terça-feira, 15 de maio de 2012

Vimos a melhor equipa de sempre, Deus e o Betis

No sábado fomos a Sevilha com o meu pai. Disse-o vezes sem conta no meu anterior blog, mas volto à carga: não acredito no conceito de segundo clube, mas se o tivesse era o Real Betis Balompie (sim, apesar do verde).
Acontece que, durante 3 épocas - 1999/2000 a 2001/2002 inclusive - eu e o meu pai fomos sócios - com cativo - no Benito Villamarin. Acontece que Faro fica mais perto de Sevilha do que Lisboa e precisávamos de um programa pai - filho que nos animasse (coisa que o Benfica daquela era não conseguia). Ficámos béticos. 

Aprendi tudo o que pude e o que não pude sobre futebol espanhol naqueles 3 anos. Líamos a Marca e ouvíamos a Cadena Ser no caminho. Aprendemos a história de um clube. Vimos Denilson, vimos Joaquin a aparecer. Vimos Capi (um craque). Descemos à segunda - com o Sevilha a perder de propósito com o Oviedo do Paulo Bento para o Betis descer. Subimos à primeira com um golo decisivo na penúltima jornada num jogo louco contra o Recreativo de Huelva, marcado pelo Belenguer (o que expulsou o Cardozo no Getafe - Benfica). O Betis, campeão em 1935 e que 5 anos depois estava na terceira divisão - vítima das suas simpatias republicanas (apesar do Real Betis) - vive orgulhoso da sua aficcion e aprendeu a cultivar a fidelidade para enfrentar os seus vizinhos favorecidos. O Viva el Betis Manquepierda! tornou-se um lema que granjeou respeito por Espanha inteira, enquanto os orgulhosos adeptos sustentaram uma vida de azares e injustiças, enchendo estádios pela terceira divisão.



No Benito Vilamarin vivi muitas histórias de bola e vivi a insana rivalidade com o Sevilla. Lembro-me que cada golo contra o Sevilla ouvido na rádio era sempre festejado como se do Betis. Lembro-me do ódio a Salva, que era tão sevillista que quando marcou o golo do empate num Betis-Atletico (um golo de penalty que não era, aos 10 minutos de desconto, quando o árbitro deu uns já de si escandalosos 6) apanhou a bola e chutou contra um apanha bolas. Era um ser adorável.

Lembro-me do senhor que pedia "mano!" por tudo e por nada, em todos os cruzamentos para a área. E um dia o árbitro marcou mão num corte que claramente não era. A bancada levantou-se e aplaudiu o senhor, que se emocionou. 

No sábado, além de rever a boa gente de Sevilha , que celebrava ainda a sua vitória no derby, vi a melhor equipa do mundo de sempre (revi ainda o Manolo que nos foi entregar os bilhetes e que celebrava cada golo do Betis comigo high five que se tornou o nosso cumprimento - tinha tantas saudades dele. Ainda emanava felicidade dos 1-2 aos vizinhos). O Barça, para os seus padrões, fez um jogo horrível. E tenho-vos a dizer, meus caros, que aquilo (porque "aquilo" não é bem futebol, pelo menos o futebol que eu vejo há anos) é poesia. A bola, como disse a Catarina, parece outra. Lenta e sem pressas, como se soubesse o caminho. Vai sempre serena e as recepções são de seda. A bola cola-se ao pé de Xavi, que roda sobre os adversários de radar ligado. Busquets é intransponível. Vou mais longe: está ali o melhor trinco que eu vi jogar. Melhor que Redondo, sim.

E depois, Leo Messi. Tem um ar desligado, mesmo durante o próprio jogo. Camisola de fora, ombros caídos e mesmo lá de cima sente-se o olhar ausente. Apareceu 3 vezes. A primeira num passe de morte, devagar - à velocidade certa - entre os centrais, para alguém falhar. E duas arrancadas. Impressiona: a bola não se afasta um milímetro da trajectória que Messi imagina, as ancas começam a mentir e a afastar adversários, o pára-arranca do drible é mortal. Na primeira há um corte ao remate no momento vital,  na segunda foi placado - à rugby - por um betico que percebeu o que dali ia sair. Tenho pena que não tenha marcado para eu, o meu pai e a Catarina podermos dizer que o vimos finalizar o record de golos. Mas já podemos dizer que o vimos. A Deus.
O Barça de Guardiola, que nós vimos despedir-se da Liga Espanhola (o mesmo Barça que começou em Numancia, com uma derrota, numa belíssima tarde), foi a equipa mais linda, mais perfeita, que pisou um campo de futebol. E nós vimo-la.
 
      
Os béticos aplaudiram Beñat - que marcou os 2 golos de livre na vitória no derby (o segundo é toda uma genialidade) - como se lhe quisessem dar a casa e a família. Celebraram a expulsão de Daniel Alves (ex-sevillista) e aproveitaram o facto do Barça jogar com 10 para cantarem olés. Estavam 45 mil nas bancadas.

Dizem que não devemos voltar aos locais onde já fomos felizes. Para mim, foi ter 18 anos outra vez, foi recordar as viagens com o meu pai, foi ser bético outra vez. No Benito Villamarin, serei sempre feliz. Manquepierda.




3 comentários:

  1. Fantástico post. Gostei muito de ler.
    Custa-me pensar em ter uma 2ª equipa, que foi o que fizeste. Mas nalguns casos, compreendo. E este, é um destes (desde que a prioridade tenha sido sempre a mesma, o Benfica).

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  2. Para um lampião o textinho não esta mau... :x
    Brincadeiras à parte, excelente texto que muito gozo me deu ler e que quase me fez sentir que também lá tinha estado... O futebol é mesmo uma coisa maravilhosa!

    Cumprimentos desPortistas

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  3. Mais um grande texto, parabens. A única vez que estive no Benito Villamarin foi na época 82/83, tinha 6 anos e acompanhei o meu pai para vermos o Benfica na 1ªeliminatória da antiga Taça UEFA. E a recordação que guardo desse jogo foi ver adeptos do Sevilha, em pleno estádio do rival, a apoiar o Glorioso com bombos e bandeiras.Ainda hoje torço pelo Sevilha por causa disso.Lembro-me ainda do resultado, depois de estarmos a perder 1-0 ao intervalo, demos a volta na 2ªparte com golos de Carlos Manuel e Néné e ganhamos 2-1, no inicio da caminhada até à final que perdemos para o Anderlecht. Saudações benfiquistas.

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