terça-feira, 23 de maio de 2017

O que eu quero do próximo treinador do FCPorto

Nuno saiu. Pronto, mais um. O balanço está feito e sinto que algo pode estar ainda profundamente pior do que eu esperava quando vejo portistas a festejar a saída de um treinador como se houvesse motivo de festa. A saída de Nuno, uma saída a bem e que nos deixou menos mal do que há um ano, devia ser motivo apenas de reflexão. Estamos tristes por termos perdido o campeonato da maneira que perdemos e podemos começar já a perder a próxima época ao alinhar na cartilha de alguns adversários que nos querem fazer crer que criticar o trabalho de Nuno é admitir que não perdemos sobretudo por causa das arbitragens.

Nuno saiu. Foi só mais um, mas já são muitos. E é preciso ir buscar outro rapidamente. Não podemos dar este ar de quem não sabe bem o que quer, de quem anda à procura mas não encontra. Mas também precisamos de pensar bem. Saber escolher. Não repetir erros. Definir, antes de um homem, um projecto. O que queremos do FCPorto? Ganhar. O que precisamos para estar mais perto disso? De ser o FCPorto. Qualquer homem, qualquer projecto, que se afaste da nossa linha, não é bem-vindo. Não quero ninguém que pense primeiro em si do que no clube que representa. Já cometemos esse erro com Lopetegui.

Mas o que é isso de ser o FCPorto? Nuno incutiu na equipa a tal raça, a tal união. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Não chega ver a equipa a agradecer o constante apoio dos adeptos no fim do jogo. O que precisamos é que essa equipa se torne novamente a extensão dos adeptos em campo. De que me vale ver os rapazes muito unidos nas redes sociais se, quando um deles sofre um penálti, não vejo nenhum dos outros a ir lá lutar por ele, por nós? Excepção feita a Maxi Pereira, basta de meninos que sabem jogar bem à bola, mas que parecem autistas de tão alheados que estão do que acontece aos outros durante os 90 minutos. De que me vale irem juntos para os treinos se um deles sofre uma entrada dura, fica lesionado, e não vejo ninguém a não largar o adversário que o árbitro poupou? Se acham que isto é feio, então têm muito a aprender sobre o que é uma equipa.

Já achei que fosse só ingenuidade, agora parece-me mais que é uma trajectória que o clube pretende. E porquê? Se seremos menos bem interpretados do que outros que o fazem com tanta mestria? Claro, corremos esse risco. Mas queremos mesmo perder novamente por, como se diz na minha terra, sermos comidos? O que falta, então? Não basta levá-los ao museu. Os nossos troféus podem mostrar-lhes a nossa dimensão, mas não lhes contam a nossa história. Como é que, de repente, deixámos de ser os melhores a transmitir o que é este clube a quem chega? E como é que admitimos que, quem chega, nem queira saber disso? Brahimi, por exemplo. Excelente jogador. Tecnicamente, do melhor que vi. Muito útil num plantel a quem faltam estrelas. Mas ele está aqui para quê? Para nos dar títulos? Não me parece. Ao que tudo indica, e ele nunca o escondeu, está aqui para chegar a outro campeonato. E é isto que queremos? Sim, dependemos dos melhores jogadores e não os podemos excluir por serem estúpidos. Mas, em três anos de FCPorto (o que, hoje em dia, é uma eternidade), como é que ninguém lhe conseguiu passar nada? Com quem é que o Brahimi conversa todos os dias? Quantas vezes é que ele anda na rua e sente o que os adeptos sentem? E os capitães? Por que raio o FCPorto não tem um capitão como deve ser?

O futebol mudou, os jogadores mudaram muito, mas precisamos de alguém que assuma desde logo que só recuperando a nossa mística voltaremos a ganhar. Mas atenção: isso também não chega. Qualquer treinador que venha com o rótulo de São Salvador do Portismo e da Exigência de uma Entrega Sempre Absoluta, como se alguém ganhasse jogos só por querer muito, será apenas o repetir do erro deste ano.

A verdade é que a Liga portuguesa está cheia de bons treinadores. Este campeonato, aliás, fora os três grandes, teve jogos de futebol com uma qualidade fora do normal. Gosto desta nova geração, que quer jogar à bola, que arrisca, que não tem medo, nem estraga o jogo que tanto adoramos. Gosto de treinadores que estão a arrumar com os Josés Motas e Ulisses Morais desta vida. Gosto de treinadores que fazem qualquer Rúben Ribeiro parecer uma estrela, quando, na verdade, a estrela não é o Rúben Ribeiro, mas a equipa que o treinador construiu. Gosto muito disso: de uma ideia que transforma uma equipa e potencia os jogadores de forma a já nem sabermos bem quem é o melhor, quem é o pior, quem é o Brahimi, quem é o Depoitre. Mas a má notícia é que isso não chega. Não foi na altura ideal, é certo, mas Luís Castro pegou no FCPorto e não o conseguiu. Um falhanço que não tornou Luís Castro pior treinador, mas tornou o FCPorto um pior clube para alguém treinar. Não podemos voltar a cometer o erro de arriscar na inexperiência às cegas, porque nem todos os Villas Boas e Vítores Pereiras correm bem. Já cometemos esse erro com Paulo Fonseca.

