Partilhamos amigos e famílias. Partilhamos almoços e jantares. Partilhamos livros e discos. Partilhamos viagens e segredos. Partilhamos uma casa e uma vida. Só não partilhamos o clube.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Ontem Embebedámo-nos no Estádio da Luz
Manifesto anti-braga
segunda-feira, 26 de março de 2012
Aos jogadores do Porto
Desisto. Já não há desculpas ou explicações rocambolescas que justifiquem isto. Não percebo, não consigo nem quero perceber, como é que vocês não querem ser campeões. Eu quero, muito mesmo, e claro que sei que ainda está perfeitamente ao nosso alcance, mas estou cansada de puxar por vocês e de ter tão pouco em troca.
Já todos sabemos que a época foi mal planeada. Ficámos sem treinador de repente, perdemos um grande avançado e alguém achou que o Kléber era jogador para o FCPorto. Se me esforçar muito, até consigo compreender a frustração de alguns de vós, mais interessados noutros voos, que nem sempre se traduzem em mais conquistas, mas certamente numa carteira mais recheada.
Também tenho consciência que o treinador não é grande coisa, que não tem garra, que parece estar sempre disposto a dar a outra face para levar ainda com mais força, e que não vos faz sentir os melhores do mundo. Sei ainda que não deve ser fácil a uma equipa que ganhou tudo manter-se motivada, ainda por cima quando os próprios adeptos, no nosso estádio, se portam como atrasados mentais de primeira.
Eu sei isso tudo, juro. Foi por isso que passei a época toda a defender-vos, a acreditar em vocês, a tentar encontrar respostas para a vossa mais do que evidente incompetência. Vocês perderam a Supertaça Europeia, mas, porra, era o Barça. Vocês levaram 3 da académica para a Taça de Portugal e eu desculpei-vos a vergonha. Vocês foram eliminados da Liga dos Campeões e eu fiz notar que a Liga Europa estava mais ao nosso jeito. Vocês foram eliminados da Liga Europa e eu ainda engoli isso, porque o city me parecia uma equipa incrível, com estrelas do outro mundo, até que vi a porcaria dos lagartos a ultrapassá-los descontraidamente. Vocês perderam pontos com feirenses, olhaneses, gil vicentes e académicas, mas eu não deixei passar os claros erros de arbitragem que não vos deixaram ganhar. Vocês não ganharam em alvalade e ao benfica em casa, mas deram-me uma grande alegria na luz.
Portanto, eu não merecia isto que vocês me fizeram em paços de ferreira. Eu não merecia que pedissem a minha força, a força que já me falta, para depois fazerem aquela figura. Sabem porquê?
Porque vocês dizem e escrevem por aí que Somos Porto, mas vocês não são do Porto como eu. Podem ser durante uns tempos, dar-nos muitas alegrias e viver isto mais ou menos como os verdadeiros. Mas eu sou do Porto desde sempre e para sempre. Sou eu que estou lá nos grandes momentos a festejar ao vosso lado e sou eu que tenho de aturar os amigos de outros clubes no dia seguinte quando vocês se portam mal. Eu estive em Sevilha, em Gelsenkirchen e em Dublin, mas também estive no temporal de Bratislava, na goleada de Manchester ou a sofrer golos do Pauleta em Paris.
Para vocês, o Porto é passageiro. Festejam aqui umas coisas, ganham fama e dinheiro e dão o salto para outro lado. É tão fácil, não é? Falamos de um clube que vendeu o Cissohko por 15 milhões, portanto, onde tudo é possível. Aqui até o Maniche foi uma estrela, o Marco Ferreira foi campeão e o Pena melhor marcador de um campeonato. Aqui os meninos são todos apaparicados, há uma estrutura que vos faz as vontades todas e onde até a besta do Cristian Rodriguez pode ter tudo o que quer.
Vocês acham que estão a fazer um grande favor ao Porto? Acham-se tão bons que a qualquer momento estão no real madrid ou no chelsea? Vivem à sombra da época que nos deram o ano passado? Mas já pensaram bem no que vocês eram sem o Porto? Moutinho, tu estavas em quinto lugar. Rolando, tu estavas na segunda. Hulk, tu estavas a matar japoneses com remates para a bancada. Daqui a uns anos, vocês vão perceber que o Porto não foi só mais um clube por onde passaram. Nessa altura, provavelmente a maioria de vós vai recordar o Porto como o único clube onde ganharam algo. Um dia, vão contar aos vossos netos como foi dar 5 ao benfica e ser campeão na luz. Vão ter muito orgulho no que fizeram, mas também irão arrepender-se de não ter corrido um bocadinho mais na Mata Real.
