sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Onde é que tu estavas no 4-4 em Leverkusen?

Depois do sorteio de ontem não há como não recordar Leverkusen e aquela jornada de enfarte na Taça das Taças. O Benfica de 1994 era maravilhoso e jogava à bola que se fartava. E era humano, nos seus defeitos e nas suas teimosias. Recordo-me dele com carinho e com um sorriso - agarrei-me com força a este Benfica durante 11 anos, portanto é natural. E, de tantas grandes jogatanas dessa época, lembro-me nitidamente de Leverkusen.

Eu vivia em Faro e tinha 10 anos. E agora podia continuar e dizer que "era uma criança como todas as outras". Mas não era. Tinha 10 anos, era muito bom aluno, mas muito calado. Não saltava telhados nem fazia descidas perigosas de bicicleta. Vivia no terror de me perder (era o que eu tinha mais medo, era de me perder). Enfim, era um marrão. Mas adorava futebol e o Benfica. Se havia confusão no recreio eu afastava-me. Mas se havia futebol estava sempre lá, suado e com as calças rasgadas, prontas a levar mais um remendo no joelho. Fazia as vontades todas aos meus pais e nem discutia com a minha irmã (mais velha do que eu, com interesses diferente). 

A temporada corria bem ao Benfica. Íamos em primeiro no campeonato e a caminhada europeia continuava.  O João Pinto estava numa forma inacreditável e eu estava feliz e confiante. Quando nos calhou o "Bayer de Leverkusen", só me ocorreu perguntar - eu sabia que retoricamente - que aquele não era o Bayern. O meu Pai disse-me que não, mas que eram o "fortíssimos" e, do alto do seu pessimismo habitual, que está agora irremediavelmente entranhado em mim, prognosticou logo: "Vamos ser eliminados.". Aos 10 anos eu tinha medo de muita coisa: de não ter os trabalhos de casa certos, de me perder a ir para casa, que alguém me batesse na escola, etc. Agora, de uma equipa que eu nunca tinha ouvido falar, não. E logo eu, que sabia de cor o 11 da Juventus, do Milan, do Barcelona e do Boavista do Manuel José. Enfim, um expert. Em 1994, ver um jogo de futebol em Faro podia tornar-se uma aventura (nós nem tínhamos SIC) e foi com alegria que recebi a notícia que íamos ver o jogo a casa dos Pelica, que tinham satélite e tinham a DSF (onde eu viria a ver, uns anos mais tarde, as finais dos Bulls contra os Utah Jazz). Podíamos ir ver o jogo. Em nome do manto sagrado, foi-me levantada a hora de me deitar. E lá fui eu, super confiante.
Não jogámos nada, nada, nada. E aquilo mexeu comigo. Primeiro estava controlado, mas depois, exasperado pelos estrangeiros que o Toni tinha escolhido e com a nossa incapacidade de passar o meio campo, comecei a soltar comentários. Se bem me lembro, de lágrimas nos olhos, cheios de raiva, acho que disse, inclusive, que o Toni era "um burro de merda". Recordo-vos que eu era muito bom aluno e nunca me portava mal, portanto isto deve ter sido mais bizarro do que parece. O Isaías marcou o 1-1 mesmo sob o apito final, num golo cheio de ressaltos e lá me aliviou um bocado. À ida para casa, no mais perto que o meu Pai teve que se zangar comigo uma infância inteira, ele lá me confrontou (não sei se com estas palavras exactas, a minha memória é muito boa, mas não chega a tanto. Bem, não interessa, o tom era mais ou menos este.): "Portaste-te um bocado mal. Já estavas a falar mal de toda a gente. Do Toni, do Isaías, do Paneira...". "Pois foi", anuí. "Não podes sofrer tanto. Já te tinha dito que eles eram mais fortes e que íamos ser eliminados.". E, confrontado com a fria realidade, lembrando-me das lágrimas que vertera sem parar depois de termos levado 3-0 da Juventus no ano anterior, decidi aceitar a derrota e não sofrer com o jogo da segunda mão. 

Não me lembro de nada entretanto. Não me lembro de um acontecimento. Não sei o que se passou entre 2 e 14 de Março de 1994. Mas lembro-me, com exactidão doentia, do dia 15.
Entrámos de branco em Leverkusen. O branco impoluto, à Benfica, que o Glorioso envergava quando os adversários tinham a ousadia de envergar a cor do manto sagrado. Mas eu, como era bom rapaz e já o tinha prometido ao meu Pai, entrei em campo calmo e aceitando a derrota anunciada.
Fizemos um jogo louco, brilhante. Cheio de alma, cheio de vida. A equipa jogava cada bola como se o mundo acabasse depois daquilo e trocava-a com arrogância, com uma superioridade que não era própria de quem ia enfrentar Kirsten, Schuster e Paulo Sérgio. Tabelas, fintas e graça, mas a bola não entrava. Em cada jogava, empolgava-me por dentro, mas não me queria mexer, para não mostrar ao meu Pai que, no fundo, lhe estava a mentir e que acreditava. Foi com surpresa que o ouvi gritar ao Isaías "CHUUUUTA!" e larga um "Merda" quando os alemães cortam. Afinal, ele também acreditava. 
E, apesar de descomplexados, apesar de estarmos a limpar a imagem da primeira mão, 1-0 deles, frango do Neno. Um clássico de 1994: cada cruzamento era um suplício. Um género de Roberto, mas com uma super equipa à frente e capaz das manchas mais impossíveis. Porra. Fiquei chateado, mas continuei a acreditar. Porque não? Estávamos a jogar tão bem.
Segunda parte e 2-0 deles. Schuster. Baixei os braços, desaminado. E o meu Pai desatou a insultar toda a gente. Toni, Neno, William, Abel Xavier. Tudo uma merda. E eu, feito estúpido, a acreditar. Eu achava que sim, que éramos melhores. Logo a seguir, canto nosso. O meu Pai ainda está a insultar alguém nosso, bola no Rui Costa, calcanhar e um grande berro: "MAS PORQUE É QUE ESTE GRANDE ESTÚPIDO VAI CHUTAR?" e antes da frase a acabar, já a bola entrou. Golo nosso. Um golaço inacreditável do Abel Xavier. E eu aos pulos na sala. O meu Pai a olhar para mim e para o Abel Xavier, sem saber estava mais incrédulo de eu ainda acreditar se do Xavier ter marcado aquele golo. 

Fiquei possuído. Senti que íamos virar aquilo. Canto nosso. Levanto-me, faço gestos para a televisão, mando toda a gente subir, quero ganhar a estes alemães, quero pedir desculpa a toda a gente de me ter portado mal em casa dos Pelicas, quero ganhar, quero que o Benfica ganhe. Filmam a área alemã e o meu Pai (grande noite, Pai, estavas em forma): "PORQUE É QUE O JOÃO PINTO, COM AQUELE TAMANHO, INSISTE EM SUBIR NOS CANTOS CONTRA OS ALEMÃES?!" Rui Costa bate e JVP faz o 2-2. A minha Mãe veio à sala tal era o meu estado de euforia. Almofadas pelo ar, o meu Pai em cima do sofá e uma gritaria de envergonhar o terceiro anel. No contra-ataque, quando o Kulkov fez o 3-2, eu e o meu pai abraçamo-nos no sofá como o Kulkov e o Yuran e eu já estava no céu. O Benfica não jogava, planava na relva. Rui Costa fez dos melhores jogos da sua carreira e Paneira e Isaías estavam impossíveis para os alemães. A equipa girava, encantada consigo mesma. "Ainda vamos perder isso." - a frase foi do meu Pai, mas esta é uma característica que eu hoje tenho. Estamos a ganhar 3-1 ao Marítimo, estamos com um a mais e a dar um festival, mas eu sinto sempre que algo me vai lixar a noite. Que ainda posso acabar mal disposto. Foi, claramente hereditário. Quando os alemães fizeram o 3-3, foi a primeira vez que me lembro de ter um timbre adulto e concentrado. Deixei de ser um miúdo de 10 anos, crente e iludido nos poderes divinos do Glorioso e perguntei: "Quanto tempo falta?". Esta maturidade, ganhara-a nos infantis do Farense, onde já tínhamos sido previamente ensinados a "demorar mais tempo a ajeitar as meias antes de marcar um livre quando estivéssemos a ganhar". Lembro-me de tudo ser confuso, extremamente rápido e alucinante.

Comecei a chorar convulsivamente no 4-3. Corriam-me lágrimas e lágrimas, não isoladas, mas como se uma camada de água me cobrisse a cara, ma encharcasse. Lembro-me da tristeza de tudo aquilo, do meu Pai ir acender um cigarro e afagar-me a cabeça antes. Foi uma coisa que parecia definitiva, um golpe que demoraríamos anos a sarar, uma cicatriz para a vida. E podíamos ter sido tão felizes, não podíamos? O Kulkov e o Yuran ainda há pouco estavam abraçados, como é que a vida pode ser tão miserável, tão cruel? 

E eis que o Rui parte na direcção do meio campo deles. Sem a poesia em movimento, mas com uma velocidade até inusitada. Nós levantamo-nos no sofá. E o Rui dá no JVP. E nós já estamos aos berros, e a minha Mãe já está a entrar na sala. E o JVP, da esquerda para a direita, finta um. E nós já estamos em cima do sofá, há muitos berros, há muita confusão, e não sei se sou eu que grito ou se é o meu Pai ou se a minha Mãe, mas o JVP prega o Lupescu ao chão e dá no espaço e parece que há uma força de todos nós que empurra o Kulkov, chuta Kulkov, chuta, e o meu Pai grita GOOOOOOLO e abre os olhos de espanto para a televisão e está de braços no ar, até que percebe, espantado, que eu não gritei golo, e olha para mim e eu parei de respirar. 
Não entrei em paragem cardio-respiratória, não tive de ser reanimado nem nada, mas, quando o Kulkov meteu o 4-4, estive uns bons 3 segundos sem conseguir respirar com a emoção. Quando o ar me voltou, gritei e gritei (sozinho, porque os meus pais estavam petrificados de medo que eu caísse ali para o lado) e dei voltas à casa e gritei ainda mais. Lembro-me de que, quando o jogo acabou, toda a sala era um caos. Sofás virados ao contrário, almofadas espalhadas, muita cinza no chão. Lembro-me da minha felicidade e de me rir do meu Pai e dizer-lhe que ele não acreditava e que eu sim e do sorriso dele, maior do que ele queria admitir. 