Entretanto, arrancámos este ano com uma nova política de comunicação, que aproximou o clube dos adeptos ao mesmo tempo que nos tornou mais atentos. E temos de, não só mantê-la, mas melhorá-la. Basta de deixar os treinadores desprotegidos, a queixarem-se sozinhos, sem força, frágeis. Nuno já teve um pouco do que, por exemplo, tenho a convicção que teria feito do Lopetegui do primeiro ano campeão. Queremos mais, precisamos de mais. Mas o treinador não pode ser um mero espectador. Já cometemos esse erro este ano. Só que também não pode ser um lacaio. Precisamos de alguém que compreenda o jogo fora do relvado, mas que tenha a coragem de assumir tudo o que se passa dentro dele. É uma característica que parece de simples descrição, mas penso que até é a mais difícil de conseguir.

Dito isto, não faço a mínima ideia quem será o próximo treinador do FCPorto. Espero ter sido clara nas opções por mim a descartar. E espero que quem decide seja muito melhor do que eu nisto. E é, ainda tenho essa certeza. Sei que precisamos da Liga dos Campeões porque precisamos de dinheiro, precisamos de vender jogadores porque precisamos de dinheiro, precisamos de apostar nos jovens da casa porque precisamos de dinheiro, mas acho que está na hora de ver um bocadinho além disso. Precisamos de ganhar. Precisamos de derrubar o rival. Precisamos de ganhar!

E escolher o treinador que o consiga é só o primeiro passo. Precisamos de construir um plantel melhor. Precisamos de formar jogadores que conheçam o nosso clube. Precisamos de manter jogadores que se identifiquem connosco. Precisamos de transmitir-lhes o que queremos para o FCPorto, o que temos de ser para vencer. Precisamos de definir, de cima para baixo, qual é, afinal, o caminho que nos levará de volta às vitórias: se queremos ser o FCPorto regional, aguerrido e lutador, ou não. Precisamos de assumir responsabilidades e de afastar os inimigos internos, quando o são verdadeiramente e não quando confundimos quem está atento, quem não alinha na mensagem única, com os verdadeiros inimigos. Precisamos de ficar mais fortes, de dentro para fora, para que nos convençamos e convençamos os outros de que vamos dar muita luta. Precisamos de colocar o clube à frente de tudo e todos porque vêm aí anos muito difíceis. Por isso, precisamos de um treinador, de um plantel, de um presidente, de todos os adeptos. E lembrem-se: só estes últimos são insubstituíveis.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Carta aberta a Nuno Espírito Santo

Escrevo-te um dia depois do fim do quarto campeonato consecutivo que não vencemos. Escrevo-te, portanto, no teu primeiro dia de férias e só não peço desculpa pelo incómodo porque este também é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18.

Já tenho ouvido muita coisa nas últimas horas e decidi voltar ao blog para reunir algumas delas e descartar outras. Mas vou directa ao assunto: acho que deves sair. E acho que deves sair rapidamente, porque o teu primeiro dia de férias é o primeiro dia do FCPorto de 2017/18 e nós não temos tempo a perder.

Com isto, Nuno, não fiques a pensar que és a única vítima do nosso quarto campeonato consecutivo sem ganhar. O que mais temos nos últimos anos são vítimas de algo que está profundamente errado no nosso clube, que acabam por ultrapassar o trauma que é passar por este FCPorto e regressar ao seu trabalho até com bons resultados.

Apesar da minha pressa em escrever-te, confesso-te que não pertenço àquela maioria que opta por apontar desde logo o dedo ao treinador, porque é sempre o alvo mais fácil. Sim, tive problemas com Paulo Fonseca (não estava claramente preparado para o desafio); sim, tive dúvidas em relação a Lopetegui (gostava da ideia, não da prática); sim, desconfiei de Peseiro (e ainda hoje não me sai da cabeça que perdeu uma Taça para o clube no qual se apresentou umas horas depois). Portanto, sim, pertenço àquela maioria que é sempre muito exigente com os treinadores do FCPorto e quanto a isso não me peças para mudar, porque no dia em que deixarmos de o ser estaremos, aí sim, no fim de um ciclo.