Se não formos campeões este ano, a culpa é vossa. São vocês que não querem, está visto. E para o ano alguns de vós vão às vossas vidas, enquanto outros ficam e esperam por um novo treinador e um plantel mais equilibrado. O futebol é assim, está sempre a mudar e não é possível ganhar sempre.
O problema, para mim, é que eu vou continuar a ser do Porto, aconteça o que acontecer. Não posso pegar nas minhas coisas e ir para outro clube ganhar mais. Não posso fazer fita para ter um novo treinador. Não posso entrar em campo sem motivação, sem querer, sem vontade. Eu não ganho nada com isto. Não sou rica como vocês, não tenho as vossas casas e os vossos carros, e quando vou ver o Porto não vou no vosso autocarro ou avião super confortáveis. A única coisa que eu tenho é este amor, esta paixão cega pelo meu clube, que me faz pedir-vos uma última vez: ganhem os jogos que faltam. Sejam campeões. Se não for pelo treinador, pelo clube, pelo dinheiro ou pela fama, façam-no pelo menos por mim.
P.S. Obrigada a todos os portistas que se identificaram com as minhas palavras, mas que este texto nunca sirva de inspiração ao bota-abaixismo, aos assobios e aos insultos. O meu desabafo é o de uma adepta triste, mas que vai continuar a ir lá até ao fim. Se não for por eles, será pelo nosso FCPorto.
quinta-feira, 22 de março de 2012
Obrigado, Cardozo
quarta-feira, 21 de março de 2012
Poesia
Data que não podia passar ao lado
É que ontem o Porto perdeu na luz
Por isso hoje devia ser feriado.
Não vamos à final em Coimbra
Oh, meu deus, que tamanha inveja!
Quem me dera ainda estar na corrida
Pela espectacular taça da cerveja.
O Porto queixa-se do árbitro
E os bloqueios são a nossa crença
Aprendemos finalmente a chorar
Como os colegas de clube do Proença.
Do outro lado festejou-se em grande
Só faltou irem para o Marquês
Mas eles lembram-se que o jogo a sério
Não foi nem há um mês.
Ao abrir os jornais deste dia
Tive uma surpresa terrível(!)
Parece que todos se esqueceram
Do fora-de-jogo mal tirado ao Incrível.
Preferem destacar o Cardozo
Que saiu do banco como um furacão
Ao que parece, o avançado do benfica
É tão bom com os pés como com a mão.
E agora um pequeno aparte
Dedicado ao Bruno Paixão
É que desta vez, em Barcelos,
Até nem foi grande ladrão.
Os lagartos queixam-se, como sempre
Mas o João Pereira mete lá a mão
E depois daquele atropelo do Schaars
Não me surpreende a expulsão.
Terei de ser eu a fazer notar
Que para haver influência no resultado
Era preciso marcarem um golo
Mas que triste é o vosso fado.
O que interessa agora é o jogo na Mata Real
Esse é que não pode dar para o torto
Espero que queiram tanto ser campeões como eu
E que entrem para mostrar que Somos Porto.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Porque é que eu acho que vai correr tudo mal
quinta-feira, 15 de março de 2012
O inimputável
Há pessoas que, devido à sua idade ou condição mental, são consideradas inimputáveis perante a lei. Quer isto dizer que são punidas de outra forma, normalmente mais leve, porque entende o Direito que destas pessoas não se deve esperar o comportamento que se exige a um adulto normal. Falamos, portanto, de Jorge Jesus.
Jorge Jesus é um bronco. Não sabe falar, não consegue elaborar um raciocínio e, pior, vive bem com isso. Há quem argumente que é um homem do povo, mas o povo para mim não é estúpido e, mesmo quando a vida não lhe proporciona uma boa formação, nunca esquece a humildade.
Num país normal, nunca Jorge Jesus poderia ser o treinador de um clube grande. A um homem que lidera uma equipa com enormes responsabilidades exige-se, no mínimo, que saiba conjugar um verbo. No estrela da amadora, podíamos achar piada ao treinador dos “motocards”, mas, no benfica, rezo para que o tradutor dos jogos da Champions tenha um texto escrito por si próprio.
Podem dizer-me que isto é futebol e que o Vítor Pereira não é propriamente o Prémio Nobel da Literatura. Correctíssimo. Mas não é por acaso que os melhores treinadores do mundo são Guardiola e Mourinho. Não é de certeza por serem giros (embora eu o agradeça), mas porque, além de saberem treinar uma equipa, têm uma personalidade que serve de exemplo de liderança.