Ainda hoje, quando falamos do 4-4 em Leverkusen, recordamo-lo como o jogo em que eu parei de respirar. Acho que foi dessa vez que toda a minha família atingiu a dimensão da minha loucura, da minha devoção ao Benfica. E ainda hoje acho, ou tenho a certeza, que foi nesse jogo que também eu percebi o meu Benfiquismo. 



sábado, 15 de dezembro de 2012

Eles não sabem o que perdem

Tenho muita sorte na vida. A namorada de sonho, a família perfeita, o emprego que sempre quis. Além disso, já viajei muito para a minha idade. Já estive em Sarajevo, cheguei a ver as torres gémeas, já vi a praça vermelha em Moscovo, as pirâmides do Egipto, a grande baía dos corais na Austrália. Tenho quase vergonha de ter tanta sorte na vida. Viajar é conhecer outras coisas, é ver o mundo para além da paragem de metro onde entramos todos os dias. São outras comidas, outras gentes.
Podia continuar o resto do texto neste tom. Mas, para ser honesto, quando estou num aeroporto, a última coisa em que penso antes de embarcar é que o Benfica costuma ganhar praticamente sempre comigo no estrangeiro.

Retirando a dolorosíssima derrota com o Braga em 2010/2011 e um ou outro acidente (fora do campeonato, sempre) cito-vos de cor que ganhámos 3 jogos seguidos para o campeonato enquanto, de mochila às costas, corri a europa de Leste. Em Praga demos 4-0 ao Leiria em casa e foi com uma cerveja na mão, no City pub Sarajevo, que soube de um 2-1 ao Guimarães.
Em Roma, 2004, num périplo "ultra" com o R., ganhámos 2-0 ao Moreirense. E, mais recentemente, despachámos o Rio Ave não em Vila do Conde, mas em Banguecoque e o Olhanense no Cambodja. Às vezes acho que devia emigrar. Largar tudo. Não pela aventura, não pela procura de melhores condições de vida, mas pelo Benfica.

Isto leva-me ao último fim de semana, onde estive num congresso em Atlanta. Atlanta não é propriamente Paris, onde tudo é bonito. Não tem a luz de Lisboa, não tem a aura de Barcelona, a arte de Florença ou a calma e exoterismo de Luang Prabang, no Laos. Atlanta tem a sede da CNN e um centro de congressos muito grande. E acho que é isso.
Como é óbvio, nós, os maluquinhos, não conseguimos sair de casa sem procurar a nossa loucura. Uma pessoa não vai a Milão sem pensar em ir a San Siro, como é óbvio, senão para que é que servia ir a Milão? Na pior das hipóteses compramos um cachecol, vá. Em Tallin, num hostel preenchido por várias nacionalidades, em que acabámos todos a ir beber um copo, lembro-me de, com um alemão do 1860 Munique, perceber o quão longe estávamos de casa e sempre perto dos nossos clubes.

Em Atlanta, dada o severo atraso civilizacional do país, não procurei futebol. E contentei-me em ir ver um Atlanta Hawks - Washigton Wizards para a NBA. Dizia-vos: eu tenho muita sorte na vida e quando fui a Nova Iorque, vi um Knicks-Bucks, com o Garden cheio, o Ray Allen de um lado, o Sprewell e o Alan Houston no outrozE houve um triplo na jogada final a levar o jogo para prolongamento. Interrogo-me, à luz da minha entusiasmada e pormenorizada descrição (isto foi em 1999), se a minha memória não terá registado melhor este jogo que Times Square. Portanto, este jogo foi giro, mas bem mais desapontante. Pavilhão praticamente vazio e um jogo medíocre. Mas quantos de nós não estivémos já em estádios frios, à chuva, com meia dúzia de loucos na bancada e nos sentimos no centro do mundo? Haverá maior prazer do que o subir à rede para festejar um golo, com a chuva a cair-nos na cara e com os jogadores ali mesmo, camisola vermelha suada e punho erguido para nós?

E não precisamos dos ecrãs de altíssima definição daquele pavilhão em Atlanta, com as estatísticas a passar em tempo real.  Não queremos restaurantes com vista para o jogo. Eu quase que me esqueço de respirar quando estou a ver o Benfica, nem quero imaginar se tentasse mastigar ao mesmo tempo. Naquele pavilhão não há paixão. As pessoas entusiasmam-se mais com a "Kiss Cam", quando a câmara procura casais durante um desconto de tempo para estes se beijarem, do que com o jogo. Ninguém assobia a equipa rival e antes de todos os períodos via-se uma mensagem de um jogador da casa a apelar a que não só não houvesse linguagem imprópria, mas para que se denunciasse quem o fizesse. Os estádios de futebol são uma escola de vernáculo indispensável à sobrevivência. E, num derby, podíamos, em vez da "Kiss Cam", fazer a câmara dos piretes.

Ligado à net, nervossísmo, possuído, vibrei com a vitória em alvalade. Gritei sozinho, disse palavrões, sofri, tapei a cara, festejei como um louco. Se me tivesse comportado assim no pavilhão tinha sido denunciado e expulso. O desporto americano, uma máquina de dinheiro, é um passatempo, é um entretenimento. Ninguém sofre, ninguém se enerva. É como ir ao cinema ver um filme banal. Não há paixão, não há excessos, não há rivais, não há uma história de uma vida entre os adeptos e um emblema.
Contava Valdano (escrevi isto no meu anterior blog) que, apóso Nápoles de Maradona, um adepto napolitano faleceu e mandou escrever na campa, para os futuros napolitanos: "Vocês não sabem o que perderam". Em Atlanta, terra a que vou sempre associar Óscar Cardozo e um 1-3 em Alvalade, só eu é que gritei e só eu fui verdadeiramente feliz. Os americanos não sabem o que perdem. É que ter um clube é conhecer outras coisas, descobrir alegrias e tristezas que às vezes parecem impossíveis. Ter um clube é viajar.

Post em actualização: tenho que meter umas fotos para abrilhantar isto.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Torcer pelos maus

Diz que é por volta dos seis anos que começamos a distinguir o bem do mal. No meu caso foi aos três, quando os meus pais finalmente me fizeram sócia do Futebol Clube do Porto (o meu irmão é sócio desde que nasceu, prova inequívoca que é o filhinho preferido). No entanto, a vida vai-nos mostrando que nem tudo é preto ou branco, que há momentos em que as noções se confundem e cabe-nos a nós aprender com isso. Um derby entre sportem e benfica parece-me um exemplo perfeito disso.

O meu corpo transpira ódio pelos dois e, geneticamente, estou disposta a torcer sempre contra ambos. Nos gloriosos tempos em que o benfica terminava campeonatos em sexto lugar, eu torcia na mesma pelo quinto, mesmo que este constituísse uma maior ameaça para o meu clube. Nestes amorosos tempos em que o nacional vai à frente do sportem, eu torcerei sempre pelo primeiro na próxima jornada, até porque continuo a acreditar que tenho uma excelente oportunidade de ver o segundo descer de divisão.

Só que, às vezes, eles jogam um contra o outro e aí impera a lei: torcer sempre pelo resultado que interessar mais ao Porto. E eu acho que não se dá o devido valor à dificuldade que um adepto doente como eu tem em fazer isto. Torcer pelos maus. Olhar para aquelas camisolas detestáveis e querer que elas corram, que elas fintem, que elas marquem. Que horror, até me custa escrever.

Os dérbis da segunda circular são porreiros porque nos dão sempre pontos, mas fazem sentir-me uma pessoa pior. Em 2000, gritei o golo do Sabry em alvalade e ainda hoje sinto o peso da vergonha na troca de olhares com os meus pais, que fizeram o mesmo. Esta semana, gritei um golo do Wolfswinkel e tive vontade de me enfiar num buraco no segundo a seguir. Ensinaram-me que estes dois são maus e eu não devia ter de fazer isto.

É um bocado como no Dexter. A série conta a história de um serial killer que canalizou a sua vontade de matar para os homicidas, os pedófilos e todos os criminosos que não são devidamente punidos pela Justiça. E eu, que sempre vi os serial killers como maus, doentes e detestáveis, dou por mim a torcer para que ele mate mais e escape à polícia e acabe feliz para sempre com outra assassina. Tudo coisas que uma criança com seis anos facilmente saberia dizer que são más.

A moral da história? Mesmo aquilo que à partida é mau pode ser bom um dia, dependendo do resultado que pretendes. O Dexter mata gente má, tem diálogos excepcionais e, bem, é apenas uma personagem fictícia que me entretém desta forma. E o sportem? Bem, o sportem é uma merda e não dá para contar com esta gente.


(Vitória muito, muito importante com o moreirense. Na verdade, se continuarmos a ganhar quando jogamos menos bem e a jogar melhor para ganharmos mais, nem precisaremos de nos distrair com isto)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Apocalypse Now

Estivemos em viagem pelo Sudeste Asiático e, durante três semanas, os nossos clubes portaram-se bem. Porto e benfica deixaram-nos fazer turismo calmamente, sem grandes exaltações a não ser os saltos da cama às quatro da manhã para ir ver os SMS com os resultados. Devo dizer, no entanto, que nos foi complicado ir além dos resultados na percepção do que se foi passando por cá. Isto porque as mensagens escritas vinham tanto dos meus pais como do pai do M. e estas não podiam ser mais diferentes. Se uma dizia “benfica ganhou, moreirense claramente gamado”, a que se seguia era um “benfica ganhou, e só não foram mais por causa do árbitro”. Enfim, cada um de nós acreditou no que quis (eu decidi basear-me na ciência e ir pela amostra mais ampla, claro).

Vivemos nesta doce harmonia até chegarmos a Portugal. O Porto, que na sexta-feira era a única equipa invencível da Europa, a equipa com mais pontos na Liga dos Campões e o dominador implacável do futebol português das últimas décadas (esta continuará a ser, peço desculpa), teve a sorte de ir jogar a Braga e perdeu. Perdeu bem, diga-se de passagem, porque não jogou o que tinha de jogar para ganhar. E, como se o adeus prematuro a um título não fosse suficientemente duro para os adeptos portistas mastigarem, ainda por cima perdeu com um onze em campo claramente a léguas do melhor que nós temos. E vamos chamar-lhe onze porque eu continuo a achar que o Kléber conta para as estatísticas, só isso.

Vítor Pereira decidiu poupar os jogadores principais e apostar numa equipa alternativa. E isso é sempre fatal, não só quando se perde, mas principalmente porque é Vítor Pereira e ainda há adeptos que se dizem do Porto que torcem contra o clube para ficarem com a barriga cheia de razão. Fê-lo por duas razões, segundo o que percebi: por um lado, quer perceber até onde pode ir com a rodagem do plantel, porque os tempos estão difíceis (para alguns) e não vamos comprar um substituto para o Lucho à altura quando este estiver de rastos; por outro, quis poupar as estrelas para o jogo desta terça-feira em Paris.

