terça-feira, 3 de abril de 2012

Apaguem as luzes

Há momentos na vida impossíveis de esquecer. Momentos de felicidade, de excitação, e em que o mundo parece perfeito. O nascimento do meu irmão, os 50 anos de casados dos meus avós, o primeiro beijo, o M. a aparecer-me à frente. Os factos esvaem-se com o passar dos anos, ficam nublados, às vezes até confusos, mas na memória ficam pequenos e deliciosos pormenores.

Lembro-me de não me deixarem ver o meu irmão e de a minha tia C. me levar para um café comer chicletes. Lembro-me de um olhar trocado entre os meus avós, 50 anos depois do primeiro “sim”, como que a dizerem um ao outro que aquele amor ainda tem tanto por viver. Lembro-me das escadas da escola, com o C., e do encostar desajeitado dos lábios. Lembro-me da cara do M., atrevida, quando mandou uma boca sobre o Porto mesmo para eu ouvir.

E, depois, há os momentos na vida que ultrapassam tudo isso. Momentos em que nos sentimos maiores do que os outros, orgulhosos, únicos, capazes de tornar o mundo melhor. Imagino que o nascimento de um filho, o escrever de um livro e o plantar de uma árvore entrem nessa categoria. Nunca fiz nenhum dos três, mas já me senti assim. Em Sevilha, claro, porque houve ali algo de mágico. Em Gelsenkirchen, porque toquei no céu. Em Dublin, porque conheci o poder da invencibilidade. Em tantos estádios por aí fora, com histórias incríveis para contar. E na luz, há exactamente um ano.

É curioso como já me esqueci de tanto sobre esse dia. Não faço a mínima ideia de como estava o tempo. Não me recordo do que se passava no mundo ou no país. Não sei a que horas foi o jogo, como estava vestida ou o que comi. Só retive o essencial.

O meu pai veio buscar-me a casa e fomos para o local da concentração de carro. Fizemos o habitual cortejo juntos, rimo-nos dos cânticos e piadas que só surgem no meio de uma multidão azul e branca, atravessámos as bolas de golfe e a entrada caótica e despedimo-nos. Cada um para o seu lado, como é habitual: eu para os índios, ele para os intelectuais da bola, se é que não vai dar tudo ao mesmo.

A confusão era tanta que fiquei no primeiro lugar disponível. À volta, rostos mais ou menos conhecidos destas andanças. Miúdos em êxtase a mostrarem os cinco dedos da mão aos adversários. Graúdos preocupados com o onze, a discutirem opções e estratégias. O campeonato estava decidido, é certo, mas ali poderia fazer-se história.

E fez-se. O Guarin chuta e o Roberto (pausa para a devida vénia) ajuda-nos. O árbitro rouba-nos escandalosamente. O Hulk mata aquela merda. Noventa minutos de felicidade, de excitação, e em que o mundo parece perfeito.

E, finalmente, o apito final. Acredito que ter um filho seja um sentimento fortíssimo, mas acho que nem no parto vou gritar tanto como ali. Parecia que o tempo tinha parado para me dar aquela oportunidade de ser feliz. Agarrei-me aos desconhecidos, tenho ideia até que um deles me deu um beijo na testa, disse asneiras, cantei, saltei, fiquei toda despenteada e suada. Não conseguia parar. Queria ficar ali, naquele momento, para sempre.

Nem me lembro de olhar para os tristes lampiões. Aquele momento era nosso, só nosso, e eles iam embora para casa (o M., homem mais inteligente que eu conheço, já tinha ido há muito tempo). Só me lembro dos jogadores a correrem até nós, das luzes a apagaram-se e da água a sair do relvado.

Foi demasiado lindo, forte, arrebatador. Quem lá esteve sabe do que falo. Quem não esteve, certamente recordará esse momento de outra maneira qualquer: a família em casa a festejar, os abraços dos amigos do café, as mensagens escritas para todos os que sabem o que é ser campeão em casa do maior rival.

Se há coisa da qual me recordo perfeitamente do dia 3 de Abril de 2011 é do regresso a casa, a ouvir as celebrações portistas por todo o lado através da rádio. O meu pai conduzia, mas não conseguia tirar aquele sorriso da cara. Nem falávamos. Falar ia colocar os verbos no passado e nós só queríamos poder voltar à luz mais um bocadinho, só mais uns minutos, uns dias, uns anos.