Ora, resumidamente, o que quero dizer-te é que não perdemos este campeonato por tua causa. Não vou esquecer-me do que andei a dizer a época toda e, sim, tentaram afastar-nos muito cedo da luta, para depois consumarem essa tentativa quando falhámos. O que vou recordar desta época é que estivemos na luta, apesar disso. Mas estivemos na luta, também, apesar de ti.

Vamos começar por tentar esquecer as primeiras jornadas, quando éramos um conjunto de miúdos a chutar a bola para a frente e ninguém percebia o que querias. Dou-te essa vantagem. A verdade é que depois vimos o FCPorto crescer, sobretudo através de uma defesa mais forte, mais concentrada, uma base para algo que podia ser construído a partir daí. Só que ficámos por aí.

Acabámos o ano sem saber quem é o teu meio-campo e o que querias fazer dele. Além de Danilo, provavelmente o único titular indiscutível à frente da defesa, preferias a criatividade de Óliver ou o risco de Otávio? Preferias a força de André André ou a decisão de Herrera? Preferias os médios a descair ou os extremos a rasgar a lateral? Preferias alguém a transportar a bola ou a passá-la rapidamente para a frente? Preferias o meio ou as alas? Não sei, continuo sem saber. Querias mais e melhores jogadores? Tinhas o que fazer com eles? Hum, prefiro não arriscar a resposta.

E chegamos, então, ao ataque, o terrível ataque. André Silva até começou bem a época, mas parecia sozinho e não acertavas com a companhia a dar-lhe até que Diogo Jota decidiu marcar uns golos na Madeira. Pronto, assunto resolvido, seria esse então. Mas André Silva continuou a parecer sozinho (que é o que se diz de um bom avançado que dificilmente será um bom ponta-de-lança) e Diogo Jota não mais marcou os golos da Madeira. 0-0 atrás de 0-0, não sabíamos o que fazer além de reclamar os penáltis por marcar. Até que chegou Soares.

E resolveu-se o problema: ele marcava golos. Foi a nossa melhor fase: a defesa continuava segura e o ataque já produzia efeito. Assunto resolvido, terás pensado. Vamos assim até ao fim, quisemos nós acreditar. Só que o futebol é tramado, porque a mesma receita e os mesmos ingredientes nem sempre dão o mesmo bolo. Soares perdeu o efeito-surpresa para as defesas adversárias e saltou à vista a falta de soluções, de alternativas além da entrada do Rui Pedro mais por crença do que por lógica. E tudo falhou.

Mas não fiquemos pelas tácticas e pelo que os jogadores fazem delas. Falhámos muito porque não soubeste estar à altura dos momentos que exigiam o FCPorto que eu conheço. Mas, antes disso, deixa-me elogiar-te. Conseguiste recuperar muito do que tínhamos perdido nos últimos anos (e não falo só dos quatro em que não ganhámos, falo de coisas importantíssimas que perdemos mesmo quando ganhávamos): raça, vontade, união. E não só dentro de campo, porque é fora dele que continuamos a ter mais feridas por sarar. Devo e vou agradecer-te sempre o fim dos assobiadores compulsivos, as bancadas cheias dos nossos adeptos. Foste tu que conseguiste isso e, felizmente, houve uma política de comunicação que se juntou e que nos tornou, se não mais fortes, pelo menos mais atentos.

Estamos mais vivos do que há um ano e, vá, obrigada por isso. Mas não chega. Não podias ter tremido naqueles momentos. Não podias ter-te calado em certos momentos. Se precisares de uma imagem que to explique, não podias ter levado um empurrão e ficado quieto e calado. Não naquele momento, não contra aquele adversário. Se por um lado estamos - e estamos mesmo - convencidos que nos estão constantemente a empurrar, não podemos estar do outro a dar-lhes os parabéns por isso.

Portanto, volto a reforçar: acho que só podes sair. Não sei o que aí vem e só de ouvir portistas a pedirem Marcos Silvas até me arrepio. Não sei se começar de novo não nos deixará mais para trás novamente. Não sei quem poderá pegar nisto com técnica, força, conhecimento e experiência suficientes para derrubar os enormes obstáculos que nos colocam (ou que nós nos colocamos) à frente. Não sei por onde vamos. Só sei que não é por aqui.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

2016, o ano em que o Benfica ganhou um derby à Porto

"a silent slash in the middle of them the only concession to the calendar used elsewhere in the western world. We get drunk on New Year’s Eve, just as everyone else does, but really it is after the Cup Final in May that our mental clock is wound back, and we indulge in all the vows and regrets and renewals that ordinary people allow themselves at the end of the conventional year." - Nick Hornby, Fever Pitch

