sexta-feira, 2 de setembro de 2011

90 minutos à Pepe

Peço desculpa, mas só agora é que consigo falar deste tema com a frieza, imparcialidade e seriedade que tanto caracteriza este blog. A Supertaça europeia já foi há uma semana e finalmente eu estou preparada para dizer que o barcelona mereceu ganhar. Que fique registado, portanto, o momento histórico em que um dos autores deste blog reconhece com especial rectidão que a equipa adversária jogou melhor do que a sua.

Ora bem, quem ouvir isto até pensa que o barcelona é, sei lá, a melhor equipa de sempre. Eu, por acaso, até acho que é. Mas eu só tenho 24 anos e uns vídeos do YouTube, portanto também não sou grande coisa. Só sei que eles são umas bestas dentro de campo.

Até à passada sexta-feira, eu adorava ver o barcelona jogar. Aquele tiki-taka, aquele Messi, aquele Xavi, aquele Iniesta, tudo junto é mais do que suficiente para pagar a nossa Sporttv (sim, nós somos muito poupados, nunca jantamos fora nem vamos ao cinema, mas há mínimos senhor ministro das Finanças). Só que eu nunca tinha jogado contra este barcelona. E eu, que sempre fui uma felizarda, posso dizer-vos com toda a prontidão que foram os piores 90 minutos da minha vida.

É horrível jogar contra aqueles gajos. Eu até passei a semana a ignorar o jogo, convenci-me que estava perdido e que não valia a pena pensar nisso. Mas depois o árbitro apitou e eu tive de me tornar no Pepe. Perdi a conta às vezes em que entrei de carrinho ao Messi, fui expulsa por agredir o Xavi ou rasguei a camisola do Iniesta no desespero.

Vocês não imaginam (nem eu, confesso) a minha cara de pânico durante os 90 minutos. E isto, saliente-se, com o Porto a entrar muito bem no jogo, a pressionar relativamente alto, a obrigar o barcelona a falhar passes (SIM, EU CONTEI E FORAM PARA AÍ UNS TRÊS!!!!) e a ser organizado o quanto baste para não levar 5 ou 6. A minha equipa, devo dizer, foi brilhante. E conheço muito poucas que pudessem dizer o mesmo.

Mas depois houve aquele miúdo. Só para vos contextualizar: estávamos a ver o jogo numa localidade algarvia, num apartamento reservado a portistas (e ao M., enfim), com as esplanadas lá fora cheias de adeptos do barcelona desde pequeninos (falo de pessoas que nunca jogaram uma Supertaça europeia, só para verem o nível). E, de repente, lançamento lateral para o Porto no último terço do campo. E o miúdo: GGGGGGGGGOOOOOOOOOOLLLLLLLLLLLLLOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!

Ora, se ele está lá fora a gritar golo e eu sei que a televisão está atrasada em relação às outras, é porque... oh meu deus... será???? É GOLO NOSSO CARALHO!!! VAI SER, VAI SER!!! GOLO! GOLO! VAMOS GANHAR ESTA MERDA!!! É TUDO NOSSO! ATÉ OS COMEMOS! ONDE VAIS COM A MERDA DA BOLA HULK???? POR QUE É QUE A PERDESTE SE VAI SER GOLO NOSSO MEU GRANDE ESTÚPIDO???? MAS QUE RAIO ESTÁ A FAZER A BOLA NUM GAJO DO BARCELONA SE VAI SER GOLO NOSSO?!? OH FODA-SE QUE A TELEVISÃO ESTÁ MESMO ATRASADA! VAI É SER GOLO DELES! VAMOS LEVAR 5 OU 6, É O FIM DO MUNDO, QUERO QUE ISTO ACABE, EU QUERO MORRRRRRRRRREEEEEEEEEERRRRRRRRRRR!!!!

E nada. Nem uma jogadinha de perigo. O monólogo anterior passou-se na minha cabeça durante cerca de 30 segundos e, no fim, tudo o que consegui dizer foi "puta que pariu o miúdo que nos enganou". Ainda bem que o miúdo não era meu conhecido, meu familiar, ou até meu filho, porque ia ser difícil explicar aos senhores da Segurança Social que eu o tinha espancado, mas por uma razão perfeitamente compreensível.

O que aquele rapazinho conseguiu foi fazer-me acreditar, por um momento, que conseguíamos ganhar aquilo. E podíamos ter ganho. Quem sabe se o árbitro não tivesse roubado. Quem sabe se o Falcao não tivesse saído. Quem sabe se o Messi tivesse desejado ser pescador. Mas aquilo não se faz e os pais deviam saber educar os filhos para estas coisas.

No fim, estava exausta. Frustrada, claro, porque sou uma perdedora espectacular. Triste, obviamente, porque o mundo só faz sentido quando o Porto ganha. Mas sobretudo cansada. Cansada pelos 90 minutos mais intensos da minha vida, onde fui guarda-redes, fui defesa, fui avançado, fui o Pepe, fui adepto, fui treinador, fui o gajo que vai levar a água, fui o maluco que partiu a perna ao Messi, fui o anormal que deslocou a anca ao Iniesta e fui o terrorista que disparou contra eles todos.

Enfim, uma semana depois, pelo menos já passou. E há uma coisa que eu não me esqueço: é que nós estivemos lá. E vocês?

1 comentário:

  1. Belo post!

    Excepto o último parágrafo, onde era desnecessário picar infantilmente os rivais.

    Todo o resto do post é a prova de que é possível escrever um belíssimo texto sem descer o nível (palavrões são de outro campeonato).

    Manda vir mais destes.

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