quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Happy birthday, Mr. President

Já devem ter reparado que por poucas vezes nos referimos a dirigentes neste blog. Eu e o M. temos este pequeno problema de amar os nossos clubes e de adorar futebol, aquele que se joga no campo verde, com 11 homens atrás de uma bola. O que se passa cá fora, os jogos de poder e as provocações maliciosas, pouco ou nada nos interessam.

Acreditaram nisto? Então agora falemos a sério. Jorge Nuno Pinto da Costa é o meu herói. Pode parecer uma expressão foleira, mas é isto que eu entendo por um herói. É alguém que me faz feliz, que está do meu lado, que tira dos maus para dar aos bons. Lidera o meu clube desde 1982, já ganhou 55 troféus, é o presidente mais titulado do mundo e venceu ontem um prémio carreira que foi primorosamente ignorado por alguma imprensa.



É geneticamente impossível eu discordar deste homem. Rio-me das suas piadas, comovo-me quando festeja um golo como se fosse o primeiro e imagino-o sentado no sofá a queimar estes jornais na lareira, com um sorriso de felicidade de quem vai ganhar mais alguma coisinha só para os lixar. Ainda bem que não percebem isto: que ignorá-lo ou insultá-lo só o tornam mais forte.

Pinto da Costa é força. É a força de um clube que não conseguia atravessar a ponte para desafiar o poder centralista. É a força de uma cidade e de uma região com uma identidade única. É a força de uma Taça dos Campeões europeus, de uma Liga dos Campeões, de uma Taça UEFA, de uma Liga Europa, de duas Taças Intercontinentais, de uma Supertaça Europeia, de 18 campeonatos, de 12 Taças de Portugal e 18 Supertaças. Vergonhosamente, nunca ganhou uma Taça da Liga, mas tenho a certeza que nem dorme só de pensar nisso.

O nosso presidente nunca se engana e raramente tem dúvidas, como dizia o outro. Já falhou em treinadores (Octávio Machado, como foi possível?!?!?), em muitos jogadores e sobretudo em mulheres. Mas o que é que uma pessoa vai dizer? "Olhe desculpe lá, senhor presidente, mas eu faria melhor"? Quem? Quem é que faz melhor? No mundo, ninguém. Noutros planetas, talvez, não posso negá-lo com toda a certeza.

Aquilo que mais me convence do quanto tenho de idolatrar Pinto da Costa é o ódio dos outros. Aliás, corrijo: é o medo dos outros. Eles esperneiam, eles gritam, eles dormem mal por causa dele. Mais até do que por causa do nosso clube, porque estão convencidos que um dia nós vamos cair. O problema, para os outros, é ele. Dói-lhes a cada palavra, a cada título, a cada sorriso. E isso, confesso, faz-me particularmente feliz.

Neste blog, por poucas vezes posso dizer isto, mas há um sentimento que nos une a Pinto da Costa: respeito. O M., que odeia o meu presidente e lhe deseja a morte sem precisar de o dizer num programa de televisão, ri-se quando o homem fala. Porque percebe o que ele quer dizer, o que ele sente, e gosta da maneira como o diz. Calma lampiões, não atirem o M. para a fogueira. Juro que eles nunca concordam no conteúdo, só a forma é que é apreciada.

Pinto da Costa fez ontem 74 anos. Presidente, espero obviamente que faça muitos mais. Conto consigo para a dureza do dia-a-dia que é ser do Futebol Clube do Porto e lutar contra tudo e contra todos. Juro que faço a minha parte e peço-lhe apenas que de vez em quando deixe o M. ser um bocadinho feliz, porque ele é bom rapaz e eu gosto muito dele.

2011 não foi um ano mau (IV)

Por cada Supertaça Europeia perdida... houve 70 títulos para o clube português com melhor palmarés.

2011 não foi um ano mau (III)

Por cada clube da Segunda Circular que ficou em casa a ver... houve outro do Norte na final da Liga Europa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Falcao, no me jodas

Tento evitar ver-te, lembrar-me do que és, de como me fizeste feliz. O M. de vez em quando lá desabafa:

- "Viste o golaço do Falcao?"

Não, não vi. Nunca vejo. Mudo de canal, viro a página, esqueço-te todos os dias. Insisto que já não significas nada para mim, que a vida seguiu em frente e que outros como tu se seguirão. Tardam a seguir-se. E eu continuo a mentir-me.

A verdade, Falcao, é que não é só o facto de estares longe que me magoa. É estares aí, nesse buraco. Nessa equipa triste, sem ideias, com jogadores tão fracos e com mentalidade de derrotados. Entras em campo para tentar não perder e já não podes ter o discurso que fazia de ti El Tigre. Ao teu lado, hoje, enquanto eras afastado da taça pelo mágico albacete, tinhas o Salvio e o Pizzi. Não tinhas o Hulk, o James, o Moutinho, o Fernando, o Rolando, o Álvaro, o Helton. Tinhas o Salvio. E o Pizzi.

Não te lembras do que fizeste à equipa desse Salvio? Do quanto os humilhaste, de como foste muito maior do que eles? Não te recordas da equipa do Pizzi? Sabes em que lugar está no nosso campeonato? E achas normal que sejam eles agora a passar-te a bola?

Falcao, hoje aguentei ver-te. Vi-te a correr, a pressionar os defesas como só tu sabes, a vires buscar a bola cá atrás para ensinares os outros, a rematares com força, a saltares entre os defesas, a lutares. Lutaste muito. És muito bom mesmo. Mas sabes que mais? Estavas sozinho. Vi outros com o mesmo equipamento do que tu (vestes de vermelho, meu deus, como é possível?), mas estavas sozinho. E não sorriste uma única vez. Porra, Falcao, como tenho saudades de te ver sorrir depois de decidires uma Liga Europa.

És muito melhor do que o atlético de madrid te pode dar. E tu sabes disso. Mas dizes-me constantemente, nos meus sonhos de adepta que ainda te vê de cor azul, que a tua conta bancária está cada vez mais recheada. Que estás logo atrás dos craques do barcelona e do real madrid na tabela dos melhores marcadores. Que estás no melhor campeonato do mundo. Que estás numa "montra".

Falcao, no me jodas.




És a cara deste atlético. É a ti que te conhecem, é de ti que esperam que salves este clube. Os adeptos, naturalmente, perdoam-te tudo. Mas os senhores do dinheiro, os que mandam nisto, esses, melhor do que eu, esquecem-te um pouco todos os dias. Podiam estar a ver-te noutros relvados, a brilhar, quem sabe, com o escudo de campeão ao peito, mas não. Preferem, provavelmente, mudar de canal para não te ver sofrer.

Acorda, Falcao. Vai bater à porta doutro antes que seja tarde demais. Salva-te desse barco a afundar-se. Ao contrário do que possas pensar, a tua ganância não me fez odiar-te. Quero mesmo ver-te no topo. Mas até lá, confesso, ainda me rio quanto te vejo aos gritos para o Salvio e para o Pizzi, como se eles fossem atrasados mentais que não sabem o que fazer com a bola. São-no, é um facto, mas tu não és melhor do que eles. Jogas melhor, tens mais dinheiro, mas preferiste isto ao FC Porto. E isso, para mim, torna-te um desastre total.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Falhei e já segui em frente

Todos nós temos um pouco de adepto idiota, de treinador incompetente e de comentador falhado. Somos os primeiros a insultar um jogador que depois faz um hattrick, a reprovar uma substituição que resolve a partida e a elaborar toda uma vasta justificação para um penalty escandaloso não assinalado contra a nossa equipa. No entanto, raros são os que, como eu e o Duarte Gomes, admitimos os erros.

Este fim-de-semana, estava a ver o clube do Abramovich quando me lembrei de uma história que mostra bem o quanto nos podemos enganar. Foi em 2005, no aeroporto de Bratislava, e tínhamos acabado de ser afastados das competições europeias por um gigante do futebol chamado Artmedia.

Ao meu lado, um senhor de aspecto duvidoso, gabardine bege e óculos pequeninos olhava para um papel no qual estava desenhado um relvado. Comecei a espreitar descaradamente até reparar que estavam lá escritos os nomes dos jogadores do FC Porto da altura. Quem seria tal personagem e o que estaria ali a fazer, no fim do mundo, com ar de quem estava em missão ultra-secreta de espionagem?

Mistério rapidamente resolvido. Perante a minha curiosidade pouco subtil, o senhor lá me explicou num inglês muito torto que era um olheiro do Torpedo de Moscovo e que tinha ido até à Eslováquia para analisar os craques portistas. Depressa se juntou um grupo à sua volta e, numa linguagem entre o inglês, o português e toques acentuados de russo, fizemos o enorme favor de lhe adiantar, em primeiríssima mão, quem era o melhor jogador do FC Porto na época 2005/2006.

“José Bosingwa!”, gritámos todos, quase em uníssono, sem precisarmos de olhar uns para os outros. Recordo que estamos a falar de uma temporada que não estava a correr de feição e em que o lateral direito português estava muito longe de se tornar o jogador a quem agora reconhecemos vários méritos. Bosingwa era, na altura, um dos mais assobiados do plantel e nós não tivemos dúvidas na hora de tentar despachar um jogador para o frio de um clube russo que ainda hoje desconhecemos.

O olheiro, baralhado das ideias porque tinha acabado de ver um Bosingwa com uma exibição miserável em Bratislava, contra-argumentava que tinha achado o Lucho Gonzalez e o Benny McCarthy os melhores jogadores da equipa. Mais uma vez, quase em uníssono, fizemos um “buuuu” internacional, misturado com gestos que envolviam o polegar virado para baixo, bem explícito do quanto o argentino e o sul-africano eram “odiados” pelos adeptos.

O russo, coitado, insistia que o Diego, o Pepe e o Lisandro também lhe pareciam promissores. Não percebia nada daquilo, pá. E nós repetíamos: “José Bosingwa, José Bosingwa, José Bosingwa”. Nunca mais o vi, claro, mas não me recordo de ter havido alguma oferta do Torpedo de Moscovo pelo lateral direito, pelo que devemos ter sido bastante óbvios.

Não são poucas as vezes que me lembro deste senhor e da cara com que deve ter ficado quando viu o Bosingwa no Chelsea por mais de 20 milhões de euros, dois anos depois deste episódio. Aposto que ainda hoje sonha com o grupo de adeptos portistas que, num aeroporto de Bratislava, o aconselhou a comprar aquele jogador quando ele ainda podia ter saído por uma pechincha. Isto se não se suicidou.

O meu encontro com o olheiro do Torpedo demonstra bem como andamos aqui todos com a mania que percebemos alguma coisa disto. Cada vez que vejo o Bosingwa a fazer um corte, a sair a correr e a centrar para a área sinto-me a adepta mais idiota do mundo, a treinadora de bancada mais incompetente de sempre e uma comentadora completamente falhada. Mas enfim, eu reconheço-o. Falhei, segui em frente e continuo a falhar imensas vezes.

Além disso, acho que todos concordamos que, em 2005, o lateral direito do FC Porto não parecia grande coisa. Já o penalty sobre o Belluschi do último sábado nem aqui nem na Lua pode ter passado despercebido a alguém. No entanto, houve dois senhores que não o viram. Azar dos azares, foram o árbitro e o fiscal-de-linha.

Longe de mim acreditar que tanto um como outro teriam algum interesse em não o assinalar. Estou convencida que foi apenas um azar o facto de Duarte Gomes, o mesmo que tornou o benfica-guimarães num jogo de andebol imaginário, ter evitado um penalty que por mérito dos jogadores portistas não veio a ser necessário. Fiquei até comovida por vê-lo a admitir o erro no Facebook, esse veículo de posições oficiais tão apreciado até pelo Presidente da República.

