no recreio. Outros foram no café,
outros no trabalho. Paneira pensou em nós. E no 4º golo investe pela esquerda. Passa
um, passa dois e adianta demais. Paulo Sousa cobre a bola. E Paneira acredita.
Paneira acredita que o traidor vai falhar, acredita que vai ficar com a bola,
acredita que o recreio vai voltar a ser bom. E Paneira ganhou a bola ao
traidor. Porque é ele era o Benfica e acreditava sempre até ao fim e lutava,
lutava, lutava como nós lutaríamos com aquela camisola vestida. E depois
cruzou. JVP finge que não é nada com ele e deixa a bola passar. Isaías
matou-os.
Tinha 12 ou 13 anos. Paneira tinha sido escorraçado da Luz e
jogava no Vitória. Ganharam-nos na Luz 1-3 e Paneira, aos microfones na rádio,
mostrava toda a sua mágoa contra aquele Benfica. Contra o Benfica que o
expulsara, contra aqueles dirigentes que destruíram que restava de mística no
meu clube. Nunca vi esse jogo, esses golos. Lembro-me bem da tristeza que senti
quando o Paneira falou do lado de lá.
Se o Benfica um dia voltar a ser Benfica, vamos buscar o
Paneira. Será treinador de juniores ou ficará só por ali, a fazer o que bem
entender. Paneira é a infância e a juventude de muitos de nós.
Tenho 28 anos. Às vezes, no caminho para casa, ainda me
imagino jogador do Benfica, capaz de levantar a Luz, arrepiado com a sensação
de marcar um golo pelo clube do meu coração. Imagino-me a correr para a
bancada, de braços no ar, como um grito. Eu, aos 28 anos, ainda quero ser o Vítor
Paneira.
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012
O Polga tem mais encanto na hora da despedida
Quando ontem vi aquele jogador de um metro e meio a entrar
na área do sportem à vontade e a metê-la lá dentro de cabeça, só consegui
pensar: vou ter mesmo saudades do Polga. Aquele jeito lento de se deslocar na
área, aquele corte mal feito que deixa um adversário isolado, aquela indecisão
entre ir para a direita ou para a esquerda, aquela escolha quase sempre errada,
aquele PUFF!, mas onde é que está o Polga, desapareceu?!?! Não, não, está ali a
marcar o infinito. Porra, foram nove anos mesmo bons.
O Polga é exactamente o que um adversário meu não devia ser:
é simpático, não cria nenhum tipo de animosidade, não me obriga a insultá-lo e
tem até ar de quem me emprestaria umas cebolas se fosse meu vizinho. Talvez por
isso, não me consigo lembrar de um só momento em que lhe tenha desejado mal.
Nunca me preocupei ao ouvir o seu nome na constituição das equipas, aquele “oh
não, o Izmailov vai jogar e ele contra nós é tramado”. O Polga não. Nunca pedi
para que se lesionasse, aquele “se deus existisse, o João Pereira ficava sem
uma perna”. Não, o Polga não.
É engraçado como nem consigo enumerar os lances em que ele me
desiludiu. Às tantas, nunca o fez. O Polga esteve sempre à altura dos acontecimentos.
De um campeão do mundo não se espera outra coisa, aliás. Alguns poderão dizer:
estás para aí a gozar mas o rapaz conseguiu sobreviver a nove anos de sportem.
É verdade, não é fácil para ninguém. Mas eu sou de um clube que uma vez perdeu
uma Taça com dois golos do Rodrigo Tiuí, portanto não era preciso assim tanto
para entrar na minha lista de
“espero-que-morras-de-uma-maneira-muito-dolorosa”.
O Polga, resumidamente, é o sportem. Nove anos depois, nem
um campeonato. Há bebés que ainda mal sabem dizer “PORTO” e que já têm mais
títulos do que o Polga. Mas não digo isto só pelo vasto palmarés. O Polga é o
sportem, porque esteve sempre nos sítios certos, mas com a equipa errada. O
Polga estava lá quando o Jorginho nos deu um título em alvalade. O Polga viu o
Luisão a saltar mais alto do que o Ricardo. O Polga teve uma visão privilegiada
(do banco) daquele terceiro golo do CSKA na final da UEFA. E adivinhem qual foi
o central do sportem que, não contente com os 11 golos marcados pelo bayern de
munique, enfiou um na própria baliza para o número ser mais redondo? Epa, o
Polga é tão o sportem.
Em defesa do Polga - e eu vou sempre defendê-lo! -, estava
aqui a ver a lista de centrais do sportem nos últimos nove anos e tenho de
admitir que já vi sem-abrigos com melhores condições de vida do que ele. Beto
(antes de ir para o real madrid), Enakarhire, Tonel, Caneira, Gladstone, Torsiglieri…
Tenho de parar, é demais, não consigo. Polga: adeus e volta sempre.