Ora, em relação à primeira tentativa, falhou redondamente. O plantel do Porto é curto, demasiado curto, e há poucas opções de categoria. Já me parece assim desde a pré-época, e tenho pena que o nosso treinador tenha demorado até ao último dia de Novembro para o ver. Mas enfim, no ano passado a direcção também só o viu no mercado desta altura, quando foi buscar um ponta-de-lança porque deixou de se fiar em milagres.

Quanto à segunda, falhou ainda mais escandalosamente. A sério que me esforcei para perceber que, embora já estivéssemos classificados e me tenha custado milhões abdicar de uma competição para isto, a Liga dos Campeões é sempre uma prioridade, seja pelo dinheiro imediato, pelo dinheiro no futuro ou pelo prestígio. Só que o Porto perdeu, outra vez, e perdeu bem, sem que tenha jogado o que tinha de jogar para ganhar. Perdeu por causa de um frango (normalmente é um por ano portanto pode ser que já estejamos safos), é certo, mas perdeu um primeiro lugar que ainda vamos ver o quanto nos podia ajudar na próxima fase. E, muito mais do que o dinheiro ou o prestígio, é isto que me preocupa: que o Porto, muito provavelmente, não tenha equipa para ir além dos oitavos.

Duas derrotas em cinco dias vão muito além do que um adepto portista consegue suportar. Coitados dos adeptos das equipas pequenas que acham isto normal. Imaginem como será ser adepto do sportem, meu deus.

Dizem que o fim do mundo é este mês e agora começo a acreditar. Se o apocalipse tinha de começar por algum lado, era por aqui, pelo mais inesperado. E é por isso que alerto os portistas que estamos numa fase crucial da época e que não podemos perder pontos até à ida ao salão de festas. Ainda por cima, o benfica tem o calendário facilitado, uma vez que vai a alvalade.

Peço-vos, portanto, que não baixem os braços perante duas batalhas perdidas. Durante a nossa viagem, olhámos para a paisagem e percebemos claramente por que razão os americanos perderam ali uma guerra: o clima é inóspito e traiçoeiro e as pessoas são unidas nas suas crenças e orgulhosas nos seus ideais. Mantenhamo-nos assim: orgulhosos e unidos. E acreditemos que não será este clima inóspito e traiçoeiro, de excitação com os nossos desaires, que nos irá derrotar.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quero dançar contigo, Jackson

Tenho imensa pena de não ter nascido com um dom. Gostava de saber dançar, de conseguir cantar ou de aprender a tocar saxofone como a Lisa Simpson. Mas nada. Não há arte neste mundo que me tenha caído em sorte. Nadinha de nada. Se um dia o mundo acabar e os que fazem algo de extraordinário puderem sobreviver numa espécie de arca, eu estou tramada.

Já aqueles que o têm cheiram-se à distância. Eu não vi Maradona jogar mas sei que tem lugar garantido. Messi tirará o lugar a Noé. Ronaldo comprará um lugar para entrar. E entre os outros, os que fazem parte deste planeta, há muitos e cada vez mais que passam por nós.

Lá na frente, onde o dom é mais decisivo, só nos últimos anos tivemos a sorte de ter Lisandro, o prazer de conhecer Falcao e o orgulho de ver Hulk de azul e branco. O primeiro continua a ser muito bom, o segundo é o melhor de todos e o terceiro é nosso e há-de ser. Mas não é deles que vos quero falar, porque no Futebol Clube do Porto não vivemos do passado.

Eu, normalmente e à semelhança da maioria dos portistas, sou uma adepta muito desconfiada. Nunca acredito em quem chega com rótulo de estrela, duvido sempre das capas de jornais espampanantes e demoro muito tempo a convencer-me que ali, naquele Lisandro, naquele Falcao ou naquele Hulk, existe um dom.

Este ano, no entanto, confesso que me sinto fácil. Não sei o que se passa, se é de mim ou dos sete jogos da Liga consecutivos a marcar, mas Jackson Martinez atingiu-me em cheio.

Talvez tenha sido aquele golo contra o sportem, embora contra estas equipas que lutam pela manutenção a tarefa de um ponta-de-lança esteja naturalmente facilitada. As costas viradas para o guarda-redes, como se o ignorasse, a bola a quase parar na coxa, com respeito, e o calcanhar que só se percebe bem à terceira repetição. Talvez tenha sido isso.

Ou talvez seja pelas inúmeras vezes em que aparece no sítio certo. Aqueles cruzamentos dos colegas que parecem todos certeiros, a bola que sobra do adversário para ele ou o leve encostar lá para dentro. Talvez seja isso também.

Ou então foi aquela bola que ele salvou num canto contra nós, ou aquela recuperação no meio-campo, ou aquela abertura para a direita (ou terá sido para a esquerda?) que enganou os defesas, ou aquela desmarcação exemplar quando os colegas trocavam a bola a mil quilómetros por hora, ou aquela calma arrepiante em frente ao guarda-redes. Pode ser isso, sim, admito.

Não sei o que se passa, mas há algo em Jackson que me faz acreditar que há ali um dom. Não sei se são golos, se são fintas, se é técnica, se é força, se é talento, se é sorte. Para já, sabe-me bem a dança.



P.S. Belo jogo na sexta, tanto da parte da equipa como dos adeptos. É mesmo assim que queremos, mister.

P.S.2 Não vou falar da arbitragem do "pode ser o João", a sério que não vou.

P.S.3 Faltam ___ dias para acabar o sportem.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Carta ao André Gomes

André,


Ontem estava no sofá a ver a tua estreia. Gostei. Há algo em ti que me faz gostar de te ver jogar. Não te vou mentir: só te espreitei em 4 ou 5 jogos da equipa B, não sigo a tua carreira desde os 11 anos ou algo parecido, mas gostei do que vi. E o que é que te interessa isso?

Sem modéstias, André, eu já estou na triste idade – 28 anos – onde os jogadores de futebol já são, na sua maioria, mais novos do que eu. E essa é uma idade dramática porque um tipo racional, como eu sou, percebe que o sonho da sua vida (ser jogador de futebol, que é o sonho de todos as pessoas do mundo com alguma noção da grandeza) já não dá. Isto é estúpido porque eu, racionalmente, percebi que não ia ser jogador de futebol quando aos 15 anos deixei de ser convocado no Farense porque faltava a treinos para estudar, numa clara noção de falta de prioridades (hoje eu e a Catarina viveríamos em Barcelona e eu trocava a bola com Messi – jogava em vez do Alexis, se te estiveres a perguntar – e eu não tinha quase adormecido (eu disse quase) na segunda parte por ter feito urgência de 24 horas no dia anterior).

Cheguei à idade da razão, sem ilusões. Estou consciente de que não vou ser jogador de futebol. Mas, dado que o meu pai me treinou para isso desde os 3 anos, estou numa fase de intelectual da bola – com blog e tudo – convencido que a minha opinião vale muitíssimo. Já não digo que gosto de ver a Série A, que era o que os intelectuais do futebol diziam nos anos 90 e príncipios dos anos 2000 (e eu gostava – verdadeiramente – de ver a Série A), mas continuo convencido – apesar deste empecilho da Medicina – de que a minha opinião vale alguma coisa. E digo isto sem vaidade. É a coisa de que eu percebo mais na vida e um tipo tem que ter amor próprio. Se eu tivesse que responder a três perguntas para salvar a minha vida e me perguntassem uma categoria eu não escolhia Medicina, eu diria: “Benfica, anos 90, se faz favor”. Portanto, isto é a única coisa em que eu considero que a minha opinião é mesmo válida e, vamos lá tornar as coisas interessantes, uma autoridade.

E faço-te este preâmbulo, André, para que me leves a sério. Para que se torne importante para ti, que és mais novo do que eu (e isso custa-me), de que eu acho que tu podes vir a ser um bom jogador de futebol. Perguntar-te-às: posso vir a ser? Sim, ainda não o és. Prefiro entregar o meio campo do clube do meu coração a um sérvio que mal sabe correr do que a ti. Não porque tu não possas vir a ser melhor do que ele, mas agora não és. E eu não quero perder pontos com o Gil Vicente para te ver crescer, André. Não és assim tão importante. Ninguém é suficientemente importante para eu admitir que o Benfica pode perder pontos.

E como é que eu sei que tu podes vir a ser um bom jogador, André? Por várias coisas, a primeira pela maneira como tu corres. O Rosa, da equipa B, também é bom jogador e seria útil no plantel, mas nunca será um craque. É daqueles tipos que corre como se o mundo acabasse amanhã. Não obstante a extrema utilidade de jogadores assim em qualquer plantel, é fácil observar que nenhum génio tem pressa quando joga à bola. Xavi, Iniesta e mesmo Messi, na sua velocidade estonteante, nunca parecem ter pressa. É óbvio que tu nunca serás nenhum destes três, mas podes atingir um patamar que, mesmo a mundos de distância destes extra-terrestres, pode ser de alto rendimento para o Benfica. E isso far-me-ia muito feliz.
Dizia-te que corres sem pressa, que jogas de cabeça levantada (daí as exageradas comparações com Rui Costa que era de uma elegância quase absurda com a bola nos pés) e tens uma qualidade de passe surpreendentemente madura. Explico-me: o Carlos Martins tem qualidade de passe, mas passa a bola excessivamente “com truque”. Ora dá efeito, ora coloca o pé por baixo, à futsal, ora tenta o passe impossível, à Zidane. Quando resulta, é esteticamente muito bonito e vai parar ao Youtube. Mas é uma mania que custa várias jogadas perdidas e que é um desperdício em quem tem os pés do Carlos Martins. E isto é porque o Carlos Martins, mesmo com quase 30 anos, ainda não tem maturidade a jogar à bola. Ainda não percebeu que já não vai ser o Maradona. Já tu pareceste-me bater sempre a bola seca e com destino e não parecia só aquele medo que os miúdos têm na estreia. E isso agrada-me. És pragmático, no melhor dos sentidos possíveis.
Agradou-me, também, a recepção antes do golo. O remate pareceu-me demasiado para cima e, pela tua linguagem corporal, percebeste imediatamente que a bola subiu muito. Mas a recepção teve nível. Não faz – só por si – de ti um bom jogador, mas agradou­-me. Porque um tipo que é mau nunca recebe a bola como tu recebeste. Um tipo bom, ou que tem tudo para vir a ser bom, recebe. Acho que é das coisas mais difíceis de fazer e que é um bom medidor da capacidade técnica de um jogador. Iniesta parece falar com a bola para a acalmar e Zidane tinha uma recepção de veludo. Na recepção daquele passe – que não era propriamente difícil, convenhamos – passaste o nível básico de recepção. Se não a tivesses segurado tão redonda, não te escrevia.  

