quinta-feira, 21 de junho de 2012

Fuga para a vitória

“Em 1942, os nazis pensavam que estavam sentados no topo do mundo”. É com esta frase que arranca o trailer de um dos filmes de bola mais famosos de sempre. “Escape to Victory” é a história ficcionada de um jogo de futebol entre a selecção alemã, a jogar em casa, perante os grandes oficiais nazis, durante a Segunda Guerra Mundial, e um grupo de prisioneiros dos aliados que quer fugir do campo de concentração.

O filme nem é grande coisa. Conta com a participação de Pelé, que fala o pior inglês de sempre, mas marca um golo de pontapé de bicicleta, porque os americanos pensam que isto é uma coisa que acontece todos os dias no futebol europeu. Com o aproximar da vitória dos aliados, os adeptos começam a cantar o hino francês, num momento arrepiante, mas completamente falso. Até que Sylvester Stallone, que seria, por si só, um motivo para não ver o filme, defende um penalty ridículo, em câmara lenta, em que parece agarrar um balão com as duas mãos e um enorme à-vontade.




O realizador norte-americano inspirou-se na história, já aqui relatada pelo M., do FC Start. No entanto, no filme, o final é mais feliz: os prisioneiros conseguem fugir devido à invasão de campo, disfarçados no meio do povo. Até o Pelé, que como se sabe tem um tom de pele que era muito característico na Alemanha de Hitler.

O que “Escape to Victory” tem de inspirador é que simboliza o poder que o futebol tem perante todas as contrariedades, sejam elas financeiras, sociais ou políticas. E foi deste filme que me lembrei quando se confirmou o Alemanha-Grécia desta sexta-feira.

É verdade que, à partida, é bastante exagerado comparar a Alemanha de Hitler à Alemanha de Merkel, ou comparar a exterminação dos judeus à exterminação dos países periféricos, ou comparar a propaganda nazi à propaganda pseudo-europeísta. Mas o que não podemos negar é que o Alemanha-Grécia não será apenas um jogo de futebol.

Na sexta-feira, vão entrar em campo um país dominador e um país subserviente. Nas bancadas, estarão adeptos que foram aumentados este mês e adeptos que vêem os seus salários cortados há meses. Angela Merkel, o rosto da austeridade, poderá olhar para o banco grego e ver Fernando Santos, um português duplamente resgatado. Por toda a Grécia, e menos de uma semana depois de a ilusão de um salvador radical se ter evaporado, vai torcer-se não só contra Neuer, Ozil e Gomez, mas também contra o FMI, o BCE e a Comissão Europeia.

Infelizmente, a diferença entre a Alemanha e a Grécia no relvado parece ser ainda maior do que na taxa desemprego. Os alemães estão sentados no topo do mundo, têm jogadores muito melhores, uma equipa quase perfeita e, se for preciso, a UEFA de Platini ao seu lado. Os gregos não têm praticamente nada. E é isso que torna a coisa ainda mais bonita: apesar de, provavelmente, a Alemanha acabar por golear a Grécia, se, muito por acaso, aqueles 90 minutos forem uma loucura e os gregos passarem, haverá todo um continente farto de troikas a festejar.

“Now is the time for heroes”. O trailer do filme acaba assim. E eu estou a torcer para que, amanhã, haja heróis gregos na Polónia.




(A equipa do filme e a equipa do FC Start) 

4 comentários:

  1. C,
    Suponho que pela 1ª vez consigo ser o primeiro a comentar um texto vosso ! Obvio que amanha seremos todos gregos (não socráticos) ! É claramente uma luta de classes, com os merkosos prontos a dizer que o futebol é o reflexo do trabalho (caso lhes corra bem) !
    Esperemos que amanhã Zeus não durma em Gdansk !

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  2. Mas os subservientes já jogaram contra os dominadores na primeira jornada e qual bom aluno foram recambiados com a trouxa às costas e uma derrota no bucho.
    Por mais que haja esse simbolismo, acho que acima de tudo há uma partida de futebol, onde o melhor jogador grego, ou pelo menos senão é o melhor, é líder deles, o karagounis, não pode jogar e o Fernando Santos vai meter os 11 na área praticando o seu anti-futebol que tão bons resultados tem dado.
    Desse filme, mais que o Pelé, destaco o Osvaldo Ardilles, uma das vítimas do conflito das Malvinas por jogar nessa altura nos spurs. que faz aquele movimento de trazer a bola atrás e fazê-la passar por cima da cabeça.

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  3. Eu não serei Grego , sou um admirador do futebol da Alemanha , mas simpatizo muito com o nosso engenheiro Santos e se ganhar fico muito contente. No aspeto mais político mesmo que a Grécia ganhar e independentemente da grandeza da mensagem daí a retirar, o povo Grego continuará a sofrer , tal como nós Portugueses mesmo que sejamos campeões, a crise não acaba numa vitória de futebol. A vitória de quem mais sofre poderá ser uma fuga sim de algum sofrimento mas voltaremos a cair na terra e o sofrimento continuará.
    É avisar o jornal record que Portugal não é só Ronaldo e que à muito mais futebol para além da disputa entre Ronaldo e Messi, cabem bem os 2 no futebol e para este tipo de jogadores à sempre espaço, porquê limitar ainda mais o espaço.

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  4. Caríssima C, não sei quantos anos tens, apenas sei que és portista como eu e divide os "trapos" com um benfiquista, mas para quem tem 50 anos como eu, este filme quando saiu na época, os garotos da minha geração no Brasil viram 2,3 ou mais vezes, o filme teve um impacto muito grande.
    E a mensagem é espetacular, é um dos filmes inesquecíveis da juventude.
    Hoje em dia, pode parecer filme B, como podes notar, o realizador conseguiu reunir atores consagrados, atores em início de carreira como Stallone e jogadores de topo na época, sem falar no melhor jogador de sempre, o Rei Pelé.
    E digo melhor de sempre porque, apesar de hoje em dia muita gente dizer que CR7, Messi e antes destes, Figo, Ronaldinho gaúcho, Zidane e etc eram os melhores de sempre, e que vão batendo recordes atrás de recordes.
    Pois bem, os recordes são para serem quebrados, mas acho muito difícil qualquer um destes melhores de sempre chegarem perto destes números abaixo, com o detalhe de todos eles já terem falhado muitas etapas dos nºs abaixo.Vamos lá:

    1)ser titular absoluto da sua equipa aos 16 anos de idade.
    2)ser titular absoluto da seleção do seu país aos 17 anos.
    3)ganhar o 1º mundial FIFA aos 17 anos.
    4)ganhar o 2º mundial FIFA aos 21 anos.
    5)aos 23 anos já ter ganho 2 competições continentais, dois mundiais interclubes, marcado 500 golos, tendo sido obrigado a ir à tropa durante 6 meses, ficando assim longe dos relvados.
    6)marcar o 1000º golo aos 28 anos.
    7)ganhar o 3º mundial FIFA aos 29 anos.
    8)em 20 anos de carreira, marcar 1283 golos.
    9)em 125 pela seleção do seu país, marcar 95 golos
    (em 95 jogos oficiais, marcar 75 golos).
    10)em 20 anos de carreira, ter a média de 64, 5 golos por época.

    Estes são os nºs de Pelé.
    Se conheces alguém que tenha feito igual ou melhor que isto...

    Abraço e parabéns pelo blog, do qual sou leitor.

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