quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ou acabam com o Rui Santos ou ele acaba comigo

Se há coisa da qual me orgulhava na minha vida, era de nunca ter visto ou lido um comentário do Rui Santos. O derby de sábado tirou-me esse gosto. É que o senhor escreveu um artigo intitulado "Ou acabam com as claques ou elas acabam com o futebol", na sequência dos incidentes do benfica-sportem.

Para o tal de Rui Santos, resumidamente, as claques do antigamente, há muito, muito tempo atrás, apoiavam as equipas. Agora são um bando de gente que só vai aos estádios insultar os adversários, provocar os "agentes da autoridade" (adoro esta expressão!) e praticar crimes. Solução? Acabar com elas.

Ora eu, na minha ignorância de quem nunca tinha lido nada do senhor, recorri à wikipedia para tentar perceber quem será tão brilhante interlocutor. Diz o tal site que é um "jornalista profissional", o que já não é mau, porque anda aí muito jornalista que nem isso é. Ao que parece, esteve 26 anos n'A Bola, de onde deu o enorme salto para as páginas do Correio da Manhã e depois, - acrescento eu - graças à sua bela imagem, para os ecrãs da Sic Notícias. No vasto currículo, surge ainda a internacionalmente famosa petição "Pela Verdade Desportiva", sem a qual, como toda a gente sabe, o futebol português ainda andava na pré-história.

Passando esta fase de delírio, permitam-me questionar que papel tem este senhor no futebol português. Não tem cara de quem saiba dar uns toques, por isso não deve ter sido jogador. Treinador, dirigente ou presidente nem pensar, porque são todos péssimos e corruptos e sei lá mais o quê. Assessor, director ou porta-voz muito menos, porque este senhor não é nada interesseiro. Será que é adepto? NUNCA! Isso estragaria todo o seu - vamos chamar-lhe assim - "trabalho". Árbitro? Nem pensar! São todos uns atrasados mentais. É antes um homem sem clube, sem interesses, sem amigos. Um comentador tão politicamente correcto como absurdamente estúpido. Falamos de um especialista, portanto.

O tal especialista acha que os problemas do futebol português se resolviam com o fim das claques. Ele, que pelos vistos andou 26 anos pelo jornalismo desportivo "profissional", deve ter andado a dormir esse tempo todo.

Mas, caro Rui Santos, não desesperes, porque eu vou ajudar-te. Não sou uma especialista, mas tenho dezenas de estádios no meu currículo e já vi muitas coisas que, quer queiras quer não, fazem parte da essência do futebol português.

Primeiro, falas como se as claques existissem há séculos, quando na verdade são um fenómeno que arranca em Portugal na década de 70, mas que só em 80/90 tem a sua verdadeira explosão. E as claques dessa altura, lamento informar-te, não eram propriamente constituídas por meninos do coro que iam para os estádios gritar que "o árbitro foi extremamente incorrecto". Eu não estava lá, mas já muita gente desse "antigamente" me contou histórias de arrepiar, de encontros secretos sem as tais "forças da autoridade", de invasões de campo semana sim, semana sim, de tochas a arder no corpo de um adversário. Não eram tempos bonitos.

Claro que, ao mesmo tempo, há imagens desses tempos que me arrepiam por outros motivos. Nunca vi uma coisa tão azul como a Curva Sul do Estádio das Antas. Os cachecóis no ar de um antigo estádio da luz com 100 mil adeptos. Os rapazes em cima das redes de alvalade. Tenho inveja de quem viu isso. Contam-me que, nessa altura, era possível irem 10 mil portistas à luz. Porra, devia ser lindo. Mas voltemos ao que interessa.

Em segundo lugar, falas como se insultar um adversário fosse motivo de vergonha para alguém. Eu gosto muito de apoiar a minha equipa, mas também confesso que me dá um enorme prazer lembrar aos lampiões que o glorioso é um filho da grande puta, cantar que o sportem vai ser uma merda até morrer e brincar com a claque do guimarães como se o seu nome fosse mesmo "insane gays". E então? Isso faz de mim o quê? Sou menos civilizada porque, uma ou duas vezes por semana, digo umas caralhadas num estádio ou num sofá? E tu? Tens mesmo cara de quem no máximo diz um "poças". Não suporto falsos moralismos, pá.

Quanto ao provocar a polícia, não deves ter reparado (porque deves estar sempre a estudar o futebol!), mas isso acontece todos os dias, em todo o lado. Desde os vizinhos que fazem barulho só porque sim, aos automobilistas que não percebem o sinal de "proibido estacionar", até mesmo aos jornalistas, que às vezes pensam que estão acima da lei. Sim, claro que há meia dúzia de arruaceiros nas claques que curtem a cena de desafiar a bófia, mas digo-te (e por experiência própria, não porque li na wikipedia) que a grande maioria das vezes são os senhores "agentes da autoridade" que chegam aos jogos com adrenalina suficiente para desatar a arrear em quem aparecer à frente.

Não deves lembrar-te daquelas imagens da RTP em alvalade, do menino a chorar agarrado ao pai, porque os power rangers tinham entrado a matar na bancada, sem motivo aparente além da vitória do FC Porto. Não deves ter amigas que foram espancadas por dois motivos muito fortes: são adeptas do boavista e queriam ir à casa-de-banho. Nunca deves ter levado com um cassetete só porque estavas ali. Nunca deves ter ficado sem cachecol, só porque é azul (ou vermelho, ou verde, ou amarelo...). Nunca te devem ter chamado "animal" ou "besta", só porque gostas de apoiar o teu clube. Eu lembro-me, eu tenho, eu vivi isto tudo. Mas eu não sou especialista.

Como último argumento, resumes as claques a um grupo de criminosos. Deves conhecer imensas. Eu, que conheço, posso tentar explicar-te que uma claque é um exemplo perfeito da nossa sociedade: tens polícias e ladrões (às vezes as duas coisas ao mesmo tempo), tens médicos, professores, advogados e jornalistas, como tens traficantes de droga, ex e futuros condenados, muitos desempregados e várias empregadas de limpeza, tens pais, mães, filhos, avós, famílias inteiras. Um dia, muito brevemente, vou até contar-te como isso me ajudou a crescer.

