quarta-feira, 28 de março de 2012

Ontem Embebedámo-nos no Estádio da Luz

Eu queria escrever sobre ontem, mas o Diego já disse aqui quase tudo. Quando cinco pessoas partilham todo o seu Benfiquismo - desde as memórias tristes até aos mais arrojados planos para acabar com a hegemonia portista - é, perdoem-me o lugar comum, como abrir o coração.
À medida que as imperiais continuavam a sair continuávamos a partilhar coisas uns com os outros, como se descobrir alguém que também sofreu com o Parma - Benfica de 1994 fosse como partilhar um livro. O futebol é muito bonito por isto: é simples e é apaixonante. O Benfica é a nossa vida. Viver o Benfica de maneira igual, partilhar as mesmas coisas, é muito, muito reconfortante. E às tantas torna-se tão natural e viciante que já ninguém sabe de quem é a vez de pagar a rodada e os cigarros já são de todos. 

Foi a nossa maneira de expurgarmos a alma, de tentarmos libertar-nos já dessa possibilidade tão forte desta época ser dos maiores desperdícios de sempre. Foi uma maneira de nos rirmos de nós próprios, de conseguirmos sorrir com o facto do Benfica não ter ninguém definido a marcar cantos ou livres. Eu defendo que marca quem está mais perto, o Rafa diz que é como os miúdos e marca quem sofre a falta. Foi uma maneira de nos conhecermos - há um momento um bocado estranho onde eu, o Sérgio e o Ricardo (ambos do Ontem Vi-te no Estádio da Luz) estamos a tentar perceber que fenómeno metafísico fez regressar o 4-4-2 à Quique Flores à Catedral, quando o Diego Armés, que acabei de conhecer, diz "Mais uma, Rafa?" ao Rafael - que por sua vez o Diego acabou de conhecer e que eu conheço há anos e com quem já partilhei muitas imperiais - como se já se conhecessem há muitos, muitos anos, tantos como os de Benfiquismo.

Houve ali uma melancolia doce porque tínhamos perdido, mas porque é reconfortante encontrar pessoas com quem se pode partilhar aquelas angústias clubísticas que nos afligem diariamente. Afogámos a tristeza na alegria de encontrarmos iguais. Tive saudades do Mago - porque é um igual - que ia adorar o facto de eu e o Pombo termos descido a bancada inteira ao intervalo para insultarmos o Souness e que nos ia fazer rir.

O futebol é mesmo bonito por isto, pela partilha, pela sensação intemporalidade que uma desilusão de uma noite europeia traz. As pessoas que não gostam de futebol não percebem isto, mas ter um clube, ser do Benfica, é como viver mais. É pegar em cada sentimento, em cada vitória, em cada desilusão, nas maiores expectativas e sonhos que já tiveram, multiplicá-los por um milhão e depois viver isso em 90 minutos como uma paixão-quase-droga. E foi isso que partilhámos ontem, essa doença, esse maravilhoso vício de ser do Benfica. 

Depois, a última roullote fechou e só havia lixo no chão. O Ricardo não parava de falar da Lua, lindíssima sobre a Luz. Viemos para casa ainda meio lixados com a vida, com aquele golo idiota, meio felizes com as coisas das quais nos rimos e combinámos uma cerveja no sábado, onde se joga uma época.

3 comentários:

  1. As roullotes, os abraços a desconhecidos, a crença "idiota" que tudo vai correr bem no próximo jogo... e a certeza de fazer parte de um clube que seria o que imaginaria para mim caso tivesse outro! Para mim, tudo isto é Benfica! Até Sábado, nas roullotes!

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  2. Bom dia M,

    É isso...há muitas coisas para além de ver aqueles 11 dentro de campo, ser do Benfiquista não é só ir ver a bola...

    Abraço
    Pedro

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  3. "Obrigado" pelas saudades - tambem a mim me fazem falta esses momentos nas roulottes... Conto afogar essa falta em Setembro.

    E tenho pena de nao ter participado nessa aventura de intervalo. Mas, mais uma vez, obrigado por a terem feito, acho que me posso sentir bem representado por ti e pelo Pombo nas bancadas.

    Abraco. Ah, e grande, grande titulo de post.

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