quinta-feira, 28 de julho de 2011

O vizinho que afinal está vivo

Vir morar para Lisboa trouxe-me para todo um novo mundo em que quando é golo do Porto o prédio não treme. Aqui, estranhamente, não se festeja cada golo de um adversário do benfica ou do sportem como se disso dependesse a nossa vida. Confesso que ainda hoje me custa ser a única a gritá-los quando o silêncio se instala nos outros apartamentos.

Os nossos vizinhos são maioritariamente lagartos. Descobrimo-lo da melhor maneira: começámos a ouvir as conversas de vão de escada, os queixumes do dia-a-dia, os gemidos de quem sofre intensamente por um destino trágico impossível de evitar. Os nossos vizinhos andam muito calados, portanto.

No entanto, há um lampião que anda a disputar comigo e com o M. o título de "mais louco do prédio". Mesmo antes de o ver pessoalmente, já o conhecia muito bem. Conhecia a sua voz (dos gritos que dá até nos jogos a feijões), os seus gestos (às vezes ouve-se um ou outro móvel com problemas), os seus gostos (o Nuno Gomes era tipo deus, o Cardozo é um grande estúpido) e a sua cegueira (três ou quatro penalties por jogo a favor do slb, no mínimo).

Este vizinho, que eu tive de aturar na época de 2009/2010 com muito sofrimento, acordou o monstro adormecido da má vizinhança que há em mim. Eu, que até vir para Lisboa não sabia ver jogos no sofá, era uma rapariga calada, quieta até, descansadinha a ver um jogo pela televisão. Agora, vou gritar cada golo à janela para ele ouvir melhor. Grito muito os do Porto, mas dá-me um gozo especial rir-me nos golos contra o benfica. Saem insultos da minha boca que ecoam no prédio e assinalo cada falta com uma convicção tal que qualquer dia está aí a FIFA a bater à porta para me nomear.

O homem, coitado, viu o Porto a ser campeão na luz, a fazer aquela reviravolta na Taça, viu o benfica a ser derrotado em Braga e o meu clube a vencer a Liga Europa. Um dia, algures em Junho, eu e o M. acordámos e vimos o aparato lá fora: duas ambulâncias e um carro do INEM. Olhámos para o pátio e lá estavam eles em casa do famoso vizinho. Saímos para trabalhar e, dois dias depois, vimos a família reunida nesse apartamento, todos de luto, com um silêncio que me deixou a pensar.

Pensei no quanto aquele homem me devia odiar, claro, mas pensei sobretudo em como o futebol é relativo: pensamos muito nele, vivemos até muito para ele, mas nestas alturas sinto-me uma merda por não conseguir desejar que o benfica tivesse ganho alguma coisa para aquele vizinho não ter sofrido tanto em vida.

E esta semana, assim do nada, aparece-me o homem à frente! De boné do benfica e aquele ar tresloucado que, afinal, caracteriza qualquer um de nós, que precisamos urgentemente de futebol a sério para regressar ao normal. Apesar da última época, ele sobreviveu!

Fiquei sem perceber o que aconteceu naquela casa, mas confesso que fiquei contente: este ano, continuo a ter uma motivação para ir gritar golos à janela.

4 comentários:

  1. ... e apresentar-lhe (presentear-lhe) o nosso melhor sorriso quando a Vida nos corre de feição, mesmo num infortúnio do nosso clube do coração ;)

    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs! ;)

    Miguel | Tomo II

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  2. O teu problema é viveres com o mal do SLB, um clube que passe o que passe será sempre o maior de Portugal queiras ou não queiras...Em relação aos penaltis, tu falas porque o FCP e os árbitros têm uma relação tão boa que até viagens oferecem...só isso, porque o apito dourado foi tudo invenção de um maluquinho qualquer...Mas este teu ultimo post és a imagem de mais uma Portista "reles" que se preocupa mais com a derrota do SLB de que com a vitória (nem que não seja com a ajuda do arbitro)... Isso é triste… Vive mais o teu clube e deixa os outros em paz…

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  3. o segundo Miguel também não convive lá muito bem com o sucesso dos adversários directos. preferiu comentar o teu post ao invés do dos reforços dos coisinhos...

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  4. ah ah ah ah estou a chorar a rir ha ha ha é este ano que o teu vizinho vende a casa ha ha ha ha

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