A citação serve de desculpa para este texto: fazer balanços a meio da época é estúpido, mas tendo tempo para escrever no blog (o que tem sido raro), aproveito-me do facto de celebrarmos mais uma volta completa da Terra à volta do Sol para fazer um apanhado de 2016, ou, mais concretamente, daquilo que 2015/2016 representou para mim como benfiquista: uma vitória de um sabor inestimável, polvilhada de orgulho, sorte e raiva. Um campeonato que eu - por ter sido tão pessimista e crítico - tive quase vergonha de festejar (nunca acreditei e parte de mim passou o que restou de 2016 a tentar perceber o que se passou).  Uma vitória que eu nunca tinha sentido na minha vida adulta (1993/1994 tem um certo paralelismo com 2015/2016, mas eu festejei-a de uma maneira muito mais ingénua e pura).

Quando 2016 começa, o Benfica está a 5 pontos do Sporting, se a memória não me falha. Sporting esse que jogava o melhor futebol em Portugal, roubou o melhor treinador português ao Benfica e iniciará 2016 com uma vitória sobre o Porto e com uma reviravolta de 0-2 para 3-2 frente ao Braga que parecia...à campeão. O ano abria com a pior das previsões: tudo indicava que os lagartos iam ser campeões. Este é um drama com o qual eu sou obrigado a viver anualmente - a mera possibilidade angustia-me e deixa-me profundamente triste - mas 2015/2016 traria esta desgraça (para a qual eu estou sempre a tentar preparar-me) amplificada por mil: eles ganhariam com um tiro no pé nosso (deixar fugir JJ) e depois de já  nos terem vilipendiado três vezes, uma das quais por 0-3 no nosso próprio santuário. Ou seja, não fez sentido fazer o balanço de 2016 sem ser por épocas e os dois primeiros dois números de 15/16 tinham sido particularmente maus. Adivinhava-se em Maio o pior, como se estivéssemos a ver o Titanic, já sabendo que o barco ia afundar, mas em vez do Leonardo DiCaprio se apaixonar pela actriz-que-agora-não-me-lembro-do-nome, passasse a primeira parte do filme a levar porrada do outro gajo rico no intervalo de estar a trabalhar na sala de máquinas do barco, antes de morrer afogado, sozinho, com tuberculose e sem amor nenhum.


A 2 de Janeiro de 2016, o Benfica ganhou 0-1 em Guimarães, com um pontapé cheio de força de Renato Sanches, depois de fazer um jogo absolutamente horrível. E é aqui que reside a particularidade de se ter que homenagear este ano: foram 44 vitórias em 54 jogos e em vários não sabemos como é que a coisa aconteceu. O Benfica envolveu-se num misticismo muito difícil de explicar depois de ser três - três! - vezes derrotado pelo seu principal adversário: o Benfica não só acreditou que ia ganhar, mas jogou com uma confiança e crença tão obscenas e às vezes tão dissonantes da sua qualidade de jogo, que parecia que não colocava outra hipótese que não a de ser campeão. Isto, meus amigos, era uma característica que eu só tinha visto nos nossos adversários de azul-e-branco. Aquela confiança irritante, em combustão pela qualidade intrínseca dos seus jogadores, mas com aquele condimento de ódio que dá uma vantagem monstruosa tantas vezes, aquela confiança e fé que, no dia certo, à hora certa - ao pôr-do-sol como os cowboys - se vai puxar o revólver primeiro e vencer o duelo. 

Para isto contribuíram decisivamente dois factores: em primeiro lugar, a entrada de Renato Sanches no onze titular. Sabemos todos, desde 2009/2010, que a posição 8 no nosso 4-4-2 é a mais crucial e mais difícil de desempenhar. É uma posição bizarra e talvez com pouco paralelismo com o que se joga pela Europa fora, e exige um jogador muito específico, com força para passar em corrida linhas adversárias, com capacidade de passe suficiente para não perder a bola em zonas de risco e com a força mental necessária para enfrentar 2 e 3 adversários em emboscada como os velociraptors no Jurassic Park, enquanto os jogadores com a camisola igual à sua estão muito longe, ou abertos na ala ou já tão à frente que estão marcados. Para dar um exemplo da solenidade da questão: Pablo Aimar, naquele seu estilo paternalista de vir buscar a bola aos centrais, era várias vezes afogado sem ser capaz de fazer a magia, como se de cada vez que Gabriel Garcia Marquez fosse escrever lhe entrassem três paramilitares americanos pela janela, com granadas de fumo e muita berraria, só para lhe amachucar a folha de rascunho (ou partir o computador, vá). Quais foram os melhores nr. 8 que o Benfica teve? Indivíduos com uma saúde física invejável e inversamente proporcional à sua intenção de fazer do futebol uma arte como Aimar e Iniesta: Enzo e Renato Sanches. Renato tinha o poder físico que era necessário, mas, além disso, teve o condão de puxar Pizzi para interior direito, onde se associou a Jonas como ninguém, tendo ainda a inteligência de corrigir - juntamente com Fejsa - as loucuras posicionais do nosso Forrest Gump de 35 milhões. Aliando a capacidade de ir e vir de Renato à arte de Pizzi e Jonas, o Benfica tornou-se uma máquina de marcar golos imparável na realidade portuguesa, fazendo do massacre sucessivo a equipas pequenas uma longa espera pelo derby com o Sporting. Exceptuando o clássico com o Porto, 2016 foi uma sucessão de vitórias inenarrável, com uma precisão de relógio suiço, que lá para Fevereiro colocou a pergunta fatal no coração e na cabeça do Sporting: "E se nós ainda perdemos isto?".