Venho então dizer-te, André, que tu podes vir a ser um bom jogador do Sport Lisboa e Benfica. E isso significa que me poderás dar alegrias, que as minhas semanas podem ser melhores por tua causa. Significa uma responsabilidade enorme, mas uma dignidade ainda maior.
É óbvio que a minha opinião vale o que vale. Ou seja, muitíssimo para mim, nada para o resto do mundo. Eu já vi muitos jogadores com grande potencial falharem. E muitos que ficaram aquém do seu valor. Mais houve em quem o resto do mundo viu potencial e eu nunca e também falharam: o Hélio Roque, o Rui Baião, tipos desse género.

Portanto isto agora depende de ti. Talvez seja isto seja um bocado de projecção minha: tu és um tipo alto e com barba por fazer, e talvez eu veja em ti quem eu poderia ter sido como jogador do Benfica e portanto imagine este talento todo. Aí, meu caro, nem te peço desculpa pelo incómodo, e só me resta rir de mim. Com sorte, poucos se lembrarão deste texto. Com azar, enquanto te arrastares no Rio Ave aos 30 anos e marcares um golo, alguém me mandará este texto por e-mail.
Mas se tu fores mesmo bom como eu acho que tu podes vir a ser, aproveita. Corre, treina, trabalha. Dá a vida por isso, André. É que eu já tenho 28 anos e, para mal dos meus pecados, já não posso levantar o Estádio da Luz (até porque, quando for treinador do Glorioso, o meu génio táctico não será aplaudido como um golo e o público baterá palmas aos idiotas úteis que eu coloquei de forma genial em campo). Mas reconheço em ti o potencial para tal. Portanto esfola-te e chega lá.

É que sabes, André: aos 28 anos, mesmo com uma vida perfeita e cheio de saúde, eu ainda me imagino a ganhar um derby no último minuto, à chuva, com 10 nossos contra 11 deles, depois de fintar 3 lagartos e picar a bola sobre o guarda-redes. E às vezes, quase que juro, parece-me mesmo nítido ver a Luz aos saltos e sinto a camisola vermelha carregada de suor e chuva colada ao meu corpo enquanto levanto os braços e corro de alegria. Mas é só um sonho. Resta-me ficar na bancada, com a mesma camisola carregada de suor e chuva, à espera que um de vós, já mais novo do que eu, faça isso por mim.

Um abraço,

Manel

PS: já sei que foste formado e até adepto daquele clube de azul. São manchas no passado que só vários títulos de águia ao peito podem limpar.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vota Vieira

Camaradas, está na hora de definirmos posições. Ou estamos de um lado, ou estamos do outro. Fora o Paulo Portas, claro. Vivemos tempos difíceis, instáveis e incertos, em que ninguém sabe qual é o melhor caminho. Mas eu já escolhi: estou com Luís Filipe Vieira.

Vieira a primeiro-ministro

Desde logo porque, para mim, os sócios do Futebol Clube do Porto estão sempre em primeiro lugar. Se é para entregar algo nas mãos de alguém, que seja em quem eu já sei que vai lutar pelos mesmos interesses do que eu.

Vieira a ministro das Finanças

Soube que Vieira era a melhor opção quando valorizou Mantorras até aos 18 milhões de contos.

Vieira a ministro dos Assuntos Parlamentares

As pessoas já não acreditam nos mesmos de sempre, estão fartas, precisam de uma alternativa. Com Vieira, teremos certamente “um novo ciclo”.

Vieira a ministro da Justiça

Precisamos de alguém que conheça o sistema por dentro, por isso nada melhor do que um condenado por roubo.

Vieira a ministro da Administração Interna

Temos de reforçar a segurança. Há malucos a atirarem petardos em assembleias-gerais, a pintarem paredes e a denunciarem as trafulhices cá para fora. Só Vieira pode chamar os capangas que roubaram o Moretto ao Porto (muito obrigada, meus caros, devo-vos esta).

Vieira a ministro dos Negócios Estrangeiros

Agradeçamos ao homem que, só para dar um exemplo, descobriu Falcao.


Vieira a ministro da Educação

Está na altura de segurar os nossos jovens, de deixarmos de exportar o nosso melhor produto para outros países. Com Vieira, não há conselhos à emigração (Nelson Oliveira, pára de ler o post). Queremos a “coluna vertebral” da selecção.

Vieira a ministro da Saúde

Chega de colocar o Serviço Nacional de Saúde nas mãos dos profissionais… de Saúde. Exigimos um gestor, alguém que possa racionar os tratamentos. Com Vieira, o homem que não gosta da maneira de jogar de Hulk, temos olho clínico assegurado.

Vieira a ministro da Economia

Andámos a viver acima das nossas possibilidades. Adivinham-se tempos em que os presidentes terão de andar em cuecas e só Luís Filipe Vieira tem experiência nisso.



Vieira a ministro da Defesa

Aqueles vândalos do Norte já fizeram tudo: deram cinco no Dragão, foram campeões na luz e deram a volta a uma desvantagem de cinco pontos no campeonato. Se votarem em Vieira, é difícil serem mais atacados do que isto.

Vieira a ministro da Agricultura

Estamos a semear um futuro melhor. As modalidades já ganham títulos e a águia continua a ajudar ao bom ambiente na luz. Não fosse o Porto e aquela coisa chamada futebol, e o mundo era lindo.

Vieira a ministro da Segurança Social

O buraco é grande, já se sabe, mas Vieira e os seus negócios esquisitos com Madrid e Angola prometem tapá-lo, dê por onde der.



Se isto não for suficiente para vos convencer (como é possível, seus ingratos?), então têm sempre a opção de votar no outro candidato, aquele que eu nem sabia que era lampião até há uma semana atrás.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

1-0, o empate

Não há paciência para este sportem. Acho que é a primeira vez que digo isto na vida e custa-me, porque o sportem já me deu muitas alegrias e eu não gosto de ser ingrata. Mas a minha relação com o sportem está a passar uma fase muito difícil: a indiferença.

Tornei-me numa daquelas pessoas que nem vê os jogos do sportem e só muda de canal de vez em quando para conferir o resultado, como faço com qualquer paços de ferreira-moreirense. Não é por mal, juro, mas é que já nem quero saber. Já passei muitos anos a adormecer durante jogos do sportem, mas nem querer ver é muito grave. É que eu vejo muita coisa inútil, mas o sportem não aguento.

Cheguei a pensar que tinha de procurar ajuda clínica. Precisei que alguém me desse um comprimido de anti-lagartismo, uma coisa assim do género. Ansiava pelo dia em que um Barroso qualquer tentasse discutir futebol comigo, para eu me lembrar do quanto não gosto deles. Esperei e tive sorte: o Porto-sportem chegou.

Chegou, mas ainda assim foi difícil não adormecer. Valeu-nos aquele golaço do Jackson, que me está a fazer acreditar que voltámos a descobrir um craque. Depois foi o normal contra estas equipas da segunda metade da tabela: o Porto ficou à espera que o jogo terminasse. Claro que, às vezes, estes clubes pequenos apanham-nos distraídos, arrancam em contra-ataque, sacam um livre manhoso, e marcam um golo quase sem querer. Vá lá que o sportem nem isso.

O sportem saiu do Dragão sem fazer absolutamente nada. Eu, que sinto o pânico a apoderar-se de mim de cada vez que um adversário passa o meio-campo, só me preocupei quando uma bola entrou na nossa área sem saber o que estava ali a fazer e vi aquele ao qual chamam "ponta-de-lança" do sportem praticamente desmarcado. Vá lá que ele nem acertou nela.

Se o jogo tivesse terminado ao intervalo (que tinha sido um favor que faziam aos adeptos de futebol), os lagartos nem podiam queixar-se daquela falta de sorte que tanto abunda em alvalade, aquela que os fez mandar uma bola ao poste e, na mesma jogada, sofrer o 3-1 que lhes tirou uma Taça UEFA na própria casa. Façamos uma pausa, então, para recordar esse belo dia. Pronto, adiante.

Mas não, a horrível segunda parte trouxe dois penáltis a favor do Porto e um lagarto expulso. Meu deus, que ultraje!!! Desta ninguém esperava daquela malta que já nos roubou uns quantos bem mais escandalosos do que aqueles, e ainda agora a época começou. Então eu, que como qualquer adepto que se preze nunca admito que um adversário se sinta roubado, estudei atentamente os argumentos verdes.

Ora portanto, o problema do penálti do Cedric, e isto é unânime, não é ele dar com o braço na bola. Dizem eles, baseados numa regra moral desesperada, que ele estava sozinho com a bola, portanto era completamente estúpido marcar penálti. Corrijo: marcá-lo foi correcto, porque há um jogador que, dentro da área, coloca o braço a jeito para dominar a bola; fazê-lo é que foi estúpido, mas aí, meus caros, falem com o Cedric.

Quanto ao vermelho, ainda ouvi alguns com a cassete do costume, que no Dragão é sempre assim e não sei quê. Não sei do que falam, mas sei que o Rojo (nome que, a propósito, lhe cai tão bem) devia até ter sido expulso antes. Vejam bem as entradas do menino e, depois, dêem-lhe daqueles comprimidos do Sá Pinto (paz à sua alma) para o acalmar.

E agora, minhas senhoras e meus senhores, um momento único: eu também acho que não há penálti sobre o Jackson. É verdade que a câmara não é nada esclarecedora, estamos a ver o lance por trás, mas, atendendo aos membros do jogador de verde (já vi o lance tantas vezes que deu para reparar em cada braço e em cada perna), não me parece que, além do habitual chega para lá um ao outro, tenha existido falta.

O que é certo é que, se o árbitro não tivesse roubado escandalosamente o sportem, tinham saído do Dragão com um belo empate de 1-0, subiam para um honroso 11º lugar na tabela classificativa, até à frente do portentoso estoril, e o treinador às tantas até podia continuar a ser este até mais uma ou outra humilhação com um Xiripiton qualquer. É uma vergonha isto.

Lá tive eu de lembrar-me o que é o sportem e do tanto que não gosto de um clube assim, acabado como grande, triste até para os seus rivais, e que, como diz um grande lampião, está tão morto que não percebe que aqueles pequenos e breves momentos em que se levanta, começa a esbracejar e dá uns saltinhos enquanto ganha ao gil vicente, não passam de espasmos provocados por um desfibrilhador.

Mas eles lá andam, à espera de uma santa milagrosa de um Scolari qualquer, a acreditar que o sportem ainda existe. E eu voltei ao mesmo, não quero saber, já passou, vem aí o estoril que se mostrou melhor do que eles e eu estou preocupada é com o facilitismo que a minha equipa por vezes dá.

