terça-feira, 5 de junho de 2012

Blog anti-adeptos da selecção

O Euro está a chegar. Para nós, lá em casa, isso significa terminar uma caderneta de cromos, decorar nomes e caras de jogadores esquisitos, esperar por grandes jogos e, sobretudo, apostar a dinheiro num vencedor. Mas esta é a parte boa de um Europeu ou de um Mundial, competições que cremos terem sido originalmente pensadas para dar motivos para viver aos malucos, como nós, que não aguentam um mês de Junho de pausa no futebol.

A parte má é a que está aí, por todo o lado, e chama-se selecção nacional. O Euro ainda nem começou e já não há pachorra, embora tenha ficado desiludida por ninguém se ter lembrado de comprar um helicóptero para filmar as três horas de voo entre Lisboa e Poznan. Comecemos, então, pelos protagonistas: esta selecção não sabe jogar à bola, não entusiasma, não tem aquela aura do Euro 2000 à volta, a esperança saloia do Euro 2004 ou a qualidade do Mundial 2006. Olhando de fora, pouco mais se vê do que um grupo de jogadores com penteados horrorosos e um péssimo gosto para roupas e namoradas. O seleccionador está sempre com ar de chateado, de quem está ali por obrigação e de quem só quer picar o ponto e vir embora. Tudo isto pode ser uma estratégia para desviar as atenções e aliviar a pressão, claro, e não quero aqui juntar-me aos profetas da desgraça porque não tenho poderes divinatórios, mas assim torna-se mesmo difícil torcer por eles.

Eu, neste assunto, sou suspeita. Não torço pela selecção. Desculpem-me aqueles que apregoam que, por ter nascido dentro de um território definido há quase 900 anos, sou obrigada a meter uma bandeira na janela e a pintar a cara de vermelho e verde (Pausa: com estas cores, como é que queriam que eu aderisse?). Sim, claro que Portugal me diz mais do que a Ucrânia e a Polónia, mas só porque os nomes dos jogadores são mais fáceis de pronunciar. Olhando para aqueles 23, e admitindo uma natural simpatia por quem actualmente enverga ou já envergou a camisola azul e branca, não há nada que faça o meu coração bater mais depressa.

Se durante o ano todo achei o Ronaldo um idiota, não sei por que é que durante estes 15 dias o hei-de tratar como um herói. Se durante o ano todo insultei o Nélson Oliveira por se atirar para o chão, não sei por que é que agora tenho de gritar golo dele. Se durante o ano todo torci para que o João Pereira se lesionasse, não sei por que é que este é o momento de não o fazer. Não percebo, a sério. Ah e tal, porque agora vestem a camisola das quinas e somos todos um só e não sei quê. Não, não, e não. Eu sou do FCPorto e ocupo todo o meu tempo de adepta com isso, não tenho espaço para mais nada.

E isso leva-me à parte mais delicada da questão: as pessoas que durante dois anos não falam de bola, até se incomodam com quem chega segunda-feira ao trabalho e comenta o decisivo resultado do paços de ferreira-marítimo, não sabem quem é o melhor médio centro da Liga, não sabem sequer o que é um médio centro, e que olham para mim com aquele ar de "coitadinha, não tem mais nada que fazer do que fazer 600 quilómetros para ir ver um jogo de 11 homens contra 11", mas que durante o mês de um Europeu ou de Mundial são uns grandes malucos pela selecção.

É vê-los a irem para as praças das cidades com três cachecóis, duas bandeiras e uma fotografia do Nani que tinham lá em casa. É vê-los nas estradas a dizerem adeus ao autocarro da selecção ou naqueles programas da manhã ou da tarde de altíssima qualidade a comentarem se deve jogar o João Moutinho, o Hugo Viana ou os dois. É vê-los por esses cafés, restaurantes e locais de trabalho por esse país fora a argumentarem que a selecção portuguesa é a pior do mundo após a derrota com a Turquia ou é a melhor do mundo se não perder com a Alemanha. Esta gente é assim: emociona-se com cada passe falhado do Bruno Alves, grita de cada vez que o Ronaldo toca na bola e acha que o Rui Patrício é deus. Mas para nós, os verdadeiros adeptos, o Bruno Alves ou é um central raçudo à Porto, ou é um caceteiro do pior à Porto, o Ronaldo ou é o melhor jogador do mundo ou o segundo melhor jogador do mundo e o Rui Patrício é o totó que ainda não percebeu que não pode agarrar a bola quando um defesa da sua equipa a passa com o pé. E é mesmo difícil explicar-lhes que nós não os vamos conseguir ver de outra maneira, só porque a camisola que usam nestes dias é a de Portugal.

E a pior parte é quando, naqueles directos deprimentes de uma terrinha qualquer, eles dizem que não perdem uma. Quando uma é a transmissão televisiva de um dos prováveis três jogos de um grupo de jogadores dos quais essas mesmas pessoas não souberam nada nos últimos dois anos nem vão saber nos próximos dois, isso é um insulto para nós, os doentes. Eu é que não perco uma do meu clube. E por não perder uma entenda-se ir ao estádio ou ver na televisão todos os jogos, ouvir na rádio quando não há outra opção, ler três ou quatro crónicas diferentes sobre os mesmos 90 minutos só para ver se concordam comigo, falar todos os dias ao telefone com os meus pais sobre aquela nova contratação ou aquele grande palerma que falhou um golo no sábado, discutir com o M. sobre os árbitros da anterior, da próxima e de qualquer jornada e perguntar aos colegas de trabalho se também acham que aquele ponta-de-lança não vale um chavelho. Isso sim, é gostar de um clube, de uma equipa, de um grupo de jogadores que, nas melhores alturas do ano (e ano é uma época, nós nunca sabemos nada pelos anos civis), me deixam tremendamente feliz ou infeliz de três em três dias.

