quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ou acabam com o Rui Santos ou ele acaba comigo

Se há coisa da qual me orgulhava na minha vida, era de nunca ter visto ou lido um comentário do Rui Santos. O derby de sábado tirou-me esse gosto. É que o senhor escreveu um artigo intitulado "Ou acabam com as claques ou elas acabam com o futebol", na sequência dos incidentes do benfica-sportem.

Para o tal de Rui Santos, resumidamente, as claques do antigamente, há muito, muito tempo atrás, apoiavam as equipas. Agora são um bando de gente que só vai aos estádios insultar os adversários, provocar os "agentes da autoridade" (adoro esta expressão!) e praticar crimes. Solução? Acabar com elas.

Ora eu, na minha ignorância de quem nunca tinha lido nada do senhor, recorri à wikipedia para tentar perceber quem será tão brilhante interlocutor. Diz o tal site que é um "jornalista profissional", o que já não é mau, porque anda aí muito jornalista que nem isso é. Ao que parece, esteve 26 anos n'A Bola, de onde deu o enorme salto para as páginas do Correio da Manhã e depois, - acrescento eu - graças à sua bela imagem, para os ecrãs da Sic Notícias. No vasto currículo, surge ainda a internacionalmente famosa petição "Pela Verdade Desportiva", sem a qual, como toda a gente sabe, o futebol português ainda andava na pré-história.

Passando esta fase de delírio, permitam-me questionar que papel tem este senhor no futebol português. Não tem cara de quem saiba dar uns toques, por isso não deve ter sido jogador. Treinador, dirigente ou presidente nem pensar, porque são todos péssimos e corruptos e sei lá mais o quê. Assessor, director ou porta-voz muito menos, porque este senhor não é nada interesseiro. Será que é adepto? NUNCA! Isso estragaria todo o seu - vamos chamar-lhe assim - "trabalho". Árbitro? Nem pensar! São todos uns atrasados mentais. É antes um homem sem clube, sem interesses, sem amigos. Um comentador tão politicamente correcto como absurdamente estúpido. Falamos de um especialista, portanto.

O tal especialista acha que os problemas do futebol português se resolviam com o fim das claques. Ele, que pelos vistos andou 26 anos pelo jornalismo desportivo "profissional", deve ter andado a dormir esse tempo todo.

Mas, caro Rui Santos, não desesperes, porque eu vou ajudar-te. Não sou uma especialista, mas tenho dezenas de estádios no meu currículo e já vi muitas coisas que, quer queiras quer não, fazem parte da essência do futebol português.

Primeiro, falas como se as claques existissem há séculos, quando na verdade são um fenómeno que arranca em Portugal na década de 70, mas que só em 80/90 tem a sua verdadeira explosão. E as claques dessa altura, lamento informar-te, não eram propriamente constituídas por meninos do coro que iam para os estádios gritar que "o árbitro foi extremamente incorrecto". Eu não estava lá, mas já muita gente desse "antigamente" me contou histórias de arrepiar, de encontros secretos sem as tais "forças da autoridade", de invasões de campo semana sim, semana sim, de tochas a arder no corpo de um adversário. Não eram tempos bonitos.

Claro que, ao mesmo tempo, há imagens desses tempos que me arrepiam por outros motivos. Nunca vi uma coisa tão azul como a Curva Sul do Estádio das Antas. Os cachecóis no ar de um antigo estádio da luz com 100 mil adeptos. Os rapazes em cima das redes de alvalade. Tenho inveja de quem viu isso. Contam-me que, nessa altura, era possível irem 10 mil portistas à luz. Porra, devia ser lindo. Mas voltemos ao que interessa.

Em segundo lugar, falas como se insultar um adversário fosse motivo de vergonha para alguém. Eu gosto muito de apoiar a minha equipa, mas também confesso que me dá um enorme prazer lembrar aos lampiões que o glorioso é um filho da grande puta, cantar que o sportem vai ser uma merda até morrer e brincar com a claque do guimarães como se o seu nome fosse mesmo "insane gays". E então? Isso faz de mim o quê? Sou menos civilizada porque, uma ou duas vezes por semana, digo umas caralhadas num estádio ou num sofá? E tu? Tens mesmo cara de quem no máximo diz um "poças". Não suporto falsos moralismos, pá.

Quanto ao provocar a polícia, não deves ter reparado (porque deves estar sempre a estudar o futebol!), mas isso acontece todos os dias, em todo o lado. Desde os vizinhos que fazem barulho só porque sim, aos automobilistas que não percebem o sinal de "proibido estacionar", até mesmo aos jornalistas, que às vezes pensam que estão acima da lei. Sim, claro que há meia dúzia de arruaceiros nas claques que curtem a cena de desafiar a bófia, mas digo-te (e por experiência própria, não porque li na wikipedia) que a grande maioria das vezes são os senhores "agentes da autoridade" que chegam aos jogos com adrenalina suficiente para desatar a arrear em quem aparecer à frente.