“Falhei e já segui em frente”, escreveu ele. Felizmente, o FC Porto não falhou e também segue na frente. Para azar de todos os adeptos idiotas, treinadores incompetentes e comentadores falhados.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Querido Pai Natal

O M. é ateu, eu sou agnóstica. As nossas famílias têm tanto de crentes como o Luís Filipe Vieira de honesto. O meu sogro tem um nome proibido de entrar em igrejas, o meu pai não entrou numa igreja nem no baptizado dos filhos. Enfim, há todo um espírito religioso nesta casa, como devem imaginar.

O Natal, no entanto, é muito mais do que isso. Fomos educados para sentir esta época pelo que tem de verdadeiramente importante: a família, uns jogos de cartas e muito álcool.

Além disso, o Natal sempre foi, para todos, símbolo de futebol. Nesta altura do ano, há duas tradições sagradas: o FC Porto ter 10 ou mais pontos de vantagem sobre os (vamos chamar-lhe assim para sermos simpáticos porque, afinal, é Natal!) rivais, e o sportem já ter falecido.

Quando conheci o M., percebi que isto era uma certeza nacional, ainda que a primeira parte não fosse motivo de tanta festa como na minha cidade. Este ano, no entanto, não é bem assim.

Começámos a época a dizer que o sportem agora não chegava nem ao ano lectivo e afinal os lagartos ainda estão aí para as curvas. E dissemos logo que, se até ao Natal Porto e benfica não descolassem, íamos sofrer até ao fim.

Os jogos em Aveiro e na Madeira demonstraram isso mesmo. Aquele golo que o beira-mar falha no último minuto não é normal, como não é normal que o benfica não jogue nada mas tenha um emplastro chamado Cardozo a encostá-las lá para dentro quando já ninguém acredita.

Quando o Rui Orlando, da SportTv, gritou golo do Élio, corri furiosa para o quarto enquanto o M. – imagino – sorria. Foram segundos de terror, a questionar-me por que é que aquilo só nos acontece a nós e por que me parece o futebol (qual futebol, o mundo!) tão injusto. Felizmente, foi só um susto (qual susto, quase que morria!) e o FC Porto continua na frente. Infelizmente, o jogo nos Barreiros não acabou aos 83 minutos, quando tudo me parecia tão bem, nem teve um árbitro melhor, que tivesse visto a falta sobre o guarda-redes no lance que origina o golo.

Por isso, Pai Natal, eu e o M. (que, ressalvamos, não acreditamos em ti nem no que tu significas, mas somos boas pessoas) só temos uma prenda a pedir-te: acaba com esta merda depressa para podermos pensar noutras coisas importantes como a crise, o euro e não sei quê.

Por mim, deixo-te já uma sugestão: faz com que o Porto descole e os outros fiquem, como sempre, a lutar pelo campeonato da Segunda Circular. M., sem querer parecer muito infantil... EU DISSE PRIMEIRO, ZERINHAS INFINITOS MIL, QUEM DIZ É QUEM É E EU DIGO QUE SOU CAMPEÃ!!!

domingo, 11 de dezembro de 2011

A orquestra blaugrana



Mantiveram a calma quando o vulcão do Bernabéu explodiu, naquele golo antes do jogo começar. O plano mantinha-se: jogar à Barça, no matter what. O Madrid pressiona, golpeia, corre como nunca, com aquelas listas douradas horríveis na camisola, com CR7 louco para mostrar os abdominais num festejo que o consagre contra o seu maior rival. E o Barça, como se nada estivesse a acontecer, a trocar a bola. Pontapé de baliza e começam a jogar de trás, pontapé para a frente é proibido. Com uma calma doce, poética, como quem ouve música clássica e não um ensurdecedor Bernabéu.

O Barça está longe de um espírito revolucionário republicano contra os falangistas. O Barça está zen. É como se todo o onze jogasse de phones (todos a ouvir a mesma música), alheados do rival, como se não tivessem que olhar para ele. Minha, tua, tua, minha, passa, foge, minha, tua, volta atrás, minha, tua. E a música, sempre a música. Iniesta dança, levita com a bola colada ao pé direito e faz o mundo parar quando sobrevoa Coentrão, como que para lhe tirarmos uma fotografia (a sépia, porque este Barça já é clássico).

Tudo é harmónico, tudo é belo. Ronaldo, que é surdo, falha um golo à Postiga. Uma bizarria, uma coisa de quem, sem sequer ser comparável a quem ouve música, está demasiado tolhido pelos nervos, como um aluno na véspera de uma prova oral mal preparada, que sabe que vai meter os pés pelas mãos e levar-se a si mesmo a falar do que não sabe.

Xavi, o Humphrey Bogart vestido de jogador de futebol, joga como quem fuma. Como se estivesse de gabardina de gola alta, blaugrana. Um cabrão maquiavélico que se ri por dentro de cada vez que afunda a faca mais fundo na barriga do rival. Um rival que, sangrando, correr cada vez mais desmoralizado à procura de uma bola que não vê. Roda sobre os adversários desesperados como quem tira outro do maço. Play it again, Xavier.

O Bernabéu, de súbito, cala-se e, lá ao fundo, começa a ouvir as primeiras notas. Uma valsa quase anti-depressiva para quem está tão longe. Já não há nada a fazer. Fabregas troca a bola melancolicamente, como quem regressa ao seu amor de sempre, perguntando-se, enquanto vê Iniesta continuar o seu solo de bailado, porque perdeu tanto tempo fora dali. Já dizia o Jorge Palma, que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Cesc voa e marca e volta ao recreio da escola, a fingir que é Laudrup, e vê Xavi feliz a dizer-lhe que ele é o Guardiola e é como se tivesse 8 anos outra vez, e nunca tivesse jogado no Arsenal e tivesse a vida inteira pela frente.

O Barça dança, tântrico. Massacra com “meiinhos” estrelas dos 30 aos 96 milhões de outros. Mas não se gaba disso. Dança, diverte-se, como uma noite adolescente inesquecível que guardamos no coração. Com a certeza de um amor que é para sempre, o amor pelo toque, que Cruyff lhes ensinou. O Barça diverte-se e é tão feliz, que enternece. Quando Messi arrancou para dar o primeiro golo, o iPod dos barcelonistas sintonizou-se em Carlos Gardel, lembrou o 2-6 no Bernabéu, a manita, o golo maradoniano nas meias-finais da Champions e sorriu. A música era já nítida, mesmo para quem não estava sintonizado.

Sorriu e lembrou-se da dança que assombra o mundo desde 2008, quando numa tarde solarenga, em Soria, o Numancia lhes ganhou 1-0, num jogo que vi enquanto estudava para o meu exame da especialidade e em que, longe de adivinhar o que aí vinha, me diverti. Como se ouvisse uma música a tocar lá ao fundo.
Depois do 1-3, o Barça continuou. Não com a sofreguidão de uma última noite de Erasmus, como se golear fosse importante, mas com a ternura de quem brinca, como que querendo honrar Romário, que dizia que não gostava de rematar, mas de passar a bola à baliza. Iniesta parecia querer entrar com ela lá dentro e Messi queria tabelar com todos, como quem quer estar com todos os convidados em dia de casamento. Xavi, com aquele ar sério, continuou na dele. À memória dos pés de Fabregas voltavam jogadas ensaiadas contra os rivais da 3ª classe. Para o público do Bernabéu, a música era já ensurdecedora.

E foi assim até ao fim, dançando, que o Barça acabou o jogo. Como se não interessasse o resultado.  Guardiola, de pé, sorri tristemente, como quem dava tudo para que aquilo fosse para sempre e pudesse participar. Minha, tua, tua, minha. A música mais bonita que se tocou na história.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mau perder

Não sei perder. Não sei se já repararam que não sou daquelas pessoas que, na derrota, reconhece o mérito do adversário ou admite que não fomos melhores. Não fui educada para isso e, felizmente, nunca tive de me habituar a tal. Ou seja, podia estar aqui a escrever um longo texto sobre os erros que levaram o FC Porto a não passar um grupo razoável da Liga dos Campeões, mas prefiro começar por dizer que perdemos graças à interferência do árbitro no resultado.

Sim, é verdade que não fizemos o suficiente para passar. Mas o futebol nunca foi de justiças, por isso, se o árbitro tivesse visto aquele penalty e se tivesse expulsado aquele senhor que lesionou o Defour até ao próximo ano, podíamos perfeitamente estar aqui a falar de futuros adversários do primeiro classificado do grupo G.

Pronto, agora vamos a coisas sérias. Uma das vantagens de ir ver o jogo ao estádio é que sou eu que decido o que vejo. E então, depois de uma primeira parte razoável, eu decidi passar a segunda a olhar para o ponta-de-lança do FC Porto. Já sabem que ele não jogou de início, porque a equipa marca mais golos sem o seu avançado, não já? Então eu digo-vos que passei 45 minutos a olhar para uma das piores coisas que já vi com a camisola do meu clube.

Não tenho nada contra o Kléber, juro, até o acho giro (um factor muito importante para uma adepta). E até admito que um dia, depois de muito aprender e de rodar por outros clubes, possa tornar-se um bom avançado. De momento, não o é. Longe disso.

Kléber é um daqueles avançados que precisa de apoio do lado direito, do lado esquerdo, atrás e, se possível, à frente. Tipo Nuno Gomes. É um rapaz que corre muito e até parece pressionar, mas não o sabe fazer, por isso só se cansa. Tipo Postiga. Tem técnica, joga bem com os dois pés e de cabeça, mas NUNCA está no sítio certo. Tipo Hugo Almeida. Não ganha uma bola de cabeça, não se antecipa a um defesa, não consegue ter um rasgo de magia. Quando a equipa quer mesmo, mesmo ganhar, ele sai. Tipo Pauleta.

No final, contam-se às dezenas os remates do FC Porto e, se não me engano, nenhum foi feito pelo seu avançado. Como disse? Pois. É que o rapaz até é matador, quando tem uma oportunidade não falha, o problema é criá-la. E pensam vocês: então são os colegas que não o ajudam. Não, não são. Eu vi com os meus olhinhos o Álvaro Pereira a pegar na bola, cruzar para a área, a bola a passar o defesa... E o Kléber a fazer um movimento incrível de recuo, até ir parar ao meio círculo. Infelizmente, o defesa não chegou lá, não cortou mal e a bola não sobrou para ele. Mas podia acontecer...

A culpa não é do Kléber, muito menos do treinador. A culpa é de quem achou que isto chegava para o FC Porto. Não chega e no mercado que aí vem quero ver o que será feito para colmatar essa enorme falha.

O problema é que não há dinheiro. O FC Porto farta-se de vender jogadores por quantias milionárias, mas acabamos sempre a contar os tostões. Principalmente quando descobrimos que o Falcao, afinal, significou apenas 21 milhões de euros a entrar na conta. Um valor vergonhoso, que pode ser necessário para equilibrar a balança, mas que, desportivamente, nos está a sair muito caro. Ainda por cima, reparamos agora que o Danilo acabou por custar 18 milhões. O rapaz ainda nem sequer chegou e eu não só lhe exijo já que faça na perfeição um corte como o do Maicon àquele venezuelano no último minuto, como estou mesmo à espera que um lateral direito de 18 milhões de euros marque, no mínimo, 20 golos até ao final da época.

E, por falar nesse petiz com vontade de ir à casa-de-banho nas bandeirolas de canto, que tristeza ver o meu clube tão assanhado com tamanha pequenez. Eu não tenho problemas nenhuns em insultar um adversário, assobiá-lo, tornar-lhe a vida difícil a cada toque na bola. Mas gosto de escolher bem a quem o faço. Gosto que sejam rivais temíveis, gosto de odiá-los em proporção à sua qualidade que eu não reconheço e gosto que ele dê importância à nossa rivalidade. Já o fiz com João Vieira Pinto, com João Moutinho, com Cristiano Ronaldo e com Figo. Agora, o Danny???? Por favor... Há 50 mil jogadores melhores do que ele.

Mas deixemo-nos de admitir estes detalhes. O facto é que estamos outra vez na Éróligue e ainda bem, porque não íamos fazer nada à Champions. Pena que assim também tenham "pensado" o náite, o city e afins. Fora o sportem, começo a acreditar que este ano temos competição a sério. Até porque já sabemos como vai acabar a Liga dos Campeões (benfica-barcelona).