O sportem, para mim, tornou-se um daqueles primos distantes, com quem não temos relação absolutamente nenhuma e que vemos apenas de tempos a tempos, num casamento ou num baptizado, em que lhe perguntamos, mais por simpatia do que por interesse genuíno: - Então, está tudo bem? E ele diz-nos que sim, que está bem, mesmo que o cão tenha morrido, o filho esteja doente e a mulher tenha fugido com outro.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O amante ingénuo e sentimental

Gosto muito de futebol. Tenho respeito pelo jogo, pela sua história e pelas suas histórias. Vejo jogos antigos, procuro coisas que não conheço, sobretudo, claro, sobre o meu clube.
Acho que a única metáfora válida para isto é, lamentavelmente, a do amor. A Catarina já escreveu sobre isso acerca da saída do Villas-Boas. Talvez não qualifique como metáfora e seja isso o que é: amor. Parece duro e inconcebível: pode alguém amar um clube, um jogo? Para mim, sim.

Enervei-me há uns dias com o inacreditável Marselha-Benfica, a primeira mão, de onde saímos vivos com 2-1, depois de levarmos três lindas bolas aos ferros e tirarmos duas em cima da linha, permitindo-nos chegar vivos à Luz contra uma equipa que tinha Papin, Mozer e Waddle. E, já agora, o príncipe Francescoli. Francescoli, que tem um ar de escritor sul-americano, e jogava com a melancolia do Coronel Aureliano Buendía. Procurei esse jogo e emocionei-me como se encontrasse um álbum velho de fotografias da família. Sorri com equipamentos, como quem sorri com os velhos penteados dos anos 80. Revi caras em quem estou sempre a pensar, mas com quem não falo todos os dias, mas devia. Quando o vídeo acabou, foi como fechar o álbum e voltar a arrumá-lo. Voltar à realidade nunca é fácil depois de revisitar uma infância feliz, cheia de amor.

Vi, com o meu pai, que é a pessoa que me ensinou a ver futebol e com quem falo dez, vinte vezes por dia de futebol e dia sim dia não sobre os outros assuntos, o Benfica-Barcelona. Vimos, juntos, a melhor equipa de todos os tempos. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol, Busquets. Só foi pena que Pep estivesse longe (tinha jantado com Woody Allen nessa semana. Como se ser treinador da melhor equipa de sempre não chegasse, Pep decidiu juntar a isso preencher-se. Incrível.), mas aquela ideia, aquele conceito que trespassará o tempo, que será visto daqui a 50, 100 anos por outro Manel, em vídeos distantes e históricos, passou no meu relvado, na minha Luz. Claro que o meu amor ao Benfica é superior ao amor ao futebol. Fico lixado de termos perdido, mas corrói-me mais perder 2 pontos largados no campeonato do que aquilo. E acho que quem gosta do Benfica e quer que o Benfica volte a ser grande como já o foi, devia observar  a dimensão deste Barça, o que ali se passa. O facto de serem extraordinários semanalmente tira-nos a capacidade de admirar uma equipa de que todos teremos saudades quando acabar. E essa dimensão do Barça explana-se no respeito ao jogo. Que Messi, que é, para mim, o melhor da história, tenha sorrido como uma criança para pedir a Pablo Aimar a sua camisola, a mim, emociona-me. E emociona-me porque aquele monstro, aquele génio, aquele homem que vai superar o tempo, parecia um miúdo com 10 anos à porta do estádio, à espera que acabasse o treino do seu ídolo. E Aimar, que é um gentleman e que talvez tenha até recusado o jantar com Guardiola e Allen, sorriu também. Mais uma fotografia para o álbum. E nós com consciência disso.

Sinceramente vos digo que tenho ainda a ilusão, o sonho, de um dia conseguir falar com uma destas pessoas. Falar com um destes, que amam o jogo. Sentar-me um dia, a jantar, e contar a Maradona, ou a Aimar, ou a Valdano, ou a Pep, aquilo que eu sinto quando vejo um Marselha-Benfica. Gostava de poder conversar, com uma cerveja à frente, sobre estas coisas que se me ocorrem e que me fazem vir para aqui escrever quando vejo futebol. Gostava de lhes falar de Mozer e das fotografias do meu tio João. E sinto, e não vos sei explicar porquê, que aqueles em quem identifico este amor pelo jogo, me perceberiam. 

Quando ontem ouvi o discurso de Marcelo Bielsa, treinador do Athletic de Bilbao, após a derrota contra o Barcelona na Taça do Rei, apeteceu-me convidar o senhor para jantar cá em casa. Contar-lhe que, durante o Sporting-Athletic de Bilbao, houve uma imagem sua, de cócoras, a pensar. E que a Catarina, sorrindo, disse: "Gostava de ser assim. Saber aquilo tudo de futebol. Na cabeça daquele homem está a passar montes de futebol, agora.". Gostava de partilhar isso com o senhor Bielsa e gostava de lhe servir um copo de vinho e agradecer. Um homem que, à frente do seu plantel, os acusa de serem "milionários prematuros", de não terem "feridas nem cicatrizes" percebe que os seus jogadores desrespeitaram quem ama futebol. Pior, desrespeitaram os seus adeptos, que qualifica como "ingénuos" e "extraordinários". E é bonito que Bielsa fale dos adeptos num balneário, sem ser aquele discurso politicamente correcto numa conferência de imprensa, com patrocínios atrás e só para os aplausos. Não, Bielsa falou do povo basco dentro do balneário já sem nada a ganhar. Falou por respeito. Falou por amor. Sentiu que tinha que lhes dizer aquilo.

Esta grandeza, esta humanidade toda, eu só a consigo verdadeiramente sentir no futebol. E partilho isso todos os dias com o meu pai e com a Catarina, partilho isso tantas vezes que me sinto chato, porque sei que falo disto muitas vezes, mas isto para mim é uma coisa pungente, é uma coisa forte e tenho que a dizer, tenho que a escrever.

Gostava, um dia, de poder receber o senhor Bielsa, de jantar com ele e dizer-lhe que eu, se fosse jogador de futebol, principalmente se fosse jogador de futebol do Benfica, não me permitiria rir se perdesse uma final. E teria respeito por esse povo ingénuo e extraordinário que sofre pelas cores de uma camisola. Gostava, mesmo, de um dia jantar com Guardiola ou Bielsa e ouvi-los falar. Mas, mais do que isso, mais do que beber uma cerveja com o Maradona, gostava que o meu Benfica recuperasse esta imensa dimensão humana, esta grandeza, este respeito. Gostava que houvesse no Benfica discursos destes, capazes de me prender a fala. Gostava que houvesse alguém no Benfica que nos representasse a nós, os amantes ingénuos e sentimentais. 
Brindo a isso. Com amor.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O FCPorto de Bruxelas

A questão impôs-se às primeiras horas em Bruxelas.

- Onde é que se pode ver o Porto?

A resposta foi imediata.

- Na casa do Futebol Clube do Porto de Bruxelas, claro.



Foi assim que fomos parar ao restaurante "O Castiço", quase cheio para ver a bola. Na televisão, o sportem acabava de arrancar um glorioso empate com o estoril em alvalade (tenho de escrever sobre eles, estou só à espera que o luto pelo Sá Pinto passe). O dono, Z. C., pensou que nós, quatro mulheres, estávamos enganadas. Após alguma insistência, arranjou-nos uma mesa, mesmo em frente a um Dragão de Ouro orgulhosamente exposto. À volta, novos e velhos, homens e mulheres, portugueses emigrados há 30 anos ou há três meses, todos com alguma coisa azul e branca.

As equipas estão a entrar em campo e há um homem que se senta mesmo à minha frente, a tapar-me a visão para o ecrã (no Castiço há duas televisões enormes e ainda uma projecção numa parede, o futebol é para se ver bem). Peço-lhe para se desviar e ele pergunta-me, com rasteira:

- É portista?

À resposta afirmativa, seguiu-se um sorriso e um desviar essencial para que eu possa ver. Detesto comer e beber durante um jogo, mas tem de ser. O pedido é registado com apreço, já que todas bebemos Super Bock. Nesta casa, a Sagres não é bem-vinda, claro. Na mesa atrás de nós, há uma criança equipada à FCP que diz uma asneira quando o árbitro não marca uma falta evidente a nosso favor. A mãe repreende-o, o pai repreende a mãe, e muito bem. Atsu cai na área e pede-se, em uníssono, penalty. Um idoso, mais calmo e ponderado, solta um "parece que foi". O Z. C. grita-lhe que, a favor do Porto, nunca parece; é sempre penalty.

O golo chega e, com ele, a habitual descontracção de adeptos muito habituados a ganhar. A malta distrai-se, começa a conversar e nem nota que o Porto adormeceu em campo. Conto às minhas colegas que, lá em casa, brinco com o M. porque acho que ele tem uns ares de Tarantini. Ele espeta-nos dois de seguida e o M. não pára de me mandar mensagens a lembrar isso mesmo. Desligo-me da conversa, o restaurante de repente parece o Estádio do Dragão e entramos numa transe colectiva à espera da reviravolta.

Quando Kléber cai, caem também umas cervejas, tal é o vigor com que se insulta o árbitro. O penalty, posso garantir-vos, foi tão grande que se viu perfeitamente em Bruxelas. Jackson acaba por empatar, mas para os portistas, estejam eles onde estiverem, um ponto nunca sabe a vitória. Para salvar a noite, quisemos saber mais sobre aquela gente empurrada para fora deste triste país. Contaram-nos como vivem melhor, como não querem voltar, e até nos tentaram convencer a fazer o mesmo.

Pelo meio, o mais importante: o F.C. Porto de Bruxelas é TETRACAMPEÃO do campeonato de amadores de Bruxelas, disputado por várias equipas de imigrantes de todo o mundo. O Z. C., por esta altura já carinhosamente tratado por "presidente", recebeu o Dragão de Ouro de melhor casa internacional das mãos de Pinto da Costa. O A., mais conhecido como "o capitão", é aconselhado a não beber mais Super Bock, porque há jogo no dia seguinte. O segredo do F.C. Porto de Bruxelas é este: mesmo a milhares de quilómetros de distância, são a equipa mais organizada e têm o balneário mais unido. E ganham.

O empate custou menos graças ao "Castiço". É tão bonito saber que o meu clube também é vivido, sentido, ali tão longe. É tão emocionante ver como o futebol liga este país às suas pessoas. É tão arrepiante constatar como o meu Porto, o clube da minha cidade, já é um clube tão grande.