Sim, é muito bonito recordar os espanhóis a festejarem nas ruas, o sorriso inesperado dos gregos ou aquele dia épico dos dinarmaqueses. Claro que sim. Eu adoro bola, por isso é impossível não me entusiasmar com as grandes selecções, que marcam a história do futebol. O problema é que Portugal nunca tem uma selecção assim.


11 comentários:

  1. 99% de acordo!

    1% de mim, não sendo adepto da selecção, é adepto dos caracóis e da cerveja, o que me faz estar nos mesmos sítios que os famigerados adeptos de ocasião, por mera coincidência espaço-temporal. Contudo, dois em dois anos tenho mais companhia nos certames públicos de bebida e comida, gritar golo daqueles badamecos é um preço que estou disposto a pagar pela companhia...

    Mas confesso que o adepto da selecção é para mim equivalente ao festivaleiro...

    Não faz ideia quem vai tocar ou que músicas toca. O que sabe é usar todos os adereços que o festival disponibiliza e ter uma desculpa para se fazer de parvo durante uma tarde e assim um motivo de conversa no escritório no dia seguinte, que nunca passa pelo palco do espectáculo.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Só posso dizer que concordo plenamente. Parabéns por conseguir colocar em palavras aquilo que me vai na alma

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  4. Não sou suficientemente velho para ter visto a selecção de 1966, mas vi a de 84 e foi uma selecção emocionante, mas acima de tudo a selecção do Euro 2000 foi a melhor selecção portuguesa que vi jogar, mesmo não tendo ido à final como a de 2004, mas foi de longe a que melhor futebol produzia. Aliás essa geração era o produto daquelas gerações que me colaram à tv em 89 (faltando às aulas e vendo nas montras das lojas de electrodomésticos) e me levaram à catedral em 91 (se bem que a final tenha sido uma bosta)

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  5. Concordo com o que dizes e não tenho fé alguma neste grupo de jogadores que representam o meu país mas quando chega à hora dos jogos, quando toca o hino, eu esqueço os nomes e torço para que vençam. E que nervos me deu o segundo melhor do mundo no sábado! No único momento da época em que quero que ele marque o penalty, o gajo faz aquilo!

    Susana Gomes

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  6. sempre, também, fui muito mais porto que outra coisa, mas na estranja vejo os jogos de portugal como se fossem os do porto... infelizmente, tendo ultimamente ficado sempre com a sensação de ter pago e não ter gostado!... compreendo que o carlos queirós tenha ido servir os ayatolahs verdadeiros e não os de brincadeira, e lastimo muito que a seleção não possa ser mais do que um grupo de parolos, ricos e mimados, comandados por um parolo meio-pobre e limitado...dizem, que é o que o povo gosta. assim sendo, que o povo se divirta, e eu vou esperar que uma equipe a jogar positivo ganhe este europeu, e parece-me que essa equipe será a alemanha...
    ...e, nunca me custou tanto perder, com aquele jogo de 66 contra a inglaterra!! ( às vezes essa fé de criança volta...mas, é preciso convencerem-me , e sinceramente esta equipe das quinas tem tantos incompetentes (joão pereira? miguel lopes? ) que acho que me terá de convencer muuuiiito!)

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  7. Existem dois tipos de individuos com sentimento anti-selecção: os pseudo-intelectuais e doentes com clubite aguda (fenómeno com principal incidência na família portista). Este post representa o melhor deste conjunto.

    No entanto, todos, os que tenham pelo menos dois neurónios, concordam que o fenómeno da selecção é puro folclore, mas estou certo que pelos jogadores metade destes festivais não aconteceriam, mas o dinheiro e FPF falam mais alto.

    Portanto parece-me cliché apontar sempre os defeitos aos jogadores (principalmente e sempre ao Cristiano Ronaldo) e aos adeptos (que na minha opinião apenas buscam uma alegria/esperança colectiva no meio de tanta miséria) mas teria sido interessante ler do autor um post sobre quem na minha opinião tem realmente culpa por este circo que é montada a cada 2 anos: a FPF, Patrocinadores e a Comunicação Social.

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  8. "Não torço pela selecção."
    De outro portista doente (não há outro género), e independentemente de concordar ou não com o resto do artigo, sinceros parabéns pela sua coragem.

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  9. concordo com o que se diz ai em cima. a perspectiva dos jogos da selecao muda completamente a partir do momento em que se passa a ver jogos no meio de alemaes ingleses ou que quer que seja. acabo por sofrer tanto como em qualquer outro jogo do meu clube.

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  10. exactamente o que sinto. assino por baixo. e várias vezes me apeteceu escrever isto aqui na tua caixa de comentários, em muitos dos textos que escreves.
    hoje foi o dia.

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  11. Carissimos

    Venho apresentar o meu blog, que ira acompanhar o europeu, onde será feita toda a analise ás selecções e suas variantes técnico-tácticas, aos jogadores que irão estar em destaque,as jovens promessas, as tácticas, com os seus pontos fortes e as fragilidades a serem aproveitadas pelos adversários.

    Visitem: rumoakiev.blogspot.pt

    Os melhores cumprimentos

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