quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dez razões para Portugal ter ficado nos oitavos (para tótós)

1. Ninguém se pode lembrar de gostar de futebol de dois em dois anos. Não faz sentido não andarem por aí preocupados com campeonatos, não verem jogos da Liga dos Campeões, nem sequer estarem muito atentos à qualificação, e depois chegarem a um Europeu e a um Mundial e serem uns grandes entendidos, sempre a mandar bitaites de quem devia ter sido convocado ou não, de quem devia jogar, de quem devia ser substituído. Que mal tem? Tem que os maus adeptos são a primeira razão para Portugal falhar. E há dois tipos de maus adeptos: os que, logo à partida, já sabem que vai correr tudo mal e os que andam sempre eufóricos.

Aos primeiros tenho a dizer o que digo aos do meu clube que são exactamente assim: é muito fácil andar por aí a dizer "eu bem avisei...". É mesmo muito fácil passar um jogo a criticar e até sorrir ligeiramente quando o adversário marca. Mas já pensaram o que isso faz de vocês? Sim, traidores. Ou, numa versão mais ligeira, estúpidos. Não ajudam nada.

Aos segundos tenho a dizer que vocês não são melhores que os primeiros. Têm de abrir os olhos. Portugal nunca ganhou nada, estamos longe de ser uma selecção de topo (eu não ligo a rankings) e não podemos convencer-nos que vamos ganhar tudo porque senão saímos sempre desiludidos, mesmo quando a selecção até se porta bem. Por exemplo: ontem, antes do jogo, ouvi "n" pessoas a dizer que iamos dar 7-0, como contra a Coreia. Esta gente devia ser pura e simplesmente proibida de falar. Ou pensar. Ou existir.

2. O pré-Mundial não foi nada fácil para Portugal. A qualificação ficou embrulhada com uns empates imperdoáveis e o futebol bonito que a selecção jogava (sim, eu vi estes gajos a jogar muito bem à bola) ficou condicionado por aquela derrota mais do que azarenta, eu diria diabólica, com a Dinamarca. Ainda por cima este Portugal não teve o que "outros Portugais" tiveram: boa imprensa. Claro que os jornais não têm de ser como as senhoras que achavam que Portugal dava 7-0 à Espanha. Têm de ter juízo, ser críticos, pegar em tudo o que é podre. Mas houve muita gente a descer muito baixo para se fazer notar. Houve relatos de jogos em que os comentadores estavam claramente a torcer pelo adversário para se rirem de Portugal. Houve demasiadas crónicas do simples "mete-nojo". O interesse? Não sei, talvez derrubar alguém. Ou apenas vender mais.

3. A eternamente discutível lista de convocados. Onde eu levei uma grande chapada do Queiroz. Sim, eu escrevi que o Quim era o melhor guarda-redes nacional. Toma lá esta Catarina para aprenderes a também não te armares em grande especialista! Mas agora vamos lá escrutinar isto, sabendo, claro, que depois da coisa acontecer é bem mais fácil fazê-lo.

Da baliza não falo mais, porque o Eduardo se transformou no melhor guarda-redes do mundo. Do lado direito, faltou o Bosingwa e não percebo porque se convocaram dois defesas direitos se, nos jogos a sério, foi preciso meter o coitado do Ricardo Costa adaptado. No meio, Bruno Alves e Ricardo Carvalho fizeram um grande Mundial, embora muita gente se esqueça deles. Do lado esquerdo, o Coentrão esteve muito melhor do que se esperava.

O primeiro enorme problema: o trinco. Pedro Mendes até começou bem, mas havia a pressão de meter a jogar o melhor (e sim, o Pepe em condições normais é mil vezes melhor, se não fosse ele provavelmente nem qualificados estávamos). Acabou por sair mal, porque o Pepe está de rastos, distribui pazada por todo o lado e pouco mais.

Depois, um Deco sem ritmo nenhum e com mais vontade de ir para o Brasil apanhar sol do que andar ali a correr com os "moleques". Talvez tenha sido aqui que Queiroz brilhou mais: a solução Tiago foi espectacular e, com um Meireles muito melhor do que no Porto (pois, eu não perdoo quem se anda a guardar um ano todo para um Mundial...), fizeram uma grande dupla que calou os senhores muito revoltados porque o Moutinho não foi convocado.

