sábado, 23 de janeiro de 2010

Sempre em frente!

Eu ainda não ouvi as escutas. É verdade. Não é que não queira, mas não tenho som no computador (uma certa pessoa, ligada a um certo clube, conseguiu lixar o som há uma semana...).
O que as escutas mostram já era público. Já jornais tinham mostrado, já se tinha lido e falado. Mas ouvir é mais forte, não é? (Deve ser. Eu ainda não ouvi) "A fina ironia", "a organização exemplar" e restantes predicados com que o Rui Orlando nos costuma brindar, ali, todos expostos. É, como é que hei-de dizer, um bocado irónico.


Eu acho que está tudo tão límpido nas ditas escutas (que eu, ora que porra!, ainda não ouvi) que nem vale a pena comentar muito o facto. Podem vir com nomenclatura penal, com os recursos, com as validades, com anulações, com supremos. O conteúdo, esse, ninguém nos tira.
A "fruta de dormir" fica para a história como a pior metáfora de sempre.
O código deontológico de jornalista d`O Jogo tem "coisas muito giras".
O Antero Henriques já dá graxa ao Pinto há tanto tempo que o Salvador nem campeão lá chega.
O Bettencourt, se ainda não respondeu a isto, é porque não tem mesmo coluna vertebral.
Mas há duas coisas que me escapam, e isso anda a consumir-me, daí que o texto não me esteja a sair bem:




Falta-me ouvir o ambiente de convivência, de compadrio. O "estou?" e a seguir aquele cumprimento de quem há muito se conhece, há muito conversa. Falta-me aquele espírito de fraternidade, de gente que se move toda por uma boa causa, que, no fundo, no fundo, só quer que as coisas corram bem! Falta-me o tom conciliador do Major, o tom de cãozinho do Antero, a canalhice do Pinto e o Deco a tentar perceber como é que se torna a chantagem "fantástica". Sem isso, todo o texto é um bom argumento, mas ao qual faltam as personagens de eleição. Reconforta-me saber que os vídeos ficarão para a eternidade. Espero que alguém se dê ao trabalho de os traduzir para que lá fora saibam aquilo que estamos a aturar há anos e anos.

Mas, mesmo antes de ouvir as escutas, já tenho uma grande desilusão. Já soube que as minhas preferidas não estão na net.
É assim: eu cresci com o Coroado a expulsar três jogadores num Benfica - Torreense no Estádio da Luz, com o Calheiros a expulsar o Iuran e o Pacheco no Beira Mar - Benfica de 92/93 que nos dava o título sem que alguém consiga, ainda hoje, explicar porquê. Eu vi o Fortunato Azevedo, o Rosa Santos - que até é columbófilo e tem no pombal o emblema do seu clube pintado muito grande. O Pratas a fugir do Domingos e do Couto. Mas se havia personagem que me metia medo era Martins dos Santos.
O Martins dos Santos era um daqueles tipos que tinha um brilho nos olhos quando apitava o Benfica. Cada lance podia ser uma oportunidade para brilhar. Era um criativo, era imprevisível. Ora, as escutas acerca deste artista é que são, para mim, as mais espectaculares e requintadas. Ora vejam:

De acordo com a certidão, Martins dos Santos foi o árbitro convidado para o jogo inaugural do Estádio do Dragão como forma de pagamento de "anteriores benefícios" ao FC Porto. O clube terá pensado em convidar outro árbitro, mas o presidente da AFP, Adriano Pinto, tranquilizou Martins dos Santos, garantido-lhe a presença no desafio com o Barcelona, a 16 de Novembro de 2003.

"A certa altura, eu zanguei-me, porque não queriam que... deixar o senhor inaugurar o campo (...) e foi de lá de dentro que escolheram outro, e eu tive de dar um murro na mesa para... para voltar a ser... você. (...) Eu sou contra a ingratidão, você sabe bem disso...", referiu Adriano Pinto a Martins dos Santos


E esta era a escuta que eu queria ouvir. Porque nesta escuta o que salta aos olhos do leitor é a amizade. O modo como Adriano Pinto, homem de bem, amigo dos seus amigos, "dá um murro na mesa". O leitor percebe, sente a raiva. Caramba, também eu a sinto. Com Calheiros reformado, iam dar a inauguração a outro que não Martins dos Santos?
 A decisão não seria "ingrata", seria um crime! E é bonito ver como o conto não só nos dá uma moral de amizade forte, como acaba bem e Martins dos Santos apita o jogo de inaguração. Afinal, após o fóculporto - Rio Ave de 2003/2004, apitado por si, Martins dos Santos já tinha dito que "o que eu queria era que me corresse bem o jogo (...) que me corresse bem o jogo e que ganhasse quem ganhou". É preciso ser-se muito insensível para não ver a injustiça, a trama, o conluio que ia na Torre das Antas para impedir que o homem lá fosse. Apetece dar um murro na mesa. Felizmente tudo acabou em bem e Martins dos Santos apitou o jogo. Ficou 2-0. Sabem como é que o primeiro golo foi? De penalty e injusto. Um conto de fadas.
Mas, para melhorar, e são estas coisas que o Youtube não resolve (falta autenticidade, não vemos as caras, não vemos os sorrisos, as gargalhadas...), há na história de Martins dos Santos, um factor ainda mais bonito: o genético. Não é que o filho, Daniel Santos, apitou este ano o fóculporto - Mónaco, jogo de apresentação aos sócios? A ingratidão foi vencida! Já dizia o outro, sempre em frente!


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