quinta-feira, 22 de março de 2012

Obrigado, Cardozo

Óscar Cardozo foi daquelas paixões à primeira vista. A sua estreia, salvo erro, foi num amigável com uns romenos (Cluj?). Ficou 2-2. A meio da segunda parte, aquele corpo estranho meio trapalhão, cujo esforço de correr parece desumano, numa bola fora da área descaída para a direita, armou o pontapé de pé esquerdo. Antes de bater na bola, foi como ouvir o "click" do revolver antes de disparar. Cardozo mandou uma valente patada e foi golo (se bem me lembro, o guarda redes podia ter feito melhor).
O Benfica tinha, finalmente, um assassino.


Lembro-me de Águas e Magnusson, mas são memórias muito difusas da minha infância. Uma coisa que se calhar já é mais construída pelas imagens que vi do que pela memória exacta. Lembro-me muito mais nitidamente da tristeza do meu pai a dizer-me que o Thern se ia embora do que do Thern em si. A memória é mesmo assim, nada a fazer. (A propósito do Thern e do Magnusson, lembro-me do carinho com que vi o Suécia - Brasil do Itália 90, e desse guardo memória mais nítidas).
Das grandes equipas de 92-94, lembro-me de Yuran, um tanque sempre com a camisola de fora. Mas jogávamos várias vezes em um homem de área fixo. A equipa era tão boa que nunca tive que colocar a questão de nos faltar um homem - golo. 

Com a grande crise - que para mim ainda não terminou, mesmo afastados os anos mais negros - e com a minha maturidade futebolística, comecei a sentir que, além da falta de qualidade, faltava um homem de área. Do outro lado havia um tal de Mário Jardel e isso acentuava a carência. Entre vários cepos da mais fina estirpe: Hassan, Marcelo, Pringle.. Lembro-me de Valdir, que não tivémos dinheiro para comprar no fim da época, com um bigode à assassino da Máfia. E com golo. No meio daquela imitação de Benfica que foram os anos 90, Valdir deixou em mim a esperança de que um homem golo devolvia esperança, devolvia vida. Mas não ficou.

Van Hooijdonk aparte (grande, grande jogador), o ponta de lança do Benfica nos últimos anos foi Nuno Gomes. Sabe quem vê bola comigo que Nuno Gomes foi um dos meus ódios de estimação durante muito, muito tempo (podem insultar à vontade: sempre o detestei). "O goleador sentimental" vi uma vez escrito sobre ele. Lembrei-me imediatamente de Sir Bobby Robson e da famosa expressão do killer instinct. Um ponta de lança quer-se frio, de gelo. Klinsmann era de uma frieza que dava a impressão de não ter consciência. Batistuta já tinha visto o golo na sua cabeça antes de o marcar. Nuno Gomes tinha imensa classe na maneira como quase lá chegava e adensava o drama. Ou de como conseguiu não deixar a bola ir para o Simão e conseguiu chutar contra o guarda redes do Españyol nos quartos da Uefa (um golito chegava). 
Talvez Nuno Gomes não fosse assim tão detestável. Não era o Hassan, admito. Mas toda a conversa do "joga muito bem de costas para a baliza", "faz muitas assistências", "trabalha muito" e "abre muitos espaços" era-me dilacerante. Eu queria um gajo que marcasse golos.
Eu não queria um goleador sentimental, queria um goleador sem amigos, sem imagem, que não falasse nem parecesse bem. Eu queria um tipo que marcasse golos atrás de golos. Eu sonhava, ainda sem saber, com Óscar "Tacuara" Cardozo.

Óscar Cardozo, ao que parece, não "abre espaços", não "trabalha muito", mas tem aquela coisa irritante de marcar golos sem parar. Quando a bola vai sair pela linha lateral, Cardozo não faz aquele sprint estúpido, seguido de carrinho desnecessário com a bola 3 metros para lá da linha para o público aplaudir. Fica quieto, deixa a bola ir, com um ar molengão.
Óscar Cardozo não é rápido, é verdade, e é por isso que às vezes, isolado, chuta fora da área. Cardozo não vai fazer cabritos nem cuecas e só sabe fazer aquela finta. Cardozo, também é verdade, não costuma ir à linha cruzar. E também não é um bom guarda - redes, de certeza. Mas faz golos.

