sábado, 13 de março de 2010

Parabéns, avô

O meu avô é o maior portista do mundo. É tão portista, tão portista, que sempre que falo com ele de bola sinto que não ando a ser suficientemente portista. E foi certamente dele que herdei a habilidade de odiar tanto os outros todos como se ama o Porto.

O meu avô é da Madeira e odeia de morte o marítimo. Passou por Vila do Conde e odeia o rio ave. Enfim, é um coração mole. Ele odeia tanto os outros que é difícil dizer quem ele odeia mais. Mas arrisco dizer que é a selecção nacional.

Uma vez, no Mundial de 2002, ficámos curiosos. Portugal ia jogar com os EUA, outro dos grandes ódios do meu avô. Não propriamente pela selecção dos EUA (aposto que o meu avô não sabia o nome de um jogador norte-americano. Aliás, quem sabe?), mas pelo país, pela grande potência mundial que na altura tinha George W. Bush à frente. Incrivelmente, o meu avô torceu pelos americanos como se não houvesse amanhã.

Só há uma coisa que o meu avô odeia mais do que os outros todos: árbitros. Uma vez, não me lembro em que jogo, mas foi mesmo há muito tempo, a transmissão começa e filmam logo a saída do túnel, com as equipas e os árbitros alinhados. E eis que ele grita:

- É o Coroado, estamos fodidos!

Era o Coroado, mas podia ser o Lucílio, o Vítor Pereira, o Zé Manel, o Joaquim das Couves. Estamos sempre fodidos. “Aquele gajo” é sempre o pior de todos. Uma lição para qualquer adepto que se preze.

O meu avô é talvez a pessoa com a qual mais gozo me dá falar de bola. Principalmente quando o Porto perde. Uma vez, fui a casa dos meus avós logo após uma goleada europeia que o Porto sofreu há muitos anos atrás. Estava com um ar derrotista, pesado, “uma grande tola” por assim dizer. Até que ele – não cronometrei, mas aposto que não durou um minuto – me enumerou os quatro penalties que não tinham sido marcados a favor do Porto. Sim, quatro. Dava para empatar o jogo.

O meu avô só teve um grande falhanço na vida. Jogava-se um salgueiros-benfica, com os visitados de vermelho e os visitantes de branco. E cai um jogador dos brancos na grande área.

- PENAAAAAAAAAAAAAALTY!!!!!

Para azar dele, era o João Vieira Pinto, provavelmente o jogador mais odiado de sempre pelo meu avô. Ainda hoje todos nos rimos com esse episódio. Ele também se ri, mas nunca admite.

O meu avô faz hoje 80 anos. 80 anos de uma grande vida e de um grande portismo.

Parabéns, avô. Da neta preferida, mais orgulhosa e mais portista.

9 comentários:

  1. Adoro :) * Parabéns senhor avô da Cat!

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  2. Muitos parabéns ao verdadeiro isento e imparcial :P

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  3. "E foi certamente dele que herdei a habilidade de odiar tanto os outros todos como se ama o Porto."

    Um triste resumo de uma realidade. No meu dicionário, ódio é sinal de pequenez.

    Há sempre tempo para mudar...

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  4. No teu, o que não quer dizer que seja no melhor.

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  5. Mas qual é o tripeiro que se preze que não odeia o Benfica, acima de tudo?

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  6. Tripeiro é diferente de portista.
    Tal como ódio é sinal de pequenez.

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  7. Anónimo: Eu falei do Benfica por acaso?

    Rossdale: já estou a ver qual é o teu dicionário, deixa lá.

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  8. És grande, sobrinha!!!
    Orgulho!

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  9. Não vês, nem nunca verás. Esse "valioso" ensinamento costuma ter o condão de provocar uma acentuada miopia.

    Sê feliz nesse teu triste dicionário.

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