sexta-feira, 6 de abril de 2012

Quando for grande quero ser jogadora de futebol

Não é fácil ser mulher e gostar de futebol desta forma. Os homens, por muito que não queiram, acham-se donos e senhores do fanatismo e, mesmo quando percebem o meu nível de loucura, parece que têm medo de discutir um 4-4-2 à minha frente. Não é por mal, eu sei, mas foi e será sempre assim.

A culpa é minha, que quando era miúda preferia mil vezes uma Barbie a uma bola. Quase não falava com os meninos e muito menos brincava com eles. O problema é que, em casa, os meus companheiros de brincadeira eram o meu irmão e dois primos. E eles eram um bocadinho estalinistas no que aos passatempos diz respeito. Nunca consegui convencê-los sequer que fazer do Action Man o namorado da Barbie não era uma cena maricas.

Fui obrigada a jogar tanto futebol que comecei a gostar mesmo daquilo. O melhor foi quando eles decidiram fazer as equipas para um campeonato que terá durado uns 5 anos: eu e a minha prima S. de um lado e os três marmanjos do outro. Estavam convencidos que iam humilhar as meninas, mas ganhámos os jogos todos. Mas assim mesmo fácil. Vergonha eterna para eles.

Na escola começaram a dizer que eu até tinha jeito. Nas aulas de Educação Física (eu não jogava à bola nos intervalos, claro, porque isso ia estragar a minha popularidade feminina), as maiores estrelas dos rapazes dividiam-se para fazer as equipas. Escolhiam primeiro os melhores amigos, aqueles com quem trocavam ranho nas camisolas e cuspo nos calções. A maior glória que alcancei é que era sempre a primeira menina a ser escolhida, antes até do que os gordos, os caixas-de-óculos e os que não tinham a mínima coordenação motora.

Conforme fui crescendo, havia menos desculpas para jogar futebol. Mas nas férias lá nos juntávamos todos para torneios de grande gabarito como o célebre “seis ou sete equipas nortenhas VS uma pobre equipa lisboeta” da época 1999/2000. Eu calhei na equipa dos veteranos, os jovens de 20 e tal anos que tiveram pena da menina que queria jogar. As outras equipas estavam recheadas de adolescentes com borbulhas e hormonas a rebentar, prontos a tirar as t-shirts nos golos para mostrarem os pseudo-abdominais às moças da plateia. Alguns jogavam com equipamentos completos, chuteiras de última geração, tinham tudo para ganhar. Os meus eram os que já fumavam há imensos anos, que bebiam tanta cerveja que já tinham barriga e que, agora à luz dos anos percebo, deviam estar com uma bela ressaca para me escolherem a mim.

Disseram-me para ficar à frente, “na mama”, como se diz na nossa terra, à espera que me passassem a bola. No fundo a intenção era que eu não atrapalhasse. Mas os jogos começaram – jogavam duas equipas de cada vez, quem ganhasse ficava no campo e entrava outra, sempre a rodar – e fez-se história naquele parque de campismo.

Ganhámos os jogos todos, eu fui a melhor marcadora e os veteranos de 20 e tal anos aguentaram estoicamente até ao fim. Foi lindo ver os adolescentes borbulhosos com ar de parvos, enervados pela miúda que jogada de vestido e sapatilhas de ténis, mas que os fintava como um Deco, cruzava como um Capucho e marcava como um Jardel (não terá sido assim tão perfeito, mas deixem a minha memória em paz). Ali, naquela tarde, convenci os meus amigos que aquilo de eu gostar de futebol não era uma moda ou um capricho.

E ainda hoje tenho de o fazer, de vez em quando, aos homens que olham para mim com um ar enternecido de quem pensa “ai que giro que é esta jovem ser tão portista”. Embora já não tenha o mínimo jeito para jogar futebol, faço-o, inconscientemente, quando o adepto desconhecido na bancada pergunta quem vai substituir o Fernando e eu, que estou a olhar para o aquecimento há 10 minutos, digo Defour como quem diz “seu grande anormal”.

Hoje, aos 25 anos, consigo ser suficientemente racional para saber que nunca vou ser jogadora de futebol. Nunca poderei vestir a camisola do meu clube, entrar em braga e comer a relva para ser campeã. É uma pena, o potencial parece-me estar todo lá. Resta-me ficar na bancada, a aplaudir os meus heróis e a conversar sobre aquele Dortmund-Estugarda brutal. O futebol é isto, não é meus senhores?

3 comentários:

  1. Hoje é terça-feira, dia 10, e não aparece nada aqui no "lá em casa....!"
    Desde sexta ? que aconteceu ? Violência doméstica ? (pronunciar com ironia )

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  2. Mafalda Rebelo (defesa central) 28 anos12 de abril de 2012 às 18:42

    Poderás sempre ser jogadora de futebol, a qualquer momento e num dos vários clubes de futebol de 11 feminino que existem pelo Porto, nos vários escalões e com diferentes ambições...
    Só não poderás ser jogadora do FCPorto porque o futebol feminino não é (ainda) visto com o gabarito de poder interessar aos grandes.

    Vem treinar sempre que queiras às 3as das 21h15 às 23h e às 5as das 20h às 21h no Estádio Municipal da Lavandeira (http://maps.google.pt/maps/ms?ie=UTF8&t=h&oe=UTF8&msa=0&msid=206489351256890741999.00048dbc8812288329fd1), em Vila Nova de Gaia. Aí poderás testar a memória, comer a relva e, quem sabe, ser campeã!

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