Cardozo tem um pé esquerdo com uma técnica fenomenal: (não é o pé esquerdo de Messi, admitamos, mas há dúvidas de que o pé esquerdo de Messi seja mesmo um pé) coloca a bola onde quer e com a força que quer quando a bola está ali. Mas mais do que isso: Cardozo tem golo. Tem aquele gene tão característico dos grandes pontas de lança: costuma estar à hora certa no local certo. Ter golo é uma qualidade estranha. Quem não percebe de futebol pode perguntar: num desporto onde a ideia é marcar golos, é possível ser bom sem "ter golo"? Claro. Aimar não tem golo e é o Aimar. Mas Óscar Cardozo, de quem a certa altura, pela maneira de correr, duvidamos se consegue atar os cordões sozinho, tem golo. Muito golo. Ter golo é ter instinto, é ter a confiança de quem está habituado aquele barulho da bola a aninhar-se na rede, mesmo que metida lá com força. Cardozo, quando remata, parece que a sente lá dentro.

Cardozo é a certeza de que, a qualquer momento, uma bola pode estar a pingar na área e aquele pé esquerdo, tipo culatra, vai disparar. Cardozo é aquela cara contraída antes de rematar, como o assassino que diz nothing personal antes de meter uma bala entre os olhos da vítima. Ter Cardozo do meu lado é como ser amigo do mauzão da escola e sentir que os outros miúdos têm medo de nós (como eu tinha medo - um medo único e inimaginável - de Jardel e Liedson). E se mais dúvidas houvesse, Cardozo tem que ser mesmo muito bom porque a Marta Rebelo acha que ele é mau.

Serve este texto para, mais do que marcar essa diferença entre Cardozo e Nuno Gomes, discussão onde me envolvo facilmente (e que vai, com toda a certeza, correr na caixa de comentários), agradecer a Cardozo. Um homem - golo destes, a sério, marca uma época, marca um clube, marca um adepto. Daqui a uns anos na Catedral, quando um qualquer avançado sentimental falhar um golo na Luz, mais do que um Benfiquista recordará, sentado no seu lugar anual, todas as alegrias que Cardozo lhe trouxe, todas as vezes que saltou da cadeira e gritou golo porque o paraguaio não perdoou. E no meio dessas recordações, palpita-me que mais do um cederá à deliciosa tentação dos palavrões e com um sorriso matreiro dirá: O Cardozo era fodido.

6 comentários:

  1. Bom dia M,

    Concordo inteiramente contigo!

    Um abraço e até terça (espero)!

    Pedro

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  2. Descrição perfeita daquilo que deve ser um ponta de lança. Descrição perfeita de Óscar Cardozo. Só isso.

    Valdir também me deixou a sensação de que podia ter sido um grande goleador no Benfica. Mas naquela equipa de Nelos e Tavares era difícil que se afirmasse, por muito bom que fosse. E a beleza que era ter um matador com aquele respeitável bigode? Agora que penso nisso, gostava que Cardozo deixasse crescer o bigode.

    Abraço

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  3. Tal e qual... Melhor texto que já li sobre o Cardozo!
    Felizmente ainda há quem saiba entender jogadores como ele...

    Saudações Gloriosas

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  4. Lindo o Cardozo é isso tudo....e sim um dia vamos ter saudades....

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  5. como te agradeço a referência ao brasil-suécia do itália90, há já mt tempo que não pensava nesse jogo que foi um marco na construção do meu benfiquismo!

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  6. Valdir...falha um golo isolado na cara do GR do Estrela...ficou apresentado. LOL

    Cardozo é o maior. Muitos vão chorar com a ausência de golos quando ele partir.

    Anos que andaram a pedir alguém que a metesse lá dentro. "Precisamos é de quem as meta lá dentro". Quando o temos querem que ele vá embora pq "não corre". Enfim...

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