Na frente, esteve todo o mal. Entre Simão e Danny, venha o diabo e escolha. Cansaço, falta de jeito, falta de empenho, já não sei o que pensar. Foram ambos muito maus. Entre Liedson e Hugo Almeida, penso que ninguém tem dúvidas de que o primeiro é melhor, mas até foi com o segundo que estivemos mais perto dos golos. E, por fim, Ronaldo. Mas esse fica para depois.

4. Nani. Já falei o suficiente sobre isto, claro que o rapaz não se lesionou e ficou tudo bem. Nunca saberemos como correria isto com o jogador português em melhor forma, mas não vale de nada ficar a chorar. Adiante.

5. O empate com a Costa do Marfim. Às tantas vai dar um ataque cardíaco a muita gente, mas creio que este foi o melhor resultado de Portugal neste Mundial. Era o primeiro jogo e contra o adversário directo, não se podia perder, eles entraram muito bem e até tivemos azar porque fomos os que estivemos mais perto de marcar. Se calhar para os mais "distraídos", a Costa do Marfim era só um grupo de gente muito escura a correr. Mas, para mim, era o Drogba, o Kalou, o Keita, o Yaya Toure, o Gervinho e o Eboue. A táctica defensiva não era muito ambiciosa, é certo, mas vejam o que aconteceu à França, à Itália, à Inglaterra e à própria Espanha.

6. Deco. Aqui é que se estragou tudo. As palavras do Deco não foram só as de um jogador cansado, quase acabado, "velho". Foram um sinal de que não havia controlo. E claro que deve haver controlo numa equipa. Se todos viessem dizer cá para fora o que pensam... bem, estaríamos a falar do sporting e já viram quão mau era. Falhou o seleccionador, que não teve mão neles, falhou a equipa de comunicação da Federação, que os deixou à mercê dos jornalistas, e falharam os jogadores, que não souberam colocar a selecção à frente das suas birras individuais.

7. A grande vitória com a Coreia do Norte. O quê? Esta gaja está mesmo a colocar um 7-0 numa das razões para Portugal não ter ido mais longe? Sim, estou. Concretamente, porque Ronaldo marcou um golo. E se até aí só se pensava nele, a partir daí então foi a loucura total. Usando um bom termo jornalístico, foi só "broche" atrás de "broche". "O querido líder", "metam a bola no Ronaldo!", "vem aí mais ketchup de Ronaldo!" foram alguns dos títulos que apanhei. Não sei o que me irritou mais: se a profunda injustiça para os seis ou sete jogadores que estavam a fazer um Mundial mil vezes melhor do que o Ronaldo, se a profunda ingenuidade de se depositar esperanças num jogador que nunca deu nada à selecção. Pois, chegamos a Ronaldo.

8. A braçadeira de capitão em Ronaldo. E disto posso falar à vontade porque eu sempre fui muito crítica com ele. Sim, houve uma altura em que ele foi o melhor do mundo. Aquela época no manchester quando o Messi andava sempre lesionado foi brilhante. E, apesar de não ter ganho nada, é ele quem muitas vezes carrega às costas o real madrid. Mas na selecção nunca vi nada. Pior, vi um menino mimado, uma estrela, um capitão que prefere dizer "eu" a dizer "nós". Ele nem o hino canta! Era difícil não ser Ronaldo o capitão, é verdade. Ricardo Carvalho é muito "tótó", Bruno Alves às vezes perde a cabeça. Mas Queiroz lambeu demasiadas vezes as feridas ao menino. Queiroz e todos. Aliás, ontem apeteceu-me esganar os jogadores que, quando questionados sobre as belas palavras do Ronaldo, ainda foram defender o menino querido. É tirar-lhe a braçadeira e explicar-lhe que ele não é mais do que ninguém ali. Não é mais do que o Bruno Alves e o Meireles, que fizeram Portugal apurar-se. Não é mais do que o Eduardo, que aguentou o mais que pôde sem sofrer golos. Não é mais do que "o Carlos Queiroz", como ele diz. Resumindo, alguém tem de ter tomates (esqueçam o ketchup, estou mesmo a falar de tomates) para o substituir quando está a atrapalhar, como foi o caso ontem.