E, então, defendes que as claques devem acabar. Suponho que nunca tenhas ido, por exemplo, ao Estádio Municipal José Bento Pessoa. Eu já fui. Várias vezes. E sempre que lá vou vejo duas coisas: as claques do Porto e as claques da Naval. Tudo o resto são cadeiras vazias. Sabes o Estádio Municipal de Leiria, esse monumento do Euro2004? Super Dragões, Colectivo e Frente Leiria, é tudo o que conheço de lá. Quem vai ao Estádio da Madeira (eu já fui, e tu?) sabe que vai levar com a claque feminina do Nacional o jogo todo. Nos Barreiros, são as insuportáveis cornetas do Esquadrão Maritimista. As peixeiras dos Tubarões Verdes do Rio Ave ouvem-se ao longe. A Máfia Vermelha do Leixões cheira mesmo a peixe. No São Luís, hoje afundado para divisões que não merece, os South Side ainda gritam por um Farense meio morto.

Como é que tens lata para dizer a esta gente toda que não passam de criminosos? Explica-me como é que se diz a um Pantera Negra, que viaja todas a semanas para ir ver uma sombra do que o Boavista já foi, que gasta assim o pouco dinheiro que tem, que abdica de tudo o resto, que o que ele quer é violência, é crime, é partir tudo? Explica-me como é que a Alma Salgueirista resiste a um Salgueiros falecido, como é que eles ainda se reúnem, como é que continuam grandes amigos? Diz lá a essa gente que aquilo que eles sentem não é amor, não é paixão, é apenas uma enorme vontade de fazer merda.

Os estádios, sem as claques, estavam vazios. Os clubes, sem as claques, não eram nada. O futebol, sem as claques, não existia.

Meu caro Rui Santos, o teu problema é não fazeres a mínima ideia do que falas. Nunca fizeste centenas de quilómetros no autocarro mais velho do mundo para ir ver a tua equipa. Nunca pagaste 100 euros por um bilhete. Nunca tiveste de explicar ao teu namorado que o amor que sentes por ele "é diferente" do que sentes pelo teu clube. Nunca estragaste a tua roupa a pintar frases ou panos. Nunca ficaste sem voz por gritar pelos teus rapazes. Tu nunca estiveste lá. Eu já, e digo-te: é a melhor sensação do mundo.

P.S. Parabéns aos Super Dragões, que fazem hoje 25 anos. O meu próximo texto será sobre eles.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Jogaram como nunca, perderam como sempre

O derby é o máximo dos máximos futebolísticos, o confronto mais importante do que tudo contra o vizinho que nos atormenta, o colega de trabalho irritante, que nos promete goleadas e que não se cala quando empatamos contra uma equipa qualquer. E, portanto, eu odeio o derby.
Odeio o derby porque só a perspectiva de o perder (já lá vão mil e tal dias, mas também já os perdi) é suficientemente esmagadora para eu não o querer jogar. Ganhar o derby torna-se uma responsabilidade tão grande que fico esmagado pelos nervos desde semanas antes, já a antecipar tudo, só a querer que aquilo passe. E o sofrimento por antecipação é tão grande que eu detesto o derby como “aquela altura do ano”, um género de período, mas menos frequente, onde me sinto mal disposto, facilmente irritável e nervoso, com a barriga às voltas.
Durante o jogo não há gozo possível, é uma tormenta constante, é achar que qualquer gajo deles com a bola no meio campo vai arrancar por ali e fazer o Maradona de 86 parecer o Postiga.
No fim deste, além do alívio – 35 minutos com menos um, a ganhar 1-0, num derby, não têm, sequer, termo de comparação de sofrimento para mim – ganhei mais uns tempos sem ter de pensar nisto (pelos vistos, há o perigo de isto se repetir em Dezembro).
Obviamente que, nos últimos anos, o derby tem-se tornado uma coisa mais divertida, mas menos entusiasta. Não há o bichinho, não há a tensão, não há o viver ou morrer em 90 minutos. E isso, para mim, é muito melhor. Quem é o estúpido que quer jogar a vida em 90 minutos, sem sequer poder participar na própria decisão? Quem é que quer a possibilidade de ser gozado por toda a gente no trabalho? Estes tempos de acalmia, de vê-los na toca, foram, para mim, uma bênção. Respeito demais o Sporting Clube de Portugal para ter o discurso de que o mesmo “faz falta ao futebol português”. Honestamente, a bem das minhas coronárias e para não deixar qualquer dúvida: prefiro-os na lama e o ano passado acreditei – piamente – que podiam ter descido de divisão. 


Voltar a encontrá-los enquanto equipa de futebol não era, então, o melhor dos meus divertimentos. E mesmo hoje, três dias depois e já tendo interiorizado que se tratou de um excelente jogo de futebol (facto que seria completamente sonegado se tivesse ficado 0-1 num canto para eles), com oportunidades, bons treinadores (Domingos a parar a construção do Benfica, Jesus a segurar o 1-0), preferia um 2-0 fácil como no ano passado. O ideal, repito, era que eles estivessem na segunda divisão e tivesse sido um jogo contra o Atlético, mas pronto, adiante.
Já não fosse este panorama mau, os Outros decidiram, para meu assombro, jogar à bola, coisa que não se via de listas horizontais desde os tempos d`”O Leão da Estrela” – que era ficcionado, como é óbvio. 


