quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Eu, ex-anti-Moutinho, me confesso

Há quem diga que há uma vida antes e depois de Cristo. Há até um calendário todo catita, com um 0 no dia em que o rapaz nasceu. Segundo o meu vasto conhecimento cristão, sei que, para trás, ficam os homens-macaco de a. C. e, para a frente, ficam as grandes civilizações de d. C.. Eu, que só sou crente quando vejo que é possível o Postiga marcar um golo, acho que há um Moutinho antes e depois do Verão de 2010, um macaco que se transformou num dos melhores.

O Moutinho a. V. era o maior palhaço do futebol português. Estava constantemente a atirar-se para o chão, rebolava que nem uma menina (adoro esta expressão, sobretudo porque sou menina) e fazia queixinhas aos árbitros, com aquela cara tristonha de rapazinho infeliz. Eu, sempre com a minha grande visão de futuro, nem sequer achava que ele valia alguma coisa. Quando lia nos jornais que tinha sido o melhor em campo do sportem, pensava: "bem, é o sportem, não é difícil". Quando ouvia os comentadores chamar-lhe "coração de leão", vomitava. Quando via os lagartos a idolatrarem-no, tinha cada vez mais a certeza de que o odiava.

Há muita gente que ainda hoje me recorda o meu ódio ao Moutinho a. V.. E, sim, confesso que ele era enorme. Durante anos, ir a alvalade quase que se resumiu a passar 90 minutos a insultar o "anão", "pigmeu" ou "gnomo", com algumas palavras pelo meio como "filho" e "da". Ele tirava-me do sério mesmo. Já nessa altura alguns me tentavam dizer que um ódio assim quase que tocava no amor. O que eu, devidamente fundamentada nos meus sentimentos, desmentia categoricamente.

E, depois, chegou o dia 0. 3 de Julho de 2010. Moutinho no F. C. Porto por 11 milhões de euros. Que grande estalo na minha cara. E agora? Como é que é possível que alguém (voltando à gíria religiosa, neste caso, o Papa) o ache "um jogador à Porto"? Não quero que a camisola do meu clube vá parar àquele corpo que tanto me apeteceu espancar nos últimos anos. E este dinheiro todo porquê, se ele não vale nada?

Foram dias difíceis no mundo de Catarina. Mensagens de amigos a gozarem-me. O rosto incrédulo do M., confuso entre o "ok, vai ser mais fácil ainda odiá-lo no Porto" e o "se o Porto o foi buscar é porque é capaz de o gajo ser bom". Os pais com aquele "eu bem te disse...", porque já me tinham avisado desta possibilidade.

Até que o vi com a camisola azul e branca. Primeiro, pareceu-me logo maior. Os substantivos "anão", "pigmeu" e "gnomo" deixaram imediatamente de fazer sentido. O M. diz que é por causa das drogas. Eu acho que é mesmo uma questão de clube. Segundo, porque passou a ser o "Juoum" Moutinho, o que lhe deu logo outra auto-estima. Depois, vi-o a jogar. Mas vi com os meus olhos muito azuis, não com aqueles olhos vermelhos de raiva com um adversário. E, porra, como o gajo é bom!

Numa equipa onde havia um Falcao e um Hulk, um Helton na melhor forma de sempre, surpresas constantes com Belluschis, Guarins e afins, era difícil para alguns olhar para ele. Nos jornais, deixou de ser consecutivamente o melhor em campo. Para os comentadores, não era certamente o "coração de dragão". Mas a nós, aos adeptos, conquistou-nos.

Conquistou-nos com aquela postura correctíssima dentro e fora de campo (o M. diz que ele continua a atirar-se para o chão, mas isso é porque ele não vê as constantes agressões ao Moutinho d. V.). Conquistou-nos com a garra, a vontade de dar tudo, o espírito à Porto. Conquistou-nos, sobretudo, porque joga sempre, sempre bem.

Sim, estou apaixonada por este Moutinho d. V.. Acho que ele é dos melhores médios do mundo, faço "uhhhhhhhhhhhh" quando ele faz aqueles passes maravilhosos, insulto todo aquele que se atrever a tocar-lhe. E fiz de tudo para que ele ficasse por cá, porque gajos que preferem o atlético de madrid ao Porto há muitos, mas Moutinhos d. V. já não se fazem.

Numa ida a pé à Senhora da Graça, nestas férias, desabafei que o estava a fazer como promessa para que ele não saísse. Foi uma graçola para os companheiros de viagem, desgastados por horas a caminhar debaixo de um calor abrasador. Eu sabia que havia uma pontinha de verdade naquilo, só não sabia que havia alguém mais maluco do que eu. É que, quando chegámos ao cume, na igreja, havia um livro onde os mais crentes escreveram à Nossa Senhora. Pediam-lhe saúde, amor e até dinheiro. O meu pai, que nisto da crença só mesmo quando vê um golo do Djaló, escreveu: "FAZ COM QUE O MOUTINHO FIQUE!". Assim mesmo, tratando-a por tu, porque nisto dos pedidos mais vale ser directo. E ela fez.

A Senhora da Graça, portanto, é uma gaja impecável. E o Moutinho faz hoje 25 anos. Parabéns, campeão!

3 comentários:

  1. « parabéns a você / nesta data querida », C. por mais um post repleto de categoria - tal como Moutinho ;)

    ps: parafraseando um Amigo comum, logo à noite não poderemos fucilitar! ;)


    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs! ;)

    Miguel | Tomo II

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  2. Desconhecia este blog e vim aqui ter por acaso após ter visto o Moutinho ter marcado mais um golo hoje e feito uma grande exibição.

    Resta dizer...Quem o viu e quem o vê...Está crescido o miúdo :)

    Bom blog

    Cumprimentos

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  3. Para o ano lá estaremos, o ue valos por no livro, logo se verá!

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