quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Happy birthday, Mr. President

Já devem ter reparado que por poucas vezes nos referimos a dirigentes neste blog. Eu e o M. temos este pequeno problema de amar os nossos clubes e de adorar futebol, aquele que se joga no campo verde, com 11 homens atrás de uma bola. O que se passa cá fora, os jogos de poder e as provocações maliciosas, pouco ou nada nos interessam.

Acreditaram nisto? Então agora falemos a sério. Jorge Nuno Pinto da Costa é o meu herói. Pode parecer uma expressão foleira, mas é isto que eu entendo por um herói. É alguém que me faz feliz, que está do meu lado, que tira dos maus para dar aos bons. Lidera o meu clube desde 1982, já ganhou 55 troféus, é o presidente mais titulado do mundo e venceu ontem um prémio carreira que foi primorosamente ignorado por alguma imprensa.



É geneticamente impossível eu discordar deste homem. Rio-me das suas piadas, comovo-me quando festeja um golo como se fosse o primeiro e imagino-o sentado no sofá a queimar estes jornais na lareira, com um sorriso de felicidade de quem vai ganhar mais alguma coisinha só para os lixar. Ainda bem que não percebem isto: que ignorá-lo ou insultá-lo só o tornam mais forte.

Pinto da Costa é força. É a força de um clube que não conseguia atravessar a ponte para desafiar o poder centralista. É a força de uma cidade e de uma região com uma identidade única. É a força de uma Taça dos Campeões europeus, de uma Liga dos Campeões, de uma Taça UEFA, de uma Liga Europa, de duas Taças Intercontinentais, de uma Supertaça Europeia, de 18 campeonatos, de 12 Taças de Portugal e 18 Supertaças. Vergonhosamente, nunca ganhou uma Taça da Liga, mas tenho a certeza que nem dorme só de pensar nisso.

O nosso presidente nunca se engana e raramente tem dúvidas, como dizia o outro. Já falhou em treinadores (Octávio Machado, como foi possível?!?!?), em muitos jogadores e sobretudo em mulheres. Mas o que é que uma pessoa vai dizer? "Olhe desculpe lá, senhor presidente, mas eu faria melhor"? Quem? Quem é que faz melhor? No mundo, ninguém. Noutros planetas, talvez, não posso negá-lo com toda a certeza.

Aquilo que mais me convence do quanto tenho de idolatrar Pinto da Costa é o ódio dos outros. Aliás, corrijo: é o medo dos outros. Eles esperneiam, eles gritam, eles dormem mal por causa dele. Mais até do que por causa do nosso clube, porque estão convencidos que um dia nós vamos cair. O problema, para os outros, é ele. Dói-lhes a cada palavra, a cada título, a cada sorriso. E isso, confesso, faz-me particularmente feliz.

Neste blog, por poucas vezes posso dizer isto, mas há um sentimento que nos une a Pinto da Costa: respeito. O M., que odeia o meu presidente e lhe deseja a morte sem precisar de o dizer num programa de televisão, ri-se quando o homem fala. Porque percebe o que ele quer dizer, o que ele sente, e gosta da maneira como o diz. Calma lampiões, não atirem o M. para a fogueira. Juro que eles nunca concordam no conteúdo, só a forma é que é apreciada.

Pinto da Costa fez ontem 74 anos. Presidente, espero obviamente que faça muitos mais. Conto consigo para a dureza do dia-a-dia que é ser do Futebol Clube do Porto e lutar contra tudo e contra todos. Juro que faço a minha parte e peço-lhe apenas que de vez em quando deixe o M. ser um bocadinho feliz, porque ele é bom rapaz e eu gosto muito dele.

2011 não foi um ano mau (IV)

Por cada Supertaça Europeia perdida... houve 70 títulos para o clube português com melhor palmarés.

2011 não foi um ano mau (III)

Por cada clube da Segunda Circular que ficou em casa a ver... houve outro do Norte na final da Liga Europa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Falcao, no me jodas

Tento evitar ver-te, lembrar-me do que és, de como me fizeste feliz. O M. de vez em quando lá desabafa:

- "Viste o golaço do Falcao?"

