segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O problema não é o fanatismo do outro, é o nosso

Eu e a Catarina gostamos de viajar, já viajámos muito. Gostamos de sair à noite, de ir beber um copo. De jogar às cartas um contra o outro, a contar cada vitória.
Gostamos de ver séries juntos no sofá. De ler, ler muito.
Mas de tudo isto gostamos como pessoas normais. Quero dizer: às vezes gostamos demasiado de ganhar no crapot um ao outro - de preferência num aeroporto qualquer (e posso adiantar que os últimos scores não me foram muito favoráveis). Às vezes eu levo demasiado a sério a minha fixação por policiais negros, às vezes a Catarina não espera por mim para ver o Dexter. Enfim, somos um casal como tantos outros: gostamos das nossas coisas, gostamos de as partilhar, somos felizes.
Mas depois há o futebol. O jogo que comanda os horários cá de casa: "O Benfica joga a que horas?", "Só volto do Porto depois do jogo", etc. Em relação ao jogo e aos nossos clubes, a nossa fixação ultrapassa tudo. Cada pormenor, cada amarelo, cada calendário do rival, cada benefício, tudo é vivido até ao último instante. Mas nós temos a mania que não. Quem, nós? Então um casal de jovens tão inteligentes, tão viajados, tão apaixonados, ia lá agora eu torcer pelo United só para o City não ter um jogo da Taça mesmo a meio da eliminatória com o Porto, podendo assim gerir melhor o esforço e eliminá-los! Eu? Porra, eu gosto é do Raymond Chandler.

A Catarina tem a mania que eu sofro mais. Exemplo: em Sydney, às 6.30 da manhã, eu e o nosso anfitrião - o Mago, companheiro de bancada e sentido de humor - levantámo-nos para ver o Beira Mar - Benfica. No golo, como é nosso hábito, não gritámos. Gesticulámos de alívio, que é o que as pesssoas que sofrem com isto fazem. Um gesto seco, tipo soco, como quem pode finalmente gritar - mas não grita. É uma alegria de alívio, de quem sofreria muitíssimo se, em 90 minutos, aquele momento não existisse. Ora, a Catarina levanta-se e pergunta: Quanto está? E nós: 1-0. 1-0 porque, mesmo em Aveiro ou em Apucarana, o Benfica está primeiro. A Catarina, que não tinha ouvido o GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLOOOOOOOOOOOOOOOOOO que os que não sofrem com isto terão gritado, acreditou que ganhava o Beira-Mar. E 15 minutos depois, quando percebeu, foi como se levasse dois golos, porque o resultado virava de 0-1 para 1-0. E vai daí, ficou chateada. Que sofríamos muito, que se tivéssemos gritado golo ela tinha percebido e que escusava de sofrer (reparem: "Vocês sofrem muito e como fizeram isso fizeram-me sofrer a mim, que nem ligo nada a isto").
Isto aliado à minha estranha mania de dar indicações aos jogadores (porque se eu não disser "desce" virado para uma televisão num apartamento no centro de Lisboa, é óbvio que o Maxi, a jogar na Madeira um Maritímo - Benfica, vai ficar lá à frente), às vezes até de pé, criou esse mito cá em casa: "O Manel (sim, M. é de Manel) é um bocado sofredor e a Catarina é mais viagens".

Há uns dias - isto da internet tem graça - saiu uma fotografia panorâmica da Luz, no último derby. Podemos - como a polícia - passear pelas bancadas até encontrar as nossas caras. E a minha é, até com desconto, de um sofrimento, de uma tensão, que é um misto de estar a cagar e ser esfaqueado ao mesmo tempo, mantendo ainda a concentração suficiente para fazer, através do poder da mente, com que o Emerson faça um cruzamento milimétrico. À minha volta há pessoas a olhar para o lado, a bocejar, dando até a impressão que o jogo está parado. Mas eu estou ali, tudo contraído, à espera que o Javi cabeceasse e eu pudesse, enfim, gesticular para todo o lado, finalmente aliviado. A foto alimentou o mito, claro.
E eis que houve clássico esta semana. E que a Catarina foi fotografada. E percebemos: sofremos mesmo com isto. Tem uma foto a tapar a cara, de desalento. Tem uma de cabeça atirada para trás, pescoço esticado e braços cruzados, em pose de treinadora que não sabe o que pode fazer mais para mudar o jogo. E tem uma mesmo à mister: mão no queixo, olhar distante, pensando na próxima substituição. À volta, pessoas cantam, pessoas riem, pessoas fumam charros. E nós não percebemos isso: como é que há gente que vai ao Estádio e se diverte.

Quero com isto dizer que o ambiente cá em casa está carregado. Que apesar de conseguirmos conviver com o fanatismo um do outro, mal conseguimos sobreviver ao nosso. Antecipamos cada jogo com uma dor imensa, antecipando a perda de pontos que decidirá o campeonato. Ficamos nervosos, andamos às voltas na sala, não conseguimos trabalhar como deve ser. Há várias pessoas que me perguntam como é que eu, que sou doente pelo Benfica, vivo com uma igual do Porto. E isso nem sequer é pergunta. As derrotas do Benfica fazem-me sofrer tanto que nem que a Catarina mas gritasse aos ouvidos se agravavam. E sei que ao contrário é o mesmo. O nosso problema, repito, não é o outro gostar do rival. É nós gostarmos tanto do nosso clube.


2 comentários:

  1. Tão tão tão muito bom.

    O primeiro golo é aquele que normalmente me retira 10 quilos de cima. Quando ontem o chuta-chuta decide aquele remate em arco e a bola cai alegre nas redes, é isso tudo, não gritei, não gesticulei por aí além. Foi assim um gesto de perder quilos em catadupa. Estava quase. Depois Cardozo, mas ainda não estava totalmente. Só com o Rodrigo no toque seco estilo ângulo de morte do taco de bilhar é que o meu coração descansou. Depois ri e pude ver calmamente os últimos 10 minutos de jogo.

    Onde é que eu posso encontrar essa panorâmica? Quero encontrar-me.

    Abraço e um beijo à Catarina.

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  2. Comecaste 2012 em grande, Manel. E' para manter esta toada, tal como o nosso clube...

    O soco para o lado e' um classico da bancada. `As vezes acompanha com um "TOMA", mas normalmente e' em silencio. So' me lembro de perder o controlo e festejar um golo no chao durante 30 segundos - o do Luisao em 2004/2005. Claro que tinha sido antecedido de uma viagem ate' Lisboa de proposito para ver o jogo, toda uma semana anterior em sofrimento, e seguiram-se-lhe os minutos finais de angustia... Mas valeu a pena.

    Abraco sul-hemisferico.

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