Voltemos, então, a Jorge Jesus. Com uma carreira já longa no futebol português, passou muitos anos a tentar não descer equipas miseráveis. A táctica resumia-se a tentar fazer pontos fosse de que maneira fosse. Se fosse preciso defender com os 11 jogadores na grande área, defendia-se. Se fosse preciso atirarem-se 11 jogadores ao mesmo tempo para o chão, atiravam-se. Se fosse preciso fazer uma figura triste na conferência de imprensa, fazia-se. Mas era o estrela, e o setúbal, e o belenenses, e o leiria. Ninguém se importava muito.
Até que Jorge Jesus se viu no benfica, com plantéis recheados de estrelas e uma campanha mediática que o protege. A táctica, se repararmos, não mudou muito: continua a valer tudo. Vale sair constantemente da zona reservada à equipa técnica para pressionar os árbitros e os jogadores. Vale ir a correr pela linha lateral a pedir claramente ao guarda-redes para fingir uma lesão e perder tempo. Vale agredir jogadores e insultar árbitros. Vale ensinar aos avançados como se finge um bom penálti.
Só que o benfica tem jogadores excelentes. Por isso, Jorge Jesus pôde finalmente colocar em campo dois avançados e três médios ofensivos. Toda a gente sabe como joga o benfica há três anos: tudo para a frente, sem controlar os diferentes ritmos de jogo, à espera que os jogadores não estoirem e que os adversários não aproveitem aquela meia dúzia de oportunidades que têm sempre, seja o FCPorto ou o paços de ferreira. Corre bem muitas vezes, é verdade, mas quando corre mal também toda a gente pode dizer que se estava mesmo a ver.
Jorge Jesus é muito, muito limitado como treinador. Só dá para isto, seja em casa ou seja fora, seja o campeão europeu ou o último classificado da III Divisão, estejam disponíveis para jogar os jogadores que estiverem. Ai não há Javi? Então não preciso de reforçar o meio-campo, o Matic que se safe. Ai vem aí o Hulk? Então vou deixar na mesma o tosco do Emerson porque o outro, campeão do mundo, irrita-me. Ai o paços de ferreira teve três hipóteses de aumentar a vantagem? Então vou tirar um médio e meter um avançado para partir ainda mais isto.
E, para piorar, os jogadores detestam-no. E com toda a razão. Imaginem que o vosso chefe era o Jesus. Primeiro, era impossível saberem o que ele pretendia de vocês, porque para isso era preciso descodificar aquela língua. Depois, eram tratados abaixo de cão, seja em privado ou em público, por um “líder” que só sabe falar na primeira pessoa do singular na hora da vitória. E, na pior das hipóteses, imaginem que vocês eram o Javi Garcia e que tentavam há três anos fazer ver a uma parede que aquele buraco no meio-campo não faz sentido nenhum.
A meu ver, Jorge Jesus ainda é treinador do benfica por duas razões: porque foi campeão dos túneis (perdão, devo dizer “tunéles”) e porque os adeptos daquele clube aplaudem a equipa depois de levarem 5 e de nos verem ser campeões na sua casa. Este ano, arrisca-se a ser novamente campeão, porque os nossos jogadores não querem e porque os senhores de amarelo e preto querem muito. E, enquanto ele anda a mascar “chicla” e a pintar o cabelo para a festa, andamos nós a discutir se ele deve ser castigado pelo que disse após o benfica-FCPorto, jogo em que fomos extremamente beneficiados por um golo em fora-de-jogo dois minutos após aquela grande defesa do Cardozo na grande área.
Meus senhores, falamos de Jorge Jesus, o inimputável. Se vale mandar jogadores atirarem-se para o chão, se vale praticar um fair-play de treta e se vale agredir adversários, estão à espera de quê?
terça-feira, 13 de março de 2012
Futebol, o ópio intelectual
Albert Camus, filósofo, escritor, pensador e prémio Nobel da Literatura, foi um deles. Tinha tudo para ser um snob defensor da teoria segundo a qual o futebol é apenas um jogo para entreter os estúpidos. Em vez disso, era como nós. Uma vez, um amigo perguntou-lhe se preferia ver futebol ou ir ao teatro. Respondeu futebol sem hesitar. Se escrevessem isto nos livros de Filosofia aposto que tinham mais adolescentes interessados na disciplina.
“Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol”.
E o que dizer de Chico Buarque? Conhecemo-lo pela música, mas é o futebol que o torna mais vivo. Nas entrevistas, diz que nunca escolheu ser músico. Se pudesse ter escolhido, era jogador de futebol. “Tornei-me músico um pouco por acaso. Devo dizer que o sonho de ser um craque permaneceu na minha cabeça. Ainda hoje acredito que seja”.