Não, não vi. Nunca vejo. Mudo de canal, viro a página, esqueço-te todos os dias. Insisto que já não significas nada para mim, que a vida seguiu em frente e que outros como tu se seguirão. Tardam a seguir-se. E eu continuo a mentir-me.

A verdade, Falcao, é que não é só o facto de estares longe que me magoa. É estares aí, nesse buraco. Nessa equipa triste, sem ideias, com jogadores tão fracos e com mentalidade de derrotados. Entras em campo para tentar não perder e já não podes ter o discurso que fazia de ti El Tigre. Ao teu lado, hoje, enquanto eras afastado da taça pelo mágico albacete, tinhas o Salvio e o Pizzi. Não tinhas o Hulk, o James, o Moutinho, o Fernando, o Rolando, o Álvaro, o Helton. Tinhas o Salvio. E o Pizzi.

Não te lembras do que fizeste à equipa desse Salvio? Do quanto os humilhaste, de como foste muito maior do que eles? Não te recordas da equipa do Pizzi? Sabes em que lugar está no nosso campeonato? E achas normal que sejam eles agora a passar-te a bola?

Falcao, hoje aguentei ver-te. Vi-te a correr, a pressionar os defesas como só tu sabes, a vires buscar a bola cá atrás para ensinares os outros, a rematares com força, a saltares entre os defesas, a lutares. Lutaste muito. És muito bom mesmo. Mas sabes que mais? Estavas sozinho. Vi outros com o mesmo equipamento do que tu (vestes de vermelho, meu deus, como é possível?), mas estavas sozinho. E não sorriste uma única vez. Porra, Falcao, como tenho saudades de te ver sorrir depois de decidires uma Liga Europa.

És muito melhor do que o atlético de madrid te pode dar. E tu sabes disso. Mas dizes-me constantemente, nos meus sonhos de adepta que ainda te vê de cor azul, que a tua conta bancária está cada vez mais recheada. Que estás logo atrás dos craques do barcelona e do real madrid na tabela dos melhores marcadores. Que estás no melhor campeonato do mundo. Que estás numa "montra".

Falcao, no me jodas.




És a cara deste atlético. É a ti que te conhecem, é de ti que esperam que salves este clube. Os adeptos, naturalmente, perdoam-te tudo. Mas os senhores do dinheiro, os que mandam nisto, esses, melhor do que eu, esquecem-te um pouco todos os dias. Podiam estar a ver-te noutros relvados, a brilhar, quem sabe, com o escudo de campeão ao peito, mas não. Preferem, provavelmente, mudar de canal para não te ver sofrer.

Acorda, Falcao. Vai bater à porta doutro antes que seja tarde demais. Salva-te desse barco a afundar-se. Ao contrário do que possas pensar, a tua ganância não me fez odiar-te. Quero mesmo ver-te no topo. Mas até lá, confesso, ainda me rio quanto te vejo aos gritos para o Salvio e para o Pizzi, como se eles fossem atrasados mentais que não sabem o que fazer com a bola. São-no, é um facto, mas tu não és melhor do que eles. Jogas melhor, tens mais dinheiro, mas preferiste isto ao FC Porto. E isso, para mim, torna-te um desastre total.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Falhei e já segui em frente

Todos nós temos um pouco de adepto idiota, de treinador incompetente e de comentador falhado. Somos os primeiros a insultar um jogador que depois faz um hattrick, a reprovar uma substituição que resolve a partida e a elaborar toda uma vasta justificação para um penalty escandaloso não assinalado contra a nossa equipa. No entanto, raros são os que, como eu e o Duarte Gomes, admitimos os erros.

Este fim-de-semana, estava a ver o clube do Abramovich quando me lembrei de uma história que mostra bem o quanto nos podemos enganar. Foi em 2005, no aeroporto de Bratislava, e tínhamos acabado de ser afastados das competições europeias por um gigante do futebol chamado Artmedia.

