sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Manchester, a viagem que já devia ter feito

9 de Março de 2004. O meu pai e eu levantámo-nos cedo e, equipados a rigor, rumámos ao aeroporto. Só se via azul e não havia um só portista que não acreditasse que íamos passar o poderoso man. united. Era assim naqueles tempos. A reviravolta no Dragão tinha sido dos jogos mais “à Porto” de sempre e havia uma espécie de aura à nossa volta que nos convencia que tudo ia correr bem.

Fizemos o check in e o meu pai embarcou de imediato. Ia num avião mais cedo. Eu fiquei para trás, à espera dos amigos que iam no meu voo. Passei a segurança e cheguei à sala de embarque. E eis que uma senhora hospedeira não me deixa entrar no avião.

Eu tinha 17 anos na altura e, segundo ela, precisava de um autorização dos meus pais para entrar no Reino Unido. Expliquei-lhe calmamente que o meu pai estava lá, à minha espera, pelo que podia tratar das formalidades com os ingleses. Começou aos gritos, que “nós” éramos sempre a mesma coisa, que estava farta de “nos” aturar, que não éramos “nós” que mandávamos ali. Nós suponho que sejamos os adeptos de futebol, mas não sei, podemos ser nós as miúdas de 17 anos que vamos ver um jogo da Liga dos Campeões ao estrangeiro, ou nós os seres humanos em geral.

Ainda calma, disse-lhe então que ia telefonar à minha mãe para ela ir lá. A minha pobre mãe estava a dormir e pôs-se no aeroporto em tempo recorde. Enquanto isso, fui perdendo a calma. É que havia mais um como eu, um menor cujo irmão maior de idade estava mesmo ali, ao lado da hospedeira, a explicar-lhe que já tinham feito aquilo mil vezes e que nunca tinha havido problemas. E ela sempre aos gritos, com os seus argumentos poderosíssimos. Outros responsáveis do aeroporto pediam-lhe compreensão, que nós íamos só ver o Porto, que tudo podia se resolver. E ela, com a sua pose de rainha de Inglaterra, não, não e não.

Já com a minha mãe ao lado, pedi-lhe então educadamente para entrar no avião.

“- Agora já não dá. Vamos levantar voo.”

Parece que ainda estou a ver o gosto que lhe deu dizer isto. Como devem imaginar, passei-me. Não me lembro quais foram os insultos aos quais recorri. Ainda hoje, só de pensar nesse momento, sinto exactamente a mesma vontade de lhe bater que tive naquele dia. Nunca tinha sentido isso e acho que nunca mais senti: uma vontade enorme de lhe puxar os cabelos, de desatar ao murro e ao pontapé até ela ceder e deixar-me ir. Partindo do princípio que eu ganharia a luta, claro.

(In)felizmente, eu sou uma rapariga educada, e a minha mãe estava ao meu lado para me segurar e levar embora dali. Avisei os amigos que estavam no avião que não ia. E eles, que segundo aquela grandessíssima vaca estavam a levantar voo, ainda demoraram mais 40 MINUTOS a partir. Respira, Catarina.

Era dia de aulas e, se eu fosse uma pessoa normal, tinha ido. Mas só conseguia chorar. Acho que nunca chorei tanto na vida, e acho que isso diz tudo. Considero-me muito forte para encarar a morte, a doença, as frustrações e as desilusões da vida. Mas aquilo deitou-me mesmo abaixo.

Cheguei a casa e, pouco depois, ligou-me o meu pai a dizer que estava à minha espera. Chorei, chorei, chorei. Mais umas horas e ligaram-me os amigos do voo que também devia ser meu. Chorei, chorei, chorei. A minha mãe convidou a família para ir ver lá o jogo, para me animar. Chorei, chorei, chorei.

Até que chegou o jogo. A tristeza deu lugar ao nervosismo e foram 90 minutos realmente dolorosos. Mesmo quando se tornava cada vez mais provável que o FCPorto ficasse pelo caminho, nunca pensei que tinha sido melhor assim. Nunca senti aquele alívio, aquele “ufa, ainda bem que não fui”. Queria estar lá para chorar com eles.