No estrangeiro, quando não o reconhecem, o Chico conta que finge que é um ex-jogador de futebol porque garante que esta é a melhor maneira de meter conversa com alguém, seja em que lado do mundo for, e porque, claro, é brasileiro e tem o sonho de isso ser verdade. O sucesso levou-o a conhecer vários craques e ídolos brasileiros, como Garrincha e Pelé. Conta que os jogadores, como seus fãs, só querem falar de música com ele, o que considera incompreensível, porque a ele só lhe apetece falar de bola.
O amor de Chico Buarque pelo futebol é contagiante. Em Março de 1980, organizou um jogo que contou com a presença de Bob Marley. Pois, é o que o rei do reggae também era um maluquinho como nós. Foi a jogar futebol que Bob Marley provocou a lesão que viria a levá-lo a descobrir o cancro. Diz-se que um mês antes de morrer ainda combinava partidas de futebol com os amigos. Muitos contam como tinha o hábito de entrar no estúdio de chuteiras, como se precisasse de um pouco de futebol para a sua música.
"Futebol significa liberdade"
Bob Marley, ao que dizem, tinha jeito para a bola. Che Guevara também. Era adepto do Rosário Central, tinha como ídolo Di Stéfano (que pena não ter vivido para ver Maradona e Messi) e ao que tudo indica era um bom guarda-redes. Eu imaginaria o grande guerrilheiro argentino a trinco, uma espécie de Fernando da revolução socialista, mas ao que dizem foi mesmo na baliza que se fez notar.
Alberto Granado, o seu companheiro da aventura contada no filme «Diários de Che Guevara», contou que o futebol esteve várias vezes presente na sua viagem. Ou paravam para jogar ou para ver jogos. Certa vez, Che destacou-se ao defender um penalty. Imaginem só: o homem que está em milhares de t-shirts espalhadas pelo mundo para dar um ar de esquerdalho ao seu dono a atirar-se para o chão e a festejar que nem um louco.
Também se conta por aí que, já ministro, em Cuba, participou num jogo onde pouco mais se esperava dele do que uma aparição pública para receber uns aplausos. Che quis ir para a baliza, claro, e quando se atirou para os pés de um adversário toda a gente ficou em choque: o senhor ministro não tinha percebido a intenção.
“Não é apenas um jogo, é a arma da revolução”
À esquerda ou à direita, na América do Sul ou aqui ao lado, é igual em todo o lado. Há pouco tempo, lia uma interessante entrevista do nosso eterno futuro Nobel António Lobo Antunes ao El País. Falou-se de literatura, de arte, de paixões. E o escritor, sem que nada o induzisse, levou a conversa para a bola. “Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi. Quem me dera escrever como Messi joga futebol.”
Estas coisas arrepiam-me, nem sei explicar porquê. Não faz sentido que estes génios coloquem um desporto numa dimensão à qual nenhuma outra arte pode pertencer. Que necessidade tinham eles de adorarem meros jogadores, se cada um, à sua maneira, é uma grande referência da história, da filosofia, da música e da cultura mundiais? Não vos parece quase ridículo? Não, porque é futebol.
É por isso que não me surpreendo quando descubro que o anestesista e o médico que me operaram saíram do bloco à pressa para irem à luz ver o benfica-zenit. Eu compreendo-os, a sério. Outra coisa não seria de esperar de dois grandes profissionais, que todos os dias optam por estudar e questionar a sua especialidade, conhecidos na área pela sua grande panca pelo futebol.
É que a bola, quando nasce redonda, é para todos.
domingo, 11 de março de 2012
Dor
A vida até estava a correr-me bem. Ganhámos (mais uma vez) na luz, a equipa mostrou a sua raça e o treinador impôs-se finalmente. Naquela sexta-feira, o Porto voltou a ser Porto. Mas nem tive tempo de o gozar.
Uma cirurgia antecipada obrigou-me a ficar vários dias sem comer. Sem comer. Não sei se estão a perceber bem. Enquanto vocês andavam a gozar com os vossos amigos de outros clubes, eu estava a beber água para não desfalecer. É um mundo injusto, este.
Na terça-feira, dia da operação, o M. não foi à luz para ficar comigo (haverá maior prova de amor? *). A anestesia geral deixou-me noutra dimensão, mas o futebol sobrepôs-se naturalmente. À medida que ia acordando, perguntava ao M. quanto estava o zenit. A perder. Porra, mais valia voltar a dormir. E depois sonhava com os adeptos do Porto, a cantar em uníssono que somos (e queremos tanto voltar a ser) campeões. E depois acordava e a dor estava ali.