Ao meu lado, um senhor de aspecto duvidoso, gabardine bege e óculos pequeninos olhava para um papel no qual estava desenhado um relvado. Comecei a espreitar descaradamente até reparar que estavam lá escritos os nomes dos jogadores do FC Porto da altura. Quem seria tal personagem e o que estaria ali a fazer, no fim do mundo, com ar de quem estava em missão ultra-secreta de espionagem?

Mistério rapidamente resolvido. Perante a minha curiosidade pouco subtil, o senhor lá me explicou num inglês muito torto que era um olheiro do Torpedo de Moscovo e que tinha ido até à Eslováquia para analisar os craques portistas. Depressa se juntou um grupo à sua volta e, numa linguagem entre o inglês, o português e toques acentuados de russo, fizemos o enorme favor de lhe adiantar, em primeiríssima mão, quem era o melhor jogador do FC Porto na época 2005/2006.

“José Bosingwa!”, gritámos todos, quase em uníssono, sem precisarmos de olhar uns para os outros. Recordo que estamos a falar de uma temporada que não estava a correr de feição e em que o lateral direito português estava muito longe de se tornar o jogador a quem agora reconhecemos vários méritos. Bosingwa era, na altura, um dos mais assobiados do plantel e nós não tivemos dúvidas na hora de tentar despachar um jogador para o frio de um clube russo que ainda hoje desconhecemos.

O olheiro, baralhado das ideias porque tinha acabado de ver um Bosingwa com uma exibição miserável em Bratislava, contra-argumentava que tinha achado o Lucho Gonzalez e o Benny McCarthy os melhores jogadores da equipa. Mais uma vez, quase em uníssono, fizemos um “buuuu” internacional, misturado com gestos que envolviam o polegar virado para baixo, bem explícito do quanto o argentino e o sul-africano eram “odiados” pelos adeptos.

O russo, coitado, insistia que o Diego, o Pepe e o Lisandro também lhe pareciam promissores. Não percebia nada daquilo, pá. E nós repetíamos: “José Bosingwa, José Bosingwa, José Bosingwa”. Nunca mais o vi, claro, mas não me recordo de ter havido alguma oferta do Torpedo de Moscovo pelo lateral direito, pelo que devemos ter sido bastante óbvios.

Não são poucas as vezes que me lembro deste senhor e da cara com que deve ter ficado quando viu o Bosingwa no Chelsea por mais de 20 milhões de euros, dois anos depois deste episódio. Aposto que ainda hoje sonha com o grupo de adeptos portistas que, num aeroporto de Bratislava, o aconselhou a comprar aquele jogador quando ele ainda podia ter saído por uma pechincha. Isto se não se suicidou.

O meu encontro com o olheiro do Torpedo demonstra bem como andamos aqui todos com a mania que percebemos alguma coisa disto. Cada vez que vejo o Bosingwa a fazer um corte, a sair a correr e a centrar para a área sinto-me a adepta mais idiota do mundo, a treinadora de bancada mais incompetente de sempre e uma comentadora completamente falhada. Mas enfim, eu reconheço-o. Falhei, segui em frente e continuo a falhar imensas vezes.

Além disso, acho que todos concordamos que, em 2005, o lateral direito do FC Porto não parecia grande coisa. Já o penalty sobre o Belluschi do último sábado nem aqui nem na Lua pode ter passado despercebido a alguém. No entanto, houve dois senhores que não o viram. Azar dos azares, foram o árbitro e o fiscal-de-linha.

Longe de mim acreditar que tanto um como outro teriam algum interesse em não o assinalar. Estou convencida que foi apenas um azar o facto de Duarte Gomes, o mesmo que tornou o benfica-guimarães num jogo de andebol imaginário, ter evitado um penalty que por mérito dos jogadores portistas não veio a ser necessário. Fiquei até comovida por vê-lo a admitir o erro no Facebook, esse veículo de posições oficiais tão apreciado até pelo Presidente da República.

