segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tão amigos que eles são

Os dias que antecederam o derby foram passados a discutir a famosa rede. Perdoem-me se não lhe consigo chamar “zona de conforto”, como se o estádio da luz tivesse passado a ter sofás nas bancadas. Fiquemo-nos pela rede.

Já estive em estádios com a tal rede e posso dizer-vos que a odeio. Acho incrível eu pagar bilhete para ir ver um jogo de futebol e levar com uma coisa aos quadradinhos à minha frente, como se tivesse cometido algum crime. Ao argumento que isso me protege e protege os outros de mim, recordo que os clubes podem escolher o sector para os seus visitantes e que há uns mais perigosos do que outros.

Vou ao novo estádio da luz pelo menos uma vez por ano desde 2004. Dos lados, há um pequeno acrílico e vários stewards a separarem-nos deles. Que eu me lembre, isso nunca trouxe grandes problemas, além das garrafas com líquido amarelo que chegaram a voar… dos camarotes, esse local para as pessoas de bem.

Só por duas vezes tivemos problemas lá dentro. A primeira foi quando Luís Filipe Vieira, no meio de mais uma guerra de dirigentes, decidiu colocar-nos lá em cima, onde agora ficaram os lagartos, mas sem rede. Inevitavelmente, e nestas merdas não me venham com lições de moral porque sabemos que isto acontece em qualquer lado, caíram cadeiras e petardos para quem estava em baixo e a polícia entrou a matar na bancada dos visitantes. Um espectáculo muito bonito, que morreu sem culpa, porque tinha sido completamente impossível prever que as coisas iam correr mal.

A segunda foi quando me tornei campeã naquele estádio e apagaram as luzes. Na altura, ri-me, gritei, festejei. Mas depois percebi o perigo que corremos. Mais uma vez, os culpados, tão fáceis de identificar, saíram impunes.

Portanto, quando soube que o derby de Lisboa ia ter rede fiquei surpreendida. Que eu saiba, nos últimos jogos em casa do benfica, os adeptos do olhanense e do paços de ferreira não partiram aquilo tudo, motivando uma mudança urgente. Ou seja, a direcção do benfica decidiu colocar aquilo propositadamente para o sportem e sem que tenha conseguido justificar a decisão.

E, sublinho, estamos a falar do sportem, um clube cujos adeptos trajam de pólo e sapatos de vela, completamente incólumes no que ao vandalismo diz respeito. Nunca ninguém irá ver lagartos a invadir um campo, de paus e cocaína em riste. Nunca! Nunca ninguém irá ver nazis, extremistas ou simplesmente idiotas naquelas claques. Nunca! Nunca ninguém irá ver duas claques do mesmo clube a digladiarem-se pelo dinheiro dos bilhetes. Nunca!

Se o alvo tivesse sido outro, acredito que as coisas levassem o seu rumo natural: o presidente do FC Porto saltava-lhes ao pescoço, o outro não sabia o que dizer, porque não tinha o papel dos discursos à mão, mas montava a rede de fininho na mesma, e os portistas não iam lá ver aquela vergonha. O futebol português no seu melhor.

No entanto, estamos a falar de presidentes que andam a almoçar juntos, que recebem prémios juntos e que apoiam os mesmos candidatos. E, entre amigos, as coisas são diferentes.

Os lagartos lá foram, passaram pelo que todos passamos quando vamos àquele estádio e viram o jogo aos quadradinhos. Um jogo em que todos sabemos qual foi a melhor equipa em campo, mas que também todos sabemos como uma boa matreirice pode fazer muitos pontos.

Eu, ao longe e a torcer por um empate, passei os primeiros 40 minutos à espera de uma boa dose de pancadaria, com expulsões e lesões à mistura. Nada. Nem uma entradinha mais dura. Tudo pacífico. Chocante. Depois, o benfica marcou e eu passei a torcer pelos de verde. Gritei um penalty do Jardel sobre o norte-americano mais estúpido que eu já vi, mas nada. Nem um encontrão ao árbitro para pressionar. Nem um gajo qualquer de cachecol do sportem a vir dizer como o Capela pode ter tido influência no resultado. Até o Mingos, bem-educado nestas andanças, se calou.

A flash interview e a conferência de imprensa assustaram-me. Acho que num amigável teria havido mais picardias. Comecei a pensar como isto é mau para o Porto, estarem os dois unidos contra nós. Já ia num longo raciocínio filosófico quando, de repente, chegam os dirigentezinhos.

O do sportem, o Cristóvão, veio denunciar os problemas para os visitantes no estádio da luz, uma coisa que eu ando a fazer desde 2004 e ninguém me liga. Isto, quando ao mesmo tempo uns espertos vestidos de verde incendiavam o estádio, ameaçando a segurança dos seus próprios adeptos. Que moral, rapaz.

E, depois, o outro, o porta-voz, ou dirigente, ou assessor, ou lá o que ele é, do benfica. A mandar piadas sobre o fosso, o engraçado. Quanto sentido de humor vai por aí no futebol português, quando um responsável de um “grande” tem a lata de gozar com a saúde das pessoas, sem que ninguém o condene por isso.

E aí fiquei descansada. Afinal ainda há alguém naqueles clubes que se odeia e é disso que eu preciso. Quanto à rede, já regista um grande incidente num só jogo, mas tenho a certeza que ficará pelo menos até à recepção ao FC Porto. Espero que tudo corra bem, mas sei que não vai ser assim, porque nem toda a gente é tão civilizada como eu e o João Gabriel.

Os “amigos” reuniram-se novamente no domingo, sentados à frente da televisão, a torcer pelo finalista da Liga Europa. Tiveram azar, ainda não foi desta. O FC Porto dominou praticamente o jogo todo, teve mais oportunidades, jogou bem e, não fossem aqueles dois minutos à estúpido e um golo mal anulado, tinha goleado uma das melhores equipas deste campeonato.

Infelizmente, no meu clube também há quem não perceba o que é a liberdade de expressão. Eu ensino: há jornalistas de todos os clubes e há critérios editoriais para todos os gostos. O FC Porto não pode achar que tem o direito de dar notícias a um jornal e depois não ter outros a inventarem notícias sobre o clube. Ser do Porto é saber como as coisas são, saber de que lado está a maioria, e aproveitar isso mesmo para nos dar força.

Sim, eu ouvi os comentários e foram uma coisa inenarrável. O braga é que jogou, os adeptos do braga é que se ouviram, e havia lá uma outra equipazinha que está a fazer sombra ao pré-campeão benfica. E então? Não é sempre assim? Em que é que estão a beneficiar o FC Porto ao fazerem essas figuras tristes? Deixem-se todos de moralismos e joguem mas é à bola.

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