É uma dor que não se explica. O corpo parece que grita, sem se mexer parece que tudo se mexe e que não tenho qualquer controlo sobre isso. Não me posso virar para um lado porque dói, do outro ainda pior. Não consigo andar, nem sentar-me, nem sentir-me confortável de qualquer forma. Os medicamentos ajudam, mas nada me tira a sensação de que a qualquer espirro tudo vai sair do sítio outra vez.
Foi assim, até sábado. A minha saúde tirou-me qualquer antecipação pessimista do jogo e achei mesmo que ia passar os primeiros 90 minutos simpáticos da semana a ver o meu clube conquistar três pontos. Mas, afinal, o Porto nem entrou em campo.
O que eu vi ontem foi um grupo de incompetentes vestidos com a camisola errada. Vi o Sapunaru que vocês tanto exigiram a época toda a lateral direito a fazer asneira. Vi o Rolando a merecer levar duas chapadas. Vi o Álvaro a sonhar com o chelsea outra vez. Vi o coitado do Fernando a fazer tudo até levar com um camião em cima. Vi o Moutinho e o Lucho a andarem mais devagar do que eu, que tenho quatro buracos na barriga. Vi o James que vocês tanto querem a jogar de início a armar-se em palhaço. Vi o Hulk a não resolver. Vi o Janko perdido. E vi-os a todos sem vontade.
E, aí sim, doeu-me tudo. Como é que é possível que aqueles gajos, de uma semana para a outra, percam a vontade, a raça, a conversa do “somos Porto” e não sei quê? Mas está tudo louco? Terei sido a única a ficar enojada com a campanha mediática que já deixou Pedro Proença de fora desta jornada, tentando fazer-nos esquecer quem também foi prejudicado na luz? Serei eu a única a querer como o caralho calar aquela gente?
O que é que vos deu? Custa-vos correr ou custa-vos querer? Estão a brincar comigo? O que é que vocês têm para fazer a não ser ganhar o campeonato? Estão a pensar no chelsea e no real madrid? E pensam que alguém vos quer ao fazerem essa figura? Seja o quer for, parem. Parem, parem, parem. Eu não aguento isto. Dói-me tudo só de ver.
E dói-me, além disso, que o Porto ontem tinha ganho o jogo, mesmo só entrando nele aos 70 minutos, se não fosse o árbitro. O fora-de-jogo mal tirado ao Hulk, o penalty sobre ele e o anti-jogo premiado da académica influenciaram o resultado. Dói-me não por não estar à espera, porque estou sempre, principalmente uma semana depois de termos humilhado os outros na própria casa. Mas dói-me porque parece que aqueles 11 de azul que estiveram em campo não se ralam nada com isso. Não querem entrar em jogo e espetar-lhes logo 2 ou 3 para que os senhores de amarelo e preto nem tenham hipótese. Assim põem-se a jeito, como diz o outro.
Já percebi que vai ser assim até ao fim. Vamos ser capazes do melhor e do pior. Vamos ganhar jogos com nota artística e vamos perder pontos por falta de comparência. Vamos ser roubados e pressionados e, pelos vistos, vamos gostar. Tudo isto eu aceito, juro, o futebol é isto mesmo, não é? Só não podem é mostrar-me outra vez que não querem. Isso não. A vossa falta de vontade causa-me uma dor que não se explica.
sábado, 10 de março de 2012
Somos todos FC Start
(Mariano Amaro e José Simões, jogadores portugueses num Portugal - Espanha durante a Guerra Civil Espanhola que ao, ao invés de fazerem a saudação fascista, cerraram o punho)
Venho então falar do FC Start, uma equipa cuja coragem não terá ainda paralelo, e que representa, mais do que tudo, como onze homens podem, com uma bola, mudar o mundo.
Estamos em Junho de 1941 e os nazis invadem a URSS, ganhando Kiev aos soviéticos. Foram capturados cerca de 600 mil (!) soldados soviéticos. Naturalmente, o campeonato de futebol estava interrompido, com vários jogadores a cumprir serviço militar. Entre os soldados capturados estavam jogadores do Dinamo de Kiev que ficam assim forçados ao trabalho – escravatura que a guerra nazi obrigava.
O quadro é de miséria, desemprego, fome, assassinatos consecutivos. Um dia, Kordik, padeiro ucraniano com ascendência alemã – que o poupou à morte – está a andar em Kiev e vê o guarda - redes da sua equipa: Trusevych. Fanático pelo Dínamo de Kiev, contrata Trusevych para a sua padaria. Mas Kordik não quer o seu guarda - redes a fazer pão, Kordik, em plena II Guerra Mundial, enquanto as maiores atrocidades acontecem à sua volta, tem outro plano: ver o seu Dínamo junto outra vez. Começa assim a “caça” dos jogadores. Trusevych encontra sucessivamente vários companheiros de equipa (8 ao todo) e com mais 3 jogadores do Lokomotiv de Kiev forma-se o FC Start (o nome Dínamo estava proibido). Uma padaria é, de repente, o abrigo de uma equipa de futebol.