“Falhei e já segui em frente”, escreveu ele. Felizmente, o FC Porto não falhou e também segue na frente. Para azar de todos os adeptos idiotas, treinadores incompetentes e comentadores falhados.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Querido Pai Natal

O M. é ateu, eu sou agnóstica. As nossas famílias têm tanto de crentes como o Luís Filipe Vieira de honesto. O meu sogro tem um nome proibido de entrar em igrejas, o meu pai não entrou numa igreja nem no baptizado dos filhos. Enfim, há todo um espírito religioso nesta casa, como devem imaginar.

O Natal, no entanto, é muito mais do que isso. Fomos educados para sentir esta época pelo que tem de verdadeiramente importante: a família, uns jogos de cartas e muito álcool.

Além disso, o Natal sempre foi, para todos, símbolo de futebol. Nesta altura do ano, há duas tradições sagradas: o FC Porto ter 10 ou mais pontos de vantagem sobre os (vamos chamar-lhe assim para sermos simpáticos porque, afinal, é Natal!) rivais, e o sportem já ter falecido.

Quando conheci o M., percebi que isto era uma certeza nacional, ainda que a primeira parte não fosse motivo de tanta festa como na minha cidade. Este ano, no entanto, não é bem assim.

Começámos a época a dizer que o sportem agora não chegava nem ao ano lectivo e afinal os lagartos ainda estão aí para as curvas. E dissemos logo que, se até ao Natal Porto e benfica não descolassem, íamos sofrer até ao fim.

Os jogos em Aveiro e na Madeira demonstraram isso mesmo. Aquele golo que o beira-mar falha no último minuto não é normal, como não é normal que o benfica não jogue nada mas tenha um emplastro chamado Cardozo a encostá-las lá para dentro quando já ninguém acredita.

Quando o Rui Orlando, da SportTv, gritou golo do Élio, corri furiosa para o quarto enquanto o M. – imagino – sorria. Foram segundos de terror, a questionar-me por que é que aquilo só nos acontece a nós e por que me parece o futebol (qual futebol, o mundo!) tão injusto. Felizmente, foi só um susto (qual susto, quase que morria!) e o FC Porto continua na frente. Infelizmente, o jogo nos Barreiros não acabou aos 83 minutos, quando tudo me parecia tão bem, nem teve um árbitro melhor, que tivesse visto a falta sobre o guarda-redes no lance que origina o golo.

Por isso, Pai Natal, eu e o M. (que, ressalvamos, não acreditamos em ti nem no que tu significas, mas somos boas pessoas) só temos uma prenda a pedir-te: acaba com esta merda depressa para podermos pensar noutras coisas importantes como a crise, o euro e não sei quê.

Por mim, deixo-te já uma sugestão: faz com que o Porto descole e os outros fiquem, como sempre, a lutar pelo campeonato da Segunda Circular. M., sem querer parecer muito infantil... EU DISSE PRIMEIRO, ZERINHAS INFINITOS MIL, QUEM DIZ É QUEM É E EU DIGO QUE SOU CAMPEÃ!!!

domingo, 11 de dezembro de 2011

A orquestra blaugrana



Mantiveram a calma quando o vulcão do Bernabéu explodiu, naquele golo antes do jogo começar. O plano mantinha-se: jogar à Barça, no matter what. O Madrid pressiona, golpeia, corre como nunca, com aquelas listas douradas horríveis na camisola, com CR7 louco para mostrar os abdominais num festejo que o consagre contra o seu maior rival. E o Barça, como se nada estivesse a acontecer, a trocar a bola. Pontapé de baliza e começam a jogar de trás, pontapé para a frente é proibido. Com uma calma doce, poética, como quem ouve música clássica e não um ensurdecedor Bernabéu.

O Barça está longe de um espírito revolucionário republicano contra os falangistas. O Barça está zen. É como se todo o onze jogasse de phones (todos a ouvir a mesma música), alheados do rival, como se não tivessem que olhar para ele. Minha, tua, tua, minha, passa, foge, minha, tua, volta atrás, minha, tua. E a música, sempre a música. Iniesta dança, levita com a bola colada ao pé direito e faz o mundo parar quando sobrevoa Coentrão, como que para lhe tirarmos uma fotografia (a sépia, porque este Barça já é clássico).