Olhemos para o futuro. Vem aí um beira-mar temível nos 0 a 0. E nós temos o Kléber. No final do jogo com o zenit, o jogador brasileiro queixava-se do "autocarro" dos russos. No fim-de-semana temo que venha aí um camião. E o rapaz não tem, claramente, carta de pesados.

P.S. O Djaló admitiu hoje que pode vir a jogar no benfica ou no Porto. Uma espécie de ameaça ao sportem, que tanto chora a sua partida. Eu e o M. queremos apenas deixar desde já por escrito que ele pode admitir vir a jogar nos nossos clubes, mas os nossos clubes não admitem que isso aconteça.

P.S.2 O salgueiros comemorou hoje 100 anos. Um clube mítico, um estádio terrível, uns adeptos ferrenhos que baste. Parabéns salgueiral, voltem depressa!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Velha Guarda

A arquibancada era a minha casa. Habituei-me a ver o jogo lá de cima, entre os meus pais, a ouvir um senhor a gritar ao Aloísio para subir (queria que ele se tornasse o Pepe... um visionário, portanto). Lembro-me da minha mãe aos gritos, sempre que começava toda a gente a bater com os pés no chão para assustar os adversários. A bancada tremia toda. Sentia-me bem ali.

Mais tarde, aos 13/14 anos, a C. convidou-me para ir para a central. Tudo o que tinha de fazer era levar uma bandeira de um jogador para o relvado quando as equipas entrassem em campo. Como devem imaginar, foi a função mais importante que alguma vez tive na vida. Os "grandes" ficavam com as bandeiras das estrelas (Jardel, Deco, Drulovic, Capucho...) e eu era obrigada a ficar com o Secretário, o Chainho, o Peixe... Um orgulho imenso.

Ali ao lado, da Superior Sul, vinha o barulho. Gostava de os ouvir cantar, de ver as bandeiras no ar. O toque final foi num FC Porto-boavista em que os remendados já eram campeões (ainda me custa dizer isto...). Quando marcámos o 4-0, os Super Dragões sentaram-se na bancada e começaram a remar, tal como fazia o Silva, esse avançado horrível. O sentido de humor conquistou-me. O meu clube não ia ser campeão, era o segundo ano consecutivo, uma tragédia!, e aqueles gajos fizeram-me rir.

Foi aí que comecei a tentar perceber como é que uma miúda podia ir parar aos Super Dragões. Conheci o H. e obriguei-o a ensinar-me os cânticos (belas tardes passadas no café a escrevê-los nos guardanapos). Depois conheci o J., que me foi mostrando o fenómeno ultra. Aos 14 anos, dei por mim a preferir estar no quarto a ouvir músicas da claque do Milan do que de uma boys band qualquer, como as minhas amigas. Compreendo agora que não tenha sido muito normal.

Um dia, ganhei coragem e pedi à minha mãe. A resposta ficou algures entre o "nunca" e o "nem pensar". O meu pai não dizia nada. Foram meses e meses de insistência até que, depois de um Porto-farense em que passei o jogo com um olhar triste virado para Sul, a minha mãe me disse:

- Se prometeres que é só um jogo, deixo-te ir uma vez para os Super Dragões. Mas só uma vez! Prometes?
- Claro que sim, mãe.

E nunca mais voltei a outra bancada.

O FC Porto-Sparta Praga foi o meu primeiro jogo nos Super Dragões, no dia 4 de Dezembro de 2001. Perdemos 0-1, pelo que a minha mãe ainda tentou recorrer ao argumento que eu não dava sorte. Ela riu-se, porque sabia que já não havia nada a fazer. O meu pai continuou sem dizer nada.

A emoção foi tanta que, aproveitando o lanço, quis logo ir ao próximo jogo fora. Azar do caraças, era em guimarães. "Nunca", "nem pensar", "nem sonhes". Hoje, parece-me evidente que uma mãe não deixasse a sua filha de 15 anos ir a guimarães com uma claque. Naquela altura, era uma profunda injustiça. Eu era a melhor aluna da turma, nunca tinha dado problemas nenhuns aos meus pais e só queria ir apoiar o Porto. Não havia razão nenhuma para não me deixarem ir (a não ser guimarães ser o estádio mais perigoso deste país, mas isso aos 15 anos parecia-me secundário).

Estávamos em acesa discussão quando, de repente, o meu pai se mete e diz:

- Eu vou com ela.

Fiquei calada e fui direitinha para o quarto, à espera do veredicto do general. Não sei de que é que eles falaram nesses dias, mas o certo é que no fim-de-semana seguinte lá estava eu, em guimarães, com os Super Dragões.

O meu pai tornou-se, assim, o meu companheiro de bola. Hoje, percebo como fui usada para cumprir um velho sonho dele: andar sempre atrás do Porto, com os maiores índios ao lado. Enfim, tenho a quem sair.

Os Super Dragões tornaram-se a minha casa. O J., o M., o P., o L., o F., o N., o B. tornaram-se meus amigos. Os jogos eram só uma pequena parte da nossa cumplicidade. Passávamos horas a pintar frases, a preparar coreografias ou simplesmente a conversar. A velha sede era o local de encontro de gente boa.

Nesse Natal, os meus pais deram-me uma camisola dos SD. Sublinho que, nessa altura, o marketing da claque não era uma coisa propriamente muito desenvolvida. A camisola ficava-me enorme e não tinha as formas de uma mulher. Usei-a milhares de vezes. É verdade que não havia muitas mulheres por ali. Conheci a X. e as S., velhas guardas da curva, mas o resto eram namoradas ou esposas que iam controlar os seus homens.

Uma vez, decidi ir com a N. a um jogo de andebol (não tinha muita coisa para fazer na altura, é verdade). O meu pai não podia ir, por isso tínhamos de ir de camioneta com eles. Recordo que, nesses tempos, os SD iam quase sempre numa só camioneta e que esse não era um belo local para duas miúdas de 15 anos. Quando entrámos, ficou toda a gente a olhar para nós. Tudo homens. Nenhuma cara conhecida. Estava cheia, não tínhamos onde sentar-nos. Um cavalheiro ofereceu o seu colo para as duas. Ao longe, ouviu-se a voz do Presidente:

- Com essas ninguém se mete. São duas de nós.

E ninguém se meteu. Nem naquele dia, nem nunca. Passámos a ser protegidas por todos. Claro que há gente má ali, que não quer saber dos outros e que arranja problemas. Mas, fora esses, havia ali uma família. E ainda há, mesmo que enorme.

Durante esses anos, fui a dezenas de estádios, de Norte a Sul, às ilhas e ao estrangeiro. Gastei uma fortuna (sempre a duplicar, porque o meu pai foi a quase tantos como eu), mas ganhei muita coisa. Os amigos, claro, que ainda hoje são os mesmos. Cresci muito com as coisas que vi, boas e más, e que me abriram os olhos para o que é a sociedade, muito mais cedo do que se tivesse sido uma miúda normal de uma escola de betos. Aprendi a explicar às pessoas que os preconceitos que formam sobre as coisas e as pessoas podem estar muito longe da realidade. Continuei a ser a melhor aluna da turma e a não dar problemas aos meus pais. E fui feliz como o caraças, porque o Porto ganhou tudo.

Hoje, dez anos depois, muita coisa mudou. Mudei de cidade e as prioridades são outras: o M., a família que está longe e o trabalho. A única coisa que se mantém é que continuo a fazer o possível para ir apoiar o meu clube. Terça-feira, lá estarei. Na bancada do costume.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ou acabam com o Rui Santos ou ele acaba comigo

Se há coisa da qual me orgulhava na minha vida, era de nunca ter visto ou lido um comentário do Rui Santos. O derby de sábado tirou-me esse gosto. É que o senhor escreveu um artigo intitulado "Ou acabam com as claques ou elas acabam com o futebol", na sequência dos incidentes do benfica-sportem.

Para o tal de Rui Santos, resumidamente, as claques do antigamente, há muito, muito tempo atrás, apoiavam as equipas. Agora são um bando de gente que só vai aos estádios insultar os adversários, provocar os "agentes da autoridade" (adoro esta expressão!) e praticar crimes. Solução? Acabar com elas.

Ora eu, na minha ignorância de quem nunca tinha lido nada do senhor, recorri à wikipedia para tentar perceber quem será tão brilhante interlocutor. Diz o tal site que é um "jornalista profissional", o que já não é mau, porque anda aí muito jornalista que nem isso é. Ao que parece, esteve 26 anos n'A Bola, de onde deu o enorme salto para as páginas do Correio da Manhã e depois, - acrescento eu - graças à sua bela imagem, para os ecrãs da Sic Notícias. No vasto currículo, surge ainda a internacionalmente famosa petição "Pela Verdade Desportiva", sem a qual, como toda a gente sabe, o futebol português ainda andava na pré-história.

Passando esta fase de delírio, permitam-me questionar que papel tem este senhor no futebol português. Não tem cara de quem saiba dar uns toques, por isso não deve ter sido jogador. Treinador, dirigente ou presidente nem pensar, porque são todos péssimos e corruptos e sei lá mais o quê. Assessor, director ou porta-voz muito menos, porque este senhor não é nada interesseiro. Será que é adepto? NUNCA! Isso estragaria todo o seu - vamos chamar-lhe assim - "trabalho". Árbitro? Nem pensar! São todos uns atrasados mentais. É antes um homem sem clube, sem interesses, sem amigos. Um comentador tão politicamente correcto como absurdamente estúpido. Falamos de um especialista, portanto.

O tal especialista acha que os problemas do futebol português se resolviam com o fim das claques. Ele, que pelos vistos andou 26 anos pelo jornalismo desportivo "profissional", deve ter andado a dormir esse tempo todo.

Mas, caro Rui Santos, não desesperes, porque eu vou ajudar-te. Não sou uma especialista, mas tenho dezenas de estádios no meu currículo e já vi muitas coisas que, quer queiras quer não, fazem parte da essência do futebol português.

Primeiro, falas como se as claques existissem há séculos, quando na verdade são um fenómeno que arranca em Portugal na década de 70, mas que só em 80/90 tem a sua verdadeira explosão. E as claques dessa altura, lamento informar-te, não eram propriamente constituídas por meninos do coro que iam para os estádios gritar que "o árbitro foi extremamente incorrecto". Eu não estava lá, mas já muita gente desse "antigamente" me contou histórias de arrepiar, de encontros secretos sem as tais "forças da autoridade", de invasões de campo semana sim, semana sim, de tochas a arder no corpo de um adversário. Não eram tempos bonitos.

Claro que, ao mesmo tempo, há imagens desses tempos que me arrepiam por outros motivos. Nunca vi uma coisa tão azul como a Curva Sul do Estádio das Antas. Os cachecóis no ar de um antigo estádio da luz com 100 mil adeptos. Os rapazes em cima das redes de alvalade. Tenho inveja de quem viu isso. Contam-me que, nessa altura, era possível irem 10 mil portistas à luz. Porra, devia ser lindo. Mas voltemos ao que interessa.

Em segundo lugar, falas como se insultar um adversário fosse motivo de vergonha para alguém. Eu gosto muito de apoiar a minha equipa, mas também confesso que me dá um enorme prazer lembrar aos lampiões que o glorioso é um filho da grande puta, cantar que o sportem vai ser uma merda até morrer e brincar com a claque do guimarães como se o seu nome fosse mesmo "insane gays". E então? Isso faz de mim o quê? Sou menos civilizada porque, uma ou duas vezes por semana, digo umas caralhadas num estádio ou num sofá? E tu? Tens mesmo cara de quem no máximo diz um "poças". Não suporto falsos moralismos, pá.

