quinta-feira, 12 de abril de 2012

Chamem a polícia

Tive uma infância feliz. Nunca rachei a cabeça, gostava de ir à escola e não conhecia nenhum lagarto. Fui obrigada, portanto, a criar uma imagem do adepto do sportem à distância. Foram anos de estudos antropológicos através da Sporttv.

O lagarto, para a C. que não conhecia nenhum, era aquele gajo com um ar altivo, nobre, convencido até, que à primeira vista parece que está muito orgulhoso pelos feitos do seu clube, mas que afinal só acredita mesmo que nasceu com um sangue de cor diferente e que os genes valem mais do que as vitórias, porque essas, enfim, são uma miragem constante.

Imaginei sempre um adepto a tirar o cachecol muito bem arrumado da gaveta dos pólos e a colocá-lo aos ombros. Nunca percebi porquê, mas só os adeptos do sportem é que colocam o cachecol aos ombros, sem dobras ou nós ou essas coisas tão pouco fashion. E ele não cai! Se isto não é nobreza…

O cachecol está limpinho e é verde, uma cor horrível, ninguém se veste assim num dia normal. Mas lá vão eles, todos empertigados, para um dos estádios mais feios do mundo, cantar pela “equipa belíssima”. Belíssima? A sério? É mesmo assim que vocês gostam de adjectivar um grupo de 11 homens suados, valentões, machos à séria, como o José António Saraiva gosta? Adiante.

Entre mim e o sportem poderia ter nascido uma enorme indiferença nessa altura, mas não. Eu vi o que se passou em Campo Maior e percebi que tinha de odiar aquele clube. Vê-los a festejar o campeonato do Bruno Paixão (mas festejar à maluca, com alguns “bolas” e “poças” pelo meio, e o cachecol sempre sem cair dos ombros) gerou em mim uma animosidade tal que o lagarto desconhecido passou a ser realmente de uma elite, mas não de uma vanguarda cultural ou de uma minoria intelectual. Antes de uma elite parva, que acha que perder consecutivamente é ter uma oportunidade de mostrar ainda mais o seu amor, que sente a infelicidade como uma vantagem e que vai acabar a festejar quartos lugares. Ah, esperem, isso já aconteceu.

Esta elite acha-se um degrau acima de todos os outros adeptos, os que dizem asneiras e sujam os cachecóis, mas depois tem rapazes cocaínados a invadir relvados, comentadores aos gritos na televisão e pancadaria nas eleições. E, agora, tem um vice-presidente que pagou a um árbitro antes de um jogo. É bom demais para ser verdade.

Que me perdoem os verdadeiros adeptos do sportem que entretanto conheci. O J., que sofre como nós, que diz asneiras e que aposto que tem um cachecol sujo. O pequeno J., que chorou quando o Moutinho saiu e que me disse que não vê jogos do Porto e do benfica (o meu sonho é conseguir ter este deprezo pelos adversários). Também os há, é verdade, e espero que não leiam este meu desabafo dirigido a todos os lagartos que hoje viram a PJ encontrar um clube corrupto, com armadilhas sombrias e trapaceiros ao leme.

Muitos hão-de gritar e espernear que eu e o M. não temos moral nenhuma para vos atirar isto à cara. Pois não, não temos. Mas a partir de agora, finalmente, vocês também não.

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