terça-feira, 13 de março de 2012

Futebol, o ópio intelectual

Muitas das pessoas que admiro pela sua personalidade, inteligência e sentido de humor gostam mesmo de futebol. Podem falar comigo sobre um livro, uma peça de teatro ou um concerto, mas a paixão acentua-se quando chegamos ao tema futebol. Há muita coisa que posso partilhar com as pessoas que entram na minha vida, mas admito que quando o assunto é bola a coisa torna-se mais séria. Não quero com isto dizer que todas as pessoas interessantes são malucas por futebol, nem que todos os adeptos são interessantes, longe disso, mas há qualquer coisa que nos une, a nós, os doentes.

Albert Camus, filósofo, escritor, pensador e prémio Nobel da Literatura, foi um deles. Tinha tudo para ser um snob defensor da teoria segundo a qual o futebol é apenas um jogo para entreter os estúpidos. Em vez disso, era como nós. Uma vez, um amigo perguntou-lhe se preferia ver futebol ou ir ao teatro. Respondeu futebol sem hesitar. Se escrevessem isto nos livros de Filosofia aposto que tinham mais adolescentes interessados na disciplina.

“Tudo quanto sei com maior certeza sobre a moral e as obrigações dos homens, devo-o ao futebol”.

E o que dizer de Chico Buarque? Conhecemo-lo pela música, mas é o futebol que o torna mais vivo. Nas entrevistas, diz que nunca escolheu ser músico. Se pudesse ter escolhido, era jogador de futebol.Tornei-me músico um pouco por acaso. Devo dizer que o sonho de ser um craque permaneceu na minha cabeça. Ainda hoje acredito que seja”.

No estrangeiro, quando não o reconhecem, o Chico conta que finge que é um ex-jogador de futebol porque garante que esta é a melhor maneira de meter conversa com alguém, seja em que lado do mundo for, e porque, claro, é brasileiro e tem o sonho de isso ser verdade. O sucesso levou-o a conhecer vários craques e ídolos brasileiros, como Garrincha e Pelé. Conta que os jogadores, como seus fãs, só querem falar de música com ele, o que considera incompreensível, porque a ele só lhe apetece falar de bola.

O amor de Chico Buarque pelo futebol é contagiante. Em Março de 1980, organizou um jogo que contou com a presença de Bob Marley. Pois, é o que o rei do reggae também era um maluquinho como nós. Foi a jogar futebol que Bob Marley provocou a lesão que viria a levá-lo a descobrir o cancro. Diz-se que um mês antes de morrer ainda combinava partidas de futebol com os amigos. Muitos contam como tinha o hábito de entrar no estúdio de chuteiras, como se precisasse de um pouco de futebol para a sua música.

"Futebol significa liberdade"

Bob Marley, ao que dizem, tinha jeito para a bola. Che Guevara também. Era adepto do Rosário Central, tinha como ídolo Di Stéfano (que pena não ter vivido para ver Maradona e Messi) e ao que tudo indica era um bom guarda-redes. Eu imaginaria o grande guerrilheiro argentino a trinco, uma espécie de Fernando da revolução socialista, mas ao que dizem foi mesmo na baliza que se fez notar.

Alberto Granado, o seu companheiro da aventura contada no filme «Diários de Che Guevara», contou que o futebol esteve várias vezes presente na sua viagem. Ou paravam para jogar ou para ver jogos. Certa vez, Che destacou-se ao defender um penalty. Imaginem só: o homem que está em milhares de t-shirts espalhadas pelo mundo para dar um ar de esquerdalho ao seu dono a atirar-se para o chão e a festejar que nem um louco.

Também se conta por aí que, já ministro, em Cuba, participou num jogo onde pouco mais se esperava dele do que uma aparição pública para receber uns aplausos. Che quis ir para a baliza, claro, e quando se atirou para os pés de um adversário toda a gente ficou em choque: o senhor ministro não tinha percebido a intenção.

“Não é apenas um jogo, é a arma da revolução”

À esquerda ou à direita, na América do Sul ou aqui ao lado, é igual em todo o lado. Há pouco tempo, lia uma interessante entrevista do nosso eterno futuro Nobel António Lobo Antunes ao El País. Falou-se de literatura, de arte, de paixões. E o escritor, sem que nada o induzisse, levou a conversa para a bola. “Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres... e Messi. Quem me dera escrever como Messi joga futebol.”

Estas coisas arrepiam-me, nem sei explicar porquê. Não faz sentido que estes génios coloquem um desporto numa dimensão à qual nenhuma outra arte pode pertencer. Que necessidade tinham eles de adorarem meros jogadores, se cada um, à sua maneira, é uma grande referência da história, da filosofia, da música e da cultura mundiais? Não vos parece quase ridículo? Não, porque é futebol.

É por isso que não me surpreendo quando descubro que o anestesista e o médico que me operaram saíram do bloco à pressa para irem à luz ver o benfica-zenit. Eu compreendo-os, a sério. Outra coisa não seria de esperar de dois grandes profissionais, que todos os dias optam por estudar e questionar a sua especialidade, conhecidos na área pela sua grande panca pelo futebol.

É que a bola, quando nasce redonda, é para todos.

3 comentários:

  1. Se no penúltimo critiquei, agora adorei, e era a estes textos que me referia, quando dizia que gostava de ler este blog pela diferença da escrita, na diferença do amor pelo futebol e não pelo ódio aos rivais.

    As Melhoras e rápida recuperação da intervenção

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  2. Querida Cat, fiz a minha visita semanal ao teu blog e tomo a liberdade de te enviar por aqui três das reportagens que mais prazer me deram fazer. Acho que vais perceber. Futebol é vida.

    Che Guevara: http://www.maisfutebol.iol.pt/internacional/che-revolucao-che-guevara-cuba-maisfutebol/1069765-1490.html

    Gandhi: http://www.maisfutebol.iol.pt/internacional/gandhi-reportagem-maisfutebol/1296659-1490.html

    Bob Marley: http://www.maisfutebol.iol.pt/internacional/bob-marley-bob-maisfutebol-futebol-iol-reportagem/1161836-1490.html

    PS: rápidas melhoras, pôe-te boa!

    PEDRO CUNHA

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    1. Sabes que como tua fã não perdi uma e lembrei-me delas para este texto ;)

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