quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O charlatão

Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão



No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f'rido

e outro em França (em Inglaterra, no caso) anda perdido



É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra



Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga




No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome


É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra



Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas



Pr'á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d'alguns patacos



É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra



Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão


"Desculpem cantar coisas tão pouco actuais" - José Mário Branco, 24/11/2010, no concerto da Greve Geral após cantar sobre outros charlatães.

2 comentários:

  1. Não são charlatões... são charlatães. E não são só do Benfica... são também do Futebol Clube do Porto. Não se esqueça de tomar os comprimidos para combate à azia! Cumprimentos.

    ResponderEliminar
  2. Tem muita razão, já corrigi. Eu não tenho azia, mas agradeço a preocupação.

    ResponderEliminar