Aos portistas de Bruxelas e aos portistas de todo mundo: sim, claro que fomos roubados. Mas todos sabemos que temos de ganhar mesmo assim.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O futebol das meninas

Gostar de futebol não foi, para mim, uma opção. Não houve um dia em que acordei e, por acaso, pedi à minha mãe para me calçar umas chuteiras em vez de me vestir uma saia. Não fui para o infantário e gostei mais de brincar à bola com os rapazes, esses seres nojentos com ranho a sair do nariz, em vez de ir trocar roupas da Barbie com as raparigas, esse sexo tão civilizado. Nada disso.

Gostar de futebol, para mim, foi claramente fruto de um pai e de um irmão que precisavam de mais alguém para dar uns toques. Não fazia sentido um deles ir à baliza e o outro chutar. Faltava alguém para cruzar, obviamente, e eu tive de preencher esse vazio. Mais por obrigação do que por gosto, é certo, mas a coisa lá se entranhou.

Nunca deixei, no entanto, de brincar com a Barbie, de me apaixonar loucamente por uma boys band de moços de cabelo comprido e voz fininha (THE MOFFATTS FOREVER!) e de escolher qual das Spice Girls eu era (Emma, como me parece óbvio). Só que isto foi passando, e a bola não.

Um dia, do nada, tirei os posters todos dos Moffatts da parede (agora que penso nisto, tenho de pedir desculpa ao meu irmão porque o quarto também era dele…). Decidi substituí-los por uma espectacular colecção do jornal “O Jogo” com a equipa completa do FCPorto 1998/1999. Falamos de craques como Rui Correia, Costinha, Fernando Mendes, Peixe, Chaínho e Secretário, tudo ali escarrapachado, para toda a gente ver.

Lembro-me que as minhas amigas J. e D., convidadas para uma festa de aniversário minha, entraram no quarto e perguntaram-me se não me importava que fosse o meu irmão a escolher o que ficava na parede. Corajosa, assumi que tinha sido eu. Elas não perceberam à primeira, mas depois mostrei-lhes como Capucho, Vítor Baía e até Folha tinham aptidões físicas que podiam perfeitamente ser equiparadas às dos Moffatts. (o Folha? A sério, Catarina?, perguntam vocês. Sim, o Folha. Na altura achávamos que era parecido com o Richard Gere (!) e à custa disso a J. ainda hoje é apaixonada por ele.) Elas aceitaram os meus argumentos.

Foi por volta dessa altura que comecei a usar cadernos em vez de uma capa com folhas e aqueles separadores tão giros às cores (isto está a ficar tão à gaja que os homens de certeza que já pararam de ler o post). Os cadernos dos rapazes estavam sempre cheios de coisas dos seus clubes. Os cadernos das raparigas eram decorados com rapazes giros. Os meus eram um pouco de ambos.

O caderno de Geografia, a minha disciplina preferida na altura, tinha vários Capuchos colados na capa e na contra-capa. O caderno de História só tinha Decos. O caderno de Português o Rubens Júnior (não me peçam para explicar). Não me lembro dos outros (e tenho vergonha de alguns). Eu gostava muito de futebol, mas era uma pré-adolescente em todo o seu esplendor, portanto juntava o melhor de dois mundos (mais tarde, já no secundário, foram as imagens de claques a conquistar os meus cadernos. Estava numa fase tão estranha que até tinha imagens de claques do benfica e do sportem. Era “a minha cena”, estão a ver? Os adolescentes são insuportáveis).

Com o tempo, fui aprendendo a ter um certo recato com as minhas paixões futebolísticas. Num estádio, não ficava bem suspirar de cada vez que o Capucho tocava na bola (já disse muitas vezes este nome? Desculpem, aquelas pernas são mais fortes do que eu). Durante o jogo, os companheiros de bancada não iam perceber se eu atirasse um beijo ao Derlei (i-nex-pli-cá-vel, eu sei). Na faculdade, as amigas iam achar estranho que eu ainda usasse cadernos.

Mas elas continuam lá. Quando o Falcao deixou o Porto, parte de mim pensou que seria difícil arranjar um avançado tão eficaz como ele, e a outra parte olhou para aquela foto dele em tronco nu numas férias e concluiu que seria insubstituível. Eu odeio o benfica (surprise!!!), e racionalmente odiava o Javi Garcia, mas nunca consegui insultá-lo. Acho que as mulheres compreendem porquê.

É também por isto que eu e o Lucho somos amigos de longa data. Quando olho para as primeiras fotos dele no FCPorto, com aquele cabelo horrível tipo anos 80 e um bigodinho mal feito, nem sequer consigo perceber como é que isso aconteceu. Acho que foi num jogo em casa, não me lembro mesmo contra quem, em que eu estava na bancada ao lado da N.. Ele marcou um golo e, pela primeira vez, colocou a mão acima dos olhos, exactamente para o local onde eu estava. Eu e a N. ainda discutimos se ele estava à minha procura ou dela (estaria mais alguém no estádio?), mas, como duas raparigas que ainda gostariam de brincar às Barbies, decidimos que tinha sido para mim porque eu tinha dito primeiro. O Lucho fez dezenas de vezes o gesto (oficialmente é para um filho, pelos vistos), e continua a fazê-lo, e ainda hoje eu sorrio por um milésimo de segundo, como que a agradecer que ele ainda se lembre de mim.

Foi também por isto que, na terça-feira, quando soube que ele tinha pedido para jogar mesmo após saber da morte do pai, me apeteceu abraçá-lo. Porra, que coisa tão linda. Qualquer adepto do Porto, se dúvidas houvesse, deve estar convencido que Lucho, o nosso comandante, o nosso CAPITÃO, terá um lugar especial no nosso clube para sempre. Mas, para mim, que gosto tanto do que ele joga como daquele sorriso malandro, foi como voltar a ser uma menina apaixonada por um ídolo.



Obrigada Lucho, diz ao teu pai que te educou muito bem.

P.S. No mesmo dia, cruzei-me com o Vítor Baía no meu local de trabalho. Apeteceu-me tanto fazer-lhe uma vénia e dizer-lhe que é o melhor jogador português de todos os tempos… Vá lá, controlei-me.

sábado, 8 de setembro de 2012

Uma infância feliz a ver o Benfica ganhar no Subbuteo

Num Natal, em Espinho, os meus pais e os meus tios guardaram-me uma prenda especial. Após toda a excitação da noite natalícia, não desconfiando eu que muita da alegria nas faces rosadas dos meus pais e tios eram devido ao vinho que tão bem acompanhava o bacalhau, deram-me uma caixa grande. Quando abri, era um jogo de subbuteo. Benfica e Setúbal na caixa que trazia ainda guarda-redes, bola e balizas. O meu pai explicou-me mais ou menos as regras e, de seguida, o meu Tio João (é a memória mais nítida que tenho dele), esquecido da regra "deixa o miúdo ganhar", bateu-me por 3-2, fazendo com que o Setúbal passasse a ser uma equipa odiada.

A Itália, lá atrás, fez muitas vezes de Belenenses. O Espinho e a Juventus na outra ponta e, cá à frente, o Boavista.

O subbuteo passou a ser a minha companhia, o meu mundo, um tabuleiro onde eu podia, finalmente, dar largas a todo o futebol que me fervilhava no corpo. Passei, então, a recortar d'"A Bola" todas - todas - as fichas de jogo para saber os onzes e suplentes de cada equipa. Só isso justifica que eu ainda diga de cor: Alfredo, Casaca, Nogueira, Barny, Caetano, Nelo, Tavares, Bobó, Marlon, Ricky e Artur para o Boavista de Manuel José. Era suposto o meu cérebro estar ocupado com coisas mais úteis, mas aquela prenda - mal sabiam os meus pais - mudou a minha vida. 

Desde aí que, sozinho, passei a fazer os meus campeonatos, praticando a escrita (mal entrara na primária) em cadernos onde escrevia pacientemente Benfica - Chaves; Boavista - Porto; Chaves - Sporting e por aí adiante. Depois, ia para o campo. Óbvio que isto obrigou os meus pais a ter que me comprar montes de equipas, que coleccionei e que ainda guardo. Nos anos e no Natal, tios, pais e avós sabiam que escusavam de me vir com outros brindes: eu queria equipas, equipas, equipas. Óbvio que toda a gente me oferecia o Benfica - o que me aborrecia imenso, o Benfica já eu tinha, o Beira-Mar é que era difícil de encontrar. Lembro-me perfeitamente de pedir, meio culpado, meio contrariado, o Porto e o Sporting. Fomos à Rua de Santo António e lembro-me da sensação de culpa: pedir uma coisa aos meus pais que, sabíamos todos, era odiosa. Mas o Benfica tinha que ganhar a alguém, portanto havia que coleccionar essa gente. 

 Jogadores colados de equipas muito, muito, muito derrotadas 

Jogava sempre na sala, em cima do tapete, que fazia com que a bola não fosse tão rápida como nos azulejos da sala e com que o campo não patinasse tanto. Os tempos dos jogos eram de 5 minutos por parte, marcados no relógio do velhinho VHS. Eu jogava pelas duas equipas e fazia o relato, em jeito de Gabriel Alves, dizendo imensos "aliiiiii", que era um vício de relato de Gabriel Alves (se virem o relato do 3-6 que está no Youtube, o Alves no relato do 3º do JVP, diz "E ALI, João Pinto..."). No fim, apontava o resultado no caderno e fazia a pontuação e a lista de melhores marcadores. Depois ia para o corredor com a bola e fazia o Domingo Desportivo, imitando os golos que haviam sido marcados naquele mundo mágico. atirando a bola contra o móvel e fazendo-me de guarda-redes desesperado, que não conseguia chegar àquele remate colocadíssimo, enquanto na minha cabeça ecoavam comentários à Domingo Desportivo.
As bolas iam várias vezes para baixo do sofá e eu metia a régua da escola a tapar atrás da baliza e às vezes livros e tudo o mais para impedir que as bolas fossem lá parar. É que se ficassem demasiado longe  tinha que chamar alguém, porque eu não conseguia levantar o sofá sozinho, e, se chamasse muitas vezes, mais cedo ou mais tarde o jogo pararia. 

