quinta-feira, 24 de maio de 2012

Eu, ignorante das modalidades, me confesso

Eu e o M. somos, provavelmente, o casal mais competitivo do mundo. Não conheço mais ninguém que tenha um campeonato de pontos para as tarefas domésticas, onde todas as conquistas são discutidas ao pormenor e onde, como não podia deixar de ser, eu estou a ser extremamente prejudicada porque o meu namorado acha que arrumar pensos higiénicos na gaveta dos guardanapos não dá direito a menos 50 pontos.

Como já perceberam, há uma pequena coisa que não facilita: eu sou do Porto, ele é do benfica. E se no futebol - porque adoramos o desporto e até percebemos alguma coisa do assunto - é a paixão que nos move, nas outras modalidades entramos num puro estado de “quero-ganhar-mais-do-que-tu”.

É normalmente nesta altura que percebemos que não somos os melhores adeptos dos nossos clubes, embora isto vos possa chocar. É que nós não somos daqueles que seguem os campeonatos de andebol, basquetebol, hóquei patins, voleibol e futsal acerrimamente, que vêem as deprimentes tardes desportivas nos canais dos clubes ou que desejam uma camisola do Robert Johnson ou do Frederick Gentry (sim, fui procurar os nomes no Google). Atenção: admiramos muito a malta que vai aos pavilhões, que conhece os jogadores e que não grita golo quando há um ponto. Gostávamos muito de ser assim, mas não somos. E não o fingimos ser só porque a época futebolística acabou e precisamos de algo que nos mantenha ligados ao ventilador.

Valha-nos a competitividade para tornar esta altura do ano tão animada lá em casa. No andebol, a coisa ainda foi mais ou menos pacífica. O FCPorto tetracampeão é tão melhor que até o M. desistiu sem dar luta. Mas não sem antes acompanharmos os jogos decisivos como burros a olhar para um palácio, a chamar Varela ao Elias, a pedir foras-de-jogo aos espertinhos que ficam na mama e a pedir penalties quando nem sequer é falta (o que é falta no andebol? Não sei, os gajos jogam com a mão!!!). O meu pai, ex-jogador e árbitro de andebol, deve ter vergonha de ter uma filha e um genro assim.

Depois passámos para o voleibol. Eu não tenho equipa, mas aprendi rapidamente a torcer contra o benfica, embora a versão oficial seja que tenho muitos amigos em Espinho. O M. sofreu um bom bocado. Queixou-se dos árbitros (sem fazer a mínima ideia das regras) e lamentou a falta de eficácia do benfica (num desporto em que bastam três toques para realizar um remate, parece-me que a eficácia é uma coisa muito subjectiva). Eu só fiquei contente.

Chegou a vez do basquetebol. Eu sou claramente a mais ignorante. Mal conheço os jogadores, para além do objetivo de acertar com a bola no cesto não sei avaliar quem está a jogar bem e quem está a jogar mal, e não consigo perceber a magia de um desporto em que é possível a mesma equipa marcar 12 pontos num minuto e meio (o meu coração está preparado para ver dois golos do man. city nos descontos, nada mais do que isso). O M. tem a mania, só porque o pai é um ex-jogador da modalidade. Diz “turnover” em vez de “AQUELE ESTÚPIDO PERDEU A BOLA PORQUÊ?”. Avisou-me que o benfica tem melhor equipa, mas que o Porto tem melhor treinador (vénia ao Moncho, este eu sei que é enorme, quanto mais não seja pelos óculos).

Vimos os jogos entre o Porto Canal e a benfica TV. Rimo-nos sobretudo dos comentários da segunda, porque os senhores que lá trabalham não sabem que, se um jogador lançou para três pontos e sofreu falta, tem direito a três lances livres. Só faltou dizerem que estavam a ser roubados pelo Proença, juro. Sofremos muito, verdade seja dita. Jantámos ao som do último jogo, comigo a levantar os braços para acompanhar o “Mágico Porto, graças a deus não nasci lampião” arrepiante do pavilhão e o M. a pedir passos sem ter a certeza do que isso significa. Desesperámos com os milhares de pontos falhados e com aquela intensidade de, a cada segundo, tudo poder mudar. E o benfica ganhou. Bem, parece-me, embora tenham havido ali uma ou duas faltas duvidosas que se não tivessem marcadas poderiam mudar a história. Que isto fique registado: só mesmo num desporto do qual não percebo nada é que alguma vez direi que o FCPorto perdeu bem e nem mesmo num desporto do qual não percebo nada deixarei de atribuir alguma da culpa aos outros.

O que se seguiu foi o Porto Canal a terminar a emissão à força, o Twitter a especular sobre bancadas a arder e um cenário de guerra e as reacções de hoje, que variam entre o “toda a gente sabe que os adeptos portistas são uns atrasados mentais” e o “só no Porto é que isto acontece”, ou o “a culpa foi do benfica, que provocou” e o “se não fosse a polícia os adeptos portistas tinham batido palmas à equipa vencedora”.

Não estive lá, não sei o que se passou. Já vi as imagens dos objectos atirados à equipa do benfica, os comunicados a acusar o treinador e o roupeiro lampiões de interacção com os adeptos e os muitos relatos sobre a incompetência da polícia. Se há coisa que a experiência de bancada me ensinou é que nunca ninguém tem razão e como, repito, não estive lá, não posso falar do assunto. Mas há quem possa, pelos vistos.

