quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Os que sofrem

Várias vezes falo de futebol. É comum o fenómeno de ser o maluquinho do clube X num local de trabalho. Eu ganhei o Benfica para mim no meu Serviço. Há outros, mas eu sou o que sofro mais, eu sou o primeiro a discutir, a defender o clube, a lembrar que já o Jorge Coroado que escreve aquelas asneiras n`”O Jogo” é o mesmo que conseguiu que conseguiu expulsar o Canniggia sem ele mexer os lábios. Há outros “representantes” de outros clubes. Somos os que sofrem, aqueles que toda a gente cumprimenta nas vitórias e goza nas derrotas. Ouvi bocas sobre o Yannick de t-o-d-a a gente. TODA. Porque o Benfica, ali, sou eu.

Falo de futebol com os meus doentes. É um assunto sobre o qual toda a gente tem uma opinião e quebra logo ali o gelo, os doentes perdem aquela coisa do “senhor doutor” e vêem em mim mais um humano que gosta de bola. A mim, dá-me gozo humanizar a coisa e fazer esquecer uma doença com uma conversa sobre um 442. E depois conhecer os doentes pelo clube além da doença. É mais bonito lembrar-me que o senhor X tem um Mieloma e é do Benfica do que dizer “o senhor X do Mieloma”. É óbvio que não dou esta conotação facilmente. Do Benfica é um senhor que assim que saiu do internamento foi ao Seixal ver um treino. São os que sofrem.

Ontem, para não variar, a meio de uma consulta falou-se de futebol. Desta vez nem fui eu. Os familiares falam do Yannick, eu continuo a escrever e digo solto só um “nem me fale”.
O doente, rápido, desarma-me com a pergunta: “É dos que sofre?”. Não me perguntou o clube, não me perguntou se tinha cativo, perguntou-me se sofria. E o que eu senti no olhar dele, foi se eu era do clube dele, dos que sofrem. Disse-lhe que sim, que sou dos que sofrem.
Isto é um bocado surrealista, porque há ali uma pessoa doente à frente, fala-se de doença, fala-se de tratamentos duros, e de repente a palavra “sofrer” vem relacionada com futebol. E perdemo-nos ali, falamos dos dias em que não jantamos por causa do nosso clube, daquele acordar horrível depois das derrotas e dos inenarráveis minutos em que estamos a perder e falta pouco para acabar e queremos que a equipa avance e nada.

Cá em casa sofre-se. No domingo, respeitei com o meu silêncio cada esgar de dor da Catarina, como ela compreendeu os meus espasmos e palavrões durante o jogo na Feira. No fim não se goza, porque isto custa muito. É engraçado como nesta alienação da vida se ultrapassa a própria vida. Como o futebol e o amor a um clube às vezes não são apenas analogias da vida, nem uma conversa no meio de uma consulta importante. É óbvio que não é assim para toda a gente. Para aquelas pessoas que não se debruçam todos os Verões sobre o equipamento alternativo, o futebol é só isso, é só um jogo. Mas para uma seita, para uma tribo, para os representantes do clube em cada local de trabalho, há ali uma dor, uma responsabilidade pungente.

E com esses não se brinca. Quando são adversários, respeitam-se, fala-se de questões sérias, como se se tratasse de um encontro entre dois velhos espiões da Guerra Fria. Às vezes, diplomaticamente, cede-se um elogio. Quando os sofredores são dos nossos, partilha-se tudo, as maiores esperanças e os medos, como se fossemos irmãos. Recordam-se, esmiuçados, os momentos de glória e analisa-se o futuro como se o dinheiro a investir fosse do nosso bolso.

Dizia-vos que cá em casa, até para sobrevivermos à loucura um do outro, há esse respeitinho. Espreitamos pelo canto do olho a reacção a cada decisão arbitral, controlamo-nos em cada golo, com uma disciplina desumana. Chega a haver, entre mim e a Catarina, uma detestável piedade pelo que perde – e isso ainda é mais irritante, mas gostamos um do outro e sofremos e a vida é mesmo assim.

Vamos com 5 pontos de avanço, mas eu, além de sofredor, sou um pessimista. E isto do Benfica já só poder não ser Campeão por culpa própria é de uma responsabilidade terrível. Lá no serviço já me entregaram as faixas, mas eu não quero isso, não quero distracções.
Quero que a rapaziada continue séria e a dar tudo, se possível com mais qualidade porque isto tem sido uma carga de nervos a cada 90 minutos, e que não entre em loucuras. É que se perdermos, naquele serviço sou eu que levo na boca, como tantos outros Benfiquistas sofrerão noutros locais de trabalho ou cafés. Portanto, não me venham com festas, nem com coisas. Não me lixem (com F) a vida agora. É que eu sou dos que sofrem.

1 comentário:

  1. Tão verdade.

    Sobre essa "Guerra Fria" e o respeito que lhe vem atrelado, uma pequena historieta que se passou comigo agora há uma semana em Santa Maria da Feira: depois de termos abandonado o prédio, eu e o Miguel (Céu Encarnado) fomos ver o jogo a um café. O dono, portsita; o gajo ao lado de mim no balcão, portista; depois umas mulheres e homens benfiquistas, mas sentados. Ou seja: estava entregue a ver o jogo em terreno inimigo. Normalmente entro sempre um bocadinho a pés juntos, não de forma demasiadamente antipática mas com umas dicas que levantem fervura. Faz-me e fará sempre muita confusão a razão pela qual alguém, em resposta ao sucesso desportivo, aceita ter como Presidente aquele ser aberrante e corrupto. Por isso, interessa-me compreender as voltas que a espinha pode dar e como as pessoas se defendem da hipocrisia. Atirei duas ou três só para saberem ao que vinha. O Miguel chamou-me a atenção: "cuidado, olha que estamos em território inimigo". Não estávamos. Quer dizer, sim, havia muitos portistas e gente anti-Benfica mas tudo dentro de uma civilidade assinalável - aliás, deixa-me dizer-te: Santa Maria da Feira é um lugar muito bonito, as pessoas são boas, têm dignidade, não têm facciosismo doentio, como vi em Braga o ano passado, por exemplo. Os portistas (um deles o dono) respondiam aquilo que podiam, coitados, não há desculpas para youtubes que valham, não é? "Ah mas vocês também..." e não desenvolviam mais. Porque não podiam. Porque não podem. Porque sabem, no fundo sabem, o que estão a apoiar: a mentira e a falsidade. Mas a forma como o fizeram e me receberam, como viram o jogo comigo, como não festejaram o golo do Feirense (ou festejaram, mas timidamente) foi uma experiência ao mais alto nivel humano. Felizmente que o golo do Cardozo aconteceu comigo na rua a fumar um cigarro. O Miguel veio ter comigo, abraçámo-nos, sentimos o peso de milénios a sair do corpo, arranjámos a roupinha, o cabelo e voltámos a entrar no café com um sorriso feliz mas sem arrogâncias. No fim, a mulher disse-me que tinha um bom coração. E eu retorqui. Houve desporto, ali.

    ResponderEliminar