Um fiscal de linha que, pisado, teve que ficar com a bandeira colada ao cotovelo

Quando eu jogava subbuteo, as equipas arrumavam-se tacticamente, exactamente na disposição que os jornalistas d'"A Bola" haviam escalado a equipa no diagrama. O Paneira, sabia eu, era aquele boneco na meia direita. E várias vezes flectia para o meio e marcava. Antes de chutar eu fazia o relato "Perde a bola o Belenenses e, ALI, Paneira a rematar... GOOOOOLOOOOOO. GOOOOOOLO DO BEN-FI-CA!" e juntava os jogadores, como se eles se abraçassem, mas não muito, porque depois tinha que os distribuir outra vez pela táctica e os minutos no VHS passavam rápido e tinha que mudar de campo.
O Benfica, nas minhas mãos, era cheio de ases e de craques, e os outros, nas minhas mãos, falhavam passes atrás de passes e passavam a bola ao Paneira e só marcavam golos ao Neno se o Benfica já tivesse 4 ou 5 de vantagem e os minutos no VHS já estivessem quase a anunciar o escaldante Beira-Mar - Estoril que se seguiria.
Uma vez uns amigos do meu pai foram jantar a nossa casa e tive que arrumar as coisas mais cedo. Estava eu, pacientemente, a arrumar um Penafiel-Sporting (3-0 Penafiel, lembro-me bem), quando o Ninito, um amigo do meu pai, Benfiquista doente - e, logo, uma pessoa fantástica - me pediu um dos meus cadernos. Lembro-me perfeitamente dos risos quando ele disse: "Isto é que é um filho: 8 jornadas e o Sporting tem 0 pontos".  Eles riram-se muito e hoje eu também me rio, mas na altura lembro-me de pensar que, se calhar, mas só se calhar, eu fazia alguma batota. Mesmo com a sensação que estava a prejudicar ligeiramente os de alvalade, a época acabou por não melhorar para eles, acabando numa escandalosa descida que mereceu especial reportagem no corredor de minha sala. Como não tinha assim tantas equipas, no ano seguinte jogaram de novo o campeonato e, tragicamente, desceram mais uma vez.

Mas nem tudo foram rosas para o Glorioso. Já com 5 títulos na manga (sim, eu lembro-me de tudo isto vivamente), numa manhã de sábado, enquanto davam desenhos-animados, jogava-se o muito aguardado jogo do título. Adivinharam: Benfica-Farense (um crónico segundo lugar). Estava eu muito bem a brincar, a fazer os relatos na minha cabeça e às vezes alto e o Benfica a ganhar 2-0, quando a minha irmã, cansada de fazer os TPCs, resolve chatear-me e dizer que quer jogar. Eu lá lhe explico: quem ganhar é campeão, Benfica-Farense, está 2-0 e tal e ela diz que vai jogar pelo Farense. A minha irmã é 6 anos mais velha do que eu, portanto tive que comer e calar. Falhei o 3-0 com o Yuran (era tão mais fácil quando eu segurava o guarda redes adversário, ainda por cima com a mão esquerda...) e ela fez 2 golos (fez batota de certeza). 2-2. E agora? Agora, penalties. Perdi. Fiquei furioso, mas tive que escrever no caderno: Farense campeão. Foi, até eu deixar de jogar, a única mancha no incólume palmarés Benfiquista.

Farense campeão. Como não tinha o nome dactilografado para o placard, tive que o escrever.

Vieram depois as descobertas: as equipas na Europa, as selecções. O Espinho deixou de ser o Espinho e passou também a Juventus. O Braga a Arsenal, o Estoril a Suécia. O Chaves passou também, vejam lá, a ser o Barcelona. Torneios e torneios (às vezes sem o Benfica, para equilibrar) sucederam-se na sala. Escrevia folhas e folhas sobre Taças Uefas imaginárias, fazia sorteios, desenhava os jogos, fazia tudo. Deram-me, dois Natais mais tarde, um placard. Delirei. Folhas e folhas com nomes de equipas para eu recortar e meter no placard, dando cada vez mais verosimilhança ao meu mundo, fazendo-me aprender a escrever Tottenham Hotspur e a ver ali, magicamente dactilografado, BENFICA. Havia o Milan, a Juventus, o Real. Mas havia o Benfica. Amava aquele placard.
O campo era cada vez mais real. E as caixas onde vinham as equipas eram os autocarros para os jogos. O meu avô e o meu pai davam-me equipas e viam, deliciados, os jogos. Aliás, muitas das equipas eu nem sequer queria - estou a falar a sério - porque em princípio não jogariam com o Benfica, mas o meu avô achou um escândalo eu não ter a selecção holandesa (que viria, num torneio de Verão, em Espinho, a ser o Blackpool). E vai daí, decidiu dar-me éne selecções. Fiz um Mundial aos pés dele na casa dos meus avós, ficando ele felicíssimo pela minha alegria a comemorar o Mundial com a Argentina que ele me oferecera.  


                             As selecções, quase todas oferecidas pelo meu avô.

A primeira vez que viajei na vida - sou um  rapaz com mesmo muita sorte - foi a Londres, com 9 anos. Lembro-me do Big Ben, do museu de História Natural, de nunca deixar de dar a mão aos meus pais. Mas do que me lembro melhor foi de entrar numa loja que só vendia subbuteo. O céu. Pessoal: o céu. Abri muito os olhos de alegria, o meu pai pegou-me no ombro, levou-me lá para fora e disse-me: "Porta-te bem. Escolhes duas equipas, é a tua prenda." Concentrei-me. Revirei a loja. Comprei o Milan (Savicevic, Boban, Maldini) e o PSG (Valdo, Ginola, Ricardo Gomes). A equipa do PSG tinha umas tiras nas mangas. Era a primeira equipa que eu via pintada assim. Pareceu-me que tinha comprado um palácio.

 Reparem nas mangas. Que delícia.

No último dia, o meu pai mostrou-me que me tinha comprado o Liverpool (também com riscas nas mangas e que, mais tarde, viria a ser muito mais vezes o Bayer de Leverkusen. Quando jogava contra o Bayer, o Benfica jogava todo de branco, melhorando substancialmente a performance daquela equipa, que era várias vezes o Guimarães.) e o Arsenal. O Arsenal, que nós tínhamos acabado de vergar em Highbury, tinha, inclusive o patrocínio nas camisolas. Os olhos do meu pai brilharam mais do que os meus nesse pormenor, juro.
JVC. Mítico.

 Muitas vezes repetiram estes bonecos o 4-4 em Leverkusen.

Apesar de ter sido uma criança relativamente solitária no mundo do subbuteo, muitos clássicos partilhei com o meu grande amigo Tiago Palma. Companheiro de carteira desde os 6 anos, foi o Tiago que me explicou a regra dos golos fora nas competições europeias, distraindo-me tanto nessa aula, que ainda hoje não consigo fazer contas de dividir por números com mais de um dígito. Partilhámos muitas futeboladas no pátio da escola, no parque perto de minha casa e na rua atrás de casa dele. Farenses-Benfica e Benficas-Farense sucediam-se até à exaustão. Sem entrar nos campeonatos que até tinham direito a caderno - porque isso envolvia uma perseverança e uma rectidão que me obrigava a fazer disputar nebulosos jogos como Setúbal-Porto antes de ir dormir-, travámos duelos mortais na minha sala e na dele. Como os bonecos de subbuteo eram relativamente frágeis e os duelos entre nós aguerridos e bem disputados (quem nunca perdeu pontos no São Luís que atire a primeira pedra!), passámos a jogar com os bonecos dos bolos de anos, feitos em PVC, mais maleáveis e transportáveis. Pintámos os do Sporting de preto, o alternativo do Farense, e jogámos até ao infinito.
A rapaziada com que eu e o Tiago pontificávamos.

São os meus brinquedos que nunca deixei a minha mãe dar. Aprendi a escrever e a contar com eles. Tenho memórias vivas de jogos, de torneios, de coisas que aconteciam à minha volta enquanto o Benfica triunfava sem parar em Portugal e no estrangeiro, no tapete verde e as repetições do corredor. Não encontro subbuteos em lado nenhum e gostava de continuar a coleccioná-los.
Não gosto muito de dedicatórias, mas neste tem de ser: um abraço ao Tiago Palma pelas tardes a ver futebol a jogar futebol e a conversar sobre futebol, e um obrigado aos meus pais, por me terem feito uma criança tão feliz.

Esta é a equipa do meu coração. Vermelha e branca, altiva e humilde, com garra e técnica. O Benfica da minha infância, o Benfica que ficou, para sempre, guardado no meu coração.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Gota d'água

Não consigo perceber por que é que não temos meio campo. Até consigo: a direcção e a equipa técnica do Benfica são atrasados mentais ou, simplesmente, não querem saber. As duas hipóteses revelam que estão a mais. Que Ruben Amorim esteja num rival e Nuno Coelho sabe-se lá onde são só cerejas no topo de um bolo. Ou de um castelo de cartas prestes a ruir. A liderança com o melhor ataque é uma ilusão que talvez nem o mais incauto dos Benfiquistas já iluda. Adivinha-se (mais) uma intempérie.

Quando Witsel entrou contra aqueles turcos na pré-eliminatória o ano passado, qualquer pessoa com dois dedos de futebol presente na Luz percebeu que estava ali ouro. Possante e com uma técnica que várias vezes o fazia parecer um jogador de futsal (a maneira como pisava a bola e a conduzia), Witsel era o jogador “à futebol europeu” do Benfica. Tal como Ramires, era óbvio que ia sair, mais cedo ou mais tarde. Não valia a pena sonharmos com um novo Paneira, com um futuro capitão. Witsel, com o seu ar urbano e aquele futebol todo, ia sair. Só não sabíamos que tão cedo, e sem ser campeão. Desperdícios destes não se admitem. Foi um prazer vê-lo na Luz, foi um horror vê-lo desperdiçado na táctica de Jesus, foi um negócio do caraças (não estivesse o SLB falido e podíamos falar do “vender bem” do Benfica. Mas quando se vende para pagar juros…).

Já Javi foi um soco na alma. Javi Garcia podia ter sido um Paneira, podia ter sido um daqueles estrangeiros míticos, à Benfica. Podia ter sido um Thern, um Schwartz, um Isaías. Quando Javi marcou o golo aos lagartos, o ano passado, sorriu para a bancada como um adepto do Benfica. Tinha saltado mais alto do que um dos de verde e cabeceou seco um delicioso centro de Aimar. Não fez os corninhos do Isaías no 3-6, mas sorriu como ele. Para sempre já tinham ficado as imagens de Javi, podre de bêbado, a festejar o título e a gritar juras de amor a um clube que ele, claramente, não sabia ser tão grande. Sem os pés de Witsel, Javi sempre foi cheio de entrega, sempre cheio de concentração. Javi Garcia foi daqueles medíocres que, vestido à Benfica, se tornou gigante. Odiado pelos rivais, Javi jogava sempre de dentes cerrados, sempre a suar a camisola, sempre a dar tudo. Em Javi vi o Benfica que sonhei e que cheguei a ver. Javi Garcia empatizou imediatamente com as bancadas e as bancadas com ele. Javi parecia carregar as alegrias do passado e uma raiva nos dentes devido às derrotas do presente. Merecia o nome nas camisolas, merecia a aprovação até de um céptico como eu. Sonhei-o capitão.



