domingo, 8 de janeiro de 2012

Muita papa para comer

O FC Porto não é campeão há dez anos. Nesta década, passou por vergonhas como uma final da UEFA perdida em casa e um campeonato perdido num clássico e viu os rivais a lutarem por ambições maiores. Um deles, desses rivais, ganha troféus europeus, campeonatos de seguida e vende jogadores medíocres dez vezes mais caros do que os nossos melhores.

Vamos recebê-los na nossa casa. Já estamos a seis pontos de distância. Estamos fartos disto, de ser humilhados, da vergonha, da tristeza, do saber que não vai sobrar nada para nós. Queremos entrar em campo com tudo, mas a pressão é tanta… Não se admite outra coisa a não ser uma vitória categórica.

Os outros começam logo a jogar melhor. Há assobios, insultos, ninguém é poupado. O Estádio do Dragão vira um tribunal que admite a pena de morte. Em cada passe errado há uma sentença, em cada adepto há um carrasco. Como dar a volta a isto? Estamos fartos, não aguentamos mais!

Felizmente, os outros pelos vistos não querem ganhar. Facilitam-nos a tarefa sem um ponta-de-lança, parece-me óbvio. Sofremos, aguentamos e pelo menos não acabamos vergados. Ufa, já passou. No final, incendiamos tudo. Isto não é o nosso clube, não é um grande, não é nada.

Ora bem, por esta altura espero que já tenham reparado que imaginei um cenário em que FC Porto e sportem trocavam de papéis. Naturalmente, a realidade do clássico de ontem foi bem diferente. É que eles estão tão habituados a isto que empatar em casa com o rival que já está a seis pontos é um óptimo resultado, porque é uma das raras jornadas em que pelo menos este não vai fugir mais.

Domingos tem toda, toda a razão. O sportem está muito longe do benfica e ainda muito mais do FC Porto. Ele disse-o por palavras mais fofinhas, mas todos entendemos bem: o sportem já não se comporta como um grande de Portugal há muito tempo. O estranho, para mim, que sou uma privilegiada, é eles acharem isso normal.

Ontem, o que eu vi foi um estádio cheio para receber o campeão, sorrisos nas bancadas, aplausos para a equipa que jogou pior, cânticos de incentivo a jogadores como Capel e Carrillo, apenas bons quando os adversários são defesas do rio ave ou do olhanense. No fim, o campeonato está longe, muito longe, mas está tudo bem.

O presidente arranja guerras ridículas com jornalistas, o treinador dá-se bem com todos, os jogadores choram quando os adeptos se atiram para o fosso. É um cenário idílico. No sportem, isto é bom. Comparado, por exemplo, com o último ano, quando todos suspeitámos que o clube ia acabar, é mesmo muito bom.





Este sportem é querido. Lançou fumos azuis antes do jogo começar para nos sentirmos em casa. Não maltratou o Moutinho. Não jogou nada.

Infelizmente, este FC Porto não é muito mais feroz do que isso. Não quis ganhar. Não foi para cima deles. Não tem um ponta-de-lança. Mas enfim, pelo menos por cá não se festeja isso. Nós é mais títulos.

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