segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Falhei e já segui em frente

Todos nós temos um pouco de adepto idiota, de treinador incompetente e de comentador falhado. Somos os primeiros a insultar um jogador que depois faz um hattrick, a reprovar uma substituição que resolve a partida e a elaborar toda uma vasta justificação para um penalty escandaloso não assinalado contra a nossa equipa. No entanto, raros são os que, como eu e o Duarte Gomes, admitimos os erros.

Este fim-de-semana, estava a ver o clube do Abramovich quando me lembrei de uma história que mostra bem o quanto nos podemos enganar. Foi em 2005, no aeroporto de Bratislava, e tínhamos acabado de ser afastados das competições europeias por um gigante do futebol chamado Artmedia.

Ao meu lado, um senhor de aspecto duvidoso, gabardine bege e óculos pequeninos olhava para um papel no qual estava desenhado um relvado. Comecei a espreitar descaradamente até reparar que estavam lá escritos os nomes dos jogadores do FC Porto da altura. Quem seria tal personagem e o que estaria ali a fazer, no fim do mundo, com ar de quem estava em missão ultra-secreta de espionagem?

Mistério rapidamente resolvido. Perante a minha curiosidade pouco subtil, o senhor lá me explicou num inglês muito torto que era um olheiro do Torpedo de Moscovo e que tinha ido até à Eslováquia para analisar os craques portistas. Depressa se juntou um grupo à sua volta e, numa linguagem entre o inglês, o português e toques acentuados de russo, fizemos o enorme favor de lhe adiantar, em primeiríssima mão, quem era o melhor jogador do FC Porto na época 2005/2006.

“José Bosingwa!”, gritámos todos, quase em uníssono, sem precisarmos de olhar uns para os outros. Recordo que estamos a falar de uma temporada que não estava a correr de feição e em que o lateral direito português estava muito longe de se tornar o jogador a quem agora reconhecemos vários méritos. Bosingwa era, na altura, um dos mais assobiados do plantel e nós não tivemos dúvidas na hora de tentar despachar um jogador para o frio de um clube russo que ainda hoje desconhecemos.

O olheiro, baralhado das ideias porque tinha acabado de ver um Bosingwa com uma exibição miserável em Bratislava, contra-argumentava que tinha achado o Lucho Gonzalez e o Benny McCarthy os melhores jogadores da equipa. Mais uma vez, quase em uníssono, fizemos um “buuuu” internacional, misturado com gestos que envolviam o polegar virado para baixo, bem explícito do quanto o argentino e o sul-africano eram “odiados” pelos adeptos.

O russo, coitado, insistia que o Diego, o Pepe e o Lisandro também lhe pareciam promissores. Não percebia nada daquilo, pá. E nós repetíamos: “José Bosingwa, José Bosingwa, José Bosingwa”. Nunca mais o vi, claro, mas não me recordo de ter havido alguma oferta do Torpedo de Moscovo pelo lateral direito, pelo que devemos ter sido bastante óbvios.

Não são poucas as vezes que me lembro deste senhor e da cara com que deve ter ficado quando viu o Bosingwa no Chelsea por mais de 20 milhões de euros, dois anos depois deste episódio. Aposto que ainda hoje sonha com o grupo de adeptos portistas que, num aeroporto de Bratislava, o aconselhou a comprar aquele jogador quando ele ainda podia ter saído por uma pechincha. Isto se não se suicidou.

O meu encontro com o olheiro do Torpedo demonstra bem como andamos aqui todos com a mania que percebemos alguma coisa disto. Cada vez que vejo o Bosingwa a fazer um corte, a sair a correr e a centrar para a área sinto-me a adepta mais idiota do mundo, a treinadora de bancada mais incompetente de sempre e uma comentadora completamente falhada. Mas enfim, eu reconheço-o. Falhei, segui em frente e continuo a falhar imensas vezes.

Além disso, acho que todos concordamos que, em 2005, o lateral direito do FC Porto não parecia grande coisa. Já o penalty sobre o Belluschi do último sábado nem aqui nem na Lua pode ter passado despercebido a alguém. No entanto, houve dois senhores que não o viram. Azar dos azares, foram o árbitro e o fiscal-de-linha.

Longe de mim acreditar que tanto um como outro teriam algum interesse em não o assinalar. Estou convencida que foi apenas um azar o facto de Duarte Gomes, o mesmo que tornou o benfica-guimarães num jogo de andebol imaginário, ter evitado um penalty que por mérito dos jogadores portistas não veio a ser necessário. Fiquei até comovida por vê-lo a admitir o erro no Facebook, esse veículo de posições oficiais tão apreciado até pelo Presidente da República.

“Falhei e já segui em frente”, escreveu ele. Felizmente, o FC Porto não falhou e também segue na frente. Para azar de todos os adeptos idiotas, treinadores incompetentes e comentadores falhados.

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