Quanto ao provocar a polícia, não deves ter reparado (porque deves estar sempre a estudar o futebol!), mas isso acontece todos os dias, em todo o lado. Desde os vizinhos que fazem barulho só porque sim, aos automobilistas que não percebem o sinal de "proibido estacionar", até mesmo aos jornalistas, que às vezes pensam que estão acima da lei. Sim, claro que há meia dúzia de arruaceiros nas claques que curtem a cena de desafiar a bófia, mas digo-te (e por experiência própria, não porque li na wikipedia) que a grande maioria das vezes são os senhores "agentes da autoridade" que chegam aos jogos com adrenalina suficiente para desatar a arrear em quem aparecer à frente.

Não deves lembrar-te daquelas imagens da RTP em alvalade, do menino a chorar agarrado ao pai, porque os power rangers tinham entrado a matar na bancada, sem motivo aparente além da vitória do FC Porto. Não deves ter amigas que foram espancadas por dois motivos muito fortes: são adeptas do boavista e queriam ir à casa-de-banho. Nunca deves ter levado com um cassetete só porque estavas ali. Nunca deves ter ficado sem cachecol, só porque é azul (ou vermelho, ou verde, ou amarelo...). Nunca te devem ter chamado "animal" ou "besta", só porque gostas de apoiar o teu clube. Eu lembro-me, eu tenho, eu vivi isto tudo. Mas eu não sou especialista.

Como último argumento, resumes as claques a um grupo de criminosos. Deves conhecer imensas. Eu, que conheço, posso tentar explicar-te que uma claque é um exemplo perfeito da nossa sociedade: tens polícias e ladrões (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), tens médicos, professores, advogados e jornalistas, como tens traficantes de droga, ex e futuros condenados, muitos desempregados e várias empregadas de limpeza, tens pais, mães, filhos, avós, famílias inteiras. Um dia, muito brevemente, vou até contar-te como isso me ajudou a crescer.

E, então, defendes que as claques devem acabar. Suponho que nunca tenhas ido, por exemplo, ao Estádio Municipal José Bento Pessoa. Eu já fui. Várias vezes. E sempre que lá vou vejo duas coisas: as claques do Porto e as claques da Naval. Tudo o resto são cadeiras vazias. Sabes o Estádio Municipal de Leiria, esse monumento do Euro2004? Super Dragões, Colectivo e Frente Leiria, é tudo o que conheço de lá. Quem vai ao Estádio da Madeira (eu já fui, e tu?) sabe que vai levar com a claque feminina do Nacional o jogo todo. Nos Barreiros, são as insuportáveis cornetas do Esquadrão Maritimista. As peixeiras dos Tubarões Verdes do Rio Ave ouvem-se ao longe. A Máfia Vermelha do Leixões cheira mesmo a peixe. No São Luís, hoje afundado para divisões que não merece, os South Side ainda gritam por um Farense meio morto.

Como é que tens lata para dizer a esta gente toda que não passam de criminosos? Explica-me como é que se diz a um Pantera Negra, que viaja todas a semanas para ir ver uma sombra do que o Boavista já foi, que gasta assim o pouco dinheiro que tem, que abdica de tudo o resto, que o que ele quer é violência, é crime, é partir tudo? Explica-me como é que a Alma Salgueirista resiste a um Salgueiros falecido, como é que eles ainda se reúnem, como é que continuam grandes amigos? Diz lá a essa gente que aquilo que eles sentem não é amor, não é paixão, é apenas uma enorme vontade de fazer merda.

Os estádios, sem as claques, estavam vazios. Os clubes, sem as claques, não eram nada. O futebol, sem as claques, não existia.

Meu caro Rui Santos, o teu problema é não fazeres a mínima ideia do que falas. Nunca fizeste centenas de quilómetros no autocarro mais velho do mundo para ir ver a tua equipa. Nunca pagaste 100 euros por um bilhete. Nunca tiveste de explicar ao teu namorado que o amor que sentes por ele "é diferente" do que sentes pelo teu clube. Nunca estragaste a tua roupa a pintar frases ou panos. Nunca ficaste sem voz por gritar pelos teus rapazes. Tu nunca estiveste lá. Eu já, e digo-te: é a melhor sensação do mundo.

P.S. Parabéns aos Super Dragões, que fazem hoje 25 anos. O meu próximo texto será sobre eles.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Jogaram como nunca, perderam como sempre

O derby é o máximo dos máximos futebolísticos, o confronto mais importante do que tudo contra o vizinho que nos atormenta, o colega de trabalho irritante, que nos promete goleadas e que não se cala quando empatamos contra uma equipa qualquer. E, portanto, eu odeio o derby.
Odeio o derby porque só a perspectiva de o perder (já lá vão mil e tal dias, mas também já os perdi) é suficientemente esmagadora para eu não o querer jogar. Ganhar o derby torna-se uma responsabilidade tão grande que fico esmagado pelos nervos desde semanas antes, já a antecipar tudo, só a querer que aquilo passe. E o sofrimento por antecipação é tão grande que eu detesto o derby como “aquela altura do ano”, um género de período, mas menos frequente, onde me sinto mal disposto, facilmente irritável e nervoso, com a barriga às voltas.
Durante o jogo não há gozo possível, é uma tormenta constante, é achar que qualquer gajo deles com a bola no meio campo vai arrancar por ali e fazer o Maradona de 86 parecer o Postiga.
No fim deste, além do alívio – 35 minutos com menos um, a ganhar 1-0, num derby, não têm, sequer, termo de comparação de sofrimento para mim – ganhei mais uns tempos sem ter de pensar nisto (pelos vistos, há o perigo de isto se repetir em Dezembro).
Obviamente que, nos últimos anos, o derby tem-se tornado uma coisa mais divertida, mas menos entusiasta. Não há o bichinho, não há a tensão, não há o viver ou morrer em 90 minutos. E isso, para mim, é muito melhor. Quem é o estúpido que quer jogar a vida em 90 minutos, sem sequer poder participar na própria decisão? Quem é que quer a possibilidade de ser gozado por toda a gente no trabalho? Estes tempos de acalmia, de vê-los na toca, foram, para mim, uma bênção. Respeito demais o Sporting Clube de Portugal para ter o discurso de que o mesmo “faz falta ao futebol português”. Honestamente, a bem das minhas coronárias e para não deixar qualquer dúvida: prefiro-os na lama e o ano passado acreditei – piamente – que podiam ter descido de divisão. 


Voltar a encontrá-los enquanto equipa de futebol não era, então, o melhor dos meus divertimentos. E mesmo hoje, três dias depois e já tendo interiorizado que se tratou de um excelente jogo de futebol (facto que seria completamente sonegado se tivesse ficado 0-1 num canto para eles), com oportunidades, bons treinadores (Domingos a parar a construção do Benfica, Jesus a segurar o 1-0), preferia um 2-0 fácil como no ano passado. O ideal, repito, era que eles estivessem na segunda divisão e tivesse sido um jogo contra o Atlético, mas pronto, adiante.
Já não fosse este panorama mau, os Outros decidiram, para meu assombro, jogar à bola, coisa que não se via de listas horizontais desde os tempos d`”O Leão da Estrela” – que era ficcionado, como é óbvio. 


Mais ainda: havia jogadores de riscas que tinham – pasmem-se! – lugar no plantel do Glorioso (inclusive no onze!), facto que só se verificava o ano passado na ausência de alguém para limpar as chuteiras do Aimar ou para, simplesmente, dizer-lhe da minha parte que o admiro.
Coisas da vida, ganhámos 1-0, mandámos duas bolas ao poste e falhámos duas vezes isolados frente ao Rui Patrício. Podíamos, parece-me óbvio, ter empatado ou perdido. Não só porque existem essas três possibilidades no inicio do jogo – o ano passado eram quase académicas – mas porque os verdes, retirando-me sei lá quantos anos de prazer a levar netos ao Estádio da Luz, decidiram jogar futebol e criar perigo, voltando-nos a lembrar porque são nossos rivais.
E este facto tornou-se o grande happening do derby: o Sporting é uma equipa de futebol. Eu sei que tamanha surpresa diz mais sobre os anos anteriores do que sobre este, mas até para campeões de vitórias morais, tamanha façanha me parece, vá, exagerada. Eu sei que o meu clube não tem moral – Chalana, depois de levar dois no Dragão, foi gabar-se de não termos sido goleados – mas não me lembro de nenhum adepto de peito feito. Mas lendo as crónicas e comentários dos do lado de lá, dá a impressão do Benfica ter sido varrido do campo, como se os verdes, enfrentando marés e tempestades, e jogando contra um exército armado, só não tivessem ganho por mero fado, tal a aselhice dos adversários.       


Isto quando o Benfica jogou sem o seu capitão e esteio da defesa, tendo apresentado em campo o Jardel, que defende tão bem como o Mário Jardel agora, gordo e a ressacar de cocaína, e jogou com 10 durante 35 minutos numa expulsão que, até admitindo que foi mais ou menos justa (e agora, Cardozinho, com que cara é que eu te vou defender contra tudo e todos?), faria correr muita e muita tinta se tivesse sido ao contrário ou mudado o resultado. Leio que o Benfica recorreu às bolas paradas como se isso fosse crime, e que os Outros jogaram tão bem que talvez ainda lhes possam vir a ser atribuídos 1 ou 2 pontos, por mérito.
E o facto é que, apesar de terem jogado como nunca, perderam como sempre. Posto isto, concentremo-nos no Campeonato. Quanto aos lagartos (achavam que eu aguentava chegar ao fim do texto sem escrever isto?), depois deste 6-0 em derbies, voltamos a preocupar-nos com eles quando começar o 2º set.
PS: o meu Pai -  tanto, tanto orgulho! – disse isto ontem…ao Eduardo Barroso. Deves ter parecido o Javi, Pai !


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tão amigos que eles são

Os dias que antecederam o derby foram passados a discutir a famosa rede. Perdoem-me se não lhe consigo chamar “zona de conforto”, como se o estádio da luz tivesse passado a ter sofás nas bancadas. Fiquemo-nos pela rede.

Já estive em estádios com a tal rede e posso dizer-vos que a odeio. Acho incrível eu pagar bilhete para ir ver um jogo de futebol e levar com uma coisa aos quadradinhos à minha frente, como se tivesse cometido algum crime. Ao argumento que isso me protege e protege os outros de mim, recordo que os clubes podem escolher o sector para os seus visitantes e que há uns mais perigosos do que outros.

Vou ao novo estádio da luz pelo menos uma vez por ano desde 2004. Dos lados, há um pequeno acrílico e vários stewards a separarem-nos deles. Que eu me lembre, isso nunca trouxe grandes problemas, além das garrafas com líquido amarelo que chegaram a voar… dos camarotes, esse local para as pessoas de bem.

Só por duas vezes tivemos problemas lá dentro. A primeira foi quando Luís Filipe Vieira, no meio de mais uma guerra de dirigentes, decidiu colocar-nos lá em cima, onde agora ficaram os lagartos, mas sem rede. Inevitavelmente, e nestas merdas não me venham com lições de moral porque sabemos que isto acontece em qualquer lado, caíram cadeiras e petardos para quem estava em baixo e a polícia entrou a matar na bancada dos visitantes. Um espectáculo muito bonito, que morreu sem culpa, porque tinha sido completamente impossível prever que as coisas iam correr mal.

A segunda foi quando me tornei campeã naquele estádio e apagaram as luzes. Na altura, ri-me, gritei, festejei. Mas depois percebi o perigo que corremos. Mais uma vez, os culpados, tão fáceis de identificar, saíram impunes.

Portanto, quando soube que o derby de Lisboa ia ter rede fiquei surpreendida. Que eu saiba, nos últimos jogos em casa do benfica, os adeptos do olhanense e do paços de ferreira não partiram aquilo tudo, motivando uma mudança urgente. Ou seja, a direcção do benfica decidiu colocar aquilo propositadamente para o sportem e sem que tenha conseguido justificar a decisão.