Se a fraqueza do Benfica é a sua fanfarronice e bazófia, a do Sporting é a sua capacidade infinita para se auto-destruir. O Sporting é a única equipa do mundo que, depois de ter ganho 1-0 em casa ao Manchester City e de estar a ganhar fora 0-2 ao intervalo, consegue com que todos os seus jogadores pensem "Epá, se levarmos quatro golos ainda somos eliminados". No caso levaram três e o quarto não entrou por acaso, mas a moral da fábula é que o Sporting - sobretudo quando confrontado com o Benfica (como o Benfica, sobretudo confrontado com o Porto) - tem um complexo terrível, um nihilismo corrosivo, como as pessoas que levam muitos cafés cheios num tabuleiro até à sua mesa sabendo de antemão que, mais cedo ou mais tarde, os vão entornar. E dia 5 de Março de 2016, o Benfica ganhou um derby à Porto.
Quando digo que o Benfica foi campeão à Porto, não estou a falar de árbitros, estou a falar de ódio. A capacidade de querer mal a um adversário é um catalisador que eu vi utilizado contra o meu clube tantas vezes com sucesso que não sou capaz de as contar todas. O Benfica nunca tinha usado isso, porque o Benfica é o clube mais feliz do mundo, onde o estádio da Luz vai abaixo só porque o Mantorras vai aquecer, e onde o amor pelo Benfica se confunde com uma admiração gigantesca, como se ficasse toda a gente esmagada pelo tamanho do Benfica, sem capacidade para mais nada. Acontece que, neste ano em particular, fomos picados pelo Sporting, o que é, pelo DNA do clube, uma coisa inadmissível. Explicará Eusébio porque é que permitimos todos os desaforos do Porto e nenhum do Sporting, ou talvez isto dos clubes tenha mesmo uma idiossincrasia inexplicável, o que é certo é que após Jorge Jesus ter dito que Rui Vitória não era treinador (será JJ um leitor do blog? Tenho aqui uns livros para lhe oferecer), depois do ataque horrível de Bruno Carvalho, pedindo a certidão de nascimento a Renato Sanches, havia na Luz uma vontade monstra de ser campeão. Vi várias pessoas a festejarem o tri no facebook com a citação "É por nós, não é contra ninguém" da qual discordo veementemente. 2015/2016 foi um longo e violento derby e o Benfica ganhou-o. E ganhou-o porque queria ganhar ao Sporting, e até nos podiam ter dito a meio do campeonato que no fim nem vinha um troféu para o museu, que era só um diploma, que já nada mais interessava. E isso, meus amigos, é para mim um motivo de grande orgulho. Acho que, em futebol, uma equipa equer muito mal a outra não é pecado nenhum Mas isto sou eu, que nunca andei na catequese.


