quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Carta aberta a Radamel Falcao

Escrevo-te um texto à uma da manhã porque não consigo dormir de tanto pensar em ti. Receio olhar para as capas dos jornais e ver lá a notícia. Dou por mim a pensar naquela bola que recuperaste no meio campo. Revejo aquele teu golo decisivo. Lembro-me tão bem daquele teu sorriso para mim, na bancada, ou para qualquer outro adepto que já sente a tua falta.

Sabes, Falcao, eu gosto mesmo de ser do Futebol Clube do Porto. Tenho 24 anos e já fui muito feliz por causa deste clube e dos jogadores que por cá passaram.

Na escola não jogava à bola com os rapazes, claro, mas entrava nas conversas teóricas sobre quem seria mais imprescindível: Domingos ou Kostadinov? Sabia que o Folha (o Richard Gere português) e o Jorge Couto não eram craques, mas batia-lhes palmas pela entrega.

Vi chegar o Drulovic e aquele pé esquerdo inconfundível, que nos apresentou as trivelas muito antes do Quaresma. Vibrei com o maluco do Yuran, roubado ao eterno rival. Achei que o Edmilson e o Artur deviam ser titularíssimos da selecção brasileira. Até o Sérgio Conceição me chegou a parecer uma estrela.

Depois, mais crescida, tive o prazer de ver jogar Mário Jardel. Porra, que saudades. Aquele jeito tosco de meter a bola lá dentro. De cabeça, de ombro, de costas, com uma bomba fora da área de pé esquerdo (FCP VS farense). Nunca tinha visto uma coisa assim. E o Capucho, as melhores pernas de sempre do futebol português, a entregá-las de bandeja.

Também levei com muita porcaria. Muitos Pizzis, Alessandros e Romeus. Um Clayton que um dia se lembrou de marcar um golo à Maradona em Berlim. O Pena, que por obra e graça de nosso senhor jesus cristo chegou a ser o melhor marcador do campeonato. O Postiga, enfim, que tu deves saber o que vale.

Já na adolescência, veio o McCarthy, o rebelde das cabeleireiras, e aquela música que comecei a entoar por vários estádios. O Porto, nessa altura, deixou de ser só o meu clube. Era também a minha missão. Cantei pelo ninja Derlei, o ídolo das conquistas europeias, e pelo Jankauskas, só porque o cântico era giro.

Desesperei com o Hugo Almeida e vi o desconhecido Bruno Moraes a marcar aquele 3-2 contra os vermelhos na baliza mesmo à minha beira. Esperei que o “fabuloso” Fabiano se revelasse e o Sokota revelou-se um fiasco. O Adriano deu-me uns campeonatos, o Jorginho fez-me gritar tanto em alvalade e o Renteria matou-me com aquele golo falhado de baliza aberta na luz.

O Lisandro, esse, cheirou-me logo a craque. O raio do argentino era tão bom. Sempre a correr, sempre em todo o lado e a marcar que se fartava. Mesmo tendo nascido tão longe e com aquele sotaque muito pouco nortenho, era um jogador à Porto. Mas depois lá tive de me despedir dele. Foi para o Lyon ganhar mais dinheiro. Está num clube pior e se tivesse ficado tinha ganho muito mais. Mas é sempre assim que o filme acaba.

Por isso, já estou preparada. Eu sei que vais embora, como todos estes avançados que, pela porta grande ou pela pequena, lá foram saindo. Sei que qualquer anormal com 45 milhões de euros no bolso não te vai deixar escapar. Deste demasiado nas vistas. Tornaste-te, a meu ver, o melhor ponta-de-lança do futebol actual e isso é capaz de ter chamado a atenção dos gajos. E, vás para onde fores, de certeza que vais ganhar muito e conquistar outros adeptos, porque és daqueles casos raros que ainda sabe o que vale uma camisola.

Ainda assim, Falcao, à uma da manhã, escrevo-te a pedir que fiques. Esquece o dinheiro, a ambição de outros campeonatos e o sucesso que, mais cedo ou mais tarde, vais alcançar. Por um momento, por esta portista que não consegue dormir, pensa no quanto te queremos, ouve-nos a cantar para ti... e fica. Só mais um aninho, para tentarmos chegar mais longe do que na época passada. Depois podes ir à tua vida. E, para nós, como diz a canção, serás dragão até ao fim.

3 comentários:

  1. @ C.

    tal como diz o reclame, no vídeo em causa: «eu acredito!».
    «acardito» que ele ficará para sempre no nosso coração. o último grande jogador que permaneceu no clube por amor genuíno à camisola foi o João Pinto, vulgo "broas". e o Paulinho Santos.

    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs! ;)

    Miguel | Tomo II

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  2. É como imenso orgulho que li as suas palavras, e fez despertar as mais variadas memorias do nosso porto campeão, tenho 30 anos e a minha vida é so conquistas.
    Obrigado Porto, o meu clube!
    Tiago Cunha

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  3. Querias tu que ele ficasse... :)

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