sexta-feira, 27 de abril de 2012

Benfica, Barça, Madrid e a melancolia

Falta pouco para se consumar o golpe definitivo numa época deprimente. Às vezes fico de olhos perdidos no sofá, a ignorar placidamente um jogo decisivo na liga inglesa ou italiana, recapitulando um a um os erros desta época. O método científico, que obriga a voltar atrás em todos os passos à procura do erro, aplicado ao Benfica é especialmente doloroso.
Meto, pela enésima vez, a "Sempre que o amor me quiser" pelos Linda Martini, e volto a ter vergonha da minha alegria depois daquele Benfica - Nacional e daquela jogada vertiginosa e suicida entre Aimar, Rodrigo e Gaitan. 
Há uma melancolia tramada nas derrotas. Depois da frustração, das quase lágrimas nos olhos vermelhos e dos palavrões na garganta arranhada de gritar, uma pessoa dispersa. Encontramos livros, encontramos policiais. Aplicamo-nos no emprego. Eu volto à minha banda desenhada preferida (estou na 4ª leitura do 100 Bullets).
Entretenho-me, e muito, com o Barcelona - Madrid. Com a imprensa espanhola, com tudo o que este clássico mexe. 
Imagino-me com a Catarina e com os nossos filhos quanto estivermos a ver o Europeu de 2032 e falaremos, pela enésima vez, do que significou na nossa época este Barça - Madrid. Falaremos destes jogos e do duelo Messi - Ronaldo e Mourinho - Guardiola como o meu Pai fala do penalty do Panenka.

Quando, em 2008, estudava para o exame da especialidade, tinha o costume de estudar de noite. Jantava, bebia um café e depois entretinha-me a decorar tabelas e frases daquele livro maldito até chegar a hora da natação nos Jogos Olímpicos de Pequim. Depois, acordava a minha mãe e víamos os dois o Phelps. Não que eu e a minha mãe sejamos fãs de natação (não vejo natação há... 4 anos) ou do Phelps. Mas era história que se ia fazer. História, com letras maiúsculas. E nós queríamos estar acordados e ver e sentir aquilo, essa grandiosidade. Esse privilégio de um dia podermos dizer: "Eu vi.".

Falámos disto com o HB, sportinguista, de 24 para 25 de Abril. Falaremos disto. Falaremos disto muitas horas, esmiuçaremos cada jogada, lembraremos este duelo sempre: a melhor equipa da história contra a mais cara. Como Anquetil e Poulidor. 
Faz-me impressão que não se aprecie a história a acontecer à frente dos nossos olhos. Quando o Barça, com a maioria da equipa formada na sua cantera, com Guardiola no banco, se afogou naqueles jogadores do Chelsea, podemos ter assistido ao canto do cisne de uma equipa (quase?) perfeita, deliciosa nas suas tabelinhas, infantil na sua alegria. (Às horas a que escrevo, diz-se pela net que Guardiola não deve renovar).

O meu grande problema é que se este Barcelona - Madrid desaparecer, e quando digo este, refiro-me a Guardiola contra Mourinho, Messi contra Ronaldo e 937 milhões de euros investidos em Khedira, Benzema, Ozil, Xabi Alonso contra La Masia, com Iniesta e Xavi a trocarem a bola rente à relva e depressa, dizia eu, se este Barcelona - Madrid desaparecer, ser-me-à trágico. Trágico porque esta rivalidade, o nível futebolístico que se atingiu no 3-2 da Supertaça espanhola em Nou Camp, demorará anos a regressar. Este Barcelona - Madrid merecia uma final da Champions, com prolongamento, com polémica, com milhões colados ao ecrã a ver História e a poder dizer daqui a vários anos: "Eu vi.".

Mas não. Vai ser um Bayern - Chelsea. E sem distracções, volto ao Benfica. Suspiro. Vejo o Aimar lesionado no Benfica - Porto e é como se me observasse por fora do meu corpo, a gesticular, aflito. E depois a minha voz, gasta, rouca, a pedir o Matic e a tremer com o Rodrigo a acelerar lá do fundo.
A Catarina diz - e bem - que nas derrotas ela é mais raivosa, eu demasiado depressivo. São feitios e lamento se desiludo a secção vermelha que fala a minha língua e dos meus textos se espera encontrar aquelas palavras corajosas e audazes que animam qualquer um. Eu não sou assim. Fico profundamente triste e abatido. Não consigo imaginar o Marítimo a ganhar ao Porto porque não sou, simplesmente, assim. Eu sou um Benfiquista que não se entusiasmava com o Mantorras, portanto o problema é meu.

Um dia os meus filhos e da Catarina vão-me perguntar pelo Bayern - Chelsea e vou contar-lhes que foi uma pena o Ramires ("era um médio fabuloso, Eusébio" - direi eu ao nosso mais velho) não ter jogado, e logo de seguida uma enorme melancolia me invadirá. Vou-me perder a pensar no Barcelona de Guardiola e uma parte de mim tentará, ainda, adivinhar se teríamos ou não sido campeões se o Matic tivesse entrado pelo Aimar quando ganhávamos 2-1. Reescreverei 2011/2012 com um final feliz e sorrirei tristemente da minha melancolia pateta.


1 comentário:

  1. Caramba, um posts destes com zero comentarios e' que nao pode ser.

    Especialmente hoje, M., aquele abraco. Ou entao so' o olhar melancolico desde a bancada perdido no relvado.

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