Tudo é harmónico, tudo é belo. Ronaldo, que é surdo, falha um golo à Postiga. Uma bizarria, uma coisa de quem, sem sequer ser comparável a quem ouve música, está demasiado tolhido pelos nervos, como um aluno na véspera de uma prova oral mal preparada, que sabe que vai meter os pés pelas mãos e levar-se a si mesmo a falar do que não sabe.

Xavi, o Humphrey Bogart vestido de jogador de futebol, joga como quem fuma. Como se estivesse de gabardina de gola alta, blaugrana. Um cabrão maquiavélico que se ri por dentro de cada vez que afunda a faca mais fundo na barriga do rival. Um rival que, sangrando, correr cada vez mais desmoralizado à procura de uma bola que não vê. Roda sobre os adversários desesperados como quem tira outro do maço. Play it again, Xavier.

O Bernabéu, de súbito, cala-se e, lá ao fundo, começa a ouvir as primeiras notas. Uma valsa quase anti-depressiva para quem está tão longe. Já não há nada a fazer. Fabregas troca a bola melancolicamente, como quem regressa ao seu amor de sempre, perguntando-se, enquanto vê Iniesta continuar o seu solo de bailado, porque perdeu tanto tempo fora dali. Já dizia o Jorge Palma, que nunca é tarde para se ter uma infância feliz. Cesc voa e marca e volta ao recreio da escola, a fingir que é Laudrup, e vê Xavi feliz a dizer-lhe que ele é o Guardiola e é como se tivesse 8 anos outra vez, e nunca tivesse jogado no Arsenal e tivesse a vida inteira pela frente.

O Barça dança, tântrico. Massacra com “meiinhos” estrelas dos 30 aos 96 milhões de outros. Mas não se gaba disso. Dança, diverte-se, como uma noite adolescente inesquecível que guardamos no coração. Com a certeza de um amor que é para sempre, o amor pelo toque, que Cruyff lhes ensinou. O Barça diverte-se e é tão feliz, que enternece. Quando Messi arrancou para dar o primeiro golo, o iPod dos barcelonistas sintonizou-se em Carlos Gardel, lembrou o 2-6 no Bernabéu, a manita, o golo maradoniano nas meias-finais da Champions e sorriu. A música era já nítida, mesmo para quem não estava sintonizado.

Sorriu e lembrou-se da dança que assombra o mundo desde 2008, quando numa tarde solarenga, em Soria, o Numancia lhes ganhou 1-0, num jogo que vi enquanto estudava para o meu exame da especialidade e em que, longe de adivinhar o que aí vinha, me diverti. Como se ouvisse uma música a tocar lá ao fundo.
Depois do 1-3, o Barça continuou. Não com a sofreguidão de uma última noite de Erasmus, como se golear fosse importante, mas com a ternura de quem brinca, como que querendo honrar Romário, que dizia que não gostava de rematar, mas de passar a bola à baliza. Iniesta parecia querer entrar com ela lá dentro e Messi queria tabelar com todos, como quem quer estar com todos os convidados em dia de casamento. Xavi, com aquele ar sério, continuou na dele. À memória dos pés de Fabregas voltavam jogadas ensaiadas contra os rivais da 3ª classe. Para o público do Bernabéu, a música era já ensurdecedora.

E foi assim até ao fim, dançando, que o Barça acabou o jogo. Como se não interessasse o resultado.  Guardiola, de pé, sorri tristemente, como quem dava tudo para que aquilo fosse para sempre e pudesse participar. Minha, tua, tua, minha. A música mais bonita que se tocou na história.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Mau perder

Não sei perder. Não sei se já repararam que não sou daquelas pessoas que, na derrota, reconhece o mérito do adversário ou admite que não fomos melhores. Não fui educada para isso e, felizmente, nunca tive de me habituar a tal. Ou seja, podia estar aqui a escrever um longo texto sobre os erros que levaram o FC Porto a não passar um grupo razoável da Liga dos Campeões, mas prefiro começar por dizer que perdemos graças à interferência do árbitro no resultado.