Não deves lembrar-te daquelas imagens da RTP em alvalade, do menino a chorar agarrado ao pai, porque os power rangers tinham entrado a matar na bancada, sem motivo aparente além da vitória do FC Porto. Não deves ter amigas que foram espancadas por dois motivos muito fortes: são adeptas do boavista e queriam ir à casa-de-banho. Nunca deves ter levado com um cassetete só porque estavas ali. Nunca deves ter ficado sem cachecol, só porque é azul (ou vermelho, ou verde, ou amarelo...). Nunca te devem ter chamado "animal" ou "besta", só porque gostas de apoiar o teu clube. Eu lembro-me, eu tenho, eu vivi isto tudo. Mas eu não sou especialista.

Como último argumento, resumes as claques a um grupo de criminosos. Deves conhecer imensas. Eu, que conheço, posso tentar explicar-te que uma claque é um exemplo perfeito da nossa sociedade: tens polícias e ladrões (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), tens médicos, professores, advogados e jornalistas, como tens traficantes de droga, ex e futuros condenados, muitos desempregados e várias empregadas de limpeza, tens pais, mães, filhos, avós, famílias inteiras. Um dia, muito brevemente, vou até contar-te como isso me ajudou a crescer.

E, então, defendes que as claques devem acabar. Suponho que nunca tenhas ido, por exemplo, ao Estádio Municipal José Bento Pessoa. Eu já fui. Várias vezes. E sempre que lá vou vejo duas coisas: as claques do Porto e as claques da Naval. Tudo o resto são cadeiras vazias. Sabes o Estádio Municipal de Leiria, esse monumento do Euro2004? Super Dragões, Colectivo e Frente Leiria, é tudo o que conheço de lá. Quem vai ao Estádio da Madeira (eu já fui, e tu?) sabe que vai levar com a claque feminina do Nacional o jogo todo. Nos Barreiros, são as insuportáveis cornetas do Esquadrão Maritimista. As peixeiras dos Tubarões Verdes do Rio Ave ouvem-se ao longe. A Máfia Vermelha do Leixões cheira mesmo a peixe. No São Luís, hoje afundado para divisões que não merece, os South Side ainda gritam por um Farense meio morto.

Como é que tens lata para dizer a esta gente toda que não passam de criminosos? Explica-me como é que se diz a um Pantera Negra, que viaja todas a semanas para ir ver uma sombra do que o Boavista já foi, que gasta assim o pouco dinheiro que tem, que abdica de tudo o resto, que o que ele quer é violência, é crime, é partir tudo? Explica-me como é que a Alma Salgueirista resiste a um Salgueiros falecido, como é que eles ainda se reúnem, como é que continuam grandes amigos? Diz lá a essa gente que aquilo que eles sentem não é amor, não é paixão, é apenas uma enorme vontade de fazer merda.

Os estádios, sem as claques, estavam vazios. Os clubes, sem as claques, não eram nada. O futebol, sem as claques, não existia.

Meu caro Rui Santos, o teu problema é não fazeres a mínima ideia do que falas. Nunca fizeste centenas de quilómetros no autocarro mais velho do mundo para ir ver a tua equipa. Nunca pagaste 100 euros por um bilhete. Nunca tiveste de explicar ao teu namorado que o amor que sentes por ele "é diferente" do que sentes pelo teu clube. Nunca estragaste a tua roupa a pintar frases ou panos. Nunca ficaste sem voz por gritar pelos teus rapazes. Tu nunca estiveste lá. Eu já, e digo-te: é a melhor sensação do mundo.

P.S. Parabéns aos Super Dragões, que fazem hoje 25 anos. O meu próximo texto será sobre eles.

13 comentários:

  1. ...fiquei sem folego depois de lêr isto tudo(sim eu li mesmo tudinho) e só posso dizer que...a autora é mesmo especialista nesta matéria!Quanto ao dito senhor,bom,eu acho que ele deve manter as funções na SIC como comentador,até porque quem é que me vai fazer rir aquela hora?
    cumprimentos!

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  2. Tenho que te dar os parabens pelo texto.
    cumprimentos
    TC

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  3. Eu tb estive lá, desde sempre com o meu clube, incluindo desde a "mítica" década de 80, sem precisar de pertencer a uma claque organizada. Estou lá sempre, quer em Potugal (que conheço de norte a sul "por motivos futebolísticos"), quer no estrangeiro. E penso que, tal como os ingleses chegaram a essa conclusão já na longínqua década de 80, as claques têm mesmo que acabar, pelo menos da forma como as conhecemos. Ou vamos esperar, tal como os ingleses esperaram, termos centenas de vítimas pelas quais chorarmos para, então depois fazermos algo. E eu estou sempre lá.

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  4. A intenção não era acusar de não ser suficientemente adepto quem não está numa claque. A parte má disso é que tu, sozinho ou com um grupo de amigos, não consegues apoiar o suficiente o teu clube. Em Inglaterra tens uma mentalidade e hábitos completamente diferentes, nem dá para comparar.