Mais ainda: havia jogadores de riscas que tinham – pasmem-se! – lugar no plantel do Glorioso (inclusive no onze!), facto que só se verificava o ano passado na ausência de alguém para limpar as chuteiras do Aimar ou para, simplesmente, dizer-lhe da minha parte que o admiro.
Coisas da vida, ganhámos 1-0, mandámos duas bolas ao poste e falhámos duas vezes isolados frente ao Rui Patrício. Podíamos, parece-me óbvio, ter empatado ou perdido. Não só porque existem essas três possibilidades no inicio do jogo – o ano passado eram quase académicas – mas porque os verdes, retirando-me sei lá quantos anos de prazer a levar netos ao Estádio da Luz, decidiram jogar futebol e criar perigo, voltando-nos a lembrar porque são nossos rivais.
E este facto tornou-se o grande happening do derby: o Sporting é uma equipa de futebol. Eu sei que tamanha surpresa diz mais sobre os anos anteriores do que sobre este, mas até para campeões de vitórias morais, tamanha façanha me parece, vá, exagerada. Eu sei que o meu clube não tem moral – Chalana, depois de levar dois no Dragão, foi gabar-se de não termos sido goleados – mas não me lembro de nenhum adepto de peito feito. Mas lendo as crónicas e comentários dos do lado de lá, dá a impressão do Benfica ter sido varrido do campo, como se os verdes, enfrentando marés e tempestades, e jogando contra um exército armado, só não tivessem ganho por mero fado, tal a aselhice dos adversários.       


Isto quando o Benfica jogou sem o seu capitão e esteio da defesa, tendo apresentado em campo o Jardel, que defende tão bem como o Mário Jardel agora, gordo e a ressacar de cocaína, e jogou com 10 durante 35 minutos numa expulsão que, até admitindo que foi mais ou menos justa (e agora, Cardozinho, com que cara é que eu te vou defender contra tudo e todos?), faria correr muita e muita tinta se tivesse sido ao contrário ou mudado o resultado. Leio que o Benfica recorreu às bolas paradas como se isso fosse crime, e que os Outros jogaram tão bem que talvez ainda lhes possam vir a ser atribuídos 1 ou 2 pontos, por mérito.
E o facto é que, apesar de terem jogado como nunca, perderam como sempre. Posto isto, concentremo-nos no Campeonato. Quanto aos lagartos (achavam que eu aguentava chegar ao fim do texto sem escrever isto?), depois deste 6-0 em derbies, voltamos a preocupar-nos com eles quando começar o 2º set.
PS: o meu Pai -  tanto, tanto orgulho! – disse isto ontem…ao Eduardo Barroso. Deves ter parecido o Javi, Pai !


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Tão amigos que eles são

Os dias que antecederam o derby foram passados a discutir a famosa rede. Perdoem-me se não lhe consigo chamar “zona de conforto”, como se o estádio da luz tivesse passado a ter sofás nas bancadas. Fiquemo-nos pela rede.

Já estive em estádios com a tal rede e posso dizer-vos que a odeio. Acho incrível eu pagar bilhete para ir ver um jogo de futebol e levar com uma coisa aos quadradinhos à minha frente, como se tivesse cometido algum crime. Ao argumento que isso me protege e protege os outros de mim, recordo que os clubes podem escolher o sector para os seus visitantes e que há uns mais perigosos do que outros.

Vou ao novo estádio da luz pelo menos uma vez por ano desde 2004. Dos lados, há um pequeno acrílico e vários stewards a separarem-nos deles. Que eu me lembre, isso nunca trouxe grandes problemas, além das garrafas com líquido amarelo que chegaram a voar… dos camarotes, esse local para as pessoas de bem.

Só por duas vezes tivemos problemas lá dentro. A primeira foi quando Luís Filipe Vieira, no meio de mais uma guerra de dirigentes, decidiu colocar-nos lá em cima, onde agora ficaram os lagartos, mas sem rede. Inevitavelmente, e nestas merdas não me venham com lições de moral porque sabemos que isto acontece em qualquer lado, caíram cadeiras e petardos para quem estava em baixo e a polícia entrou a matar na bancada dos visitantes. Um espectáculo muito bonito, que morreu sem culpa, porque tinha sido completamente impossível prever que as coisas iam correr mal.

A segunda foi quando me tornei campeã naquele estádio e apagaram as luzes. Na altura, ri-me, gritei, festejei. Mas depois percebi o perigo que corremos. Mais uma vez, os culpados, tão fáceis de identificar, saíram impunes.

Portanto, quando soube que o derby de Lisboa ia ter rede fiquei surpreendida. Que eu saiba, nos últimos jogos em casa do benfica, os adeptos do olhanense e do paços de ferreira não partiram aquilo tudo, motivando uma mudança urgente. Ou seja, a direcção do benfica decidiu colocar aquilo propositadamente para o sportem e sem que tenha conseguido justificar a decisão.

E, sublinho, estamos a falar do sportem, um clube cujos adeptos trajam de pólo e sapatos de vela, completamente incólumes no que ao vandalismo diz respeito. Nunca ninguém irá ver lagartos a invadir um campo, de paus e cocaína em riste. Nunca! Nunca ninguém irá ver nazis, extremistas ou simplesmente idiotas naquelas claques. Nunca! Nunca ninguém irá ver duas claques do mesmo clube a digladiarem-se pelo dinheiro dos bilhetes. Nunca!

Se o alvo tivesse sido outro, acredito que as coisas levassem o seu rumo natural: o presidente do FC Porto saltava-lhes ao pescoço, o outro não sabia o que dizer, porque não tinha o papel dos discursos à mão, mas montava a rede de fininho na mesma, e os portistas não iam lá ver aquela vergonha. O futebol português no seu melhor.

No entanto, estamos a falar de presidentes que andam a almoçar juntos, que recebem prémios juntos e que apoiam os mesmos candidatos. E, entre amigos, as coisas são diferentes.

Os lagartos lá foram, passaram pelo que todos passamos quando vamos àquele estádio e viram o jogo aos quadradinhos. Um jogo em que todos sabemos qual foi a melhor equipa em campo, mas que também todos sabemos como uma boa matreirice pode fazer muitos pontos.