Um pequeno e último parágrafo para dar os parabéns ao
sportem, por ter conseguido uma época pior do que a do ano passado. Não era uma
meta nada fácil de ultrapassar. Os milhões foram muito bem gastos, o Sá Pinto é
um grande treinador quando um 0-0 chega e não esqueçamos a direcção, que anda
por aí a distribuir dinheiro quando toda a gente sabe como a vida está difícil
para os árbitros assistentes.
P.S. Faz hoje nove anos que vencemos a UEFA em Sevilha. Não
sei se já vos disse como é mesmo bom ser do FCPorto.
Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
Sevilha, meu amor
Já não ia a Sevilha há quase nove anos. A última vez que lá
tinha estado foi no dia 21 de maio de 2003. Estavam 45 graus.
Quarenta-e-cinco-graus. Não sei se já sentiram um calor assim, mas digo-vos:
torna-se difícil respirar. Ou isso, ou então foi o estúpido do Larsson que
quase me matava. Mas, mesmo assim, foi o melhor dia da minha vida.
Já conhecia a cidade. Fui lá muito pequenina, com a família,
e a única coisa que me lembro é que estavam 40 e tal graus. Uma constante,
portanto. Regressar a Sevilha este sábado foi, sem surpresa, enfrentar uma onda
de calor insuportável (39 graus em Maio e há gente que consegue viver assim), mas
foi também conhecer uma parte da cidade até então ignorada.
O M. já me tinha falado muito do betis. Contou-me todas as
histórias e descreveu-me todas as personagens, sempre com uma alegria que me
parecia completamente desmedida num enredo que mete um clube com dois títulos
no palmarés. Daí que o jogo, em si, não me tenha surpreendido muito. O betis
nem jogou bem, nem jogou mal, teve momentos de euforia quando fez a reviravolta
e levou com o golo do empate no último minuto. Exactamente como o M. tinha
dito: o betis é um clube sofredor.
O que me surpreendeu foram aqueles adeptos. 45 mil para ver
uma equipa que já não luta por nada. Todos com uma camisola, um cachecol (pois,
também fiquei com essa cara quando vi pessoas com cachecóis ao pescoço com
aquele calor), qualquer coisa verde. A cantarem o hino até arrepiar. A
aplaudirem um tosco qualquer como se fosse um filho. E sempre, sempre a insultarem os outros. Contentíssimos, tão
felizes, mas porquê?
O Manolo, amigo de longa data do meu sogro e do M., e que
tem bético escrito na testa, explicou-me, sem saber. É que na última jornada o
betis foi a casa do sevilha vencer por 2-1, com um golo aos 92 minutos. “Já nos
deu para muitos meses”, disse ele, com um sorriso que ia daqui até Sevilha. E ali estava um adepto, que anda a descer e
a subir de divisão e que nos últimos anos viu o maior rival a ganhar provas
europeias, a ensinar-me que gostar mesmo de um clube também tem de envolver detestar mesmo outro.
O betis não tem um único jogador que eu desejasse no F.C.
Porto. O tosco que vos falei é o rapaz que marcou os golos ao sevilha – um
super-herói! Mas, no sábado, ouviram-se olés ao Barça. Sim, à melhor equipa de
todos os tempos. Devem ter sido uns seis ou sete passes de seguida, na defesa,
já sem os catalães a pressionarem, no melhor momento do jogo para o betis.
“Oléeeeeeeeee…”. Como se estivessem a dar 5 numa final da Liga dos Campeões.
Impossível não adorar.
No entanto, se o objectivo da viagem foi convencerem-me a
deixar os nossos filhos serem um dia do betis para não arranjarmos problemas cá
em casa, devo dizer-vos que falharam. Gostei do estádio, dos adeptos, do
ambiente, mas para sofredor já me chega o M., que diz que, se um dia nos
mudarmos para o Algarve, eu vou ser do sevilha só para o chatear. Uma hipótese
a considerar, portanto.
De Sevilha levo, no entanto, outro amor. Aquele Barcelona,
que, mesmo sem querer, nos mostrou ao vivo a magia que nos habituamos a admirar
pela televisão. Voltar a encontrar Messi, aquele miúdo que se estreou na
inauguração do Dragão, com o mesmo ar de desinteressado, de esquisito, de nerd
que não tem amigos. Aplaudir Xavi e Iniesta para eles saberem como é bom viver
no mesmo tempo do que eles. Sorrir com a felicidade do meu sogro e do M., que
nem dois putos enamorados por Busquets. Ver os casais com camisolas do betis, a
segurar pela mão os filhos com camisolas do Barça. De Messi, sempre de Messi. E
compreender a excitação daquele miúdo, de três ou quatro anos, aos saltos na
bancada quando o aquecimento começa:
- Mira, mamá, es Messi!
Terça-feira, 15 de Maio de 2012
Vimos a melhor equipa de sempre, Deus e o Betis
No sábado fomos a Sevilha com o meu pai. Disse-o vezes sem conta no meu anterior blog, mas volto à carga: não acredito no conceito de segundo clube, mas se o tivesse era o Real Betis Balompie (sim, apesar do verde).