Sim, é verdade que não fizemos o suficiente para passar. Mas o futebol nunca foi de justiças, por isso, se o árbitro tivesse visto aquele penalty e se tivesse expulsado aquele senhor que lesionou o Defour até ao próximo ano, podíamos perfeitamente estar aqui a falar de futuros adversários do primeiro classificado do grupo G.

Pronto, agora vamos a coisas sérias. Uma das vantagens de ir ver o jogo ao estádio é que sou eu que decido o que vejo. E então, depois de uma primeira parte razoável, eu decidi passar a segunda a olhar para o ponta-de-lança do FC Porto. Já sabem que ele não jogou de início, porque a equipa marca mais golos sem o seu avançado, não já? Então eu digo-vos que passei 45 minutos a olhar para uma das piores coisas que já vi com a camisola do meu clube.

Não tenho nada contra o Kléber, juro, até o acho giro (um factor muito importante para uma adepta). E até admito que um dia, depois de muito aprender e de rodar por outros clubes, possa tornar-se um bom avançado. De momento, não o é. Longe disso.

Kléber é um daqueles avançados que precisa de apoio do lado direito, do lado esquerdo, atrás e, se possível, à frente. Tipo Nuno Gomes. É um rapaz que corre muito e até parece pressionar, mas não o sabe fazer, por isso só se cansa. Tipo Postiga. Tem técnica, joga bem com os dois pés e de cabeça, mas NUNCA está no sítio certo. Tipo Hugo Almeida. Não ganha uma bola de cabeça, não se antecipa a um defesa, não consegue ter um rasgo de magia. Quando a equipa quer mesmo, mesmo ganhar, ele sai. Tipo Pauleta.

No final, contam-se às dezenas os remates do FC Porto e, se não me engano, nenhum foi feito pelo seu avançado. Como disse? Pois. É que o rapaz até é matador, quando tem uma oportunidade não falha, o problema é criá-la. E pensam vocês: então são os colegas que não o ajudam. Não, não são. Eu vi com os meus olhinhos o Álvaro Pereira a pegar na bola, cruzar para a área, a bola a passar o defesa... E o Kléber a fazer um movimento incrível de recuo, até ir parar ao meio círculo. Infelizmente, o defesa não chegou lá, não cortou mal e a bola não sobrou para ele. Mas podia acontecer...

A culpa não é do Kléber, muito menos do treinador. A culpa é de quem achou que isto chegava para o FC Porto. Não chega e no mercado que aí vem quero ver o que será feito para colmatar essa enorme falha.

O problema é que não há dinheiro. O FC Porto farta-se de vender jogadores por quantias milionárias, mas acabamos sempre a contar os tostões. Principalmente quando descobrimos que o Falcao, afinal, significou apenas 21 milhões de euros a entrar na conta. Um valor vergonhoso, que pode ser necessário para equilibrar a balança, mas que, desportivamente, nos está a sair muito caro. Ainda por cima, reparamos agora que o Danilo acabou por custar 18 milhões. O rapaz ainda nem sequer chegou e eu não só lhe exijo já que faça na perfeição um corte como o do Maicon àquele venezuelano no último minuto, como estou mesmo à espera que um lateral direito de 18 milhões de euros marque, no mínimo, 20 golos até ao final da época.

E, por falar nesse petiz com vontade de ir à casa-de-banho nas bandeirolas de canto, que tristeza ver o meu clube tão assanhado com tamanha pequenez. Eu não tenho problemas nenhuns em insultar um adversário, assobiá-lo, tornar-lhe a vida difícil a cada toque na bola. Mas gosto de escolher bem a quem o faço. Gosto que sejam rivais temíveis, gosto de odiá-los em proporção à sua qualidade que eu não reconheço e gosto que ele dê importância à nossa rivalidade. Já o fiz com João Vieira Pinto, com João Moutinho, com Cristiano Ronaldo e com Figo. Agora, o Danny???? Por favor... Há 50 mil jogadores melhores do que ele.