Eu, ao longe e a torcer por um empate, passei os primeiros 40 minutos à espera de uma boa dose de pancadaria, com expulsões e lesões à mistura. Nada. Nem uma entradinha mais dura. Tudo pacífico. Chocante. Depois, o benfica marcou e eu passei a torcer pelos de verde. Gritei um penalty do Jardel sobre o norte-americano mais estúpido que eu já vi, mas nada. Nem um encontrão ao árbitro para pressionar. Nem um gajo qualquer de cachecol do sportem a vir dizer como o Capela pode ter tido influência no resultado. Até o Mingos, bem-educado nestas andanças, se calou.

A flash interview e a conferência de imprensa assustaram-me. Acho que num amigável teria havido mais picardias. Comecei a pensar como isto é mau para o Porto, estarem os dois unidos contra nós. Já ia num longo raciocínio filosófico quando, de repente, chegam os dirigentezinhos.

O do sportem, o Cristóvão, veio denunciar os problemas para os visitantes no estádio da luz, uma coisa que eu ando a fazer desde 2004 e ninguém me liga. Isto, quando ao mesmo tempo uns espertos vestidos de verde incendiavam o estádio, ameaçando a segurança dos seus próprios adeptos. Que moral, rapaz.

E, depois, o outro, o porta-voz, ou dirigente, ou assessor, ou lá o que ele é, do benfica. A mandar piadas sobre o fosso, o engraçado. Quanto sentido de humor vai por aí no futebol português, quando um responsável de um “grande” tem a lata de gozar com a saúde das pessoas, sem que ninguém o condene por isso.

E aí fiquei descansada. Afinal ainda há alguém naqueles clubes que se odeia e é disso que eu preciso. Quanto à rede, já regista um grande incidente num só jogo, mas tenho a certeza que ficará pelo menos até à recepção ao FC Porto. Espero que tudo corra bem, mas sei que não vai ser assim, porque nem toda a gente é tão civilizada como eu e o João Gabriel.

Os “amigos” reuniram-se novamente no domingo, sentados à frente da televisão, a torcer pelo finalista da Liga Europa. Tiveram azar, ainda não foi desta. O FC Porto dominou praticamente o jogo todo, teve mais oportunidades, jogou bem e, não fossem aqueles dois minutos à estúpido e um golo mal anulado, tinha goleado uma das melhores equipas deste campeonato.

Infelizmente, no meu clube também há quem não perceba o que é a liberdade de expressão. Eu ensino: há jornalistas de todos os clubes e há critérios editoriais para todos os gostos. O FC Porto não pode achar que tem o direito de dar notícias a um jornal e depois não ter outros a inventarem notícias sobre o clube. Ser do Porto é saber como as coisas são, saber de que lado está a maioria, e aproveitar isso mesmo para nos dar força.

Sim, eu ouvi os comentários e foram uma coisa inenarrável. O braga é que jogou, os adeptos do braga é que se ouviram, e havia lá uma outra equipazinha que está a fazer sombra ao pré-campeão benfica. E então? Não é sempre assim? Em que é que estão a beneficiar o FC Porto ao fazerem essas figuras tristes? Deixem-se todos de moralismos e joguem mas é à bola.

sábado, 26 de novembro de 2011

O nosso derby imaginário

Decidimos inventar as SMS que poderíamos perfeitamente enviar um ao outro daqui a umas horas. A partir de agora, o M. e a C. estão fechados para derby.

M: Detesto-os tanto que acho que eles não deviam poder entrar na Luz.

C: Não te preocupes. Durante o cortejo já ficaram uns quantos para trás. Pelos vistos andaram a atirar-se para tudo o que é buraco na Segunda Circular. Pensavam que estavam a dar camisolas do Capel.

M: Até no cortejo se vê, pela carinha deles, que fique o resultado que fique, eles foram prejudicados. E só hoje - porque são diferentes - vão falar de arbitragem.

C: Claro. O Godinho está a ser entrevistado. Diz que, como foi beneficiado contra o braga, o leiria e o feirense ("só no último mês" - palavras dele!), hoje já sabe que vai ser prejudicado.

M: Coitado do gajo, parece que foi operado. Com azar, foi pelo Eduardo - Mãos de Tesoura - Barroso.

C: Nem lhe fales nisso da saúde. Pelos vistos vai ter de deixar de ser do sportem. Ordens do médico.

M: Olha, a direcção deles vai ficar mesmo com os adeptos? Rogério Alves, inclusive? Era giro vê-lo a invadir o campo com o Fernando Mendes.

C: Drogado por drogado, vai tudo dar ao mesmo. Olha, acabei de ouvir na rádio. Confirma-se que o Luisão não joga. É bom para o empate, que como sabes é o resultado que eu espero.

M: Desde que confirmem que não joga o Liedson, por mim tudo bem.

C: Acho que ainda tentaram recuperar o Djaló, daquela grande equipa dos bons velhos tempos, mas a Floribella não deixou, sacaninha do c#$%&=! Pronto, já vi o onze do benfica no Maisfutebol: Roberto, Luís Filipe, Paulo Madeira, King, Pesaresi, Thomas, Fernando Aguiar, Binya, Tote, Paulo Nunes e Hassan. Confiante?

M: O Emerson cabe nesse onze. Estou a vê-los entrar na bancada, muito enervados com isto da jaula. Eles é mais fossos.

C: Escreve o que eu te digo: se os gajos ganham, amanhã a capa do Record é "LEÃO SAI DA JAULA".

M: O JPereira, esse lagarto desde pequenino, estava a aquecer do outro lado do campo, mas foram agora chamá-lo.

C: Ahahah. Diz aí ao Aimar que ainda estamos no aquecimento. Escusa de se estar a atirar para o chão.

M: O Aimar não se atira para o chão, o chão tem o prazer de tocar no Aimar. Se deixar de mandar mensagens é porque morri com uma bolada: o Polga está a tentar dar toques.

C: FOGE! Olha, acabou de aparecer uma imagem do Postiga aí na bancada. Ao que parece está a pedir a bola e ainda não percebeu que está fora-de-jogo.

M: Que saudades do Inzaghi português. Porra, se o Luís Duque for para a balizar deles, estamos fodidos, com aquela barriga não entra nada. É o verdadeiro "Biggest Loser".