O que me irrita nem é a capa da Bola titular “benfica campeão no Dragão”, como se a partir de agora eu nunca mais pudesse gozar um lampião pelos 5-0, pelos campeões na luz, pela reviravolta na Taça e pela vitória deste ano que nos empurrou para o bicampeonato. Acho normal que o basquetebol se tenha tornado, de repente, o desporto mais apreciado do país. Percebo os adeptos que festejam este título como se a época, afinal, não tivesse sido desastrosa. Também já fiz essa figura.

O que me deixa doente é a superioridade moral. O “não sabem perder”. O “nós pelo menos só apagámos as luzes”. O “no Porto isto é normal, porque é uma cidade violenta, mal-educada e animalesca”. Isso sim, tira-me do sério. Abstenho-me de contra-argumentar sobre o povo portuense, porque esse não precisa de qualquer defesa perante comentários ignorantes, que confundem desporto com sociedade. Quanto ao não saber perder, é um facto: nenhum portista sabe, porque não está habituado. O mais normal ontem seria o FCPorto derrotar o benfica e ser campeão. Tudo o que fuja à normalidade demora a entranhar-se. Não defendo a reacção violenta, como é óbvio, mas admito que, ao contrário, não fosse tão estranho. E, por último, em relação à comparação, acho-a simplesmente idiota, principalmente vindo de um clube cujos adeptos queimaram um autocarro com as portas fechadas, sem questionar se estaria alguém lá dentro, e que, sei lá, mataram uma pessoa com um very-light. Meus caros, deixem-se disso: anormais há em todo o lado e, se há coisa que a nossa casa prova, é que no fundo somos todos iguais.

Dito isto, já estamos preparados para o hóquei em patins, aquele desporto onde eu e o M. demoramos sempre uns bons segundos a perceber se a bola entrou ou não. Vai ser rasgadinho, vai ser bom. Se o FCPorto ganhar, será só mais um (já nem sei qual será a palavra a colocar antes de campeões); se o benfica ganhar, será feriado nacional. E ainda falta o futsal, essa modalidade que ficou conhecida por ter deixado o Luís Filipe Vieira em cuecas, imagem que ainda hoje me atormenta. Na natação e no bilhar nós não damos hipóteses (não faço ideia, mas fica bem assim escrito) e infelizmente já não temos secção de campismo para eu e o M. podermos, pelo menos, fazer umas apostas a dinheiro sobre de quem será a melhor tenda.


P.S. Espero que os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos das modalidades compreendam que este texto é apenas um retrato exagerado da nossa ignorância. O vosso trabalho ou a vossa dedicação são tão ou ainda melhores do que os das pessoas ligadas ao futebol. Têm a nossa admiração por isso e perdoem-nos este amor doentio pela bola a correr no relvado.

7 comentários:

  1. "quem semeia ventos, colhe tempestades" os vossos dirigente no final dos 70's e principio dos 80's (PdC e Pedroto) iniciaram o ódio a Lisboa e ao Benfica e não querem sofrer as consequências? Bem dizia Isaac Newton "to every action there is always an equal and opposite reaction".

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  2. O que se passou no Dragão Caixa foi uma vergonha, uma vergonha!
    Como adepto portista que criticou ferozmente a atitude dos mouros com o famoso "apagão" sinto-me envergonhado, agora não temos moral para falar.
    Saudações desPORTISTAS

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  3. www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=nEP_jr4BXH0

    Não sendo uma justificação, este vídeo permite perceber um pouco o que se passou ontem no Dragão Caixa.
    É bom saber perder mas também é bom saber ganhar.

    Aproveito para lhe dizer Catarina, que gosto muito dos seus textos!
    Susana Gomes

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  4. a Susana Gomes tirou-me, neste caso, as palavras do meu teclado, ia publicar exactamente este video. Espero que à opinião publica deste país chegue não só as atitutes reprováveis dos adeptos do FC Porto, mas também os gestos do treinador benfiquista. Depois daquilo e num pavilhão recheado de adeptos fervoroso queriam o quê? Que se arremessa-se rosas ou malmequeres? Que se estende-se a passadeira vermelha para ao irem embora?!Apenas colheram aquilo que plantaram!

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  5. O ambiente de ódio e insultos decorreu durante todo o jogo a não só quando o Sr Carlos Lisboa resolveu responder na mesma moeda, a mesma do james rodriguez quando cantou o famoso "slb filhos da p...". Tudo começou do vosso lado, agora aguentem!

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    1. estava para não responder, mas não me contive.

      eu estive lá!, e muito perto do banco do 5lb.
      ninguém me contou, não o li em nenhum lado:
      eu ouvi perfeitamente os insultos dirigidos pela vossa equipa técnica e jogadores durante todo o encontro para com os adeptos do meu clube do coração.

      as provocações foram mais do que muitas e de parte a parte, portanto. e destas (as provocações), vocês não são "virgens púdicas", de todo!

      antes de lançar atordoadas apoiado no que determinada comunicação social quer fazer crer, inteire-se verdadeiramente do que aconteceu.

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  6. «Não estive lá, não sei o que se passou.»
    Mais 30 anos assobiar para o lado.
    Uma tristeza.
    É a vida.
    De alguns.

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