E, sublinho, estamos a falar do sportem, um clube cujos adeptos trajam de pólo e sapatos de vela, completamente incólumes no que ao vandalismo diz respeito. Nunca ninguém irá ver lagartos a invadir um campo, de paus e cocaína em riste. Nunca! Nunca ninguém irá ver nazis, extremistas ou simplesmente idiotas naquelas claques. Nunca! Nunca ninguém irá ver duas claques do mesmo clube a digladiarem-se pelo dinheiro dos bilhetes. Nunca!

Se o alvo tivesse sido outro, acredito que as coisas levassem o seu rumo natural: o presidente do FC Porto saltava-lhes ao pescoço, o outro não sabia o que dizer, porque não tinha o papel dos discursos à mão, mas montava a rede de fininho na mesma, e os portistas não iam lá ver aquela vergonha. O futebol português no seu melhor.

No entanto, estamos a falar de presidentes que andam a almoçar juntos, que recebem prémios juntos e que apoiam os mesmos candidatos. E, entre amigos, as coisas são diferentes.

Os lagartos lá foram, passaram pelo que todos passamos quando vamos àquele estádio e viram o jogo aos quadradinhos. Um jogo em que todos sabemos qual foi a melhor equipa em campo, mas que também todos sabemos como uma boa matreirice pode fazer muitos pontos.

Eu, ao longe e a torcer por um empate, passei os primeiros 40 minutos à espera de uma boa dose de pancadaria, com expulsões e lesões à mistura. Nada. Nem uma entradinha mais dura. Tudo pacífico. Chocante. Depois, o benfica marcou e eu passei a torcer pelos de verde. Gritei um penalty do Jardel sobre o norte-americano mais estúpido que eu já vi, mas nada. Nem um encontrão ao árbitro para pressionar. Nem um gajo qualquer de cachecol do sportem a vir dizer como o Capela pode ter tido influência no resultado. Até o Mingos, bem-educado nestas andanças, se calou.

A flash interview e a conferência de imprensa assustaram-me. Acho que num amigável teria havido mais picardias. Comecei a pensar como isto é mau para o Porto, estarem os dois unidos contra nós. Já ia num longo raciocínio filosófico quando, de repente, chegam os dirigentezinhos.

O do sportem, o Cristóvão, veio denunciar os problemas para os visitantes no estádio da luz, uma coisa que eu ando a fazer desde 2004 e ninguém me liga. Isto, quando ao mesmo tempo uns espertos vestidos de verde incendiavam o estádio, ameaçando a segurança dos seus próprios adeptos. Que moral, rapaz.

E, depois, o outro, o porta-voz, ou dirigente, ou assessor, ou lá o que ele é, do benfica. A mandar piadas sobre o fosso, o engraçado. Quanto sentido de humor vai por aí no futebol português, quando um responsável de um “grande” tem a lata de gozar com a saúde das pessoas, sem que ninguém o condene por isso.

E aí fiquei descansada. Afinal ainda há alguém naqueles clubes que se odeia e é disso que eu preciso. Quanto à rede, já regista um grande incidente num só jogo, mas tenho a certeza que ficará pelo menos até à recepção ao FC Porto. Espero que tudo corra bem, mas sei que não vai ser assim, porque nem toda a gente é tão civilizada como eu e o João Gabriel.

Os “amigos” reuniram-se novamente no domingo, sentados à frente da televisão, a torcer pelo finalista da Liga Europa. Tiveram azar, ainda não foi desta. O FC Porto dominou praticamente o jogo todo, teve mais oportunidades, jogou bem e, não fossem aqueles dois minutos à estúpido e um golo mal anulado, tinha goleado uma das melhores equipas deste campeonato.

Infelizmente, no meu clube também há quem não perceba o que é a liberdade de expressão. Eu ensino: há jornalistas de todos os clubes e há critérios editoriais para todos os gostos. O FC Porto não pode achar que tem o direito de dar notícias a um jornal e depois não ter outros a inventarem notícias sobre o clube. Ser do Porto é saber como as coisas são, saber de que lado está a maioria, e aproveitar isso mesmo para nos dar força.

Sim, eu ouvi os comentários e foram uma coisa inenarrável. O braga é que jogou, os adeptos do braga é que se ouviram, e havia lá uma outra equipazinha que está a fazer sombra ao pré-campeão benfica. E então? Não é sempre assim? Em que é que estão a beneficiar o FC Porto ao fazerem essas figuras tristes? Deixem-se todos de moralismos e joguem mas é à bola.

sábado, 26 de novembro de 2011

O nosso derby imaginário

Decidimos inventar as SMS que poderíamos perfeitamente enviar um ao outro daqui a umas horas. A partir de agora, o M. e a C. estão fechados para derby.

M: Detesto-os tanto que acho que eles não deviam poder entrar na Luz.

C: Não te preocupes. Durante o cortejo já ficaram uns quantos para trás. Pelos vistos andaram a atirar-se para tudo o que é buraco na Segunda Circular. Pensavam que estavam a dar camisolas do Capel.

M: Até no cortejo se vê, pela carinha deles, que fique o resultado que fique, eles foram prejudicados. E só hoje - porque são diferentes - vão falar de arbitragem.

C: Claro. O Godinho está a ser entrevistado. Diz que, como foi beneficiado contra o braga, o leiria e o feirense ("só no último mês" - palavras dele!), hoje já sabe que vai ser prejudicado.

M: Coitado do gajo, parece que foi operado. Com azar, foi pelo Eduardo - Mãos de Tesoura - Barroso.

C: Nem lhe fales nisso da saúde. Pelos vistos vai ter de deixar de ser do sportem. Ordens do médico.

M: Olha, a direcção deles vai ficar mesmo com os adeptos? Rogério Alves, inclusive? Era giro vê-lo a invadir o campo com o Fernando Mendes.

C: Drogado por drogado, vai tudo dar ao mesmo. Olha, acabei de ouvir na rádio. Confirma-se que o Luisão não joga. É bom para o empate, que como sabes é o resultado que eu espero.

M: Desde que confirmem que não joga o Liedson, por mim tudo bem.

C: Acho que ainda tentaram recuperar o Djaló, daquela grande equipa dos bons velhos tempos, mas a Floribella não deixou, sacaninha do c#$%&=! Pronto, já vi o onze do benfica no Maisfutebol: Roberto, Luís Filipe, Paulo Madeira, King, Pesaresi, Thomas, Fernando Aguiar, Binya, Tote, Paulo Nunes e Hassan. Confiante?

M: O Emerson cabe nesse onze. Estou a vê-los entrar na bancada, muito enervados com isto da jaula. Eles é mais fossos.

C: Escreve o que eu te digo: se os gajos ganham, amanhã a capa do Record é "LEÃO SAI DA JAULA".

M: O JPereira, esse lagarto desde pequenino, estava a aquecer do outro lado do campo, mas foram agora chamá-lo.

C: Ahahah. Diz aí ao Aimar que ainda estamos no aquecimento. Escusa de se estar a atirar para o chão.

M: O Aimar não se atira para o chão, o chão tem o prazer de tocar no Aimar. Se deixar de mandar mensagens é porque morri com uma bolada: o Polga está a tentar dar toques.

C: FOGE! Olha, acabou de aparecer uma imagem do Postiga aí na bancada. Ao que parece está a pedir a bola e ainda não percebeu que está fora-de-jogo.

M: Que saudades do Inzaghi português. Porra, se o Luís Duque for para a balizar deles, estamos fodidos, com aquela barriga não entra nada. É o verdadeiro "Biggest Loser".

C: E já viste que o Jesus mudou a cor das madeixas? Fico sempre com medo quando isto acontece. A Sporttv está a filmá-lo com o Barbas e o Zé Manel na amena cavaqueira. Estão a passar umas legendas, mas estão muito mal escritas, não percebo.

M: Modo super guerreiro, GANDA JASUS. Olha, lá estão eles: ceeeeepoooooortém. Clássico. Adoro. Muito in, muito colégio São João de Brito. Foda-se, detesto-os.

C: A águia acaba de aterrar na cabeça do Witsel a pensar que era o ninho. Este já não joga também, que pena.

M: O Axel, além de ter o nome daquele cantor pimba, o que o faz ainda maior, até com o Duque às costas partia isto tudo. Só espero que a águia apanhe a carótida do Capel.

C: Começou o sofrimento. Daí consegues dar um abanão ao Cardozo? Parece que já adormeceu no banco.

M: O Cardozo é mais matador a dormir do que o Nuno Gomes acordado e a jogar no Boavista com o Jimmy ao lado. O Emerson entra, definitivamente, naquele 11.

C: Epa, pede mas é ao Javi para parar de chamar isso aos No Name.

M: Os lagartos acabaram de protestar mais por um lançamento do que a Alemanha pela bola do Mundial de 66.

C: O Aimar controla a bola com a mão, passa para o Saviola que está em fora-de-jogo e este remata enquanto o Gaitan está aos saltos em cima do guarda-redes. Enfim, um golo à benfica. Festeja enquanto podes.

M: Até podia ser o Feher a dar o último toque. Sabe sempre bem.

C: O João Pereira foi apanhado pelas câmeras a sorrir para o Jesus e a fazer fixe com o dedo. AHAHAH

M: O rapaz bem tentou ser expulso com o Leiria para ver o jogo com os No Name.

C: Verdade. O intervalo chegou num instante. Houve confusão no túnel. O Sandro está aos gritos a dizer que o Volkswagen lhe deu um pontapé e o Capel um murro. Se ficarem sem jogar contra o Porto, vou já manipular uns frames e mandar ao Rui Santos.

M: Os únicos murros dos lagartos foram os do Sá Pinto ao Artur Jorge. Muito bem aplicados, aliás.

C: Como é levar um golinho logo assim ao abrir da segunda parte? Adorei o Mingos a levantar o fato, mostrar a camisola do FCP e a cantar a do "lampião levaste 5 no Dragão". O meu ídolo, pá!

M: E com as insígnias que o Proença lhe deu no lugar do emblema.

C: Por que é que desligaram a luz? Alguém é campeão?

M: Não, é para termos uma perspectiva do cérebro do Polga quando vê o Cardozo.

C: Explica aí aos teus adeptos que podem parar de gritar por eles, porque o Mantorras e o Nuno Gomes de certeza que não vão entrar hoje.

M: Queria era que explicassem aos adeptos da jaula que é estúpido revoltarem-se com cada pontapé de baliza assinalado a nosso favor. Eu sei que com o Patrício parece um lance de perigo, mas é um bocado exagerado.

C: 10 minutos de descontos. Foda-se, parece o Calabote. O Vieira mandou-se do Terceiro Anel cá para baixo. Estava a tentar matar alguém para depois culpar os adeptos do Porto.

M: Espero que o Vieira caia e de cabeça. Sim, os super dragões são uns anjos empurrados pela sociedade para uma vida de crime contra a qual sempre tentaram fugir, mas que se tornou inevitável (Vamos lá ver se o Jardel não cai na área - sempre prejudicados, os coitadinhos da merda)

C: Fim. Bom para nós o empate. Curioso como mesmo nestas SMS fictícias acabei por levar a conversa de maneira a favorecer o FC Porto.

M: O porto favorecido? Há cada coincidência....

C: O Carriço está a dizer na flash interview que o sportem demonstrou que o benfica não é invencível. E, citando o profeta de resultados Douala, diz que, com o golo marcado fora, basta um 0-0 na segunda mão para serem campeões.

M: O domingos está a mandar mensagem ao pinto: já posso ir para casa? já os fiz empatar! aquilo dos 18 milhões era a gozar, não era?

