quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O clássico, por Catarina e Manel

Há coisas em que nós os dois somos iguais, como já devem ter reparado. E os clássicos entre os nossos clubes são os momentos em que mais o notamos. É por isso que o M. é a pessoa com quem mais gosto de falar após um Porto-benfica, quer ganhe ou perca. Porquê? Eu explico.

Antes do jogo, eu e o M. nem falámos nisso. Fizemos de conta que estávamos muito preocupados com a situação no Egipto. Falámos das compras que precisamos de fazer e não de quem jogaria do lado esquerdo da defesa do Porto. Jogámos scrabble e cartas, mas nunca mencionámos a falta do Falcao ou do David Luiz. Algo nos convenceu que o clássico depende de nós os dois e do que revelamos ao adversário, pelo que este ritual se há de manter.

Quando faltavam alguns minutos para começar, quebrou-se o silêncio. Mandei ao M. esta mensagem: “Sapunaru, Rolando, Maicon e Sereno. Que defesa de sonho”. Eu sou assim, uma pessimista convicta. E o M. compreende-me: “César Peixoto a titular. Tenham medo!” Enquanto a maior parte dos portistas achava que o Porto ia espetar outros 5 e a maioria dos lampiões estava convencida que o jogo de ontem era a final da Liga dos Campeões, nós estávamos borrados de medo.

É por isso que precisamos de trocar estas mensagens. Precisamos de alguém que esteja mortinho por saber o onze titular. Precisamos de alguém que anteveja a imbecilidade do Maicon e do Peixoto. Precisamos de alguém que não esteja todo contente porque vem aí “um grande jogo”. Porra, é um Porto-benfica. É para sofrer e pode não ser nada bonito.

Começou e logo a seguir surge o 0-1. “Este golo não conta para o Maicon?”, pergunto-lhe eu. “Muito mau mesmo”, responde. Eu sei que ele está todo contente, mas mesmo assim é com ele que insulto aquele cromo que, vá-se lá saber porquê, veste a camisola do FCP. Porque o M. está a rir-se do Maicon, mas também foi comigo que desabafou quando o Hulk passou pelo David Luiz como se ele fosse um boneco.

No 0-2 eu já não tenho reacção. O M. diz só “Que frango...”. Deve estar aos saltos em casa do D., mas diz-me aquilo porque sabe que eu e o Helton estamos de relações cortadas desde que ele sofreu um golo na luz por estar a ajudar um jogador do benfica a levantar-se. Somos ambos malucos e, por isso, achamos que, actualmente, no futebol mundial, já não há guarda-redes de jeito. O Júlio César ameaçou ser, mas não é completamente brilhante. O Cech desde que ficou com a cabeça avariada não é a mesma coisa. E o Moretto ainda está a crescer :)

Há um fora-de-jogo mal assinalado que deixava o Belluschi sozinho e um penalty por assinalar contra o benfica. “Bela arbitragem”, digo-lhe eu. “Não é penalty e o Varela também estava offside naquele centro perigoso”. Claro que acho que ele é cego, mas se fosse ao contrário eu sei que diria a mesma coisa, portanto adoro-o.

Depois Coentrão é expulso. “Roubo inacreditável”, diz ele. “Concordo”, respondo. É que o Cardozo entretanto tinha dado uma cotovelada ao Sapunaru. Como vêem, é possível os rivais estarem de acordo.

Não falamos mais até nos encontrarmos em casa. Acordo o M. para lhe perguntar onde é que vai fazer o altar ao Maicon. Ficamos uma hora a falar do jogo. De como são estranhas as lesões no Porto. De como o Otamendi é melhor que o Maicon. De como tirar o Belluschi para meter o Guarin é um bocado estúpido. De como o David Luiz fez falta ao Porto. De como o Coentrão foi comido mil vezes, mas o povo gosta. De como o resultado teria sido maior se naquela jogada de 4 para 3 os jogadores do benfica fossem bons. De como os comentadores da Sporttv, supostamente um do Porto e outro do benfica, eram ambos do benfica.

Nós entendemo-nos. E estou morta por chegar a casa para nos rirmos dos jornais de hoje. A Bola fez uma capa inteira com um jogo da meia-final da Taça de Portugal, quando em tantos títulos do Porto se esqueceram de fazer o mesmo. O Jogo titula “Jesus e os dois anjinhos”, como que a dizer que o Maicon e o Fernando não são tão portistas como eles. O Record não lemos, claro.

2 comentários:

  1. Mais uma crónica belissima daquela a que ambos nos têm habituado.
    Saudações Tripeirinha

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  2. (mais uma) bela prosa ;)

    parabéns pela clarividência e pelo Desportivismo ;)
    as Amizades são assim.

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs!

    Tomo I

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