C: E já viste que o Jesus mudou a cor das madeixas? Fico sempre com medo quando isto acontece. A Sporttv está a filmá-lo com o Barbas e o Zé Manel na amena cavaqueira. Estão a passar umas legendas, mas estão muito mal escritas, não percebo.

M: Modo super guerreiro, GANDA JASUS. Olha, lá estão eles: ceeeeepoooooortém. Clássico. Adoro. Muito in, muito colégio São João de Brito. Foda-se, detesto-os.

C: A águia acaba de aterrar na cabeça do Witsel a pensar que era o ninho. Este já não joga também, que pena.

M: O Axel, além de ter o nome daquele cantor pimba, o que o faz ainda maior, até com o Duque às costas partia isto tudo. Só espero que a águia apanhe a carótida do Capel.

C: Começou o sofrimento. Daí consegues dar um abanão ao Cardozo? Parece que já adormeceu no banco.

M: O Cardozo é mais matador a dormir do que o Nuno Gomes acordado e a jogar no Boavista com o Jimmy ao lado. O Emerson entra, definitivamente, naquele 11.

C: Epa, pede mas é ao Javi para parar de chamar isso aos No Name.

M: Os lagartos acabaram de protestar mais por um lançamento do que a Alemanha pela bola do Mundial de 66.

C: O Aimar controla a bola com a mão, passa para o Saviola que está em fora-de-jogo e este remata enquanto o Gaitan está aos saltos em cima do guarda-redes. Enfim, um golo à benfica. Festeja enquanto podes.

M: Até podia ser o Feher a dar o último toque. Sabe sempre bem.

C: O João Pereira foi apanhado pelas câmeras a sorrir para o Jesus e a fazer fixe com o dedo. AHAHAH

M: O rapaz bem tentou ser expulso com o Leiria para ver o jogo com os No Name.

C: Verdade. O intervalo chegou num instante. Houve confusão no túnel. O Sandro está aos gritos a dizer que o Volkswagen lhe deu um pontapé e o Capel um murro. Se ficarem sem jogar contra o Porto, vou já manipular uns frames e mandar ao Rui Santos.

M: Os únicos murros dos lagartos foram os do Sá Pinto ao Artur Jorge. Muito bem aplicados, aliás.

C: Como é levar um golinho logo assim ao abrir da segunda parte? Adorei o Mingos a levantar o fato, mostrar a camisola do FCP e a cantar a do "lampião levaste 5 no Dragão". O meu ídolo, pá!

M: E com as insígnias que o Proença lhe deu no lugar do emblema.

C: Por que é que desligaram a luz? Alguém é campeão?

M: Não, é para termos uma perspectiva do cérebro do Polga quando vê o Cardozo.

C: Explica aí aos teus adeptos que podem parar de gritar por eles, porque o Mantorras e o Nuno Gomes de certeza que não vão entrar hoje.

M: Queria era que explicassem aos adeptos da jaula que é estúpido revoltarem-se com cada pontapé de baliza assinalado a nosso favor. Eu sei que com o Patrício parece um lance de perigo, mas é um bocado exagerado.

C: 10 minutos de descontos. Foda-se, parece o Calabote. O Vieira mandou-se do Terceiro Anel cá para baixo. Estava a tentar matar alguém para depois culpar os adeptos do Porto.

M: Espero que o Vieira caia e de cabeça. Sim, os super dragões são uns anjos empurrados pela sociedade para uma vida de crime contra a qual sempre tentaram fugir, mas que se tornou inevitável (Vamos lá ver se o Jardel não cai na área - sempre prejudicados, os coitadinhos da merda)

C: Fim. Bom para nós o empate. Curioso como mesmo nestas SMS fictícias acabei por levar a conversa de maneira a favorecer o FC Porto.

M: O porto favorecido? Há cada coincidência....

C: O Carriço está a dizer na flash interview que o sportem demonstrou que o benfica não é invencível. E, citando o profeta de resultados Douala, diz que, com o golo marcado fora, basta um 0-0 na segunda mão para serem campeões.

M: O domingos está a mandar mensagem ao pinto: já posso ir para casa? já os fiz empatar! aquilo dos 18 milhões era a gozar, não era?

C: Amor, quando chegares a casa toma banho por favor. Já sabes que não suporto o "cheira bem, cheira a Lisboa". E, se por acaso eu estiver ao telemóvel nessa altura com o Vítor Pereira, a discutir a táctica para domingo, não comeces aos gritos a pedir para ele ficar. Já sabes que depois o Pinto só me dá o Dragão de Ouro lá para 2015. Amo-te, até já*

M: Só chego amanhã, que os lagartos estão no Marquês, não viram o o 2-1 do JPereira na própria (e a SportTV pelos vistos cortou a imagem, para o Rui Orlando não morrer de enfarte). Podes dar a táctica que quiseres, que o Vítor 18-milhões dá cabo de tudo. Amo-te muito, até já*

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A minha rebelião

Ser do FC Porto, por vezes, cansa-me. Na maior parte do tempo, vivo feliz com isso, sorrio às caras mais enfadonhas que vão passando e nem sequer me gabo muito, porque ser do FC Porto é honra suficiente, não tenho de estar sempre a vincá-lo aos pobres sofredores. Mas, às vezes, muito raramente, as coisas correm mal ao FC Porto. E, aí, canso-me.

Canso-me, por exemplo, de abrir os jornais. O critério editorial é: quando o FC Porto ganha, ignora; quando o FC Porto perde, primeira página. E isso cansa-me. Como me cansa também ler notícias que citam fontes super próximas sobre rebeliões e presidentes à beira da morte. Não gosto que o FC Porto seja o centro das atenções. Prefiro mil vezes uma manchete dos três golos do Mantorras no treino ou de uma nova casa do sportem numa aldeia timorense com três habitantes.

