terça-feira, 29 de novembro de 2011

Jogaram como nunca, perderam como sempre

O derby é o máximo dos máximos futebolísticos, o confronto mais importante do que tudo contra o vizinho que nos atormenta, o colega de trabalho irritante, que nos promete goleadas e que não se cala quando empatamos contra uma equipa qualquer. E, portanto, eu odeio o derby.
Odeio o derby porque só a perspectiva de o perder (já lá vão mil e tal dias, mas também já os perdi) é suficientemente esmagadora para eu não o querer jogar. Ganhar o derby torna-se uma responsabilidade tão grande que fico esmagado pelos nervos desde semanas antes, já a antecipar tudo, só a querer que aquilo passe. E o sofrimento por antecipação é tão grande que eu detesto o derby como “aquela altura do ano”, um género de período, mas menos frequente, onde me sinto mal disposto, facilmente irritável e nervoso, com a barriga às voltas.
Durante o jogo não há gozo possível, é uma tormenta constante, é achar que qualquer gajo deles com a bola no meio campo vai arrancar por ali e fazer o Maradona de 86 parecer o Postiga.
No fim deste, além do alívio – 35 minutos com menos um, a ganhar 1-0, num derby, não têm, sequer, termo de comparação de sofrimento para mim – ganhei mais uns tempos sem ter de pensar nisto (pelos vistos, há o perigo de isto se repetir em Dezembro).
Obviamente que, nos últimos anos, o derby tem-se tornado uma coisa mais divertida, mas menos entusiasta. Não há o bichinho, não há a tensão, não há o viver ou morrer em 90 minutos. E isso, para mim, é muito melhor. Quem é o estúpido que quer jogar a vida em 90 minutos, sem sequer poder participar na própria decisão? Quem é que quer a possibilidade de ser gozado por toda a gente no trabalho? Estes tempos de acalmia, de vê-los na toca, foram, para mim, uma bênção. Respeito demais o Sporting Clube de Portugal para ter o discurso de que o mesmo “faz falta ao futebol português”. Honestamente, a bem das minhas coronárias e para não deixar qualquer dúvida: prefiro-os na lama e o ano passado acreditei – piamente – que podiam ter descido de divisão. 


Voltar a encontrá-los enquanto equipa de futebol não era, então, o melhor dos meus divertimentos. E mesmo hoje, três dias depois e já tendo interiorizado que se tratou de um excelente jogo de futebol (facto que seria completamente sonegado se tivesse ficado 0-1 num canto para eles), com oportunidades, bons treinadores (Domingos a parar a construção do Benfica, Jesus a segurar o 1-0), preferia um 2-0 fácil como no ano passado. O ideal, repito, era que eles estivessem na segunda divisão e tivesse sido um jogo contra o Atlético, mas pronto, adiante.
Já não fosse este panorama mau, os Outros decidiram, para meu assombro, jogar à bola, coisa que não se via de listas horizontais desde os tempos d`”O Leão da Estrela” – que era ficcionado, como é óbvio. 


Mais ainda: havia jogadores de riscas que tinham – pasmem-se! – lugar no plantel do Glorioso (inclusive no onze!), facto que só se verificava o ano passado na ausência de alguém para limpar as chuteiras do Aimar ou para, simplesmente, dizer-lhe da minha parte que o admiro.
Coisas da vida, ganhámos 1-0, mandámos duas bolas ao poste e falhámos duas vezes isolados frente ao Rui Patrício. Podíamos, parece-me óbvio, ter empatado ou perdido. Não só porque existem essas três possibilidades no inicio do jogo – o ano passado eram quase académicas – mas porque os verdes, retirando-me sei lá quantos anos de prazer a levar netos ao Estádio da Luz, decidiram jogar futebol e criar perigo, voltando-nos a lembrar porque são nossos rivais.
E este facto tornou-se o grande happening do derby: o Sporting é uma equipa de futebol. Eu sei que tamanha surpresa diz mais sobre os anos anteriores do que sobre este, mas até para campeões de vitórias morais, tamanha façanha me parece, vá, exagerada. Eu sei que o meu clube não tem moral – Chalana, depois de levar dois no Dragão, foi gabar-se de não termos sido goleados – mas não me lembro de nenhum adepto de peito feito. Mas lendo as crónicas e comentários dos do lado de lá, dá a impressão do Benfica ter sido varrido do campo, como se os verdes, enfrentando marés e tempestades, e jogando contra um exército armado, só não tivessem ganho por mero fado, tal a aselhice dos adversários.       


Isto quando o Benfica jogou sem o seu capitão e esteio da defesa, tendo apresentado em campo o Jardel, que defende tão bem como o Mário Jardel agora, gordo e a ressacar de cocaína, e jogou com 10 durante 35 minutos numa expulsão que, até admitindo que foi mais ou menos justa (e agora, Cardozinho, com que cara é que eu te vou defender contra tudo e todos?), faria correr muita e muita tinta se tivesse sido ao contrário ou mudado o resultado. Leio que o Benfica recorreu às bolas paradas como se isso fosse crime, e que os Outros jogaram tão bem que talvez ainda lhes possam vir a ser atribuídos 1 ou 2 pontos, por mérito.
E o facto é que, apesar de terem jogado como nunca, perderam como sempre. Posto isto, concentremo-nos no Campeonato. Quanto aos lagartos (achavam que eu aguentava chegar ao fim do texto sem escrever isto?), depois deste 6-0 em derbies, voltamos a preocupar-nos com eles quando começar o 2º set.
PS: o meu Pai -  tanto, tanto orgulho! – disse isto ontem…ao Eduardo Barroso. Deves ter parecido o Javi, Pai !


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