domingo, 29 de janeiro de 2012

A Besta

O medo foi uma importante conquista da selecção natural e os mais aptos têm medo.
Os pré – históricos que não tinham medo foram todos comidos por tigres que enfrentaram “corajosamente” sem armas, sem precauções, sem medo. Os que perceberam que os tigres os podiam comer ficaram à espera deles em cima das árvores com lanças e aprenderam a fazer buracos.
A primeira vez que eu vi a besta do Hulk foi a marcar um golo aos pastéis. A cara de pouco esperto sossegou-me. Aquele olhar meio vazio não podia fazer mal a ninguém. Mas depois, enfiado no conforto do sofá a ver um duelo entre a rapaziada às riscas horizontais contra as riscas verticais para a Taça – se não me falha a memória – vi um dos acontecimentos mais fantásticos do futebol português.
O destino ou o fado ou o resultado de múltiplos fenómenos físicos e biológicos após o Big Bang colocaram Hulk e Rochemback num duelo de corrida. Ainda hoje recordo o Rochemback em esforço, a dar tudo, com as banhas a balançarem em câmara lenta e o respirar pesado, com se o Homer Simpson se tivesse levantado do sofá. E aquela besta com aquele ar alucinado de quem só vai matar alguém a ganhar metros e metros ao gordo, como se tivesse caído no caldeirão da poção mágica quando era pequenino. E depois fuzilou o Rui Patrício. Um tiro que se lhe acertava na cabeça ia fazer a cabeça do Patrício explodir e ia sair ar por todo o lado e perceberíamos que ele nunca vai perceber a regra do atraso ao guarda redes. E foi aí que eu percebi que era preciso ter cuidado com aquela besta e ganhei respeitinho.
Depois o rapaz veio para a ribalta com o escândalo do túnel e passou a símbolo e arma de arremesso. No ano a seguir passou-nos por cima com aquele ar de alucinado.
Hulk é extraordinário. O arranque é impressionante, o remate de pé esquerdo tem um quê de loucura, que tanto pode ferir alguém na bancada, como ser um golão. E o pior é que o tipo aprendeu isso, aprendeu que é perigoso. Quando o Hulk tem a bola tenho medo que ele arranque e que nos atropele. É um medo diferente do que tinha de Falcao, mas é um medo muito real. Quero que se vá embora e depressa. Era importante que não fosse por 100 milhões de algum árabe otário (até porque aquela Besta não vale isso) porque isso ia ser mais uma arma de arremesso. Mas era importante que aquele olhar estúpido, alucinado e altamente perigoso se fosse embora.
Não tenho por Hulk o respeito que tive por Lucho. Nem o terror que tinha por Jardel. Mas quero que ele se vá embora. Se isso mostra medo ou não, estou-me a marimbar. Não o quero é aqui.

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