A arquibancada era a minha casa. Habituei-me a ver o jogo lá de cima, entre os meus pais, a ouvir um senhor a gritar ao Aloísio para subir (queria que ele se tornasse o Pepe... um visionário, portanto). Lembro-me da minha mãe aos gritos, sempre que começava toda a gente a bater com os pés no chão para assustar os adversários. A bancada tremia toda. Sentia-me bem ali.
Mais tarde, aos 13/14 anos, a C. convidou-me para ir para a central. Tudo o que tinha de fazer era levar uma bandeira de um jogador para o relvado quando as equipas entrassem em campo. Como devem imaginar, foi a função mais importante que alguma vez tive na vida. Os "grandes" ficavam com as bandeiras das estrelas (Jardel, Deco, Drulovic, Capucho...) e eu era obrigada a ficar com o Secretário, o Chainho, o Peixe... Um orgulho imenso.
Ali ao lado, da Superior Sul, vinha o barulho. Gostava de os ouvir cantar, de ver as bandeiras no ar. O toque final foi num FC Porto-boavista em que os remendados já eram campeões (ainda me custa dizer isto...). Quando marcámos o 4-0, os Super Dragões sentaram-se na bancada e começaram a remar, tal como fazia o Silva, esse avançado horrível. O sentido de humor conquistou-me. O meu clube não ia ser campeão, era o segundo ano consecutivo, uma tragédia!, e aqueles gajos fizeram-me rir.
Foi aí que comecei a tentar perceber como é que uma miúda podia ir parar aos Super Dragões. Conheci o H. e obriguei-o a ensinar-me os cânticos (belas tardes passadas no café a escrevê-los nos guardanapos). Depois conheci o J., que me foi mostrando o fenómeno ultra. Aos 14 anos, dei por mim a preferir estar no quarto a ouvir músicas da claque do Milan do que de uma boys band qualquer, como as minhas amigas. Compreendo agora que não tenha sido muito normal.
Um dia, ganhei coragem e pedi à minha mãe. A resposta ficou algures entre o "nunca" e o "nem pensar". O meu pai não dizia nada. Foram meses e meses de insistência até que, depois de um Porto-farense em que passei o jogo com um olhar triste virado para Sul, a minha mãe me disse:
- Se prometeres que é só um jogo, deixo-te ir uma vez para os Super Dragões. Mas só uma vez! Prometes?
- Claro que sim, mãe.
E nunca mais voltei a outra bancada.
O FC Porto-Sparta Praga foi o meu primeiro jogo nos Super Dragões, no dia 4 de Dezembro de 2001. Perdemos 0-1, pelo que a minha mãe ainda tentou recorrer ao argumento que eu não dava sorte. Ela riu-se, porque sabia que já não havia nada a fazer. O meu pai continuou sem dizer nada.
A emoção foi tanta que, aproveitando o lanço, quis logo ir ao próximo jogo fora. Azar do caraças, era em guimarães. "Nunca", "nem pensar", "nem sonhes". Hoje, parece-me evidente que uma mãe não deixasse a sua filha de 15 anos ir a guimarães com uma claque. Naquela altura, era uma profunda injustiça. Eu era a melhor aluna da turma, nunca tinha dado problemas nenhuns aos meus pais e só queria ir apoiar o Porto. Não havia razão nenhuma para não me deixarem ir (a não ser guimarães ser o estádio mais perigoso deste país, mas isso aos 15 anos parecia-me secundário).
Estávamos em acesa discussão quando, de repente, o meu pai se mete e diz:
- Eu vou com ela.
Fiquei calada e fui direitinha para o quarto, à espera do veredicto do general. Não sei de que é que eles falaram nesses dias, mas o certo é que no fim-de-semana seguinte lá estava eu, em guimarães, com os Super Dragões.
O meu pai tornou-se, assim, o meu companheiro de bola. Hoje, percebo como fui usada para cumprir um velho sonho dele: andar sempre atrás do Porto, com os maiores índios ao lado. Enfim, tenho a quem sair.
Os Super Dragões tornaram-se a minha casa. O J., o M., o P., o L., o F., o N., o B. tornaram-se meus amigos. Os jogos eram só uma pequena parte da nossa cumplicidade. Passávamos horas a pintar frases, a preparar coreografias ou simplesmente a conversar. A velha sede era o local de encontro de gente boa.
Nesse Natal, os meus pais deram-me uma camisola dos SD. Sublinho que, nessa altura, o marketing da claque não era uma coisa propriamente muito desenvolvida. A camisola ficava-me enorme e não tinha as formas de uma mulher. Usei-a milhares de vezes. É verdade que não havia muitas mulheres por ali. Conheci a X. e as S., velhas guardas da curva, mas o resto eram namoradas ou esposas que iam controlar os seus homens.
Uma vez, decidi ir com a N. a um jogo de andebol (não tinha muita coisa para fazer na altura, é verdade). O meu pai não podia ir, por isso tínhamos de ir de camioneta com eles. Recordo que, nesses tempos, os SD iam quase sempre numa só camioneta e que esse não era um belo local para duas miúdas de 15 anos. Quando entrámos, ficou toda a gente a olhar para nós. Tudo homens. Nenhuma cara conhecida. Estava cheia, não tínhamos onde sentar-nos. Um cavalheiro ofereceu o seu colo para as duas. Ao longe, ouviu-se a voz do Presidente:
- Com essas ninguém se mete. São duas de nós.
E ninguém se meteu. Nem naquele dia, nem nunca. Passámos a ser protegidas por todos. Claro que há gente má ali, que não quer saber dos outros e que arranja problemas. Mas, fora esses, havia ali uma família. E ainda há, mesmo que enorme.
Durante esses anos, fui a dezenas de estádios, de Norte a Sul, às ilhas e ao estrangeiro. Gastei uma fortuna (sempre a duplicar, porque o meu pai foi a quase tantos como eu), mas ganhei muita coisa. Os amigos, claro, que ainda hoje são os mesmos. Cresci muito com as coisas que vi, boas e más, e que me abriram os olhos para o que é a sociedade, muito mais cedo do que se tivesse sido uma miúda normal de uma escola de betos. Aprendi a explicar às pessoas que os preconceitos que formam sobre as coisas e as pessoas podem estar muito longe da realidade. Continuei a ser a melhor aluna da turma e a não dar problemas aos meus pais. E fui feliz como o caraças, porque o Porto ganhou tudo.
Hoje, dez anos depois, muita coisa mudou. Mudei de cidade e as prioridades são outras: o M., a família que está longe e o trabalho. A única coisa que se mantém é que continuo a fazer o possível para ir apoiar o meu clube. Terça-feira, lá estarei. Na bancada do costume.