sábado, 5 de novembro de 2011

Jet lag de bola

A Austrália é um país lindo. Tem paisagens naturais como eu nunca vi, tem cidades enormes que concorrem com as melhores da Europa e tem um povo simpático e super bem-educado. Na Austrália ninguém passa à frente da fila, toda a gente agradece ao motorista quando sai do autocarro e pede-se desculpa quando alguém vem contra nós. É um país muito estranho para um português, portanto.

E os australianos andam sempre felizes. O que é completamente incompreensível, uma vez que vivem num país praticamente sem futebol. Têm uma coisa chamada footy que é estúpido e têm alguma admiração (não paixão) pelo rugby, esse desporto onde quem ganha não festeja muito para não chatear os derrotados (isso é ridículo, mates!)

A diferença horária para Portugal era de dez horas. Eu e o M. combinámos previamente que não íamos prejudicar as nossas férias por causa dos jogos. Só que não estávamos a contar com um problema: a nossa dependência biológica dos nossos clubes. Assim sendo, foi perfeitamente natural ver o M. a acordar sozinho, sem despertador, às 5.45 da manhã, porque o benfica jogava em Basileia a essa hora. E, uns dias depois, lá estava eu a acordar às 4.10 da manhã, sem ajuda de nada ou de ninguém, porque o meu corpo precisava de estar alerta já no aquecimento do FC Porto - paços de ferreira.

Ao mesmo tempo, os nossos pais iam mandando mensagens. Foi assim que soube que o FCP tinha ganho os dois jogos do campeonato, um por 5-0 e outro por 3-0. Fiquei feliz, mas depois fui ler as notícias. Foi uma vergonha, o FCP não joga nada e o público assobia a equipa. Ainda pensei que o meu pai se tivesse enganado ao escrever os números, mas não, o FCP marcou mesmo 8 golos em dois jogos e ganhou... à rasca!

Já no clube do M. é tudo ao contrário. Ganha-se por 1-0 graças ao guarda-redes adversário e por 2-1 com um falhanço dos adversários nos últimos minutos, mas as notícias são claras: o benfica é o maior e vai à frente do campeonato. A Terra gira sempre para o mesmo lado, mesmo do outro lado do mundo.

Os jogos da Champions trouxeram-me más notícias: duas exibições muito más e uma qualificação que ainda treme. Os sinais preocupam-me, claro, mais até do que o possível falhanço. Percebo que o dinheiro seja necessário, mas até consigo ser racional ao ponto de perceber que a Liga Europa está muito mais ao nosso alcance. Aquilo que não posso perdoar é a falta de vontade e de entrega, isso nunca. Aqueles 11 que estão lá dentro do campo têm sempre de dar o máximo e não há desculpas. Quem não o fizer, não é bem-vindo.

O que também não tem perdão possível é a atitude dos adeptos portistas. Já o escrevi demasiadas vezes, mas cansa-me ver que a estupidez ainda reina no Dragão. Assobiar o Hulk, por exemplo, devia ser considerada justa causa para se ser despedido do clube. Hulk não é só o melhor jogador do FCP, o mais explosivo, o mais decisivo, aquele que mais ninguém tem. Hulk é um jogador à Porto e, apesar de por vezes se perder em fintas ou pintar o cabelo de modo a parecer um pintainho, sabe bem quanto custa aquela camisola, contra tudo e contra todos, porque já o sofreu na pele. Assobiá-lo é dizer não só que não se gosta das dezenas de golos, de passes, de jogadas incríveis dele, mas também que não se percebe a essência do Futebol Clube do Porto.

E depois ainda há os que exigem o despedimento do treinador vencedor da Supertaça e que lidera o campeonato, com vitórias mais folgadas do que... e aí está a velha comparação... o ano passado! Pois é, o ano passado demos 5 ao benfica, foi espectacular e blá blá blá. Mas eu ainda me lembro da bola à barra da académica no último minuto naquele jogo mítico e do penalty falhado pelo setúbal no Dragão também no último minuto. Este ano, provavelmente essas bolas vão entrar. E vocês, seus espertalhões, vão dizer que a culpa é do Vítor Pereira.

Por falar nele, vamos ao treinador. Não sei o suficiente de futebol para o qualificar como técnico, mas gosto de ganhar jogos e ele lá os tem ganho. Os jogadores também não se cansam de o defender, o que me deixa descansada. Mas Vítor Pereira tem, à partida, um grande defeito: aquela cara. Aquela cara de coitadinho cheira a derrota. Eu percebo que não seja uma coisa fácil de conseguir, mas um treinador do Porto tem de ter cara de vencedor, tem de falar bem e de ser assertivo, tem de parecer que, mesmo quando a equipa está mal, só ele sozinho já mete mede aos adversários. E sim, era assim o ano passado, mas esse senhor agora anda a levar 5 do arsenal e a bater recordes de treinador do chelsea com menos pontos alcançados nos últimos anos. Uma carreira de sonho, portanto.

Isto não significa gritar nas conferências de imprensa, mister. Percebo que esteja irritado com os acéfalos que assobiam e que vão de madrugada ao aeroporto insultar, sem perceberem que estão a ser manipulados por uma massa crítica que adora colocar o primeiro classificado do campeonato em causa. Mas assim não. É preciso ter calma e mostrar essa agressividade lá dentro, já hoje, no Algarve. Nós, os que acreditamos em vocês, só queremos ganhar. E isso é tão fácil quando se está no FC Porto...

Voltando à Austrália, foi lá que vi, em directo, através do Skype, a entrega dos Dragões de Ouro. Admito que me emocionei com as palavras do meu ex, mas não foi por estarem a ser ditas por essa pessoa. Foi porque nunca, mas nunca mesmo, nos podemos esquecer delas.

"Dúvida? Não. Mas, luz, realidade
e sonho que, na luta, amadurece.
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.

Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la, de olhos descuidados.
Porto – palavra exacta. Nunca ilude.
Renasce, nela, a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas...
Ó fé de que andam nossas almas cheias!

Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua...
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a torre dos Clérigos, às vezes...
Um anjo dá sinal quando ele parte...
São sempre heróis! São sempre portugueses!

E, azul e branca, essa bandeira avança...
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se “daqui houve nome Portugal”?


«Aleluia», de Pedro Homem de Melo

Força, rapazes!

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