quarta-feira, 16 de maio de 2012

Sevilha, meu amor

Já não ia a Sevilha há quase nove anos. A última vez que lá tinha estado foi no dia 21 de maio de 2003. Estavam 45 graus. Quarenta-e-cinco-graus. Não sei se já sentiram um calor assim, mas digo-vos: torna-se difícil respirar. Ou isso, ou então foi o estúpido do Larsson que quase me matava. Mas, mesmo assim, foi o melhor dia da minha vida.

Já conhecia a cidade. Fui lá muito pequenina, com a família, e a única coisa que me lembro é que estavam 40 e tal graus. Uma constante, portanto. Regressar a Sevilha este sábado foi, sem surpresa, enfrentar uma onda de calor insuportável (39 graus em Maio e há gente que consegue viver assim), mas foi também conhecer uma parte da cidade até então ignorada.

O M. já me tinha falado muito do betis. Contou-me todas as histórias e descreveu-me todas as personagens, sempre com uma alegria que me parecia completamente desmedida num enredo que mete um clube com dois títulos no palmarés. Daí que o jogo, em si, não me tenha surpreendido muito. O betis nem jogou bem, nem jogou mal, teve momentos de euforia quando fez a reviravolta e levou com o golo do empate no último minuto. Exactamente como o M. tinha dito: o betis é um clube sofredor.

O que me surpreendeu foram aqueles adeptos. 45 mil para ver uma equipa que já não luta por nada. Todos com uma camisola, um cachecol (pois, também fiquei com essa cara quando vi pessoas com cachecóis ao pescoço com aquele calor), qualquer coisa verde. A cantarem o hino até arrepiar. A aplaudirem um tosco qualquer como se fosse um filho. E sempre, sempre a insultarem os outros. Contentíssimos, tão felizes, mas porquê?

O Manolo, amigo de longa data do meu sogro e do M., e que tem bético escrito na testa, explicou-me, sem saber. É que na última jornada o betis foi a casa do sevilha vencer por 2-1, com um golo aos 92 minutos. “Já nos deu para muitos meses”, disse ele, com um sorriso que ia daqui até Sevilha. E ali estava um adepto, que anda a descer e a subir de divisão e que nos últimos anos viu o maior rival a ganhar provas europeias, a ensinar-me que gostar mesmo de um clube também tem de envolver detestar mesmo outro.

O betis não tem um único jogador que eu desejasse no F.C. Porto. O tosco que vos falei é o rapaz que marcou os golos ao sevilha – um super-herói! Mas, no sábado, ouviram-se olés ao Barça. Sim, à melhor equipa de todos os tempos. Devem ter sido uns seis ou sete passes de seguida, na defesa, já sem os catalães a pressionarem, no melhor momento do jogo para o betis. “Oléeeeeeeeee…”. Como se estivessem a dar 5 numa final da Liga dos Campeões. Impossível não adorar.

No entanto, se o objectivo da viagem foi convencerem-me a deixar os nossos filhos serem um dia do betis para não arranjarmos problemas cá em casa, devo dizer-vos que falharam. Gostei do estádio, dos adeptos, do ambiente, mas para sofredor já me chega o M., que diz que, se um dia nos mudarmos para o Algarve, eu vou ser do sevilha só para o chatear. Uma hipótese a considerar, portanto.

De Sevilha levo, no entanto, outro amor. Aquele Barcelona, que, mesmo sem querer, nos mostrou ao vivo a magia que nos habituamos a admirar pela televisão. Voltar a encontrar Messi, aquele miúdo que se estreou na inauguração do Dragão, com o mesmo ar de desinteressado, de esquisito, de nerd que não tem amigos. Aplaudir Xavi e Iniesta para eles saberem como é bom viver no mesmo tempo do que eles. Sorrir com a felicidade do meu sogro e do M., que nem dois putos enamorados por Busquets. Ver os casais com camisolas do betis, a segurar pela mão os filhos com camisolas do Barça. De Messi, sempre de Messi. E compreender a excitação daquele miúdo, de três ou quatro anos, aos saltos na bancada quando o aquecimento começa:

- Mira, mamá, es Messi!

1 comentário:

  1. Já ando a algum tempo com vontade de ir ver um derby sevilhano.
    Depois de ler este post essa vontade multiplicou-se por 1000.
    Parabéns!

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