E, depois, aquele livre. Parece que ainda hoje me estou a ver a levantar do sofá e a ir empurrar o Costinha para chegar primeiro àquele ressalto. Fui eu, eu sei disso. Se eu estivesse em Manchester, às tantas tinha-me distraído a bater palmas ou a cantar na confusão. Assim, não. Concentrei-me, acompanhei tudo com os olhos e fui lá ajudá-lo a marcar. Foda-se, acho que nunca gritei tanto um golo numa sala qualquer. Corri, esbracejei, abracei-me a quem ali estava, que naquela altura era a minha tia mas também podia ser o Pedroto. Porra, foi lindo.

As imagens que chegavam de Old Trafford deixaram-me a chorar novamente. Aqueles adeptos estavam a viver um momento histórico. As caras deles não podiam estar mais felizes e eu devia estar ali com eles. Recebi um telefonema do meu pai. Não o ouvia, mas ouvia os portistas loucos, a sentirem cada vez mais que a Champions ia ser nossa.

E foi. E aquela noite foi, digam-me se concordam, o momento mais emocionante dessa caminhada. Ainda fui a Lyon, à Corunha e a Gelsenkirchen, mas perdi aquilo. E como nunca o poderia viver novamente, prometi que nunca mais iria àquele estádio. Old Trafford ficaria a ser o meu estádio maldito num dia de tanta sorte.

Agora, com 25 anos, vou a Manchester. Já não preciso da autorização dos meus pais e o estádio do city não entrou na promessa. Tenciono passar à porta de Old Trafford e lembrar-me como já foi o palco dos nossos sonhos. Entrar é que nunca.

A tarefa adivinha-se impossível. O resultado de ontem foi catastrófico e impensável para quem viu os primeiros 30 minutos de jogo. Esqueçam aqueles clichés segundo os quais o Porto vai ter de estar na sua máxima força e esperar que o man. city erre. Do que nós precisamos na próxima quarta-feira é de heróis. Heróis como os que foram à Grécia desafiar todas as estatísticas e dar a volta à eliminatória. Heróis como o Derlei, que estava magoado e ainda assim marcou dois golos ao Panathinaikos.

Eu, confesso, não acredito mesmo nada. Ontem, no final, não senti aquela aura, aquela vontade de ir lá com pose de “até os comemos”. Mas vou lá, podem contar comigo. A menos que a hospedeira seja a mesma.

P.S.1 Vários menores foram a Manchester sem familiares mais velhos e não tiveram problema nenhum em Inglaterra.

P.S.2 Ainda com 17 anos, mas na época seguinte, voltei a Inglaterra para o chelsea-Porto. Os meus pais tiveram o trabalho de ir ao notário fazer uma autorização a sério. Gastaram 25 euros. Nunca ninguém ma pediu.

5 comentários:

  1. a malta na altura não tinha posses para viagens
    e como tal contentava-se em ver o jogo no falecido CALUDAS (porra escrever este nome fez-me confusão)

    Ainda hoje sonho com a loucura que se viveu e com as garrafas de Super Bock que voaram ...
    (e o Zé Melga de joelhos lavado em lágrimas !!)

    http://www.youtube.com/watch?v=gwI26s55Muw

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  2. Foi um dia complicado esse... O desfecho final é que acabou por te alegrar, Cat! ;) A mim não ! LoL

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  3. Cara C.,

    Descobri este blogue há muito pouco tempo e tenho gostado muito.
    Também sou portista (de Lisboa) e sofredor.
    Parabéns aos dois. Pelo blogue e pela sã convivência.

    Saudações portistas,
    PELIFE

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  4. cara C.,

    não acredito que haja um só portista feliz, hoje.
    é verdade que o resultado peca por excesso - três golos sofridos nos quinze minutos finais e com menos um jogador em campo durante os noventa (Varela desde o início e até à sua substituição; Rolando pela inusitada expulsão).
    mas ainda não me convenci desta eliminação ante uma equipa que considero estar ao nosso alcance - e com todas as vedetas que enriquecem o seu plantel e as £ibras que por lá se jorram.

    por último e não menos importante, o meu sentido muito obrigado! à fantástica e entusiástica massa adepta deste enorme clube que é o FC Porto e que se fez sentir durante todo o encontro.
    vocês foram inexcedíveis, car@go!

    somos Porto!, car@go!
    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs a todos vós! ;)

    Miguel | Tomo II

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  5. WTF... essa senhora merecia ter levado na tromba. Resta uma consolação: o clube dela qualquer que seja não ganhou nenhuma competição europeia desde então ;-)

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