C: Amor, quando chegares a casa toma banho por favor. Já sabes que não suporto o "cheira bem, cheira a Lisboa". E, se por acaso eu estiver ao telemóvel nessa altura com o Vítor Pereira, a discutir a táctica para domingo, não comeces aos gritos a pedir para ele ficar. Já sabes que depois o Pinto só me dá o Dragão de Ouro lá para 2015. Amo-te, até já*

M: Só chego amanhã, que os lagartos estão no Marquês, não viram o o 2-1 do JPereira na própria (e a SportTV pelos vistos cortou a imagem, para o Rui Orlando não morrer de enfarte). Podes dar a táctica que quiseres, que o Vítor 18-milhões dá cabo de tudo. Amo-te muito, até já*

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A minha rebelião

Ser do FC Porto, por vezes, cansa-me. Na maior parte do tempo, vivo feliz com isso, sorrio às caras mais enfadonhas que vão passando e nem sequer me gabo muito, porque ser do FC Porto é honra suficiente, não tenho de estar sempre a vincá-lo aos pobres sofredores. Mas, às vezes, muito raramente, as coisas correm mal ao FC Porto. E, aí, canso-me.

Canso-me, por exemplo, de abrir os jornais. O critério editorial é: quando o FC Porto ganha, ignora; quando o FC Porto perde, primeira página. E isso cansa-me. Como me cansa também ler notícias que citam fontes super próximas sobre rebeliões e presidentes à beira da morte. Não gosto que o FC Porto seja o centro das atenções. Prefiro mil vezes uma manchete dos três golos do Mantorras no treino ou de uma nova casa do sportem numa aldeia timorense com três habitantes.

Também me canso de falar disso. Com os verdadeiros portistas, discuto tácticas, opções, prós e contras de cada uma das hipóteses. No fim, basicamente, confiamos no presidente. Com os que se dizem do FC Porto, mas que torcem pelos outros, para poderem dizer que tinham razão e que o treinador é uma besta, com esses canso-me. Não sou do mesmo clube do que essa gente. Eu sou dos que apoiam, dos que acreditam, dos que estarão cá para chorar as poucas derrotas de forma tão intensa como para comemorar as muitas vitórias.

Não sou de ir para a baixa gritar a noite toda, nunca fui, nem ando a pedir autógrafos aos jogadores quando tudo está bem. Mas também não sou de ir para o aeroporto dar moral aos adversários quando as coisas correm mal. Nunca irei assobiar o Hulk, para depois, quando formos campeões com 20 golos dele, vir dizer para a televisão que sempre foi o meu jogador preferido. Nunca irei atirar uma tocha para dentro do carro de um treinador campeão (bem, na verdade pretendo passar a vida toda sem atirar uma tocha para o carro seja de quem for, mas nunca se sabe).

Canso-me, sobretudo, de não ver o meu Porto à Porto. A primeira parte em Donetsk trouxe-nos mais do mesmo daqueles 11 rapazes que vestem uma camisola que não sentem. Ao intervalo, visualizei o FC Porto nas primeiras páginas de amanhã. Qualquer coisa simples como "Adeus, Champions", mais complexa como "A Taça e a Champions já foram e o campeonato é para o nosso benfica", ou ainda "O Porto é uma grande merda, o derby de sábado é que vai ser de Alto Prestígio". Mas não. A segunda parte mostrou-me que ainda há algo ali, no meio de tanta gente interessada em ganhar dinheiro, que sabe o que é ser Porto.

Helton foi gigante, Hulk resolve sozinho e Moutinho ainda é Moutinho. A rebelião deles também foi a minha rebelião. Estou cansada de aturar adversários sedentos e, principalmente, falsos camaradas. Ou estão contra nós, ou estão contra nós. Já deviam saber que isso nos torna mais fortes.

Agora é ganhar no domingo e seguir em frente.

P.S. Para os que me acusam de optimismo desenfreado, avisem-me por favor quando chegar ao cúmulo de aplaudir a minha equipa quando ela deixar o maior rival ser campeão no meu estádio, depois de ter levado 5 fora e ainda à espera de uma reviravolta na Taça.



Só descobri este vídeo esta semana, reparem a partir do minuto 1.19

sábado, 12 de novembro de 2011

Ode a Javi Garcia

Gosto de Javi Garcia desde a primeira vez que o vi com o manto sagrado. Um amigável em Amsterdão, contra  o Ajax. Um contra ataque holandês e Javi, implacável, matou a jogada com uma falta dura, o suficiente para sossegar o adversário e não levar amarelo. No olhar, um espírito de missão, uma implacabilidade, um querer maior que tudo, de superação. Javi é o nosso soldado desconhecido.
O Benfica construiu a sua história através de muitos Javis, de muitos homens que, vestidos de vermelho, se superaram. O meu protótipo de jogador do Benfica não é Rui Costa, que era um príncipe e andava de camisola por fora dos calções, com aquele ar meio melancólico, quase poeta. O Benfica, apesar de todos os craques - poetas que teve e terá, é feito de outra massa, é feito dos Paneiras. Paneira era um médio direito que, além da deliciosa finta para fora da qual usava e abusava, era um líder, era um exemplo. Paneira, ao contrário das acusações de Alan, chamou "preto de merda" ao Abel Xavier sem por a mão à frente em Leverkusen. Tudo porque o lateral decidiu subir desalmadamente pela sua ala, quando o Benfica tinha a eliminatória a favor. Abel, que ainda não era louro, mas já era burro quanto baste, voltou atrás na sua decisão sem se preocupar em acusar Paneira de racismo.
Javi Garcia, pelo que põe em campo, pelo que corre, pelo que se mata como homem comum que nunca poderá correr pelo campo como se fosse um poeta, devia orgulhar todos os Benfiquistas. Javi não pode ser acusado de seja o que for, por nós, do Benfica, porque Javi, sem ter um nome tão português como Vítor, já é mais do Benfica do que muita gente (confesso que ia escrever, só para provocar, Nuno Gomes. Consta que assinou um abaixo assinado com o plantel do Braga contra Javi Garcia, o que diz bem do que o desejo de ir a um Europeu pode fazer ao Benfiquismo do Nuno, esse "ponta de lança" que o Cardozo e o seu pé esquerdo vulgarizam todos os dias).
Gosto de Javi porque Javi entra em campo com a faca nos dentes, como se fosse o último dia da vida dele. Gosto de Javi porque os adversários o odeiam. Javi personifica um Benfica que não se acagaça em campo, como o Tavares em San Siro. Estou-me a borrifar para o Alan, estou-me a borrifar para a suposta polémica. Mas apeteceu-me agradecer a Javi, com esta minha modesta contribuição, a entrega. E, em parte, porque torço para que o Javi tenha insultado o Alan do piorio. É, por assim dizer, um regresso a Leverkusen, com um insulto a um gajo com um cabelo péssimo. E porque depois de nos insultarem 90 minutos, apagarem as luzes - tudo com o "nosso" presidente sentado ao lado do deles, haja finalmente um jogador do Benfica que responde, como quem afirma que até sob tiroteio defendia a camisola. É assim que eu vejo Javi, um homem em guerra pelo Benfica.
Não sei se um dia Javi será o nosso capitão. Mas desejo - nem que seja pelo facto de conseguir a proeza de tornar Miguel Sousa Tavares ainda mais azedo - que fique connosco muito e muito tempo. Gracias, hombre!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As princesas da Primeira Liga

O meu irmão joga num clube da III Divisão, o que me dá toda uma outra perspectiva do futebol português. Já esteve em primeiro, agora vai a meio da tabela, mas nada nos garante que não acabe em último. É uma equipa capaz de ir ganhar ao terreno do principal adversário e de logo a seguir levar 4 de alguém que teve a honra de aparecer na Liga dos Últimos. Uma emoção, portanto.

No passado fim-de-semana, graças às novas tecnologias (não às do Rui Santos, mas à máquina de filmar do meu pai), estive a ver um resumo alargado da última eliminatória da Taça, da qual fomos afastados injustamente por uma equipa historicamente envolvida em escândalos e que – pasmem-se – tem dinheiro para andar a comprar brasileiros sem que o Platini os incomode.

A certa altura, a câmara está centrada num jogador adversário, que assim ao longe até parecia ter uma certa técnica, e, de repente, sem que nada o previsse, aparece o nosso trinco de joelho em riste nas costas desse tal rapaz. Falta (que pena o árbitro estar mesmo ali...), pedido de desculpas e siga o jogo em menos de um minuto.

Penso que a minha descrição não é suficientemente boa para que percebam bem a violência do lance, que me fez logo avaliar que, na primeira divisão, o jogador tinha de ser expulso e bem castigado. Ao que o meu irmão, com a calma de quem vê aquilo todos os dias nos treinos, disse apenas: “Essas princesas da Primeira Liga...”

E foi desta frase que me lembrei logo ao ver a grande polémica Alan-Javi. Antes de mais, deixem-me dizer que o braga foi muito melhor do que o benfica durante o jogo e que, se o Porto jogar daquela forma naquele estádio, é caso para os adeptos pedirem a demissão do Pinto. No entanto, parece-me evidente de que lado anda a estrelinha por esta altura, pelo que o empate até acabou por não ser mau para ninguém.

Qual não é o meu espanto quando, um dia depois, o Alan se lembra de vir dizer que o Javi lhe chamou “preto de merda”. Ora, primeiro, parece-me no mínimo curioso que só se tenha lembrado disso no dia seguinte. E, depois, tenho de admitir que sei de fontes muito próximas que não é a primeira vez que alguém chama “preto de merda” ao Alan, por muito que isso vos surpreenda. Eu mesma, confesso, quando ele estava no Porto e parecia ter menos técnica do que um jogador da III Divisão, o devo ter feito por diversas vezes. E não sou racista, porque garanto-vos que já chamei coisas piores ao Kléber e o moço parece um copinho de leite.

No entanto, devo admitir que achei piada ao jogador do braga. É que o alvo não podia ser melhor. O problema racial do Javi Garcia é, aliás, conhecido há muito tempo. Neste vídeo há um pormenor delicioso: é que o jogador do benfica, habituado a estas lides, consegue sempre, mesmo nas ocasiões carregadas de adrenalina como imagino que seja ver o FC Porto a ser campeão na luz, colocar a mão à frente da boca, como um cavalheiro que é. Mas, enfim, não sejamos injustos. Se há coisa que o Javi não é, é racista. Vejamos por exemplo este vídeo. As imagens mostram claramente como o médio lampião não escolhe cores, idades, posições ou preferências clubísticas. À frente dele, vai qualquer coisa que mexa. De fazer inveja ao nosso trinco da III Divisão.

Voltando à equipa do meu irmão, falemos do empate em Olhão. Ao intervalo de um resultado vergonhoso em casa, o presidente do nosso clube da III Divisão ameaçou os jogadores que não lhes pagava o salário deste mês a tempo. Estamos a falar de valores astronómicos, que quase dão para pagar as contas da luz e da água. Não fez efeito, claro, mas gostava de fazer essa experiência no FC Porto.

É que, aos especialistas que vão reivindicando a demissão de Vítor Pereira como resolução para todos os nossos problemas que nos deixam à frente do campeonato, somam-se agora os rumores de descontentamento dos jogadores. Não quero declarar desde já guerra aos traidores porque me lembro do que muitos deles já suaram aquela camisola, mas também ninguém anda aqui a dormir. Há meninos que andam mais preocupados com aumentos, prémios e futuras contratações do que com enfiar a merda da bola na baliza (a bola é preta e branca, será racismo?). E, isso sim, deixa-me doida.

Seria obviamente estúpido retirar-lhes o ordenado, mas para o ano o M. também vai ficar sem subsídios de Natal e de férias e, garanto-vos, nunca tratou um doente como o Kléber me trata a mim. Por isso, é bom que as princesas comecem a correr, porque, apesar de até agora as coisas estarem a correr bem em termos de resultados, um dia teremos de ir a alvalade, à luz e a braga e aí, se não se mexerem, serão mais pessoas a ir ao aeroporto chamar-vos jogadores de merda (eles são pretos e brancos, juro que não é racismo).