Também me canso de falar disso. Com os verdadeiros portistas, discuto tácticas, opções, prós e contras de cada uma das hipóteses. No fim, basicamente, confiamos no presidente. Com os que se dizem do FC Porto, mas que torcem pelos outros, para poderem dizer que tinham razão e que o treinador é uma besta, com esses canso-me. Não sou do mesmo clube do que essa gente. Eu sou dos que apoiam, dos que acreditam, dos que estarão cá para chorar as poucas derrotas de forma tão intensa como para comemorar as muitas vitórias.

Não sou de ir para a baixa gritar a noite toda, nunca fui, nem ando a pedir autógrafos aos jogadores quando tudo está bem. Mas também não sou de ir para o aeroporto dar moral aos adversários quando as coisas correm mal. Nunca irei assobiar o Hulk, para depois, quando formos campeões com 20 golos dele, vir dizer para a televisão que sempre foi o meu jogador preferido. Nunca irei atirar uma tocha para dentro do carro de um treinador campeão (bem, na verdade pretendo passar a vida toda sem atirar uma tocha para o carro seja de quem for, mas nunca se sabe).

Canso-me, sobretudo, de não ver o meu Porto à Porto. A primeira parte em Donetsk trouxe-nos mais do mesmo daqueles 11 rapazes que vestem uma camisola que não sentem. Ao intervalo, visualizei o FC Porto nas primeiras páginas de amanhã. Qualquer coisa simples como "Adeus, Champions", mais complexa como "A Taça e a Champions já foram e o campeonato é para o nosso benfica", ou ainda "O Porto é uma grande merda, o derby de sábado é que vai ser de Alto Prestígio". Mas não. A segunda parte mostrou-me que ainda há algo ali, no meio de tanta gente interessada em ganhar dinheiro, que sabe o que é ser Porto.

Helton foi gigante, Hulk resolve sozinho e Moutinho ainda é Moutinho. A rebelião deles também foi a minha rebelião. Estou cansada de aturar adversários sedentos e, principalmente, falsos camaradas. Ou estão contra nós, ou estão contra nós. Já deviam saber que isso nos torna mais fortes.

Agora é ganhar no domingo e seguir em frente.

P.S. Para os que me acusam de optimismo desenfreado, avisem-me por favor quando chegar ao cúmulo de aplaudir a minha equipa quando ela deixar o maior rival ser campeão no meu estádio, depois de ter levado 5 fora e ainda à espera de uma reviravolta na Taça.



Só descobri este vídeo esta semana, reparem a partir do minuto 1.19

sábado, 12 de novembro de 2011

Ode a Javi Garcia

Gosto de Javi Garcia desde a primeira vez que o vi com o manto sagrado. Um amigável em Amsterdão, contra  o Ajax. Um contra ataque holandês e Javi, implacável, matou a jogada com uma falta dura, o suficiente para sossegar o adversário e não levar amarelo. No olhar, um espírito de missão, uma implacabilidade, um querer maior que tudo, de superação. Javi é o nosso soldado desconhecido.
O Benfica construiu a sua história através de muitos Javis, de muitos homens que, vestidos de vermelho, se superaram. O meu protótipo de jogador do Benfica não é Rui Costa, que era um príncipe e andava de camisola por fora dos calções, com aquele ar meio melancólico, quase poeta. O Benfica, apesar de todos os craques - poetas que teve e terá, é feito de outra massa, é feito dos Paneiras. Paneira era um médio direito que, além da deliciosa finta para fora da qual usava e abusava, era um líder, era um exemplo. Paneira, ao contrário das acusações de Alan, chamou "preto de merda" ao Abel Xavier sem por a mão à frente em Leverkusen. Tudo porque o lateral decidiu subir desalmadamente pela sua ala, quando o Benfica tinha a eliminatória a favor. Abel, que ainda não era louro, mas já era burro quanto baste, voltou atrás na sua decisão sem se preocupar em acusar Paneira de racismo.
Javi Garcia, pelo que põe em campo, pelo que corre, pelo que se mata como homem comum que nunca poderá correr pelo campo como se fosse um poeta, devia orgulhar todos os Benfiquistas. Javi não pode ser acusado de seja o que for, por nós, do Benfica, porque Javi, sem ter um nome tão português como Vítor, já é mais do Benfica do que muita gente (confesso que ia escrever, só para provocar, Nuno Gomes. Consta que assinou um abaixo assinado com o plantel do Braga contra Javi Garcia, o que diz bem do que o desejo de ir a um Europeu pode fazer ao Benfiquismo do Nuno, esse "ponta de lança" que o Cardozo e o seu pé esquerdo vulgarizam todos os dias).
Gosto de Javi porque Javi entra em campo com a faca nos dentes, como se fosse o último dia da vida dele. Gosto de Javi porque os adversários o odeiam. Javi personifica um Benfica que não se acagaça em campo, como o Tavares em San Siro. Estou-me a borrifar para o Alan, estou-me a borrifar para a suposta polémica. Mas apeteceu-me agradecer a Javi, com esta minha modesta contribuição, a entrega. E, em parte, porque torço para que o Javi tenha insultado o Alan do piorio. É, por assim dizer, um regresso a Leverkusen, com um insulto a um gajo com um cabelo péssimo. E porque depois de nos insultarem 90 minutos, apagarem as luzes - tudo com o "nosso" presidente sentado ao lado do deles, haja finalmente um jogador do Benfica que responde, como quem afirma que até sob tiroteio defendia a camisola. É assim que eu vejo Javi, um homem em guerra pelo Benfica.
Não sei se um dia Javi será o nosso capitão. Mas desejo - nem que seja pelo facto de conseguir a proeza de tornar Miguel Sousa Tavares ainda mais azedo - que fique connosco muito e muito tempo. Gracias, hombre!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As princesas da Primeira Liga

O meu irmão joga num clube da III Divisão, o que me dá toda uma outra perspectiva do futebol português. Já esteve em primeiro, agora vai a meio da tabela, mas nada nos garante que não acabe em último. É uma equipa capaz de ir ganhar ao terreno do principal adversário e de logo a seguir levar 4 de alguém que teve a honra de aparecer na Liga dos Últimos. Uma emoção, portanto.

