quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O clássico

Eu sou do Sul. Nasci em Lisboa, mas cresci em Faro, mesmo à beira - mar. A Sul. Sempre tive família no Norte e sempre fui fascinado pela honestidade dos palavrões calorosos de lá.
O Benfica - porto mexe comigo porque é sempre um jogo importante para o Glorioso. Odeio, claro, os azuis. Odeio, são execráveis. Mas sempre estiveram lá longe. Eu cresci em turmas onde não havia gente desse clube e onde o tipo do fóculporto na minha escola primária ainda hoje é conhecido como "O Tripeiro". "O" - artigo definido singular. Singular porque ele era só um. Ninguém lhe ligava.



Quando o fóculporto ganha um título na minha terra não há buzinas nem festa. Não há ninguém na rua - os 4 ou 5 tripeiros que até nos recebem bem no restaurante onde o meu grupo de amigos costuma jantar deve festejar em casa, até porque deve ser chato ir para a rua e toda a gente olhar de lado.
Na minha turma sempre houve só verdes. Lembro-me dos meus três anos de liceu serem um inferno de risos atrasados mentais inflamados por 190.423 penalties. Os anos em que o fóculporto ganha eram tão calmos como aquele em que o boavista ganhou. A diferença de representatividade entre os dois clubes era 1-0 na cidade.
Não escondo que os detesto. Detesto o teu clube. Pela minha incredulidade - era tão tenrinho - quando vi o penalty do Rui Bento sobre o Rui Filipe em 91/92 na Luz, quase quatro metros fora da área. Era tão novo que achava que o fêcêpê não tinha culpa - "pai, quem se enganou foi o árbitro, não foi?". "Não. O porto pagou-lhes." E foi assim que eu perdi a inocência.



Lembro-me de, em 1987, chegar a Faro. Tinha 3 anos. Ao lado do nosso prédio havia uma daquelas lojas de electrodomésticos, com éne televisões empilhadas, todas a passar o mesmo. Lembro-me do Madjer. E do meu pai a virar-me a cara, como que a tirar-me da frente de uma cena violência, antes de eu ver a bola entrar. Acho que ele percebeu o que aí vinha.
O clássico é sempre um jogo duro, cheio de porrada, intensíssimo. Uma batalha enorme. Uma batalha que eu quero sempre, sempre, sempre ganhar. Porque deve voltar ao Benfica aquilo que é do Benfica: o domínio total do futebol português.
Para mim não é uma questão fratricida porque ao contrário dos verdes, não há ódios psicanalíticos. Não é contra ti, nem contra os poucos adeptos tripeiros que conheço. Domingo é pelo Benfica. Pelo Benfica que depois de 94 decidiu entrar em coma. Pelo Benfica que nos anos 80 se deixou enganar e não percebeu a armadilha que Fortunatos Azevedos e Calheiros lhe iriam montar.
Domingo temos de nos lembrar que mesmo que eles sejam menos, que as vitórias deles pareçam tão distantes como as do Barcelona, que mesmo que até nós (às vezes) achemos que aquela gente até é um bocadinho maior que aquele bairrismo, é preciso ganhar. É preciso ganhar, mesmo que ninguém a sul do Douro vá ouvir bocas.
Odeio profunda e eternamente o fêcêpê. Detesto. São a face de dentes podres do futebol português. Odeio-vos, odeio-vos, odeio-vos. Tenho nojo. Não vejo notícias vossas, desligo a televisão quando estão a ganhar.
Mas não quero ganhar para vos arreliar. É pelo Benfica. Pelo meu Benfica.



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