Hitler e os nazis têm várias obsessões, uma delas a demonstração da superioridade nazi no desporto, sendo os torneios de futebol frequentes. Após alguma discussão, os jogadores do FC Start decidem jogar contra os nazis. Em Junho de 1942, enfrentam os primeiros adversários. E mesmo com fome vencem: 7-2. Seguem-se outros, sempre com vitórias. A população local tem, finalmente, ídolos. Com a Resistência desfeita, num país atormentado pelos acontecimentos de Babi Yar, uma ravina que serviu de vala a mais de 30 mil judeus executados num só dia (!) pelos nazis, há, finalmente, alguém que derrota o mal, alguém que permite a libertação dos gritos contra a desumanidade e carnificina. Os nazis tornam os bilhetes mais caros para afastar a população, mas o FC Start já é a equipa da população.
Os adversários são batidos à vez, até chegar a Flakelf, a equipa – propaganda dos nazis. Apesar do árbitro alemão, da pancadaria e de tudo, o FC Start vence 5-1. A manobra de Kordik é descoberta e de Berlim pede-se a execução do padeiro e toda a equipa. Mas para Hitler e para os oficiais nazis, a superioridade ariana é mais importante e marca-se outro jogo para 3 dias depois.
A 9 de Agosto de 1942, joga-se o segundo jogo entre a Flakelf e o FC Start. O árbitro é um oficial das SS e o ambiente altamente policiado. Antes do jogo, o árbitro visita o balneário do FC Start e lembra-lhes que devem seguir as regras nazis e deixa o aviso: se ganharem, morrerão. Não faço ideia do que se passou na cabeça daqueles jogadores e é quase insultuoso que o tente. Pessoas a quem tudo foi retirado: emprego, casa, amigos e família, têm no futebol, na hora e meia de jogo, as suas vidas – e a de tantos outros ucranianos – de volta. A dignidade, a liberdade, os seus empregos, casa, amigos e família, são lembrados em cada passe, em cada jogada, em cada golo, em cada vitória. Quando festejava os golos do FC Start, a população ganhava a guerra, arrasava a propaganda nazi. E esses homens, que não foram intelectuais, não escreveram livros, eram só homens, como nós (mas sem ser como nós) decidiram jogar. Decidiram que não cederiam.
Na apresentação das equipas, recusam a saudação nazi. Com a mão no peito, gritam "Fizculthura!", uma expressão soviética em prol da educação e cultura física. Está dado o mote para o escândalo. Apesar das benesses do árbitro, o FC Start chega ao intervalo a vencer por 3 – 1, espalhando o delírio nas bancadas.
Ao intervalo, nazis armados dizem-lhes que devem, que têm que perder. Mas estão 36 mil adeptos nas bancadas, morreram 33 mil em Babi Yar, e aquela gente invadiu as suas casas, as suas vidas. E aqueles onze homens decidem jogar.
O jogo acaba 5-3 para o FC Start com a humilhação final de Klimenko. Isolado frente ao guarda redes nazi, finta-o, e de baliza aberta, decide passar a bola para o meio campo outra vez. A humilhação é total, o estádio vem abaixo.
Eu já festejei muitos golos do Benfica, fico vermelho, sem respirar, grito e sinto-me vivo. Mas o que Klimenko fez deve ter feito chorar, deve ter feito viver. Destroçados pela guerra, sujeitos a tortura, obrigados a sentirem-se racialmente inferiores, não imagino a alegria, os arrepios, a felicidade dos adeptos que viram o FC Start. Não imagino o orgulho que esses homens sentiram com aquelas camisolas, não imagino, não consigo imaginar.
Depois do jogo, a Gestapo foi à padaria. Kordik foi torturado e assassinado à frente de todos. Só Goncharenko e Sviridovsky, que não estavam na padaria naquele dia, sobreviveram até à libertação de Kiev em 1943. Todos os outros foram deportados para campos de concentração. Trusevich, Klimenko e Putistin foram mortos em Babi Yar. Há um monumento em frente ao estádio do Dínamo que honra os heróis do FC Start e ainda hoje quem tem o bilhete daquele jogo tem entrada gratuita no estádio.