Em Alvalade, a 5 de Março, só a vitória nos punha à frente, mas sublinho que havia entre todos os benfiquistas a ideia de que até o empate serviria (convencidos que o Sporting perderia pontos algures - Dragão, Braga, o que nem veio a acontecer). O Benfica jogou vinte minutos (onde Jonas e Mitroglou foram absolutamente imperiais) e não deixou que houvesse jogo durante os outros setenta. O Sporting merecia certamente empatar (sobretudo no eterno falhanço de Bryan Ruiz, que teve o duplo efeito de não fazer golo e de ter mergulhado o costa-riquenho numa depressão catatónica que muito nos convém), mas desde o início que viveu o derby com um nervosismo excessivo, de quem estudou muito mas se preparou mal mentalmente para o exame. Como se a resposta estivesse ali, mesmo debaixo da língua, com o Benfica cercado, mas não conseguisse sair. Era como se o Sporting soubesse que não ia ser o seu dia desde há muito (desde os falhanços em Guimarães), embebido por um fatalismo inexplicável para quem esmagara o rival na Luz. Vou-vos ser sincero: até eu estava optimista para este derby. Obviamente que não o disse a ninguém, que não o escrevi (provavelmente terei até dito e escrito o contrário) e que provavelmente não o admitiria nem torturado. Mas lembro-me da própria C. me ter topado e dito: tu achas que vocês vão ganhar. Isto, para mim, é como uma impossibilidade física: acreditar e estar certo a um nível que não é lógico, que se vai ganhar. O Benfica passou-me essa impressão, o Sporting confirmou-a com o empate na jornada anterior. 
O meu clube deixou-me orgulhoso pelo seu jogo feio, sujo e à campeão. Como o Porto fizera em 92/93, na Luz, segurando um 0-0 precioso para manter a sua vantagem, ou como quando nos venceu por 2-3 no ano anterior, cinicamente e com um penalty sobre o Rui Filipe que caiu para aí no meio-campo. Às vezes, ser melhor não basta. A vida já me ensinara isso várias vezes. Foi preciso chegar a 2016 para aplicarmos a lição já tantas vezes estudada.

Seguiram-se nove vitórias (com contornos de surrealismo no Bessa, Coimbra, Vila do Conde e em casa com o Setúbal) e pudemos todos cantar a Bailando que estava encravada desde 2015. Ganhámos uma Supertaça, já vamos em primeiro outra vez, Portugal foi campeão da Europa e 21 dias depois daquele derby nasceu uma criança, mas isso são contas para outros textos. Para mim, o resumo de 2016 (ou 2015/2016, vá) foi um longo e cansativo derby que eu, confesso, nunca pensei que acabasse assim. 
Rezam as lendas que alguém terá ouvido um benfiquista já muito velhinho ter dito que foi o campeonato que mais gozo lhe deu na vida. Acredito. O ódio, às vezes, é uma coisa muito bonita.


PS: Amanhã já sabem, as 12 passas pelo tetra. Não gastem com saúde (há sempre um familiar que pede isso para todos) nem com taças nem com nada.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).

Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta... enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

Desculpa, Porto. Sou mãe

Olá a todos! Lembram-se de mim? C., mulher, jornalista, grande apreciadora de futebol em geral e do FCPorto em particular, adepta de estádio, mal casada em termos clubísticos (mas a coisa até acabou por dar jeito para termos um blog porreiro sobre um casal que se ama muito mas que odeia o clube do outro). Ora, essa pessoa desapareceu. Uma má notícia para quem vinha aqui parar quando procurava no Google "reacção furiosa e irracional a uma derrota do FCPorto", mas uma boa notícia para quem só precisa dos textos do M. para não se sentir o adepto mais pessimista do mundo.

Sinceramente, já nem me lembro bem do que era ser essa pessoa. Olhando para trás, noto claramente que tinha tempo a mais. Tempo para escrever, claro, mas sobretudo para pensar nas patetices que aqui fui desabafando ao longo dos anos. Não me entendam mal: tenho um grande carinho por este blog, que é também um bocadinho a história da minha relação com o M., e permitam-me até ter um grande orgulho pelo que conseguimos criar aqui. É muito bom saber que, mesmo quase sem lhe dedicar tempo algum, continuamos a ter os nossos fiéis seguidores, e muito obrigada por isso.

O problema é que a minha vida mudou. Tanto. Muito mais do que estava à espera. Tive um filho. Porra, um filho! Um ser humano delicioso, que preenche os meus dias por completo há sete meses. Não me deixa dormir, houve dias que nem comer, leva-me além da exaustão, mas é o meu filho e é perfeito. Seria, claro, um enorme exagero dizer que não tive tempo para vir escrever um texto nos últimos sete meses, mas o que se passa é que, pela primeira vez na vida, senti que não tinha nada para dizer. Na verdade, tive até receio de vir aqui analisar a profundidade táctica do novo 4x4x2 do FCPorto e acabar a falar-vos de tácticas para melhorar o cocó de um bebé (tema que traria certamente mais visitantes ao blog, mas nós não temos essa ambição, podem estar descansados).

Ora, também não deixei de ter tempo para ver futebol ou acompanhar o dia-a-dia do meu clube. Quem nunca adormeceu um bebé ao colo enquanto se grita um golo internamente ou leu o Dragões Diário enquanto amamenta, enfim, coisas normais. Estive foi muito tempo sem ir a um estádio (primeiro devido a uma gravidez de risco, depois porque aquele ser humano delicioso de que vos falei acima exigia, até há bem pouco tempo, uma parte do meu corpo quase de hora a hora), mas até isso já recuperei, felizmente. Resumindo, o que se passa é que - e até me custa escrever isto - o FCPorto deixou de ser a minha prioridade.

