quarta-feira, 9 de junho de 2010

Ano VI d. M.

Eu e deus temos um grande problema: é que eu não acredito nele. Para mim não há nada “lá em cima”. Há apenas um planeta habitado por biliões de seres vivos, entre os quais o Homem, espécie à qual por vezes gostaria de não pertencer. E toda esta introdução pseudo-existencial serve apenas para vos falar de José Mourinho.

Pois é, o homem de quem se fala. Uma espécie de deus para muita gente. Mas pergunto eu: para quem, afinal?

Participou nos melhores dois anos da minha vida, com muitas vitórias daquelas que parecem inalcançáveis, com muito orgulho em ser a melhor equipa da Europa, com momentos que jamais esquecerei. E, depois, saiu. De repente. Chorei, perdi a cabeça, desisti do futebol? Não. Passei uma época sem ser campeã (enquanto era campeã do mundo) e depois fui tetra.

Seguiu-se Londres. O clube de um magnata russo que não ganhava nada há 50 anos. Foi campeão, tendo milhões e milhões ao seu dispor para ir buscar os melhores do mundo. Saiu, provavelmente porque o seu ego não cabia mais num clube que não era campeão europeu. Hoje o chelsea tem Ancelotti, é campeão e joga bem à bola que se farta.

Milão. Uma equipa que não tem adversários desde o calciocaos e um campeonato cada vez mais decadente. A glória de voltar a ganhar a Champions League, que nem sequer é bem festejada porque, mais uma vez, já só se fala da sua ida para o real madrid. Que, deixem que vos diga, é o clube ideal para ele (nota para não conhecedores de Catarina: eu odeio o real madrid, os galácticos, o poder da capital espanhola).

Olhando para trás, o que é que Mourinho tem? É o melhor treinador do mundo? É. Guardiola e Van Gaal deixaram-se “comer” ao tentar que o futebol bonito ganhasse ao futebol cada vez mais feio que o treinador português cultiva. Mas é um deus? - e agora não me refiro à figura religiosa que não existe, mas sim ao sentido mais lato da coisa – Não. Não é um deus no Porto, em Londres ou em Milão, porque outros vieram e virão e é preciso muito mais do que vitórias para que o coração de um adepto não esqueça.

Claro que há certas pessoas, longe do Porto, de Londres ou de Milão, que agora o idolatram porque descobriram que ele é bom para caraças (talvez não tenha sido muito evidente quando lá esteve). Mas a essas pessoas invejosas e frustradas já nós estamos habituados.

A verdade é que Mourinho vai ficar para a história do futebol, mas não vai ficar para a história de um clube em particular. Ele não é Pedroto ou Herrera. Ele nunca será um Bill Shankly para o liverpool ou um Ferguson para o manchester. Provavelmente, vamos lembrar-nos do futebol espectacular do Porto de 2003, mas iremos mesmo querer recordar este inter de 2010? Enfim, fica em aberto, numa altura em que já todos esperamos que o real volte a ser campeão em Espanha, com o Ronaldo a ter de defender durante 90 minutos.

E para terminar, seis anos depois de Mourinho, uma referência ao seu “clone” que é André Vilas Boas, ou Villas Boas, ou Villas-Boas, ou o que ele quiser desde que seja campeão para o ano. Uns meses como treinador não dão muita margem de manobra à análise táctico-técnica que pretendia elaborar de seguida, mas talvez os adeptos do Porto, tão mal habituados a criticar tudo e todos, estivessem mesmo a precisar de um homem sem passado. É sangue novo, é sangue azul.

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