Não existirá, decerto, maior acto de coragem na história do futebol mundial. Toda a magia, toda a aura que o jogo carrega está simbolizada neste jogo. Toda a beleza, toda a coragem, está tudo ali. A bola de Klimenko, que eu nunca vi, mas que construo vezes sem conta na minha memória, é mais arrepiante do que poemas ou canções. Deve ter sido como ver uma revolução. Imagino um qualquer ucraniano a sair do estádio e a olhar, pela primeira vez, um soldado nazi olhos nos olhos e de sorriso nos lábios.
O futebol não é só o ópio do povo. É também o suspiro do oprimido. Somos todos FC Start.
(único registo fotográfico do FC Start)
segunda-feira, 5 de março de 2012
Obrigada YouTube
http://youtu.be/Wjr-9KjW8p0
Por também achares que em lances de bola parada só não vê quem não quer:
E por mostrares a todos que uma história tem sempre duas versões:
sábado, 3 de março de 2012
Bonjour tristesse
Depois fiquei às escuras na sala a fingir que via televisão. É como se estivesse a observar, de fora, a minha própria dor. Há uma cena maravilhosa no 100 Bullets, que é a melhor coisa que já foi escrita em banda desenhada, que descreve isto:
"So, Mr. Garret, how you feelin`?" "Numb", i say back. He chuckles a bit, tells me "you can`t feel numb, `cause numb means you can`t feel. You can`t feel numb, you can only be numb, he tells me"
É um bocado isto, uma dor é tal que se deixa de sentir. Tudo.
Eu sou mesmo do Benfica. Eu sou tão do Benfica que acho poético que o Jaime Graça morra no dia de aniversário do Benfica. Eu nunca vi jogar o Jaime Graça, mas faz parte de todo o meu imaginário que o meu Pai e os outros Benfiquistas me foram contando. O Benfica é bem capaz de ser a única coisa na vida em que eu penso, pelo menos, de hora a hora. Eu acho que é mesmo impossível sofrer tanto pelo Benfica como eu. Acredito que há pessoas que sofrem o mesmo, mais não. A sério.
E eu não aguento isto. Não aguento. É uma dor física, às vezes até pior, ver o Benfica assim. E o facto de passar muitas horas a atormentar-me a mim mesmo a dizer "o Emerson é mau demais", "o Emerson é mau demais", "o Emerson é mau demais", "o Emerson é mau demais" tipo mantra, não faz com que o Emerson saia da equipa. E isto de sofrer muito com uma coisa que eu, pelos vistos, não posso influenciar, está a dar cabo de mim. A culpa não é do Emerson, coitadinho, que dá tudo. Quero dizer: também é. Se o anormal tivesse ido para canalizador não tinha conseguido ser expulso ontem e fazer mão com o Braga. Mas pior, pior, é ninguém no Benfica o mandar para canalizador outra vez. Cheguei a pensar que amadorismo permanente, a fanfarronice de marialvas, enfim, o "pressão têm os outros", que se tinha aprendido com isso. Mas não. Nada, nadinha, nem um bocadinho. Se formos campeões será por incompetência dos azuis e não por nossa própria competência. Quando tínhamos que os ter no sítio, não tivemos. O Benfica é raramente competente. E quando o é, fica logo cheio de si. Há uma boçalidade confrangedora.
Há muitos culpados, mas até eu, que tive toda a paciência com Jorge Jesus, já não aguento. O Benfica, tacticamente, é caso único na Europa, no Mundo. Ninguém joga assim. Ninguém joga tão desequilibrado. Ninguém acha que o jogo é para jogar a 300 à hora uma hora e meia. Ninguém quer, em termos tácticos, PROPOSITADAMENTE partir o jogo, de forma a explorar sempre situações individuais onde os nossos podem ser melhores. Isto resulta com equipas pequenas, que se submetem a isto e que acabam por perder porque não aproveitam as situações de igualdade numérica contra a nossa defesa, mas contra equipas de futebol, é impossível. Com 30 minutos a jogar, a ganhar, Aimar lesionou-se. Tinha de entrar Matic para 8 e Witsel subia e jogávamos com 3 médios. E a entrar Rodrigo, saía Cardozo, e jogávamos em contra-ataque, com a pressão do lado deles.
Mas Jorge Jesus deve achar que se um dia não jogar com 2 avançados lá bem à frente lhe vão chamar mariquinhas. Ou que lhe vão cair os tomates. Ou que já vai poder pintar o cabelo. E portanto meteu um segundo avançado.