No passado fim-de-semana, graças às novas tecnologias (não às do Rui Santos, mas à máquina de filmar do meu pai), estive a ver um resumo alargado da última eliminatória da Taça, da qual fomos afastados injustamente por uma equipa historicamente envolvida em escândalos e que – pasmem-se – tem dinheiro para andar a comprar brasileiros sem que o Platini os incomode.

A certa altura, a câmara está centrada num jogador adversário, que assim ao longe até parecia ter uma certa técnica, e, de repente, sem que nada o previsse, aparece o nosso trinco de joelho em riste nas costas desse tal rapaz. Falta (que pena o árbitro estar mesmo ali...), pedido de desculpas e siga o jogo em menos de um minuto.

Penso que a minha descrição não é suficientemente boa para que percebam bem a violência do lance, que me fez logo avaliar que, na primeira divisão, o jogador tinha de ser expulso e bem castigado. Ao que o meu irmão, com a calma de quem vê aquilo todos os dias nos treinos, disse apenas: “Essas princesas da Primeira Liga...”

E foi desta frase que me lembrei logo ao ver a grande polémica Alan-Javi. Antes de mais, deixem-me dizer que o braga foi muito melhor do que o benfica durante o jogo e que, se o Porto jogar daquela forma naquele estádio, é caso para os adeptos pedirem a demissão do Pinto. No entanto, parece-me evidente de que lado anda a estrelinha por esta altura, pelo que o empate até acabou por não ser mau para ninguém.

Qual não é o meu espanto quando, um dia depois, o Alan se lembra de vir dizer que o Javi lhe chamou “preto de merda”. Ora, primeiro, parece-me no mínimo curioso que só se tenha lembrado disso no dia seguinte. E, depois, tenho de admitir que sei de fontes muito próximas que não é a primeira vez que alguém chama “preto de merda” ao Alan, por muito que isso vos surpreenda. Eu mesma, confesso, quando ele estava no Porto e parecia ter menos técnica do que um jogador da III Divisão, o devo ter feito por diversas vezes. E não sou racista, porque garanto-vos que já chamei coisas piores ao Kléber e o moço parece um copinho de leite.

No entanto, devo admitir que achei piada ao jogador do braga. É que o alvo não podia ser melhor. O problema racial do Javi Garcia é, aliás, conhecido há muito tempo. Neste vídeo há um pormenor delicioso: é que o jogador do benfica, habituado a estas lides, consegue sempre, mesmo nas ocasiões carregadas de adrenalina como imagino que seja ver o FC Porto a ser campeão na luz, colocar a mão à frente da boca, como um cavalheiro que é. Mas, enfim, não sejamos injustos. Se há coisa que o Javi não é, é racista. Vejamos por exemplo este vídeo. As imagens mostram claramente como o médio lampião não escolhe cores, idades, posições ou preferências clubísticas. À frente dele, vai qualquer coisa que mexa. De fazer inveja ao nosso trinco da III Divisão.

Voltando à equipa do meu irmão, falemos do empate em Olhão. Ao intervalo de um resultado vergonhoso em casa, o presidente do nosso clube da III Divisão ameaçou os jogadores que não lhes pagava o salário deste mês a tempo. Estamos a falar de valores astronómicos, que quase dão para pagar as contas da luz e da água. Não fez efeito, claro, mas gostava de fazer essa experiência no FC Porto.

É que, aos especialistas que vão reivindicando a demissão de Vítor Pereira como resolução para todos os nossos problemas que nos deixam à frente do campeonato, somam-se agora os rumores de descontentamento dos jogadores. Não quero declarar desde já guerra aos traidores porque me lembro do que muitos deles já suaram aquela camisola, mas também ninguém anda aqui a dormir. Há meninos que andam mais preocupados com aumentos, prémios e futuras contratações do que com enfiar a merda da bola na baliza (a bola é preta e branca, será racismo?). E, isso sim, deixa-me doida.

Seria obviamente estúpido retirar-lhes o ordenado, mas para o ano o M. também vai ficar sem subsídios de Natal e de férias e, garanto-vos, nunca tratou um doente como o Kléber me trata a mim. Por isso, é bom que as princesas comecem a correr, porque, apesar de até agora as coisas estarem a correr bem em termos de resultados, um dia teremos de ir a alvalade, à luz e a braga e aí, se não se mexerem, serão mais pessoas a ir ao aeroporto chamar-vos jogadores de merda (eles são pretos e brancos, juro que não é racismo).

Não posso, no entanto, deixar de falar do senhor de preto que não expulsou um defesa do olhanense e que se esqueceu de marcar dois penalties a nosso favor. Uma exibição fortíssima, claramente com influência no resultado, e que, a acontecer a alguém da Segunda Circular, seria motivo para muita merda (ele veste-se de preto, conta como racismo?). Mas deixemo-nos de lamechices de princesas da Primeira Liga, porque isso, afinal, é o pão nosso de cada dia e temos é de olhar para a frente e pisar as adversidades. Como o João Pereira.

sábado, 5 de novembro de 2011

Jet lag de bola

A Austrália é um país lindo. Tem paisagens naturais como eu nunca vi, tem cidades enormes que concorrem com as melhores da Europa e tem um povo simpático e super bem-educado. Na Austrália ninguém passa à frente da fila, toda a gente agradece ao motorista quando sai do autocarro e pede-se desculpa quando alguém vem contra nós. É um país muito estranho para um português, portanto.

E os australianos andam sempre felizes. O que é completamente incompreensível, uma vez que vivem num país praticamente sem futebol. Têm uma coisa chamada footy que é estúpido e têm alguma admiração (não paixão) pelo rugby, esse desporto onde quem ganha não festeja muito para não chatear os derrotados (isso é ridículo, mates!)