Olhando para a antiga C., ela tinha uma vida incrível: trabalhava muito, tinha muitos planos com o marido, a família e os amigos, via séries, lia livros, viajava e ainda tinha tempo para, durante tudo isto, pensar muito no FCPorto. Não era só o acto de pensar, era mesmo a preocupação de fazê-lo, acreditando que essa introspecção tinha, de facto, alguma influência no bem-estar do meu clube. Ou seja, o que sinto que mudou na minha vida, de um momento para o outro, é que há um pequeno ser humano que depende realmente de mim e que, portanto, a escolha óbvia foi pedir ao FCPorto para se aguentar sozinho enquanto lhe ensino o básico em termos de sobrevivência.

Se formos bem a ver os últimos sete meses do FCPorto, parece-me que às tantas ainda precisa mais de mim do que um bebé, mas agora não há nada a fazer porque já me apeguei ao miúdo mais ainda do que ao André Silva (só para quem não é mãe ou pai perceber o quanto é que gostamos dos putos!). E não é que não esteja preocupada, é só que já não consigo, por exemplo, dormir mal quando perdemos. Porque durmo mal sempre, percebem? Não é uma derrota que altera a minha vida. Agora se me dissessem assim: C., se o FCPorto ganhar ao benfica para a semana, vais dormir mais de três horas seguidas descansadinha. Garanto-vos que me iam ver na primeira fila, feita louca, aos gritos, desesperada para ir lá para dentro tentar ajudar os nossos rapazes a ganhar (pensando bem, esta imagem já aconteceu tantas vezes que não seria propriamente novidade, mas vocês perceberam o suposto exagero).


Portanto, o que vos queria dizer é que sou mãe. E que o pontapé para a frente que a minha equipa adoptou como táctica para voltarmos a ser campeões me chateia, mas também não me tira o sono (literalmente). E que estou farta do "Somos Porto" como encobrimento de toda uma estratégia que está a falhar há já vários anos, mas também não posso fazer nada além de esperar que um dia o meu filho ainda possa ver o que era realmente o FCPorto que eu conheci. E que vou tentar voltar aqui mais vezes, escrever mais patetices, mas não prometo não acabar sempre a falar de cocó.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Longos são os dias sem Jonas

A primeira vez que vi o Jonas jogar foi pelo telemóvel. Estávamos a viajar e enquanto a C. via um Porto-Braga (3-1?) no iPad, eu tive que sofrer com um Benfica-Arouca que esteve 0-0 até aos 70 minutos até Talisca (que se Eusébio quiser vai passar 2018/2019 a treinar com a equipa B de lançamento do peso, com a devida escolta de elementos ligados às claques do Benfica, que o levarão ao carro depois dos treinos) abrir a lata. Jonas entrou, marcou de cabeça e correu a apontar para Ola John - desconhecendo ainda que aquele centro perfeito vinha num pacote que incluía uma atitude imperdoável para os adeptos (eu ainda tenho esperanças no Ola John, vejam lá). Em primeiro lugar, notem que tive que ver o jogo no telemóvel e a C. num ecrã maior - roubados, outra vez - e em segundo: Jonas foi uma paixão imediata e assolapada, que dura até hoje. Pesquiso todos os dias novidades sobre a sua lesão, desespero por notícias como se fosse uma mulher da época dos Descobrimentos cujo marido partiu para enfrentar o Adamastor.

É-me difícil gostar mesmo de um jogador do Benfica. Já gostei de vários, mas a percentagem que me ganha é baixa. Embirro com Fejsa porque está sempre a sair da posição, não suporto quando o Salvio ou o Guedes não levantam a cabeça. Renato Sanches parecia-me tecnicamente inferior a mim mesmo, Di Maria era intrinsecamente estúpido, Lisandro é um perigo, Raul Jimenez joga com demasiada pressa. Sou uma pessoa horrível para estar ao lado a ver futebol. Acho sempre que a galinha do vizinho é sempre melhor. Na verdade, o meu pessimismo leva-me a achar que a galinha do vizinho é um dinossauro gigante com a inteligência de um robot do ano 2380 e armas que nós desconhecemos. Sou uma pessoa que desesperou pela partida de Jackson Martinez do futebol português, rumo à brilhante e feliz carreira internacional que lhe vaticinei. 