Mas treinar o Benfica não é como treinar no Championship Manager (sou um nostálgico, não me apanham a dizer FM), e Jesus já podia ter percebido isso. Eu quando comprava Robertos e Emersons no Manager também insistia neles até à última. Era o jogo que estava errado, não era a minha decisão. Mas Jesus nunca está errado. Nem quando mete Gaitan, um tipo que faz o Sabry parecer disciplinado tacticamente, a defesa esquerdo. E esta loucura de deixarmos o Benfica nas mãos de um atrasado mental a presidente que dá plenos poderes a um treinador louco, tem de acabar.
É que eu já não aguento isto. É muita dor, porra. Cheguei a dizer que na 3ª feira nem lá vou, mas é mentira. Vou. Vou fodido comigo, por não conseguir não ir, mas vou. Neste momento a minha relação com o Benfica é uma relação de violência doméstica. Eu dou tudo e o Benfica não me dá nada, só me bate. Depois dá-me uma Taça da Liga e diz que me ama. Mas isso não me chega, nem nunca vai chegar.
E isto vai-me acompanhar sempre. Agora vou trabalhar - e eu sou feliz a trabalhar, como sou feliz com a Catarina, com a minha família, com quase tudo - e de repente o meu coração vai bater mais forte, vou ser invadido por uma tristeza horrível, como se me subisse uma amargura à boca e o meu cérebro vai-se lembrar que o Benfica perdeu e vou voltar a sentir-me na minha sala, às escuras, a fingir que vejo televisão.
Adeus tristeza, até depois
Chamo-te triste por sentir que entre nós dois
Não há mais nada pra fazer ou conversar
Chegou a hora de acabar
PS: A mãe da Catarina, que é das maiores anti - Benfiquistas que eu já vi (e digo isto em tom de elogio, até), disse ontem que eu não mereço isto. Obrigado.
Mister, esta é toda sua
Bobby Robson, António Oliveira, Fernando Santos, José Mourinho, Co Adriaanse, Jesualdo Ferreira e André Villas Boas. Todos eles treinadores campeões, todos eles com histórias para contar neste capítulo.
O outrora chamado Tribunal das Antas é tramado. Nunca vi um treinador a chegar ao Porto sem provocar desconfianças, interrogações e dúvidas. Mesmo com vitórias - e foram muitas, não sei se sabem -, foram insultados, assobiados, alguns até agredidos. É um fenómeno difícil de explicar.
Se por um lado até um elefante cor-de-rosa era campeão a treinar o Porto, por outro começo a achar que é das profissões mais ingratas do mundo. E Vítor Pereira não foge à regra, claro.
Tenho passado a época a aturar-vos, a vocês, “portistas” que torcem contra o Porto para dizerem que têm razão. E está na hora de me vingar. É que a vitória de ontem deveu-se muito a este homem e vocês não têm tanto direito como eu de a festejar.
Vítor Pereira não é o melhor treinador do mundo, não fala com postura à Porto e não vai de certeza ganhar tudo esta época. Mas ontem, no sítio do costume, deu uma lição ao outro, ao melhor do mundo e arredores, ao que acha que dar 5 ou 6 às equipas pequenas e ter medo de nós é que é ser bom, o que dizia que a pressão estava do nosso lado.
Liguem as colunas e continuem comigo. Depois da lição do treinador, vou agora ensinar-vos uma coisa sobre arbitragem. Nisto do futebol, resumidamente, os factos pouco contam. Os pontos ficam dados de qualquer das maneiras e só a memória dos adeptos ficará para a história. É por isso que estão a tentar que o jogo de ontem fique marcado pelo fora-de-jogo evidente do Maicon no terceiro golo.
O FCPorto foi melhor, foi um grande clássico, com grandes golos, mas aquele fora-de-jogo é que abre os telejornais. Muitos vão argumentar que o campeonato acabou ali, mas eu ainda me lembro de como começou. (ligar modo ironia) Um lance que, aliás, mereceu exactamente o mesmo destaque nos jornais e que ocorreu num estádio bem mais decisivo para a tabela do que o de ontem.
A nossa tarefa agora, camaradas, é não deixar que os nossos filhos um dia ouçam que o campeonato 2011/2012 se decidiu neste fora-de-jogo.
http://www.youtube.com/watch?v=MkEJDy9rEpg
Até porque nada está ganho. Foram só 3 pontos e 3 pontos que já vinham do ano passado, não acrescentam nada agora. Faltam muitos jogos e conhecemos as nossas dificuldades, pelo que este ano, ao contrário do habitual, não houve campeão na luz. Houve, isso sim, muita festa de adeptos que cada vez mais são um exemplo fora e um terror em casa.
A partir de ontem, aconselharei toda a gente a voltarem sempre a um lugar onde foram felizes. E a próxima é já este mês. Espero que a loira não falhe outro vaticínio.












