quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lucho, dos verdadeiros

João Pinto, Lima Pereira, Eduardo Luís, Frasco, André, Jorge Costa, Fernando Couto, Paulinho Santos, Sérgio Conceição, Rui Barros, Rui Filipe, Fernando Gomes, Domingos, Vítor Baía. O mito do jogador à Porto nasceu e cresceu com todos eles. Tinham em comum a nacionalidade, a entrega, a identificação com o clube. Tudo o que faziam, para nós, adeptos, era bem feito. Uns com mais técnica do que outros, outros mais bem comportados do que uns. Quando vestiam a camisola, asseguravam-nos, no mínimo, a dedicação. E isso era mais do que suficiente.

A maioria vivia o Porto desde o berço. Jogaram à bola no Cerco, na Sé e na Ribeira, em Matosinhos, em Leça e Gondomar. Falavam com sotaque. Conheciam as Antas como ninguém. Às vezes eram mais adeptos do que nós. Dizia-se até que assinavam as renovações em branco, sem esperar grande pagamento por ter a honra de representar o clube que amavam.

O FCPorto cresceu muito desde então. Formaram-se equipas pentacampeãs, campeãs europeias e mundiais. O clube ganhou, ganhou e ganhou. Passaram por cá muitos jogadores. Uns melhores do que outros, outros mais falhados do que uns. O jogador à Porto foi-se transformando e hoje não vemos, à partida, nenhum dos verdadeiros.

No entanto, se olharmos bem, vemo-los por aí. Helton tem o seu quê de Baía, Ricardo Carvalho de Fernando Couto, João Moutinho de André, Deco de Rui Barros, Drulovic de Rui Filipe e até Jardel de Fernando Gomes. Em todos eles, há uma identificação com o clube fora do normal para pessoas que nasceram tão longe daqui. Alguns nem português falam, mas sabem bem o que é falar à Porto. E a todos eles reconhecemos dedicação.

E, depois, há Lucho. Lucho González é tudo o que um jogador à Porto não devia ser. Tem tatuagens, usa brincos, gosta de aparecer com gorros e óculos vistosos, como se a aparência nos servisse de algo. É calmíssimo, dentro e fora do campo, fala bem, e passa ao lado de todas as guerras que compramos para que a mística sobreviva. Nunca daria uma cotovelada à Paulinho Santos. Nunca reclamaria uma taça só para ele à João Pinto. Nunca diria uma asneirada portuense à Frasco.

Lucho González é argentino, bem-parecido e parece sempre que a qualquer momento se vai lembrar que afinal devia ter sido actor, ou qualquer outra coisa que não envolvesse andar a suar uma camisola. Só que a camisola é do FCPorto e ele sente-a como todos os outros, os verdadeiros, e corre, e finta, e passa e marca por ela. Fá-lo como só os predestinados conseguem e fá-lo sempre como se tivesse nascido no Hospital de São João e como se os pais o tivessem feito sócio do FCP nesse mesmo dia.

Desde já, Lucho, pelo que já nos deste, obrigada. Obrigada por me fazeres acreditar que, quando marcavas um golo, colocavas a mão na testa para me procurar na bancada. A mim ou a qualquer um como eu, que amamos mesmo este clube, para nos mostrares que estavas sempre connosco. Obrigada por fazeres com que os meus pais me dessem uma camisola do Porto, autografada por ti, e que essa tenha sido a melhor prenda que alguma vez recebi. Foi um prazer aplaudir-te durante tanto tempo, cantar a tua música e admirar-te sempre, sempre.

Quando te foste embora, e apesar de o FCPorto não depender de nenhum jogador para vencer, deixaste um vazio. No campo, claro, mas sobretudo nas bancadas, que caíram no erro de regressar ao passado e acreditar que só quem nasce e vive neste clube sabe o sonho que isto é. Foste pelo dinheiro, que tu e o clube queriam, mas era impossível levar-te a mal. No fundo, sempre soubemos que ias voltar.

Ver-te a sorrir, à saída do nosso aeroporto, confesso, emocionou-me. Senti-me a maior parola do mundo por, no dia a seguir a termos ficado a 5 pontos do primeiro, ficar genuinamente feliz. Mas, sinceramente, não quis saber. Não o fiz por acreditar que és tu que nos vais dar esses 5 pontos que faltam. Sei lá eu se vais jogar e o que vais jogar. E não será, certamente, um jogador a resolver os nossos problemas. Só que és tu, Lucho, o nosso Comandante, e nós estávamos mesmo a precisar de um dos verdadeiros.


Em Marselha, à pergunta de um jornalista sobre a pressão que sentia, Lucho González respondeu que «a pressão real é a de um pai que se levanta cedo todas as manhãs para alimentar os filhos».

«Isso é o que meu pai fez por mim e pelos meus irmãos. Fico espantado quando vejo jogadores a queixarem-se de algo. Levantar-se todos os dias às cinco horas da manhã para ir fazer um trabalho de que não gostamos, isso sim é motivo de queixa», disse ele.

É impossível não adorar este gajo, não é?

2 comentários:

  1. É.

    Quando soube que era oficial, fiz um post sobre isso, o que não é normal, está bem de ver, fazer posts contente por uma contratação do Porto.

    Mas a ideia de ter Aimar e Lucho no mesmo campeonato, nas duas melhores equipas portuguesas, é qualquer coisa que me faz ultrapassar a rivalidade. Está para além disso.

    Sinto coisas contraditórias: quero que jogue ao mais alto nível (detestaria vê-lo abaixo do que foi) mas não quero vê-lo ao mais alto nível. Quero que nos mostre futebol de talento e paixão, mas não que nos mostre futebol de paixão e talento.

    Não sei bem. Gosto que tenha vindo. Sempre gostei do Lucho, antes, durante e pós-Porto.

    E tens razão: não tem nada que ver com o jogador à Porto.

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  2. Grande grande grande! emocionei-me a ler... Tão simples e tão certas as tuas palavras! fizeste-me recordar porque é que eu amo este clube! aquele que me fez chorar de tristeza no domingo e de alegria na segunda! Lucho poderá nao ter a frescura que tinha! mas a dedicação e amor ao clube morrerão com ele!!

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