segunda-feira, 26 de julho de 2010

Baía nunca vai sair do Porto

Foi hoje anunciado que Vitor Baía não será mais director de relações externas do F. C. Porto. Segundo o próprio, está na altura de se dedicar "a cem por cento" à sua fundação, conhecida pelas causas nobres que defende.

A especulação, como é normal, já surgiu e muitos adivinham esta saída como um sinal do romper de relações com o presidente Pinto da Costa.

Eu não estou lá para ver, mas como portista posso corrigir os títulos: Baía não saiu nem nunca vai sair do Porto. Ele será sempre um de nós, estará sempre connosco e terá o seu lugar sempre assegurado no nosso clube.

O jogador mais titulado de todos os tempos não será esquecido. Boa sorte Baía e volta depressa!



Recordo o texto que escrevi quando ele abandonou os relvados:

Quando for grande quero ser como o Baía!

Sou mulher e, por isso, não cresci a dar toques na bola e a querer ser futebolista. Apesar disso, sempre estive em contacto com o futebol, sobretudo devido à minha família. Sempre fui do Porto e hoje agradeço nem sequer me terem dado outra hipótese.
Com os anos, o sexo feminino fez-me uma leiga na matéria. Eu pensava que o treinador do Porto era o Pinto da Costa e o meu jogador preferido era o Bandeirinha, só porque eu tinha um colar em forma de chave.. mas que podia ser perfeitamente uma bandeirinha.

Em 94, colei a ver os jogos do Mundial. Torcia pelo Brasil porque gostava do Bebeto (devia ser pelo nome, sei lá) e porque adorava a expressão cá de casa: "Cafú, vai à linha!" sem fazer a mínima ideia do que isso queria dizer.

Os anos do Penta trouxeram-me um novo amigo: o Estádio das Antas. Só ia a jogos pequenos, mas sentia-me enorme. Pouco reparava no jogo em si, mas as personagens à minha volta fascinavam-me.
Nessa altura descobri que, tendo nascido em Paranhos, se justificava um carinho especial pelo Salgueiros. E, apesar dos avisos do meu avô - "olha que eles são todos mouros" -, dei por mim a torcer para que todos os Porto-Salgueiros ficassem "só" 1-0 (amigos, amigos; negócios à parte).
Nestes 5 anos, não consigo enumerar todos os meus jogadores de eleição. Desde o Domingos e o Kostadinov, passando pelo Zahovic e pelo Drulovic e a acabar, naturalmente, no Capucho e no Jardel.
No fundo, eu era um alvo fácil. Como qualquer miúda, gostava dos que marcavam mais golos, dos que faziam as melhores fintas e, sim, dos que tinham as pernas mais jeitosas.

Começava assim a assimilar a mística e aprendi as regras do jogo. Graças ao meu avô, aprendi também que "os outros" eram todos mouros e que faziam tudo para que o Porto não ganhasse. Aprendi que os árbitros eram todos "uns cabras" e que o Coroado era o pior deles todos. Apercebi-me que quando o Porto ganhava se falava pouco disso, mas que quando "os outros" ganhavam não se falava de outra coisa.
Fui-me então apercebendo que, mais importante do que marcar golos ou fazer fintas, estava o suor na camisola. A garra, a devoção, a mística.
O Jorge Costa, o Fernando Couto, o Aloísio, o Sérgio Conceição, entre muitos outros, conquistaram o meu respeito e a minha admiração.
Enquanto as minhas amigas colavam nos quartos posters dos Backstreet Boys, eu exibia com orgulho os posters que colei na parede de grandes mestres da técnica como o Secretário e o Paulinho Santos.
E as sucessivas festas na baixa do Porto deram-me a noção que os adeptos de futebol são todos malucos e que esta cidade, esta gente, bem precisam deste clube.

No Mundial de 98 aprendi outra lição muito importante: é impossível ser-se fanático de um clube e torcer pela selecção.

sportem campeão e bi-tri desfeito. "Alto lá, afinal temos rivais!", pensei. Mentira. Pensei antes: "o Bruno Paixão é mesmo um cabra".

Euro 2000 e a loucura em torno da selecção. No fundo, "são todos mouros".

Novo século e boavista cameão. Bem ensinadinha, sei que eles "são todos mouros" por isso nunca pensei "antes estes que os outros". Pensei antes que o Vítor Pereira tinha sido "um cabra" no boavista-FCP.
A propósito desse jogo, falemos de Deco. Mesmo com as lesões a esconderem-no, para mim sempre foi um mágico. Daqueles que causam grandes discussões antes de começar um jogo de futebol na escola, porque toda a gente queria ser o Deco. E este nem tinha as pernas jeitosas.

2 anos sem ganhar o campeonato (ainda que com Taças e Supertaças pelo caminho) foram, se assim se pode dizer, a minha primeira prova de fogo como portista. E vinha aí pior. O mesmo é dizer "vinha aí o Octávio".
Desta época não há muito a recordar. Não conseguia ter jogadores preferidos, tal era a confusão que ali reinava.

Mundial 2002 e a revolta! Devia ter sido o árbitro a dar um soco ao João Pinto e não o contrário.

2002/2003 e 2003/2004. As loucuras de Sevilha e Gelsenkirchen, mais dois campeonatos sem espinhas e o gostinho amargo do Mónaco.
De todos os grandes jogadores que se fizeram aqui (e alguns só foram mesmo grandes aqui), foi Derlei que me conquistou. Pela irreverência, pela garra, pela luta. Deco era um mágico mas Derlei era um Ninja. Aliás, o tempo só me veio dar razão. Hoje o Deco diz muito bem do Porto e tal.. mas é o Derlei que nos continua a dar alegrias.

O choque pós-Mourinho trouxe-me muitas dores de cabeça.. e Diego. Ainda hoje acho que desperdiçámos um grande talento (e umas pernas...!).

Com Adriaanse e agora Jesualdo, temos Pepe, Quaresma e Anderson. Mas prefiro o Lucho. Porque é argentino e porque acho que tem personalidade de Dragão. E, mesmo em baixo de forma, não deixa de ser El Comandante.


A nossa ligação com o futebol resume-se sobretudo a jogadores. Porque são eles que personificam a nossa paixão. São eles que carregam a nossa alma. É como eles que os meninos querem ser quando forem grandes. São os nossos ídolos.
E não foi por acaso que deixei esta palavra para o fim. É porque, para mim, ídolo só há um e chama-se Vítor Baía. O que resta da mística, o que me recorda que, para além de se ter umas pernas jeitosas, é preciso sentir-se este clube.

Se eu fosse um miúdo, queria ser como o Baía.

Porque os anos passaram e vejo o futebol de outra forma.

Agora sei que os golos e as fintas até são dispensáveis.

Agora sei que o Baía é o Futebol Clube do Porto.

Porque agora, como diz o anúncio, já somos todos crescidos.

2 comentários:

  1. Gostei. Ele um dia volta... para ocupar o lugar que merece. :)

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  2. Acho que nos conhecemos muito antes do que na verdade achamos, porque me lembras tanto os meus começos(leia-se interesse) no universo futebolístico...A diferença é que o meu primeiro idolo foi mesmo o Vitor Baía....

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