Não posso, no entanto, deixar de falar do senhor de preto que não expulsou um defesa do olhanense e que se esqueceu de marcar dois penalties a nosso favor. Uma exibição fortíssima, claramente com influência no resultado, e que, a acontecer a alguém da Segunda Circular, seria motivo para muita merda (ele veste-se de preto, conta como racismo?). Mas deixemo-nos de lamechices de princesas da Primeira Liga, porque isso, afinal, é o pão nosso de cada dia e temos é de olhar para a frente e pisar as adversidades. Como o João Pereira.

sábado, 5 de novembro de 2011

Jet lag de bola

A Austrália é um país lindo. Tem paisagens naturais como eu nunca vi, tem cidades enormes que concorrem com as melhores da Europa e tem um povo simpático e super bem-educado. Na Austrália ninguém passa à frente da fila, toda a gente agradece ao motorista quando sai do autocarro e pede-se desculpa quando alguém vem contra nós. É um país muito estranho para um português, portanto.

E os australianos andam sempre felizes. O que é completamente incompreensível, uma vez que vivem num país praticamente sem futebol. Têm uma coisa chamada footy que é estúpido e têm alguma admiração (não paixão) pelo rugby, esse desporto onde quem ganha não festeja muito para não chatear os derrotados (isso é ridículo, mates!)

A diferença horária para Portugal era de dez horas. Eu e o M. combinámos previamente que não íamos prejudicar as nossas férias por causa dos jogos. Só que não estávamos a contar com um problema: a nossa dependência biológica dos nossos clubes. Assim sendo, foi perfeitamente natural ver o M. a acordar sozinho, sem despertador, às 5.45 da manhã, porque o benfica jogava em Basileia a essa hora. E, uns dias depois, lá estava eu a acordar às 4.10 da manhã, sem ajuda de nada ou de ninguém, porque o meu corpo precisava de estar alerta já no aquecimento do FC Porto - paços de ferreira.

Ao mesmo tempo, os nossos pais iam mandando mensagens. Foi assim que soube que o FCP tinha ganho os dois jogos do campeonato, um por 5-0 e outro por 3-0. Fiquei feliz, mas depois fui ler as notícias. Foi uma vergonha, o FCP não joga nada e o público assobia a equipa. Ainda pensei que o meu pai se tivesse enganado ao escrever os números, mas não, o FCP marcou mesmo 8 golos em dois jogos e ganhou... à rasca!

Já no clube do M. é tudo ao contrário. Ganha-se por 1-0 graças ao guarda-redes adversário e por 2-1 com um falhanço dos adversários nos últimos minutos, mas as notícias são claras: o benfica é o maior e vai à frente do campeonato. A Terra gira sempre para o mesmo lado, mesmo do outro lado do mundo.

Os jogos da Champions trouxeram-me más notícias: duas exibições muito más e uma qualificação que ainda treme. Os sinais preocupam-me, claro, mais até do que o possível falhanço. Percebo que o dinheiro seja necessário, mas até consigo ser racional ao ponto de perceber que a Liga Europa está muito mais ao nosso alcance. Aquilo que não posso perdoar é a falta de vontade e de entrega, isso nunca. Aqueles 11 que estão lá dentro do campo têm sempre de dar o máximo e não há desculpas. Quem não o fizer, não é bem-vindo.

O que também não tem perdão possível é a atitude dos adeptos portistas. Já o escrevi demasiadas vezes, mas cansa-me ver que a estupidez ainda reina no Dragão. Assobiar o Hulk, por exemplo, devia ser considerada justa causa para se ser despedido do clube. Hulk não é só o melhor jogador do FCP, o mais explosivo, o mais decisivo, aquele que mais ninguém tem. Hulk é um jogador à Porto e, apesar de por vezes se perder em fintas ou pintar o cabelo de modo a parecer um pintainho, sabe bem quanto custa aquela camisola, contra tudo e contra todos, porque já o sofreu na pele. Assobiá-lo é dizer não só que não se gosta das dezenas de golos, de passes, de jogadas incríveis dele, mas também que não se percebe a essência do Futebol Clube do Porto.

E depois ainda há os que exigem o despedimento do treinador vencedor da Supertaça e que lidera o campeonato, com vitórias mais folgadas do que... e aí está a velha comparação... o ano passado! Pois é, o ano passado demos 5 ao benfica, foi espectacular e blá blá blá. Mas eu ainda me lembro da bola à barra da académica no último minuto naquele jogo mítico e do penalty falhado pelo setúbal no Dragão também no último minuto. Este ano, provavelmente essas bolas vão entrar. E vocês, seus espertalhões, vão dizer que a culpa é do Vítor Pereira.

Por falar nele, vamos ao treinador. Não sei o suficiente de futebol para o qualificar como técnico, mas gosto de ganhar jogos e ele lá os tem ganho. Os jogadores também não se cansam de o defender, o que me deixa descansada. Mas Vítor Pereira tem, à partida, um grande defeito: aquela cara. Aquela cara de coitadinho cheira a derrota. Eu percebo que não seja uma coisa fácil de conseguir, mas um treinador do Porto tem de ter cara de vencedor, tem de falar bem e de ser assertivo, tem de parecer que, mesmo quando a equipa está mal, só ele sozinho já mete mede aos adversários. E sim, era assim o ano passado, mas esse senhor agora anda a levar 5 do arsenal e a bater recordes de treinador do chelsea com menos pontos alcançados nos últimos anos. Uma carreira de sonho, portanto.

Isto não significa gritar nas conferências de imprensa, mister. Percebo que esteja irritado com os acéfalos que assobiam e que vão de madrugada ao aeroporto insultar, sem perceberem que estão a ser manipulados por uma massa crítica que adora colocar o primeiro classificado do campeonato em causa. Mas assim não. É preciso ter calma e mostrar essa agressividade lá dentro, já hoje, no Algarve. Nós, os que acreditamos em vocês, só queremos ganhar. E isso é tão fácil quando se está no FC Porto...

Voltando à Austrália, foi lá que vi, em directo, através do Skype, a entrega dos Dragões de Ouro. Admito que me emocionei com as palavras do meu ex, mas não foi por estarem a ser ditas por essa pessoa. Foi porque nunca, mas nunca mesmo, nos podemos esquecer delas.

"Dúvida? Não. Mas, luz, realidade
e sonho que, na luta, amadurece.
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.

Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la, de olhos descuidados.
Porto – palavra exacta. Nunca ilude.
Renasce, nela, a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas...
Ó fé de que andam nossas almas cheias!

Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua...
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a torre dos Clérigos, às vezes...
Um anjo dá sinal quando ele parte...
São sempre heróis! São sempre portugueses!

E, azul e branca, essa bandeira avança...
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se “daqui houve nome Portugal”?


«Aleluia», de Pedro Homem de Melo

Força, rapazes!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Elogio à minha namorada

Há quem escreva cartas de amor. As coisas ridículas, etc, etc. 
Eu hoje escrevo à Catarina porque percebi que há coisas que só uma namorada tão fanática como eu me podia dar. A Catarina é bonita, inteligente, tem sentido de humor. É daquele clube, mas eu consigo evitar pensar nisso. O que se passou hoje será motivo de inveja por milhões e milhões de fanáticos por todo o mundo (sim, acredito que este blog é lido a uma escala mundial). 
Vamos de férias e faremos escala em Londres. Outros quereriam ver o Big Ben para tirarem fotografias para o facebook. Não foi preciso conversar com a Catarina para procurar um jogo da Premier League.
O que é extraordinário é que o elogio não é este. Eu sei, eu sei. Muitos de vós, leitores, não eram capazes de convencer a vossa namorada a ver um derby de Londres e isso deve ser absolutamente deprimente. Mas a Catarina está noutro nível. Acontece que nesse dia só o Chelsea - Everton, mas era impossível para apanhar o voo da noite. E eis que a Catarina diz as palavras mágicas: "E da First Division?".
Não sei se cheguei a chorar, mas foi quase. "First Division?". Lamento o machismo completamente retrógrado, mas quantas raparigas no mundo pensariam nisto? E destas, quantas sugeririam, em vez de ir ver o Big Ben, ir a um West Ham - Blackpool? E são momentos como este que me fazem esquecer que a Catarina gosta de um clube que, bom, enfim. 
E pronto, deixei um elogio público à minha namorada. Não por ela ser a mulher mais linda do mundo, que é, mas porque sugeriu irmos ver um jogo da "First Division". Um jogo que pelos vistos também não vamos conseguir ir ver, mas o que conta é a intenção.
A Catarina jura que eu disse: "Nunca te amei tanto como neste momento". É capaz.

Allez Custóias, allez

Não é qualquer clube que consegue ser manchete do «Correio da Manhã». Entre tantos pedófilos apresentadores de televisão, criminosos que matam a mãe, espancam a mulher e violam os filhos e grandes falcatruas de políticos, chega a ser uma honra estar entre tão ilustres companhias.

Infelizmente, é raro ver sequer o meu clube na capa. A não ser que perca, o FC Porto não costuma reunir os requisitos necessários para ser notícia neste jornal de referência. Em sentido contrário, há uma certa equipa que veste de vermelho (e às vezes de cor-de-rosa) que normalmente consegue um destaque ou outro graças a factos tão importantes para o nosso país como «SAVIOLA MARCA TRÊS NO TREINO», «GAITAN TEM UMA NAMORADA MUITA BOA» ou «ARTUR NÃO VIVE EM CIMA DE UMA CASA DE FRANGOS COMO ROBERTO».

Já Pinto da Costa pode orgulhar-se de ser várias vezes chamado à primeira página. Ou porque anda a comer uma brasileira de 24 anos, ou porque está noivo, casado e divorciado ao mesmo tempo, ou porque tem como «acompanhante de luxo» uma concorrente da Casa dos Segredos. Desta vez, no entanto, não é ele a notícia.

Hulk, Sapunaru, Helton, Fucile e Rodriguez foram acusados pelo Ministério Público pelo crime de ofensa à integridade física, devido aos famosos incidentes do túnel. Este crime pode ser punido com pena de prisão até três anos ou multa. Isto depois de passar a fase de instrução, se for a julgamento e se o juiz os condenar. O que, em linguagem «correio da manhês», quer dizer que já deviam estar atrás das grades, a apanhar sabonetes no chuveiro e, se possível, que cada dia lá dentro dê três pontos ao benfica.

Atenção: acho muito bem que os jornalistas acompanhem estes casos e até compreendo que a noticiabilidade disto justifique o destaque num jornal como este. Já não compreendo tão bem a obsessão do Ministério Público por casos já julgados pela justiça desportiva. Desta vez, ainda não tivemos direito a uma equipa especial, com os mais dignos magistrados totalmente dedicados a isto, a canalizar milhares de euros, a deixar de lado investigações menores como primeiros-ministros que financiam outlets por favores. Mas acredito que as equipas das outras prisões já estejam a tremer. A fiar-nos na vontade desta gente, para o ano Custóias terá uma equipa do caraças.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A C., os amigos... e o futebol

Este texto foi escrito pela S., a minha melhor amiga, que não percebe nada de futebol (é do benfica, imaginem...), mas que compreende quando digo que não posso ir ter com ela quando não a vejo há muito tempo porque joga o Porto.

Cresci benfiquista por uma questão hereditária. O meu pai é benfiquista e o meu avô paterno era benfiquista certamente porque algum antepassado remoto decidiu que era um clube com futuro (e não se enganou). Sou benfiquista mas essa herança clubística nunca foi mais do que um acessório engraçado. Sou benfiquista por piada, por simpatia e até mais por empatia pelo benfiquismo do meu pai. Resumindo, sou benfiquista mas isso está longe de me definir. Poderia ser do sportem (ou nem tanto) e não seria uma pessoa diferente. O futebol nunca sobressaltou a minha vida.

Até há 7 anos atrás, quando conheci a Catarina.

A miúda era dos Super Dragões mas tinha os dentes todos. A conversa dela era interessante e os temas variados. Tinha piada e parecia inteligente. Falava de futebol com propriedade e não usava palavrões como pontuação. Não sei se já disse que ela era dos Super. Imaginem a minha confusão perante a antítese do estereótipo das claques.

"Não posso ir aos anos da x. Joga o Porto."

