quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sorri, José

Eu sou do FCPorto. E não conheço nenhum portista que não tenha carinho por ti, mesmo que não o queira admitir. O que é o meu caso, a maioria das vezes. Mas o que tu fizeste por cá, o que nós fizemos juntos, foi único. E nós não nos esquecemos.

Há dias fáceis de recordar: o  golo no último minuto em Manchester e a cidade do Porto a tremer, como é óbvio. Mas há outros momentos que guardo como nossos, meus e teus, de adepta e treinador a fazerem história. Foi em Alverca, faltavam uns dias para o Natal. Um tempo horrível, uma viagem de camioneta interminável e o Derlei lesionado. Um jogo mesmo mauzinho, ganhámos à rasca, de fato-macaco vestido e foice na mão. No fim, estávamos todos cansados, a pensar que a cama ainda estava tão longe e tu viraste-te para nós e sorriste, convencido que, se até aqueles três pontos tínhamos conseguido, ninguém nos ia parar.

E assim foi. A Taça UEFA, a Champions, os campeonatos, as outras taças. Não falhaste. Não falhámos. Foram anos bonitos, que ambos sabíamos que tinham de terminar.

Como em qualquer relação vivida intensamente, a separação não foi bonita. Não vou escondê-lo: foi fácil esquecer-te, mas foi muito difícil superar-te. Ao longe, vi-te a levares a nossa alegria àqueles adeptos que mal sabem o que é ganhar um título e senti sempre que não te mereciam, não aqueles gajos que têm mais milhões do que campeões.

Depois saltaste para Itália e eu mal te pus a vista em cima. Perdoem-me os defensores do Calcio, mas já não há pachorra para aquilo há muito tempo. Ouvi dizer que criaste uma equipa de guerreiros e que voltaste ao topo do futebol europeu, mas, sinceramente, acho que ambos já fizemos por esquecer depressa aquele inter de 2010.

Fizeste bem em ir para Madrid. O real é um clube que te assenta bem. Tem títulos, tem glória e tem muita necessidade de ganhar. Só não contavas com este Barcelona. Na verdade, olhando para trás, nunca tinhas tido um rival à altura. Nunca te tinha visto a ser humilhado como naquela noite da “manita” ou em tantas outras que se seguiram. Guardiola trouxe-te um novo desafio: como ser melhor do que os melhores de sempre. E a verdade é que tu conseguiste. Não ser melhor, é um facto, mas pelo menos não ser pior. E ganhar.

Tu ganhaste-lhes. Quando ninguém esperava e quando meio mundo torcia pela remontada do Barça neste campeonato. Conseguiste, já está, vais ser campeão. No entanto, no fim, não estavas feliz. Agora, nunca estás. Vejo-te sempre com ar de zangado, a responder mal aos jornalistas e sempre a descarregar frustrações que normalmente não te atribuiria. Quando a tua equipa está numa meia-final da Champions e precisa de ti, ajoelhas-te, resignas-te, isolas-te com tristeza. O que te aconteceu pelo meio, José? Onde está aquele Mourinho que eu vi correr sob o calor de Sevilha? Onde está o Mourinho que, furioso, atirava casacos chiques para o chão? Onde está o Mourinho confiante que iamos vencer à Grécia, de punho fechado e dentes cerrados?

Anima-te, homem! Volta a gostar de futebol, por favor. O real é dos maus, mas eu quero-te bem. Não foste feito para ser o grande amor de um adepto, mas tenho a certeza que, se voltares a acreditar nos Derleis que por aí andam, ainda vais fazer muitas coisas bonitas. Esquece-te por momentos que ainda queres voltar a treinar em Inglaterra, que queres ganhar a Champions pelo máximo de clubes diferentes e que ainda tens muitas publicidades por gravar. Sê tu, o Mourinho daquela noite de Alverca, e curte o momento. Tu mereces, vá.  

No fundo, José, tenho saudades de te ver feliz.

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