9. A Espanha. A Espanha tem uma equipa maravilhosa. Eu sei que sou suspeita porque adoro o Barça, mas a esta Espanha só lhe falta mesmo o Messi. Ou faltaria, se o Villa não tivesse decidido fazer o Mundial da vida dele. Que jogadores, que equipa, que tiki-taka! É um prazer vê-los jogar, mesmo sem terem arrancado muito bem. E isso não devia fazer de nós invejosos, quando pensamos "se eles têm porque é que nós não temos?" Gente: não temos porque não temos aqueles jogadores. Vocês viram aquele jogo com a Polónia na preparação? Aquilo foi a prova de que eles nem precisavam de treinar. Eles não são campeões europeus à toa. Queriam o quê? Ir para cima deles à maluca? Eu posso enganar-me, mas se a Espanha passar o Paraguai quero ver quem é que vai para cima deles à maluca. Sim, a defesa não é a melhor do mundo (a nossa é melhor), mas tenho para mim que eles até podiam jogar com menos um ou dois jogadores na defesa que nem se notava.

10. O último jogo. Foi tudo muito bem montado. Portugal sabia que tinha de jogar atrás da linha da bola, mas sem os deixar sufocar. Foi isso que aconteceu durante 50 minutos, na perfeição. As melhores oportunidades até foram de Portugal, também faltou sorte. Mas Queiroz falhou nas substituições e Del Bosque acertou. Eu não sou nenhuma Freitas Lobo, mas sei "ler o jogo" minimamente. E nisso o Queiroz é dos piores do mundo. Ele montou muito bem a equipa, arriscou no onze dele e deu-se bem, mas depois, lá, no momento, não soube mudar. E, pelo contrário, o espanhol acertou em cheio. Tirar o Torres para meter um quase desconhecido Llorente é de corajoso. Aposto que muitos espanhóis o insultaram naquele momento. Mas o que é certo é que o miúdo conseguiu espaços na defesa portuguesa que Torres ainda não tinha conseguido. E o golo chegou. Em fora-de-jogo, não nos podemos esquecer. O árbitro errou a favor da Espanha, com influência clara no resultado e também exigimos um pedido de desculpas da FIFA. E depois do golo as fragilidades de Portugal acentuaram-se mais até uma expulsão também inventada pelo árbitro.

Resumindo, acho que Portugal fez o que podia ter feito, à excepção de Ronaldo. Agora vou torcer pelo Uruguai e vou mas é começar a pensar em coisas sérias como por quanto é que vamos vender o Meireles ou quanto é que estamos dispostos a dar por um número 10.

8 comentários:

  1. Escreve um livro. Anda aí muito boa gente ainda a achar que se devem limpar as lágrimas do Ronaldo com uma toalha de seda. Não quero dizer asneiras no teu blog mas P*** que o pariu.

    *

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  2. O Ricardo Carvalho não é totó, só não nasceu para líder :P

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  3. Logo no começo do texto fazes referência a dois tipos de adeptos. Mas falta um, o qual é aquele onde tu te inseres: aquele adepto que adora pôr a selecção e sobretudo os jogadores ora no céu, ora no inferno!!! Vá, tenta ser um pouco mais regular com as tuas opiniões....

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  4. Em que é que eu não fui regular? Não vale meter comentários anónimos e nem sequer se explicar.

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  5. Falta aí uma razão, que é a de termos um treinador sofrível. Ora, se uma selecção como a Argentina ou o Brasil consegue ganhar com um treinador sofrível, tal é a qualidade dos jogadores, uma selecção como Portugal precisa de um bom treinador, para potenciar a qualidade dos jogadores e ganhar nos detalhes. Este vai jogar com a Espanha, que é superior, e perde nos detalhes todos.

    E já agora, que tal as razões dessa derrota "diabólica" contra a Dinamarca nas substituições do final do jogo, com o dinamarquês a pôr torres na área e o Queiroz os jogadores mais baixinhos em campo? São pormenores-pormaiores, e não bruxaria.

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  6. "Eu não sou nenhuma Freitas Lobo, mas sei "ler o jogo" minimamente. E nisso o Queiroz é dos piores do mundo."

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  7. Ok, ok. Eu colocava era uma razão "Queiroz" autonomamente, e era logo a primeira.

    Ler o jogo é sem dúvida o seu maior defeito, a que acrescento capacidade de liderança de um grupo. Justamente aquilo que distingue um treinador principal.

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