"Tenho que sair mais cedo. Joga o Porto"

"Vou faltar. Vou à Alemanha ver o Porto"

E a esta loucura somavam-se o pai, a mãe, o irmão. Simpáticos, mas loucos, todos eles. Fazia-me confusão aquela agenda que o FCP moldava. Aceitava que havia coisas superiores a nós, como a fé e a religião. A Catarina acrescentou a essa lista o futebol.

A Catarina trouxe cor à minha vida e, quem a conhece, não tem dúvidas relativamente à cor pintada. Aprendi a respeitar e a gostar desse azul forte que, para ela, é um estilo de vida, uma tribo, uma guerra. Lembro-me de adormecer em Roma, na nossa viagem de finalistas, a ouvir a história da claque do Porto e de outras claques portuguesas. E a gostar. Passei a contar histórias da claque e a rir como se as tivesse vivido com ela. Ainda fico meio embevecida quando a oiço discutir futebol com argumentos tácticos que me soam sempre a fórmulas químicas.

Há 7 anos atrás, eu e a Catarina não éramos amigas. Hoje, sou benfiquista também por empatia pela portista que ela é.

domingo, 2 de outubro de 2011

FC Porto mais perto da permanência

Aí está uma sugestão para o pequeno título de amanhã no canto inferior direito da primeira página da d'A Bola, ao lado do "CORAÇÃO DE LEÃO" e por baixo de uma entrevista exclusiva ao roupeiro do benfica, com uma citação super noticiosa, do género "NINGUÉM NOS PÁRA" ou "O JESUS TEM UM PENTEADO MUITA FORTE".

O FC Porto venceu em Coimbra uma equipa forte, que tem feito um bom campeonato e num jogo em que tinha muito pouco a ganhar, mas tudo a perder. É verdade que a pressão existia, após dois empates e uma derrota vergonhosa na Liga dos Campeões. Interna, claro, porque estamos habituados a ganhar sempre. Mas sobretudo externa, daqueles bichos papões que vêem em cada percalço do Porto um passo dado em direcção ao seu desejo imenso de que este clube acabe.

Gostei do jogo. Sem ter sido brilhante, a equipa soube ser eficaz e gerir o resultado. Posso sempre pedir mais, mas, enfim, por agora acho que chega, uma vez que o grande objectivo desta partida passava por evitar ficar a 20 pontos do benfica e a 15 do sportem.

É que os portistas que andam para aí a mandar vir com a sua equipa ainda não repararam, mas nós, mesmo sem perder, estamos a ficar cada vez mais para trás no campeonato. Não é naquela coisa idiota dos pontos, a que nos costuma deixar não sei quantos à frente dos outros. É numa outra, algo de imensurável, quase divino até.

É que eu este fim-de-semana vi os jogos super difíceis da malta da 2º circular, contra adversários tão amigáveis, e vi gente a cantar durante meia hora seguida, estavam aos saltos e a bater palmas, dizem que o benfica é a paixão deles e que o sportem é o seu grande amor.

E tive inveja daquilo. Porra, eles são tão felizes. Eu gostava de andar assim extasiada como aquela gente. Mas não, passei o jogo com a académica a roer as unhas e a pensar que temos de ganhar os próximos jogos todos, para não os deixar escapar ainda mais.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Chamem a troika

Aviso: se és daqueles portistas que fica contente quando o nosso clube perde para poderes dizer que tens razão e que está tudo mal, é melhor não leres.


O FC Porto está em crise. Não ganhamos há três jogos, o que neste clube é algo de muito preocupante e apenas visto em raros momentos em que algo vai mal. E, claro, não nos enganemos: algo vai mal. Mas antes de ir aí, permitam-me evidenciar uns factos à facção portista que está convencida que o mundo vai acabar.

Não temos ninguém à nossa frente no campeonato, já vencemos um troféu esta época e a nossa passagem na Liga dos Campeões não está comprometida. Isto em qualquer outro clube português era motivo para andar tudo no Marquês a festejar. No Porto estamos furiosos. Ainda bem, é bom sinal.

No entanto, temo que esta "exigência" dos adeptos não sirva para nada, além de incomodar ainda mais a equipa. Não defendo, obviamente, que se deva bater palmas depois da derrota vergonhosa na Rússia. Só não percebo em que é que acham que estão a ajudar ao concluir com toda a veemência que o Vítor Pereira é um idiota, os jogadores são todos parvos e que se vocês mandassem é que isto ia tudo ao sítio.

Se há coisa que aprendi com as poucas e passageiras crises portistas é que está sempre lá alguém atento para as resolver a curto prazo. O que me deixa descansada, mas não a dormir.

Para mim, neste momento, há três grandes problemas no FC Porto, que têm de ser resolvidos já, uma vez que os nossos adversários estão muito melhores esta época e, ao contrário do ano passado em que tivemos a vida facilitada, prometem dar luta até ao fim.

1- O cansaço da equipa. É aqui que está, provavelmente, a essência desta crise. Como é possível que, à sexta jornada, os nossos jogadores só aguentem 45 minutos? Comparar o Álvaro, o Moutinho e até o Hulk do ano passado com os deste ano é doloroso. A equipa entra bem nos jogos, com mentalidade vencedora e cabeça para cima, joga para ganhar e normalmente até marca cedo. Mas depois os minutos passam e é vê-los a fazer asneiras, a não correr tanto, a ficar à espera da bola, a passar a bola aos outros para ver se ninguém nota que estão mal. O que se passa? O que terá errado na pré-época? O que terá de fazer o treinador para resolver isto? Como terá de mudar a equipa para evitar este esgotamento? Não sei. E é por isso que a Sporttv contratou o Freitas Lobo e não a mim.

2- A dependência de Hulk. Sim, Falcao faz falta, mas já lá vai e não nos podemos agarrar a isso. Temos um James aparentemente ainda melhor do que no ano passado, mas com um atitude idiota que nos pode ter custado um resultado. O Kléber é bom, mas também ainda não é um dos melhores. Ainda por cima lesiona-se todos os jogos. Eu sei que não sou grande olheira, mas o ano passado, como jogadora de egolo, aprendi que não era bom meter o ponta-de-lança do marítimo porque o gajo estava sempre KO. Aprendi eu, mas pelos vistos não aprendeu quem decidiu não contratar mais ninguém para aquele lugar. E agora vamos ter de arrastar-nos um ano com o Walter a receber um ordenado para ir comer picanha e a equipa sem um ponta-de-lança. Incrível, não é? Estavam à espera de quê?

3- A falta de sorte. Parece um argumento à sportem, mas não deixa de ser válido. Somos os recordistas de bolas à barra, o que nos custou pelo menos um empate com o feirense e a consequente menor confiança para o jogo seguinte. No entanto, acho que o mais evidente é que aquela estrelinha que o ano passado nos acompanhou não mora mais no Dragão. É um pormenor, talvez, mas o benfica que ganhou na Roménia pareceu-me o Porto do ano passado (sempre por cima, também não era difícil devido à "qualidade" dos outros, e um pequeno susto no fim, que, graças à estrelinha, não entrou) e o Porto que perdeu com o Zenit pareceu-me o benfica do ano passado (somos muita fortes, isto está no papo, partantos já marcámos e agora jasus que vêm aí os gajos e já fomos). E sabem o que isto quer dizer, não sabem?

Está na hora de chamar a troika e resolver isto, minha gente. Agora acalmem-se lá e vão mas é a Coimbra apoiar os rapazes.

domingo, 25 de setembro de 2011

Empate, agressões e os anos que já lá vão

Empatámos. Se foi um bom resultado? Foi melhor para o Benfica do que para o porto, sem dúvida. Foi na casa deles, estivemos a perder duas vezes e é um campo onde, infelizmente, raramente nos safamos, sequer. Mais, é um campo onde o Benfica facilmente desiste, entra em tilt, e acredita ele próprio que é impossível virar as coisas. Não nos enganemos, num porto – Benfica no Dragão, historicamente, o porto é favorito. Até nos anos 60 e 70 o era, quanto mais agora. Portanto, assumo sem complexos que fico de certeza mais contente com o empate de ontem do que a Catarina.
O porto dominou a primeira parte – sem ser avassalador, como o seu treinador tenta passar – e o Benfica não dominou a segunda – como Jesus tenta passar – mas foi mais matreiro (ou menos totó que o porto). O empate, por muito que satisfaça menos o porto, é justo. Por mais voltas que se dê, vem-se parar aqui: foi um empate e agora faltam 24 jornadas, logo se verá.
Compreendo as declarações indignadas pedindo uma agressão de Cardozo. Compreendo porque eu também nunca tinha visto uma agressão daquelas, onde um toque nas nádegas dá uma súbita vontade dor de cabeça (Fucile parece ter um AVC). Os jogadores do porto pedem não só a expulsão, como temem que Cardozo os mate a todos no jogo da Luz com este golpe que lembra muito a técnica que a Uma Thurman aprende no Kill Bill, onde com uma série de toques em pontos estratégicos faz o coração explodir. Enfim, o toque de Cardozo foi pior que uma agressão, foi uma coisa de assassino profissional. Os jogadores do porto quando agridem, são pelo menos 3 (Maniche, Costinha e Jorge Costa) e o jogador do Benfica está no chão (Simão). E é uma coisa à séria, com estaladas, mesmo à frente do árbitro. E aí, sim, compreende-se que tenham ficado todos em campo. Agora um golpe no rabo que afecta a cabeça? Irradiação, no mínimo!
Acerca do pano da claque azul: sobre as constantes bocas em relação ao fascismo tenho a dizer várias coisas: em primeiro lugar, lembro que dos dois lados, Benfiquistas e Portistas (sim, aqui com maiúsculas), houve vítimas desse regime escabroso e ordinário. E a esses, os que sofreram e lutaram contra ele, muito obrigado. E esses é que contam. Dos dois lados há muitos Benfiquistas e Portistas que desprezam o Estado Novo e por isso têm o meu respeito.
Agora, não aceito nem nunca aceitarei, essa mentira mil vezes repetida do Benfica como clube do regime, como se o Benfica tivesse ganho só por isso, enquanto o porto perdia porque estava ocupado a planear o 25 de Abril. Ora, após a revolução de 28 de Maio de 1926, nasce o regime que em 1933 passaria a ser designado como Estado Novo. E é durante o fascismo, que Abílio Urgel Horta, que foi presidente do porto duas vezes, consegue do fascismo uma formidável prenda: o Estádio das Antas! Pois é, o mítico “tribunal”, esse símbolo democrático contra os supostamente salazaristas vermelhos, foi financiado pelo fascismo e, vejam lá, inaugurado a 28 de Maio de 1952, exactamente 26 anos depois da revolução. Já o Benfica foi expropriado do seu próprio campo, com a desculpa da construção de uma rua que se concluiu em 1992, e obrigado a arrendar terrenos ao sporting (sim, leram bem) e a jogar no Estádio do Campo Grande entre 1941 e 1954, só tendo conseguido inaugurar o seu estádio 30 anos depois.
Volto a escrever que não estou a chamar fascistas aos adeptos do FCP, nem estou também a dizer que os Benfiquistas foram todos heróis revolucionários e que, sim, houve um aproveitamento do regime fascista das vitórias do Benfica. O que é bastante diferente de colaboracionismo. Como se deve rebolar no caixão Abílio Horta quando os portistas se queixam do fascismo...

Na imagem, Manuel da Conceição Afonso, Presidente do Benfica nos anos 30 e 40. Operário e conhecido anarquista.

Reparei ainda que no pano dos super, o Benfica é representado pelo Eusébio e o porto por Pinto da Costa. E isso é o símbolo de uma diferença muito grande: o maior símbolo do Benfica é, de facto, Eusébio, que jogou futebol, é reconhecidamente um dos maiores de sempre e, que se saiba, nunca aconselhou árbitros sobre questões familiares. E o Benfica já era grande antes do Eusébio (a primeira Taça dos Campeões Europeus foi sem o King) e continuou a sê-lo depois. Já o porto nasceu com PdC e a sua quadrilha. Antes, pouco ou nada era. E depois, como será?