domingo, 4 de dezembro de 2011

Velha Guarda

A arquibancada era a minha casa. Habituei-me a ver o jogo lá de cima, entre os meus pais, a ouvir um senhor a gritar ao Aloísio para subir (queria que ele se tornasse o Pepe... um visionário, portanto). Lembro-me da minha mãe aos gritos, sempre que começava toda a gente a bater com os pés no chão para assustar os adversários. A bancada tremia toda. Sentia-me bem ali.

Mais tarde, aos 13/14 anos, a C. convidou-me para ir para a central. Tudo o que tinha de fazer era levar uma bandeira de um jogador para o relvado quando as equipas entrassem em campo. Como devem imaginar, foi a função mais importante que alguma vez tive na vida. Os "grandes" ficavam com as bandeiras das estrelas (Jardel, Deco, Drulovic, Capucho...) e eu era obrigada a ficar com o Secretário, o Chainho, o Peixe... Um orgulho imenso.

Ali ao lado, da Superior Sul, vinha o barulho. Gostava de os ouvir cantar, de ver as bandeiras no ar. O toque final foi num FC Porto-boavista em que os remendados já eram campeões (ainda me custa dizer isto...). Quando marcámos o 4-0, os Super Dragões sentaram-se na bancada e começaram a remar, tal como fazia o Silva, esse avançado horrível. O sentido de humor conquistou-me. O meu clube não ia ser campeão, era o segundo ano consecutivo, uma tragédia!, e aqueles gajos fizeram-me rir.

Foi aí que comecei a tentar perceber como é que uma miúda podia ir parar aos Super Dragões. Conheci o H. e obriguei-o a ensinar-me os cânticos (belas tardes passadas no café a escrevê-los nos guardanapos). Depois conheci o J., que me foi mostrando o fenómeno ultra. Aos 14 anos, dei por mim a preferir estar no quarto a ouvir músicas da claque do Milan do que de uma boys band qualquer, como as minhas amigas. Compreendo agora que não tenha sido muito normal.

Um dia, ganhei coragem e pedi à minha mãe. A resposta ficou algures entre o "nunca" e o "nem pensar". O meu pai não dizia nada. Foram meses e meses de insistência até que, depois de um Porto-farense em que passei o jogo com um olhar triste virado para Sul, a minha mãe me disse:

- Se prometeres que é só um jogo, deixo-te ir uma vez para os Super Dragões. Mas só uma vez! Prometes?
- Claro que sim, mãe.

E nunca mais voltei a outra bancada.

O FC Porto-Sparta Praga foi o meu primeiro jogo nos Super Dragões, no dia 4 de Dezembro de 2001. Perdemos 0-1, pelo que a minha mãe ainda tentou recorrer ao argumento que eu não dava sorte. Ela riu-se, porque sabia que já não havia nada a fazer. O meu pai continuou sem dizer nada.

A emoção foi tanta que, aproveitando o lanço, quis logo ir ao próximo jogo fora. Azar do caraças, era em guimarães. "Nunca", "nem pensar", "nem sonhes". Hoje, parece-me evidente que uma mãe não deixasse a sua filha de 15 anos ir a guimarães com uma claque. Naquela altura, era uma profunda injustiça. Eu era a melhor aluna da turma, nunca tinha dado problemas nenhuns aos meus pais e só queria ir apoiar o Porto. Não havia razão nenhuma para não me deixarem ir (a não ser guimarães ser o estádio mais perigoso deste país, mas isso aos 15 anos parecia-me secundário).

Estávamos em acesa discussão quando, de repente, o meu pai se mete e diz:

- Eu vou com ela.

Fiquei calada e fui direitinha para o quarto, à espera do veredicto do general. Não sei de que é que eles falaram nesses dias, mas o certo é que no fim-de-semana seguinte lá estava eu, em guimarães, com os Super Dragões.

O meu pai tornou-se, assim, o meu companheiro de bola. Hoje, percebo como fui usada para cumprir um velho sonho dele: andar sempre atrás do Porto, com os maiores índios ao lado. Enfim, tenho a quem sair.

Os Super Dragões tornaram-se a minha casa. O J., o M., o P., o L., o F., o N., o B. tornaram-se meus amigos. Os jogos eram só uma pequena parte da nossa cumplicidade. Passávamos horas a pintar frases, a preparar coreografias ou simplesmente a conversar. A velha sede era o local de encontro de gente boa.