No Benfica vejo sempre defeitos, coisas a corrigir, fraquezas que os rivais vão explorar sem piedade. Mas em Jonas vejo a paz, o farol que ilumina todo o nosso jogo, a voz da calma no meio do pânico que é a minha cabeça quando o meu clube joga. O que eu mais amo em Jonas - e é "amo", não é "gosto", não é "adoro" nem "venero" - são os braços dele a dar indicações. Jonas várias vezes desce no terreno, recebe e começa com os braços a posicionar os colegas, com uma paciência paternal de quem ensina os filhos a fazer os trabalhos de casa.
Por exemplo: neste vídeo, Jonas parece dar apenas um toque para isolar Gaitan no tempo certo. Mas o que este vídeo não mostra, mas outros disponíveis na net na altura e que eu agora não encontro mostravam, é que Jonas, antes de receber de Raul, tem Renato na sua linha de passe. E grita-lhe e aponta com o braço que deve sair dali e correr para a frente. Renato, bem mandado, avança e leva o defesa (como se vê na imagem), a linha de passe abre, Jonas recebe e assiste. O golo é dele, por esse grito, por essa ordem.
Jonas é o treinador que eu sempre quis o banco. Passo os jogos a gritar indicações: "Abre!", "Olha o Hortinha, Grimaldo!", "MATA, JARDEL, MATA!", "Olha o Liedson ali, olha o Liedson, caralho! Foda-se, quero lá saber se estamos a atacar, olha o Liedson!", etc. Com Jonas, sinto que me posso poupar, sinto que ele faz isso por mim.


A imagem anterior mostra isso mesmo: o Benfica precisa de ganhar ao Setúbal e numa entrada generosa e muito anos 90, resolve sofrer um golo no primeiro minuto. Os próximos 20 minutos são de pressão intensa, mas com algumas precipitações. Jonas faz o empate, vai buscar a bola à baliza e no caminho dá indicações aos colegas. Jonas é o amor: é tudo o que queremos na vida, porque faz o golo do empate, e é ternurento e paciente, aceitando o erro, corrigindo, perdoando a Salvio cada vez que ele não toca a bola no tempo certo, acertando agulhas com Pizzi - com quem se entende às mil maravilhas - gritando horrores a Elizeu. Nunca grito a Jonas quando erra, não lhe peço nada, limito-me a confiar.
Não sei se vai ser um símbolo do Benfica, se sente ou não a camisola, mas digo-vos que pouco me interessa. Porque não lhe posso pedir mais. Eu sofria com Cardozo, sentia os falhanços dele como se fossem meus, mas não confiava em Cardozo. Tinha uma fé inabalável, mas sabia que muito daquilo estava misturado com a minha devoção. O meu amor por Jonas não é fé, é ciência. Se Jonas não tentou aquele passe que eu queria, era porque não dava e eu aceito isso. 


Tinha acabado de trabalhar quando li online que Jonas se lesionara, há uns tempos atrás. Dei um gritinho e senti-me todo a tremer. E agora? Em quem confiar? Quem é que vai conduzir os ataques, quem é que vai organizar a equipa meticulosamente até ao golo? Quem vai finalizar com classe, tabelar, pausar e acelerar? Terei outra vez que gritar para o campo? Sim. E sofrer? Muito. E até quando? Não sabemos. Vejo diariamente notícias à espera da sua recuperação, acredito nas capas do Correio da Manhã, dos desportivos - mesmo quando se contradizem - e de utilizadores do twitter com 4 seguidores. Acho que em todos os jogos vamos perder pontos. Em todas as jogadas sinto a falta dele e acho que sempre que corre mal é porque Jonas não está, e há um "se ele estivesse cá" recorrente, a martelar-me a cabeça. Fujo sempre da pergunta "e quando ele não estiver?" sem ter coragem da resposta.
A equipa - quiçá treinada por ele? - tem-se aguentado bem, conquistado pontos e cimentado a confiança. Mas o inimigo é feroz e a luta é longa. Para a vencermos precisamos de Jonas. Do Jonas inteligente, matador, traiçoeiro, espertíssimo, sempre no lugar e tempo certo. Precisamos do Jonas que é Cardozo e às vezes é Aimar. Preciso que ele esteja em campo para voltar a confiar, para voltar a ter um mínimo de tranquilidade, para saber que tudo se desmonta com paciência, que não há nada a temer. Preciso de tê-lo em campo e anseio por vê-lo trocar a bola com Rafa.

Diz-se por aí que tudo o que nós queremos na vida é o amor. Eu quero o Jonas no ataque do Benfica. Porque amor é o que sinto quando ele tem a bola nos pés e a mete dentro da baliza. Até ao seu regresso, a vida será uma soma de inquietações que temos de vencer com a ajuda de tudo o que ele nos ensinou. Longos são os dias sem ti. Regressa rápido, Pistolas. Um abraço de coração apertado, à tua espera.