Mas deixemo-nos de admitir estes detalhes. O facto é que estamos outra vez na Éróligue e ainda bem, porque não íamos fazer nada à Champions. Pena que assim também tenham "pensado" o náite, o city e afins. Fora o sportem, começo a acreditar que este ano temos competição a sério. Até porque já sabemos como vai acabar a Liga dos Campeões (benfica-barcelona).

Olhemos para o futuro. Vem aí um beira-mar temível nos 0 a 0. E nós temos o Kléber. No final do jogo com o zenit, o jogador brasileiro queixava-se do "autocarro" dos russos. No fim-de-semana temo que venha aí um camião. E o rapaz não tem, claramente, carta de pesados.

P.S. O Djaló admitiu hoje que pode vir a jogar no benfica ou no Porto. Uma espécie de ameaça ao sportem, que tanto chora a sua partida. Eu e o M. queremos apenas deixar desde já por escrito que ele pode admitir vir a jogar nos nossos clubes, mas os nossos clubes não admitem que isso aconteça.

P.S.2 O salgueiros comemorou hoje 100 anos. Um clube mítico, um estádio terrível, uns adeptos ferrenhos que baste. Parabéns salgueiral, voltem depressa!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Velha Guarda

A arquibancada era a minha casa. Habituei-me a ver o jogo lá de cima, entre os meus pais, a ouvir um senhor a gritar ao Aloísio para subir (queria que ele se tornasse o Pepe... um visionário, portanto). Lembro-me da minha mãe aos gritos, sempre que começava toda a gente a bater com os pés no chão para assustar os adversários. A bancada tremia toda. Sentia-me bem ali.

Mais tarde, aos 13/14 anos, a C. convidou-me para ir para a central. Tudo o que tinha de fazer era levar uma bandeira de um jogador para o relvado quando as equipas entrassem em campo. Como devem imaginar, foi a função mais importante que alguma vez tive na vida. Os "grandes" ficavam com as bandeiras das estrelas (Jardel, Deco, Drulovic, Capucho...) e eu era obrigada a ficar com o Secretário, o Chainho, o Peixe... Um orgulho imenso.

Ali ao lado, da Superior Sul, vinha o barulho. Gostava de os ouvir cantar, de ver as bandeiras no ar. O toque final foi num FC Porto-boavista em que os remendados já eram campeões (ainda me custa dizer isto...). Quando marcámos o 4-0, os Super Dragões sentaram-se na bancada e começaram a remar, tal como fazia o Silva, esse avançado horrível. O sentido de humor conquistou-me. O meu clube não ia ser campeão, era o segundo ano consecutivo, uma tragédia!, e aqueles gajos fizeram-me rir.

Foi aí que comecei a tentar perceber como é que uma miúda podia ir parar aos Super Dragões. Conheci o H. e obriguei-o a ensinar-me os cânticos (belas tardes passadas no café a escrevê-los nos guardanapos). Depois conheci o J., que me foi mostrando o fenómeno ultra. Aos 14 anos, dei por mim a preferir estar no quarto a ouvir músicas da claque do Milan do que de uma boys band qualquer, como as minhas amigas. Compreendo agora que não tenha sido muito normal.

Um dia, ganhei coragem e pedi à minha mãe. A resposta ficou algures entre o "nunca" e o "nem pensar". O meu pai não dizia nada. Foram meses e meses de insistência até que, depois de um Porto-farense em que passei o jogo com um olhar triste virado para Sul, a minha mãe me disse:

- Se prometeres que é só um jogo, deixo-te ir uma vez para os Super Dragões. Mas só uma vez! Prometes?
- Claro que sim, mãe.

E nunca mais voltei a outra bancada.

O FC Porto-Sparta Praga foi o meu primeiro jogo nos Super Dragões, no dia 4 de Dezembro de 2001. Perdemos 0-1, pelo que a minha mãe ainda tentou recorrer ao argumento que eu não dava sorte. Ela riu-se, porque sabia que já não havia nada a fazer. O meu pai continuou sem dizer nada.