Nesse Natal, os meus pais deram-me uma camisola dos SD. Sublinho que, nessa altura, o marketing da claque não era uma coisa propriamente muito desenvolvida. A camisola ficava-me enorme e não tinha as formas de uma mulher. Usei-a milhares de vezes. É verdade que não havia muitas mulheres por ali. Conheci a X. e as S., velhas guardas da curva, mas o resto eram namoradas ou esposas que iam controlar os seus homens.

Uma vez, decidi ir com a N. a um jogo de andebol (não tinha muita coisa para fazer na altura, é verdade). O meu pai não podia ir, por isso tínhamos de ir de camioneta com eles. Recordo que, nesses tempos, os SD iam quase sempre numa só camioneta e que esse não era um belo local para duas miúdas de 15 anos. Quando entrámos, ficou toda a gente a olhar para nós. Tudo homens. Nenhuma cara conhecida. Estava cheia, não tínhamos onde sentar-nos. Um cavalheiro ofereceu o seu colo para as duas. Ao longe, ouviu-se a voz do Presidente:

- Com essas ninguém se mete. São duas de nós.

E ninguém se meteu. Nem naquele dia, nem nunca. Passámos a ser protegidas por todos. Claro que há gente má ali, que não quer saber dos outros e que arranja problemas. Mas, fora esses, havia ali uma família. E ainda há, mesmo que enorme.

Durante esses anos, fui a dezenas de estádios, de Norte a Sul, às ilhas e ao estrangeiro. Gastei uma fortuna (sempre a duplicar, porque o meu pai foi a quase tantos como eu), mas ganhei muita coisa. Os amigos, claro, que ainda hoje são os mesmos. Cresci muito com as coisas que vi, boas e más, e que me abriram os olhos para o que é a sociedade, muito mais cedo do que se tivesse sido uma miúda normal de uma escola de betos. Aprendi a explicar às pessoas que os preconceitos que formam sobre as coisas e as pessoas podem estar muito longe da realidade. Continuei a ser a melhor aluna da turma e a não dar problemas aos meus pais. E fui feliz como o caraças, porque o Porto ganhou tudo.

Hoje, dez anos depois, muita coisa mudou. Mudei de cidade e as prioridades são outras: o M., a família que está longe e o trabalho. A única coisa que se mantém é que continuo a fazer o possível para ir apoiar o meu clube. Terça-feira, lá estarei. Na bancada do costume.

6 comentários:

  1. Muito bem Catarina, costumo ler alguns dos teus artigos, e o Diogo alerta-me várias fezes para isso. Gosto muito, são reais, verdadeiros e sentidos, como aquele benfica -Porto em que fomos no mesmo autocarro e viemos com uma vitória originada por aquele fabulástico golo do Quaresma. Que felizes naquele regresso, a ouvir o Davidão com as suas histórias. Um beijo para ti, muito sucesso e muitas felicidades.

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  2. É verdade, grande viagem essa, e num autocarro muito mais simpático :) Beijinhos e obrigada

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  3. Muito boa ideia a vossa. E escrevem bastante bem, além de ser agradável de se ler.

    Eu e uns amigos temos um blogue com uma ideia semelhante (três amigos, três clubes diferentes: os três grandes). Se quiserem...
    http://www.tresandaafutebol.blogspot.com/

    Força no projecto, que eu sou seguidor :)

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  4. Foi a tua sorte C, conheceres o M, e o pai do M, duas mentes arejadas, sempre com intervenções pedagógicas, que muito te têm ajudado a tornares-te melhor e a perceberes mais de futebol. Viva o GLORIOSO SLB !!.
    Pai do M,

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  5. É verdade C, muita coisa mudou ! Conheceste o M, e o pai do M, duas mentes arejadas, sempre com intervenções pedagógicas, que te têm ajudado a perceberes mais de futebol ! Viva o GLORIOSO SLB,

    Pai do M.

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  6. Muito bom, as always.

    Não sei porque não escrever um livro ao estilo do Tim Park (A Season with Verona), desta vez visto por dentro do fenómeno "ultra", com essa paixão que dá outra perspectiva do mundo da bola. O estilo de escrita garantia qualidade máxima!!

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