quarta-feira, 9 de maio de 2012

Como guerrilheiros na relva

Athletic de Bilbao. Morro de inveja e de respeito sempre que os vejo a jogar. É como se um clube pudesse olhar todos os outros de cima para baixo, sabendo que gostávamos de ser assim. Quando aquele vermelho, branco e preto entra em campo, há ali uma ideia, há ali uma autenticidade que queríamos todos ter.

Todos os dias nos dói - e aqui não escrevo para Benfiquistas, escrevo para quem sente um clube - que nos sintamos clientes. Sou um adepto. Sou um selvagem que gosta do cachecol envelhecido pelo sol e pela chuva, sou um doente que passa horas na net a ver camisolas antigas do Benfica, suspirando por um modelo dos anos 80. Dói-me que o equipamento alternativo do Glorioso não seja sempre o branco.
Não quero ser tratado como um cliente porque não quero que o Benfica seja uma empresa. O futebol é o amor (obrigado pelo regresso, Ricardo). O amor irracional, inexplicável e insensato a um emblema, a uma cor, a uma tribo. É o amor que nos faz chorar nas vitórias e nas derrotas.

Não quero que me vendam merchandising absurdo com o meu emblema. Dói-me - factualmente - o corpo quando me apercebo que há mesmo gente que não é do Benfica como eu sou a trabalhar no meu Benfica. Esta realidade afecta-me a mim, afecta a C., afecta qualquer pessoa que goste verdadeiramente de um clube. Não é uma questão de revivalismo, não é ser contra a modernização - nada disso. É ver as nossas cores esbaterem-se com as outras, é isso que é inadmissível. É ver que os equipamentos são iguais aos dos outros clubes que partilham a mesma marca.

Ver jogar o Athletic é ver a guerrilha contra isso. É a cruzada pelo futebol dos povos, pelo futebol como identidade, como símbolo de pertença. Como guerrilheiros na relva, cujos golos são festejados como gritos contra a globalização.
Este Bilbao, o Bilbao de Bielsa, que joga com a bola na relva, sem granadas disparatadas, aprimora o conceito. Valdano diz que jogam com respeito, com ética. Uma ética destinada ao público que os vê.

Aí vêm eles: camisolas com a bandeira da região e aquele ar de quem vão jogar de boina. Como guerrilheiros na relva, sem clientes, cheios de adeptos. Impossível não torcer por eles.

11 comentários:

  1. Caro M.,

    Se esse é o tipo de clube/jogadores/futebol que gosta então porquê ser adepto do Benfica?

    No Benfica (visto por mim que sou portista) dá-se valor ao show, ao "brinca-na-areismo", à finta inconsequente, à capa de jornal, no entanto esquece-se o labor, o fato-macaco, o passe, o texto em letras miudinhas.

    E não sei se adianta alguma coisa tentar mudar um paradigma de décadas. Não lhe valia mais a pena mudar de clube para o, vá lá, Braga que também equipa de vermelho e branco e parece ter mais a ver com aquilo que o M. aprecia?

    Abraços

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  2. Bom, em primeiro lugar, agradeço a ironia. Em segundo, e sem ironia, talvez não tenha percebido que admiro o Bilbao por jogar só com bascos, não pelo "brinca - na - areísmo" (do qual, aliás, discordo. Acho que o Bilbao ataca bem, com a bola no pé. Nota-se que há trabalho do treinador. Mas defendem mal (pelo menos ontem foi horrível). Isso não lhes retira mérito.).

    Em terceiro lugar, sou todo a favor do fato - macaco, dos trincos caceteiros. Adoro o Javi Garcia, só para ficarmos já esclarecidos.

    Obrigado, mais uma vez, pela educada provocação (são raras, não magoam e continuamos amigos como dantes. Vejo muito ódio muitas vezes nesta e noutras caixas de comentários e não respondo a esses)

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    1. Caro M., Não era ironia nem sequer sarcasmo. Provavelmente não me expressei da melhor forma.

      O que eu realmente quis dizer foi que no Benfica (e não no Bilbao que apesar de ser uma equipa predominantemente vocacionada para o ataque é uma equipa bastante solidária a defender - embora na Quarta-Feira tenham ficado um pouco incandeados com o fulgor de Falcao) jogadores como o Javi G. ou o Witsel nem sempre são os mais apreciados. Repare como o Aimar é muito mais falado na imprensa quer pelas presenças quer pelas ausências.

      O "Brinca-na-areismo" é apenas uma forma de expressão para salientar o ponto. Repare quem foi o central mais valorizado no Benfica nos últimos 10 anos: David Luiz. Um homem que apesar de bom jogador não tem noção do que é defender. Mas sair a jogar com a bola é com ele. Brinca-na-areismo.

      Por isso sugeri a incongruência entre gostar de futebol aguerrido e gostar do Benfica que joga (ou pretende jogar) um futebol de conquista, permanentemente expansivo, muitas vezes esquecendo-se de não está propriamente a jogar ao RISCO e não pode descurar o trabalho de sapa. E o Javi não chega para tapar todos os buracos.

      Finalmente devo dizer que cresci numa familia de Benfiquistas e os meus melhores amigos são quase todos do Benfica. Falar com eles sobre futebol jogado é sempre um prazer. E claro que nos picamos uns aos outros, mas isso é apenas o que os Ingleses chamam de "Banter".

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  3. Ontem o que mais me marcou foi a autenticidade na derrota, aquilo doeu mesmo, ver profissionais a chorar pelo sonho desfeito veio-me á memoria a meia-final do nosso Benfica o ano passado onde não se passa nada, é só mais um jogo e para a semana há mais.

    Mas é como dizes quando muitos dos responsáveis que lá trabalham não são benfiquistas e no nosso caso é por demais evidente, obviamente que depois somos olhados como clientes, porque o adepto incomoda não quer azul na publicidade quer uma camisola branca ou diferente do modelo do Chelsea etc.

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  4. Confesso que chorei com eles no fim porque ali ainda mora alguma pureza do futebol.

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  5. O Athletic jogou de verde. Como poderiam ganhar uma final assim ?

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  6. O Athletic é o último clube romântico do futebol mundial. Mais do que títulos eles não querem perder a identidade que 99% dos clubes que os defrontam já perderam para a globalização do futebol. Ver aqueles jogadores no final do jogo, inconsoláveis, demonstra o quanto sentem aquela camisola. Infelizmente, o negócio chegou á muito tempo e onde o dinheiro entra o amor acaba.
    Era bom que regressassem os tempos do amor á camisola.
    Saudações benfiquistas.

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    1. Ao nivel do futebol de Top isso é verdade mas penso que ainda existem muitos clubes por esse mundo fora que jogam o jogo pelo jogo.

      Veja isto: http://vimeo.com/25397042

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  7. O Athletic não é um clube, é uma selecção. Daí a desolação dos seus jogadores e dos seus adeptos.

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  8. A propósito de profissionais que são (ou não) ao mesmo tempo adeptos do clube onde trabalham: recomendo vivamente que se veja o "Somos Porto" desta semana no Porto Canal, onde o convidado é o médico da equipa de futebol sénior, o Dr. Nélson Puga. Grandíssimo homem e o exemplo perfeito daquilo que (diz o M.) falta ao benfica. Vale a pena.

    Cumprimentos desPortistas :)

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