A emoção foi tanta que, aproveitando o lanço, quis logo ir ao próximo jogo fora. Azar do caraças, era em guimarães. "Nunca", "nem pensar", "nem sonhes". Hoje, parece-me evidente que uma mãe não deixasse a sua filha de 15 anos ir a guimarães com uma claque. Naquela altura, era uma profunda injustiça. Eu era a melhor aluna da turma, nunca tinha dado problemas nenhuns aos meus pais e só queria ir apoiar o Porto. Não havia razão nenhuma para não me deixarem ir (a não ser guimarães ser o estádio mais perigoso deste país, mas isso aos 15 anos parecia-me secundário).

Estávamos em acesa discussão quando, de repente, o meu pai se mete e diz:

- Eu vou com ela.

Fiquei calada e fui direitinha para o quarto, à espera do veredicto do general. Não sei de que é que eles falaram nesses dias, mas o certo é que no fim-de-semana seguinte lá estava eu, em guimarães, com os Super Dragões.

O meu pai tornou-se, assim, o meu companheiro de bola. Hoje, percebo como fui usada para cumprir um velho sonho dele: andar sempre atrás do Porto, com os maiores índios ao lado. Enfim, tenho a quem sair.

Os Super Dragões tornaram-se a minha casa. O J., o M., o P., o L., o F., o N., o B. tornaram-se meus amigos. Os jogos eram só uma pequena parte da nossa cumplicidade. Passávamos horas a pintar frases, a preparar coreografias ou simplesmente a conversar. A velha sede era o local de encontro de gente boa.

Nesse Natal, os meus pais deram-me uma camisola dos SD. Sublinho que, nessa altura, o marketing da claque não era uma coisa propriamente muito desenvolvida. A camisola ficava-me enorme e não tinha as formas de uma mulher. Usei-a milhares de vezes. É verdade que não havia muitas mulheres por ali. Conheci a X. e as S., velhas guardas da curva, mas o resto eram namoradas ou esposas que iam controlar os seus homens.

Uma vez, decidi ir com a N. a um jogo de andebol (não tinha muita coisa para fazer na altura, é verdade). O meu pai não podia ir, por isso tínhamos de ir de camioneta com eles. Recordo que, nesses tempos, os SD iam quase sempre numa só camioneta e que esse não era um belo local para duas miúdas de 15 anos. Quando entrámos, ficou toda a gente a olhar para nós. Tudo homens. Nenhuma cara conhecida. Estava cheia, não tínhamos onde sentar-nos. Um cavalheiro ofereceu o seu colo para as duas. Ao longe, ouviu-se a voz do Presidente:

- Com essas ninguém se mete. São duas de nós.

E ninguém se meteu. Nem naquele dia, nem nunca. Passámos a ser protegidas por todos. Claro que há gente má ali, que não quer saber dos outros e que arranja problemas. Mas, fora esses, havia ali uma família. E ainda há, mesmo que enorme.

Durante esses anos, fui a dezenas de estádios, de Norte a Sul, às ilhas e ao estrangeiro. Gastei uma fortuna (sempre a duplicar, porque o meu pai foi a quase tantos como eu), mas ganhei muita coisa. Os amigos, claro, que ainda hoje são os mesmos. Cresci muito com as coisas que vi, boas e más, e que me abriram os olhos para o que é a sociedade, muito mais cedo do que se tivesse sido uma miúda normal de uma escola de betos. Aprendi a explicar às pessoas que os preconceitos que formam sobre as coisas e as pessoas podem estar muito longe da realidade. Continuei a ser a melhor aluna da turma e a não dar problemas aos meus pais. E fui feliz como o caraças, porque o Porto ganhou tudo.

Hoje, dez anos depois, muita coisa mudou. Mudei de cidade e as prioridades são outras: o M., a família que está longe e o trabalho. A única coisa que se mantém é que continuo a fazer o possível para ir apoiar o meu clube. Terça-feira, lá estarei. Na bancada do costume.