Mas a vida não está para sonhos e muito menos o Benfica. Num futebol mercantilizado, com milionários tristes e praticamente sem símbolos, não há espaço para o coração infantil que me palpita quando o Benfica joga. Num clube onde ninguém percebeu que haveria médios centro a menos, que é o mesmo que não saber as vogais todas do alfabeto, poderemos nós estar preocupados com símbolos, com mística, com magia? 

Às vezes fico tão preocupado com o Benfica, com os erros perpétuos, com degenerações, que me esqueço o quanto gosto deste clube. Acho que essa é a maior tristeza que estas derrotas todas me deram: sofro tanto que me esqueço do amor que tenho às camisolas vermelhas, ao terceiro anel cheio, aos gritos BEN-FI-CA BEN-FI-CA BEN-FI-CA até não ter ar nos pulmões.

Não posso deixar que me tirem este amor. E antes de me preocupar outra vez com o buraco no nosso meio campo, vou ficar triste por Javi, afinal, não ser o Thern dos meus dias. O meu Benfiquismo merece isso.




Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água

Obrigada, Hulk

Estava a trabalhar na redacção do Porto quando me chamaram para ir à janela ver a nova contratação do FCP. A primeira coisa que pensei foi que nunca tinha visto um jogador de futebol tão largo. Percebi imediatamente que a alcunha «Incrível» não devia ser por acaso.

Mas aquela que guardo carinhosamente como a primeira recordação tua, Hulk, e que tão bem te define, aconteceu na tua estreia no Estádio do Dragão. Jogávamos contra o belenenses e tu entraste já na segunda parte. O FCPorto ganhava, mas 1-0 é um resultado que nunca satisfaz aquela plateia. Houve um livre e tu assumiste que querias bater. O Mariano, coitado, ainda não devia ter treinado muitas vezes contigo, porque se colocou à frente. Saiu lesionado. E tu ainda marcaste o segundo. Percebi imediatamente que tínhamos ali os pés mais fortes do mundo.

Se há momento teu que o mundo não pode esquecer é aquele que protagonizaste em alvalade, com o único jogador que pesava mais do que tu na altura. Eu estava lá, e desde que pegaste na bola que comecei a gritar “Hulk, Hulk, Hulk”. E gritei, e gritei, e gritei. E tu correste, e deixaste o Rochemback para trás, bem para trás, e fuzilaste-os. Percebi imediatamente que tínhamos ali um Fenómeno.


Depois, Hulk, foi uma questão de ires aguentando os assobios do Dragão. Sonho com o dia em que terei oportunidade de dar dois estalos a cada adepto que te assobiou e que, a qualquer falhanço da equipa esta época, vai questionar a tua venda. Eles existem, como sabes. Mas tu não lhes ligaste puto. Continuaste sempre o mesmo: forte, possante, irreverente, decisivo e muito, muito egoísta. Hulk, aqui que ninguém nos ouve, perdoa-me todas as vezes em que soltei um audível “passa a bola filho da puta”. Tu é que tinhas razão. Eu não o percebi imediatamente, mas a bola tinha de ser tua.

Até que chegou aquele dia. O túnel. O maldito túnel. Foste tão menino Hulk. Naquela altura já te deviam ter explicado o que aquela casa gasta. E tu, mesmo assim, caíste. Não imagino o que te terá passado pela cabeça quando era a tua cabeça que queriam. Suspenderam-te de imediato, que é uma coisa que não acontece, por exemplo, a jogadores que mandam árbitros ao chão. Tentaram que te fosses embora, que a tua carreira acabasse logo ali, e depois vieram corrigir o erro. De quatro meses para três jogos. E ainda me recordo bem daqueles arautos da verdade desportiva a fazerem as contas e a apregoarem que o FCPorto até fazia mais pontos sem ti do que contigo. Oh, Hulk, percebes agora como me rio deles, não percebes?

O que eles talvez não saibam é como isso nos ajudou a ver-te como um jogador à Porto. Outro qualquer, o Sapunaru, por exemplo, não conseguiria controlar a raiva por eles. Tu fizeste melhor: humilhaste-os.


E calaste-os. Porra, Hulk, este é o melhor silêncio do mundo. E qualquer um percebe isso.





Agora, Hulk, está na hora de ires. E eu tive o privilégio de ver o teu último golo com a nossa camisola, quando fuzilaste aquele guarda-redes de voz fininha no sábado. Um portista sabe que esta foi a melhor maneira de saíres do nosso clube. Parece-me que tu até nem querias muito, o que me faz admirar-te ainda mais. Ambos sabemos que vais para pior e que vais ter saudades do que já ganhaste aqui. E também ambos sabemos que o Porto vai sentir a tua falta, mas vai continuar a ganhar. Mas obrigada, Hulk. Muito, muito obrigada. És Incrível.

domingo, 2 de setembro de 2012

Pequeno Futebol Clube

É sábado, o mercado fechou há umas horas e, na sede do Pequeno Futebol Clube - uma tasca com três estrelas Michelin -, as manchetes dos jornais desportivos não interessam a ninguém. João Moutinho não foi para o Tottenham? Vira a página. Javi Garcia saiu do benfica (aleluia, irmãos)? Passa à frente. Na página 30, finalmente, a notícia do dia, lá em baixo, num quadradinho sem cor: o PFC fintou os Abramovich desta vida e conseguiu três reforços por empréstimo.

Dois defesas-esquerdos do benfica e um médio do FCPorto. A custo zero. E vestem o mesmo tamanho do que os emprestados da época passada, por isso é só trocar o nome da camisola. O presidente do PFC, desta vez, esmerou-se. Do sportem não quis ninguém, claro, porque ainda há uma diferença entre o Pequeno Futebol Clube e o Mínimo Futebol Clube.

É dia de bola. Da sede ao estádio seria só atravessar a rua, mas, desta vez, o PFC vai fazer uma deslocação até um estádio do Euro abandonado. Os sócios estão revoltados. As cadeiras confortáveis e limpas fazem doer as costas. O relvado impecável prejudica o futebol de qualidade ímpar. Os torniquetes, meu deus, é o fim do mundo, até funcionam.

Já não bastavam estas contrariedades, ainda por cima do outro lado está o campeão. E o PFC detesta o campeão. Não é que o campeão alguma vez tenha feito mal ao PFC, mas adepto do PFC que é adepto do PFC detesta todos os clubes que lutam por títulos. Ao adepto do PFC, soa a insulto que uma equipa queira sempre os três pontos. O adepto do PFC tem como melhor momento da sua vida aquela tarde soalheira em Vila Nova do Fim do Mundo, em que o PFC conquistou um glorioso empate que assegurou a permanência na primeira divisão, no último minuto da última jornada. Isto sim, é sentir o futebol. Os adeptos do campeão sabem lá o que isto é, esquisitinhos da caca que ainda há um ano andavam aí na rua a festejar uma Liga Europa.


Ser adepto do campeão é fácil. Pega-se no carro, faz-se centenas de quilómetros e entra-se numa bancada pintada da mesma cor. Canta-se por Hulk e Moutinho, que tantos corações partiram ao estarem ali, e espera-se que James entre para resolver o imbróglio. Os golos chegam, como quase sempre, e para a semana há mais (não há, porque o calendário é ridículo). Isto não faz sentido para o adepto do PFC.

Ser adepto do PFC é lixado. Na bancada estão os do costume, só que desta vez misturados com os adeptos do campeão, com aquele ar sorridente de quem está sempre a vencer troféus. Começam tímidos, não vá aparecer aí uma goleada, mas animam-se com aquele golo em contra-ataque perante o facilitismo da defesa do campeão. A noite, afinal, pode ser de festa para o PFC! Tudo o que têm de fazer é defender, dar pau e perder tempo durante toda a eternidade de jogo que se segue. Resta-lhes ainda assobiar o avançado brasileiro do campeão, porque, para os adeptos do PFC, só o seu central caceteiro de quase 40 anos vale 50 milhões de euros. Para seu azar, é esse mesmo avançado brasileiro que fuzila o guarda-redes de voz fininha do PFC e mata o jogo.

Tudo o que o adepto do PFC desejava era aquele empate no último minuto, num golpe de sorte, fruto de um falhanço de um rapaz do campeão. Com aquele empate, a noite de sábado na sede seria uma loucura. Os filhos e os netos do adepto do PFC iriam recordar para sempre aquela partida mítica em que o central caceteiro conseguiu acabar sem amarelo. Infelizmente, tudo correu como seria normal e o campeão ganhou.

Mas não há drama. O adepto do PFC, o verdadeiro adepto do PFC, é um adepto do caraças. Torce pelo PFC e apenas pelo PFC, por isso já está a preparar a deslocação ao rival Sporting Clube da Pequenez. Nesses jogos é que se conquistam permanências, nesses jogos é que o pequeno se separa do mínimo. O campeão que vá à sua vida, que o PFC vai continuar a lutar pela sua.

O pior são aqueles adeptos do PFC que ontem lá estavam, e que tantas vezes encontro por esses estádios fora. Disfarçam-se adeptos do PFC, mas na verdade são adeptos de outros clubes bem maiores, frustrados pelos títulos perdidos para o campeão. Quando o Targino faz o 3-2, não é a permanência do Olhanense que eles vêem à frente, mas sim a aproximação ou a conquista de pontos das suas equipas. Quando o Moutinho corta uma bola, é atropelado por trás e cai para o chão magoado, eles não gritam “maçã podre” porque ele é de Portimão, mas porque trocou o clube deles pelo campeão. Quando o Hulk passa por eles a 300 km/h, não é das portagens na Via do Infante que se lembram, mas daqueles 5-0 no Dragão e do seu querido David Luiz (pausa para elogiar a brilhante exibição frente ao Falcao) a ser ultrapassado por este camião brasileiro que os estúpidos dos russos nunca mais cá vêm buscar.

Admiro muito os primeiros adeptos do PFC. Quero que as crianças de Vila Nova do Fim do Mundo cresçam a torcer pelo clube da sua terra, que nas tascas se discutam as notícias mais pequeninas dos jornais desportivos e que os empates que asseguram a permanência no último minuto da última jornada sejam para sempre recordados como o melhor momento das suas vidas. É-me muito fácil ser do FCPorto, pelo que vocês, do Olhanense, do Beira-Mar, do Rio Ave, etc, me parecem os verdadeiros adeptos de futebol.

Quanto aos segundos adeptos do PFC, meus caros, azar. Preocupem-se com o meio-campo vazio da vossa equipa ou o ataque mortífero que apenas vos faz ganhar a equipas dinamarquesas de cujo nome já nem me recordo. Era o que eu faria, se fosse vocês. Mas felizmente sou do campeão.