A diferença horária para Portugal era de dez horas. Eu e o M. combinámos previamente que não íamos prejudicar as nossas férias por causa dos jogos. Só que não estávamos a contar com um problema: a nossa dependência biológica dos nossos clubes. Assim sendo, foi perfeitamente natural ver o M. a acordar sozinho, sem despertador, às 5.45 da manhã, porque o benfica jogava em Basileia a essa hora. E, uns dias depois, lá estava eu a acordar às 4.10 da manhã, sem ajuda de nada ou de ninguém, porque o meu corpo precisava de estar alerta já no aquecimento do FC Porto - paços de ferreira.

Ao mesmo tempo, os nossos pais iam mandando mensagens. Foi assim que soube que o FCP tinha ganho os dois jogos do campeonato, um por 5-0 e outro por 3-0. Fiquei feliz, mas depois fui ler as notícias. Foi uma vergonha, o FCP não joga nada e o público assobia a equipa. Ainda pensei que o meu pai se tivesse enganado ao escrever os números, mas não, o FCP marcou mesmo 8 golos em dois jogos e ganhou... à rasca!

Já no clube do M. é tudo ao contrário. Ganha-se por 1-0 graças ao guarda-redes adversário e por 2-1 com um falhanço dos adversários nos últimos minutos, mas as notícias são claras: o benfica é o maior e vai à frente do campeonato. A Terra gira sempre para o mesmo lado, mesmo do outro lado do mundo.

Os jogos da Champions trouxeram-me más notícias: duas exibições muito más e uma qualificação que ainda treme. Os sinais preocupam-me, claro, mais até do que o possível falhanço. Percebo que o dinheiro seja necessário, mas até consigo ser racional ao ponto de perceber que a Liga Europa está muito mais ao nosso alcance. Aquilo que não posso perdoar é a falta de vontade e de entrega, isso nunca. Aqueles 11 que estão lá dentro do campo têm sempre de dar o máximo e não há desculpas. Quem não o fizer, não é bem-vindo.

O que também não tem perdão possível é a atitude dos adeptos portistas. Já o escrevi demasiadas vezes, mas cansa-me ver que a estupidez ainda reina no Dragão. Assobiar o Hulk, por exemplo, devia ser considerada justa causa para se ser despedido do clube. Hulk não é só o melhor jogador do FCP, o mais explosivo, o mais decisivo, aquele que mais ninguém tem. Hulk é um jogador à Porto e, apesar de por vezes se perder em fintas ou pintar o cabelo de modo a parecer um pintainho, sabe bem quanto custa aquela camisola, contra tudo e contra todos, porque já o sofreu na pele. Assobiá-lo é dizer não só que não se gosta das dezenas de golos, de passes, de jogadas incríveis dele, mas também que não se percebe a essência do Futebol Clube do Porto.

E depois ainda há os que exigem o despedimento do treinador vencedor da Supertaça e que lidera o campeonato, com vitórias mais folgadas do que... e aí está a velha comparação... o ano passado! Pois é, o ano passado demos 5 ao benfica, foi espectacular e blá blá blá. Mas eu ainda me lembro da bola à barra da académica no último minuto naquele jogo mítico e do penalty falhado pelo setúbal no Dragão também no último minuto. Este ano, provavelmente essas bolas vão entrar. E vocês, seus espertalhões, vão dizer que a culpa é do Vítor Pereira.

Por falar nele, vamos ao treinador. Não sei o suficiente de futebol para o qualificar como técnico, mas gosto de ganhar jogos e ele lá os tem ganho. Os jogadores também não se cansam de o defender, o que me deixa descansada. Mas Vítor Pereira tem, à partida, um grande defeito: aquela cara. Aquela cara de coitadinho cheira a derrota. Eu percebo que não seja uma coisa fácil de conseguir, mas um treinador do Porto tem de ter cara de vencedor, tem de falar bem e de ser assertivo, tem de parecer que, mesmo quando a equipa está mal, só ele sozinho já mete mede aos adversários. E sim, era assim o ano passado, mas esse senhor agora anda a levar 5 do arsenal e a bater recordes de treinador do chelsea com menos pontos alcançados nos últimos anos. Uma carreira de sonho, portanto.

Isto não significa gritar nas conferências de imprensa, mister. Percebo que esteja irritado com os acéfalos que assobiam e que vão de madrugada ao aeroporto insultar, sem perceberem que estão a ser manipulados por uma massa crítica que adora colocar o primeiro classificado do campeonato em causa. Mas assim não. É preciso ter calma e mostrar essa agressividade lá dentro, já hoje, no Algarve. Nós, os que acreditamos em vocês, só queremos ganhar. E isso é tão fácil quando se está no FC Porto...

Voltando à Austrália, foi lá que vi, em directo, através do Skype, a entrega dos Dragões de Ouro. Admito que me emocionei com as palavras do meu ex, mas não foi por estarem a ser ditas por essa pessoa. Foi porque nunca, mas nunca mesmo, nos podemos esquecer delas.

"Dúvida? Não. Mas, luz, realidade
e sonho que, na luta, amadurece.
- O de tornar maior esta cidade.
Eis o desejo que traduz a prece.

Só quem não sente o ardor da juventude
poderá vê-la, de olhos descuidados.
Porto – palavra exacta. Nunca ilude.
Renasce, nela, a ala dos namorados!

Deram tudo por nós estes atletas.
Seu trajo tem a cor das próprias veias
e a brancura das asas dos poetas...
Ó fé de que andam nossas almas cheias!

Não há derrotas quando é firme o passo.
Ninguém fale em perder! Ninguém recua...
E a mocidade invicta em cada abraço
a si mais nos estreita. A pátria é sua.

E, de hora a hora, cresce o baluarte!
Lembro a torre dos Clérigos, às vezes...
Um anjo dá sinal quando ele parte...
São sempre heróis! São sempre portugueses!

E, azul e branca, essa bandeira avança...
Azul, branca, indomável, imortal.
Como não pôr no Porto uma esperança
se “daqui houve nome Portugal”?


«Aleluia», de Pedro Homem de Melo

Força, rapazes!