Acontece que, durante 3 épocas - 1999/2000 a 2001/2002 inclusive - eu e o meu pai fomos sócios - com cativo - no Benito Villamarin. Acontece que Faro fica mais perto de Sevilha do que Lisboa e precisávamos de um programa pai - filho que nos animasse (coisa que o Benfica daquela era não conseguia). Ficámos béticos.
Aprendi tudo o que pude e o que não pude sobre futebol espanhol naqueles 3 anos. Líamos a Marca e ouvíamos a Cadena Ser no caminho. Aprendemos a história de um clube. Vimos Denilson, vimos Joaquin a aparecer. Vimos Capi (um craque). Descemos à segunda - com o Sevilha a perder de propósito com o Oviedo do Paulo Bento para o Betis descer. Subimos à primeira com um golo decisivo na penúltima jornada num jogo louco contra o Recreativo de Huelva, marcado pelo Belenguer (o que expulsou o Cardozo no Getafe - Benfica). O Betis, campeão em 1935 e que 5 anos depois estava na terceira divisão - vítima das suas simpatias republicanas (apesar do Real Betis) - vive orgulhoso da sua aficcion e aprendeu a cultivar a fidelidade para enfrentar os seus vizinhos favorecidos. O Viva el Betis Manquepierda! tornou-se um lema que granjeou respeito por Espanha inteira, enquanto os orgulhosos adeptos sustentaram uma vida de azares e injustiças, enchendo estádios pela terceira divisão.
No Benito Vilamarin vivi muitas histórias de bola e vivi a insana rivalidade com o Sevilla. Lembro-me que cada golo contra o Sevilla ouvido na rádio era sempre festejado como se do Betis. Lembro-me do ódio a Salva, que era tão sevillista que quando marcou o golo do empate num Betis-Atletico (um golo de penalty que não era, aos 10 minutos de desconto, quando o árbitro deu uns já de si escandalosos 6) apanhou a bola e chutou contra um apanha bolas. Era um ser adorável.
Lembro-me do senhor que pedia "mano!" por tudo e por nada, em todos os cruzamentos para a área. E um dia o árbitro marcou mão num corte que claramente não era. A bancada levantou-se e aplaudiu o senhor, que se emocionou.
No sábado, além de rever a boa gente de Sevilha , que celebrava ainda a sua vitória no derby, vi a melhor equipa do mundo de sempre (revi ainda o Manolo que nos foi entregar os bilhetes e que celebrava cada golo do Betis comigo high five que se tornou o nosso cumprimento - tinha tantas saudades dele. Ainda emanava felicidade dos 1-2 aos vizinhos). O Barça, para os seus padrões, fez um jogo horrível. E tenho-vos a dizer, meus caros, que aquilo (porque "aquilo" não é bem futebol, pelo menos o futebol que eu vejo há anos) é poesia. A bola, como disse a Catarina, parece outra. Lenta e sem pressas, como se soubesse o caminho. Vai sempre serena e as recepções são de seda. A bola cola-se ao pé de Xavi, que roda sobre os adversários de radar ligado. Busquets é intransponível. Vou mais longe: está ali o melhor trinco que eu vi jogar. Melhor que Redondo, sim.
E depois, Leo Messi. Tem um ar desligado, mesmo durante o próprio jogo. Camisola de fora, ombros caídos e mesmo lá de cima sente-se o olhar ausente. Apareceu 3 vezes. A primeira num passe de morte, devagar - à velocidade certa - entre os centrais, para alguém falhar. E duas arrancadas. Impressiona: a bola não se afasta um milímetro da trajectória que Messi imagina, as ancas começam a mentir e a afastar adversários, o pára-arranca do drible é mortal. Na primeira há um corte ao remate no momento vital, na segunda foi placado - à rugby - por um betico que percebeu o que dali ia sair. Tenho pena que não tenha marcado para eu, o meu pai e a Catarina podermos dizer que o vimos finalizar o record de golos. Mas já podemos dizer que o vimos. A Deus.
O Barça de Guardiola, que nós vimos despedir-se da Liga Espanhola (o mesmo Barça que começou em Numancia, com uma derrota, numa belíssima tarde), foi a equipa mais linda, mais perfeita, que pisou um campo de futebol. E nós vimo-la.
Os béticos aplaudiram Beñat - que marcou os 2 golos de livre na vitória no derby (o segundo é toda uma genialidade) - como se lhe quisessem dar a casa e a família. Celebraram a expulsão de Daniel Alves (ex-sevillista) e aproveitaram o facto do Barça jogar com 10 para cantarem olés. Estavam 45 mil nas bancadas.
Dizem que não devemos voltar aos locais onde já fomos felizes. Para mim, foi ter 18 anos outra vez, foi recordar as viagens com o meu pai, foi ser bético outra vez. No Benito Villamarin, serei sempre feliz. Manquepierda.
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