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  5. Realmente as mentalidades em Inglaterra são diferentes, no entanto, já foram considerados os adeptos de futebol mais "selvagens" e mais temidos pelo mundo todo. Certamente que és muito nova para te lembrares mas podes consultar na net, as equipas inglesas tiveram suspensas das competições europeias porque morreram pessoas, morreram muitas pessoas devido à "guerra" em que se tornam alguns jogos. Recentemente assisti a um jogo para as competições europeias em Inglaterra e surpreendentemente, não fui revistada à entrada, não existiam claques e todos os adeptos presentes no estádio entoavam cânticos e apoiavam o clube em uníssono. E, eles já foram os mal afamados "hooligans". Nem todas as pessoas que fazem parte de uma claque são criminosas e por isso mesmo deviam ser as principais interessadas em banir do grupo aqueles que usam a claque para dar "asas" ao seu desejo de violência e ao desrespeito completo pelo ser humano.

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  6. em inglaterra ainda esta bem vivo a cena do hooliganismo mas agora esta numa onda de casual!e podem ver os videos do jogo west ham vs millawall e vejam!a muitos confrontos e so procurar no youtube!dizer que estão mortos?nada disso basta ver west ham united IFC millawall leeds united head hunters chelsea red army manchester united stoke city etc etc!em inglaterra nunca houve claques como em portugal mas sim firmas!os unicos que poderemos incluir como claque pode ser os do liverpol e a sua chamada kop!as claques tiveram a sua origem em italia!para o senhor que diz que nao existe claques como ele conhece nao mas que existem grupos mt piores em que metem no bolso tanto nn boys juve leo super dragoes nos a beira deles somos santos!se quiser ate lhe mostro umas coisas!e so para nao falar de um claque italiana que fez ontem 40anos do hellas verona e leia sobre eles!o lema deles era noi odiamo tutti!

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  7. Eu também gostaria de banir os pedófilos, os violadores, os homicidas e os assaltantes da sociedade. Se souberes como fazê-lo, avisa.

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    1. pelos menos sabes destes, por isso é facil.

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  8. Texto espetacular!

    Não sou de claque nenhuma, mas vou à bola todos os fins de semana, seja em casa ou fora, e fico sempre na Curva a cantar.

    Tenho 31 anos, sou advogado, pai de dois filhos, não me considero nem criminoso, nem vândalo, nem selvagem, mas adoro tochas, potes de fumo, estandartes, bandeiras e cachecóis.

    O que distingue o futebol dos outros desportos é mesmo a festa de cor e som que se vive na bancada, teóricos do futebol que só ajudam o futebol negócio deviam passar mais tempo nas bancadas e talvez mudassem de opinião...

    Estava lá no passado fim-de-semana e o que vi foram mais de 3 mil pessoas a serem tratadas de forma medieval para ir apoiar o seu clube e mesmo depois do jogo e da derrota, acenderam-se tochas,cantou-se pelo Sporting e aplaudiu-se os jogadores.

    Um estádio cheio de adeptos ditos normais, além de impossível, é um estádio cinzento cheio de malta rancorosa que passa o jogo a criticar e assobiar as cores que deviam apoiar...

    Como diz o cântico, Sporting Allez, não nos renderemos, mesmo a perder, por ti cantaremos

    Sem claques não há futebol!

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  9. texto miserável... tenho pena do que foste escrever aqui, não obstante de que não te conheço e até podes por algum acaso ser uma pessoa decente!
    não me venhas dizer que o Sr. Rui Santos não tem experiência em comentários desportivos. Lá por não ter sido jogador, treinador ou assessor não impossibilita o facto de ser um bom comentador desportivo, que o é.( e uma pergunta que não tem qualquer relevância, tu já foste algum destes cargos? pois, calculava...)
    Se leres bem o texto que o comentador em questão escreveu não lês as palavras 'todos os adeptos são uns criminosos' mas sim e como realmente é verdade 'Não são todos, mas são muitos'.
    e por aqui me fico, volta a escrever quando souberes ler o que pões em causa...
    um abraço, João

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  10. Nome : el Esquilo (começa bem) ,
    autor do blog "Abrigo 117" de indole escutista (melhorou muito)
    Signo : Virgem (atrevo-me a dizer que até ao casamento)
    Mochila laranja (excelente escolha para melhor ser visto de um helicoptero não vá perder-se num qualquer acampamento feito num parque de merendas )

    2 perguntas :

    Futebol? diz-te alguma coisa para alem das brincadeiras com objectos esfericos nos já referidos parque de merendas ??

    O Rui Santos foi "lobito" em Algueirão ??

    Para finalizar uma pequena pergunta/resposta ... todos os escuteiros são rabetas ?? não são todos, mas é REALMENTE VERDADE que são muitos

    Aquele sentido abraço

    Xôr Bis

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  11. A mim não precisarias explicar nada. Punha-te num pedestal e chamava-te Deusa Azul. <3 Quem sente assim tem um coração imenso onde cabe o mundo inteiro, incluíndo o seu clube enorme clube.

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