Lisboa tinha muito azul nessa noite. Lá em casa, o M. dormia e eu fiquei na sala, de janela aberta e luz apagada, a ouvir as buzinas portistas. Mais do que a emocionante vitória, mais do que o inesquecível campeonato, o que eu senti naquele momento foi um enorme orgulho em ser do Futebol Clube do Porto.

Um ano depois, obrigada por terem sido campeões na luz. E que venha o próximo!

13 comentários:

  1. Também para mim esse foi um momento perfeito!! Sublime, eu ri, chorei, saltei, gritei tudo ao mesmo tempo.

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  2. Passar de carro na Av da Liberdade, ouvir um som estranho, abrir os vidros e ouvir os festejos na "capital do império"...momentos nossos, azuis...

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  3. ... e com a particularidade de que não mandámos reserBar rotundas para os festejos; estes aconteceram espontaneamente e em sítios inauditos, como na cúpula do Mosteiro da Serra do Pilar (VN Gaia) (!!)

    somos Porto!, car@go!
    «este é o nosso destino»: «a vencer desde 1893»!

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs a todas(os) vós! ;)
    Miguel | Tomo II

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  4. Obrigado pelo orgulho que sente disso. Saudações.

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    1. Realmente o orgulho que eles sentem disso só dá importância ao SLBenfica.

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  5. PARA ACOMPANHAR A MÚSICA....

    "Quando o PORTO em campo vai entrar...
    Não consigo parar, não consigo parar!!!
    Só me interessa é ver-te a ganhar...
    EU SEMPRE VOU-TE AMAR, EU SEMPRE VOU-TE AMAR!!!!

    Sabes que eu largo tudo para te ver
    Porque eu sem ti não sei viver
    PORTOOOOOOOOOO

    LALAALALALALALALALALA


    COLECTIVO ULTRA 1995
    Van Criken Boys

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  6. Obrigada por me recordares o quanto este dia foi especial. Numa situação muito díficil , no hospital, a prestar assistência ao meu filho, segui o jogo atráves do canal Benfica e de informações trazidas pela pessoa que entrava e saía do hospital, pois tinha mais missões e mais importantes para cumprir.Para mim fez-se "Luz",compreendi o rídiculo da transmissão televisiva e dos seus comentadores e o rídiculo do meu relatador particular, também compreendi que não tinha de aturar mais nada, ficou bem claro quem come chicletes por mim e quem dá chicletes ao meu filho.Ao fim da noite na rua, sózinha, a fumar um cigarro, fiz a festa, porque sabia que por muito que apaguem as luzes e que ponham água a sair, eu como o FCP, vou vencer...
    Tia C.

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    1. Lindo!!! É isso mesmo.
      Sem dúvida, vais vencer!

      Mana J.

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  7. Só tenho um reparo a fazer, de tia ciumenta... Eu também estava nesse café das chicletes, a tentar explicar-te porque não podias ver o teu irmão (não foi fácil, dada a tua perspicácia e inteligência sempre muito acima...)
    Em relação a ESSE dia, foi também memorável para mim. Festejei em V. N. Gaia, mas foi como se estivesse na Luz, às escuras. Teve, sem dúvida, um gosto muito muito especial!
    A sempre orgulhosa,
    Titi J.

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    1. Falha enorme da minha parte, peço desculpa querida tia! Beijinhos

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Por cada palavra que escreveu sobre o nosso Clube, receba uma Rosa, e obrigado por me fazer reviver um passado recente, em que foi muito feliz, bem ha-ja.

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  9. caríssima C., caríssimas(os),

    votos de uma Santa e Feliz Páscoa, para vocês e para todos quantos vos são queridos!
    (extensível a quem visita este blogue de referência da bluegosfera)

    cuidado com as amêndoas e com o coelhinho (da Páscoa?)
    qual coelhinho? o do vídeo em anexo ;)

    saudações desportivas mas sempre pentacampeãs a todas(os) vós! ;)
    Miguel | Tomo II

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