terça-feira, 19 de junho de 2012

Messi e Maradona: o craque e o Robin dos Bosques

Não serve este texto para comparar, outra vez, Cristiano Ronaldo e Messi. Deixamos essas comparações para os madridistas e para portugueses como o Nuno Luz. Quando, cá em casa, falamos de Leo Messi, a única comparação que nos surge é com Deus, Diego Armando Maradona.

Há jogadores que passam uma carreira a um degrau de serem os melhores da sua geração, como Totti, Modric e Aimar. São génios que ficam só (?) no coração. Depois há os que, sendo os melhores da sua geração, têm que pedir licença para entrar no domínio dos deuses. Poderá Romário ser equiparado a Cruyff? E por que é que Platini é considerado melhor do que Eusébio (esta é retórica)? E, depois, entre os melhores dos melhores, há um Brasil–Argentina particular entre Pelé e Diego Armando Maradona. Mas já lá vamos.

Leo Messi é o melhor que já vi. Melhor que Ronaldo, o Fenómeno, melhor que Zidane. Quando a bola lhe chega aos pés é o fim do mundo. Não há táctica nem gigantes que apanhem aquele pé esquerdo que sabe todos os caminhos até à baliza. A maneira como as ancas mentem e vão desviando adversários e a frieza com que encara os guarda-redes fazem de Leo Messi o maior génio que tive o prazer de ver. São tantos e tantos os golos e as fintas que me marcaram que é difícil enumerar. Será, então, Leo melhor que Diego?
Futebolisticamente, arrisco: sim. Messi é o melhor de todos os tempos. É mais matador do que Maradona e tem um pé esquerdo equivalente (que ousadia, Manel, que ousadia que tu acabaste de escrever!). Com uns assustadores 24 anos, Messi tem 5 campeonatos, 3 champions, 2 supertaças europeias, 2 campeonatos do mundo por clubes e é medalha de ouro dos Jogos Olímpicos. Tem três bolas de ouro e este ano pulverizou o recorde europeu de golos numa época. Dá vontade de chorar.

Mas o futebol é mais do que a soma de títulos, muito mais. Se o nosso clube acompanha a nossa vida, num imenso paralelismo entre campeonatos e feitos como acabar o curso, a história do futebol não é menos do que a história da humanidade. E a Leo falta bater à porta da história.

A Catarina escreveu no facebook que o Alemanha–Grécia vai ser o jogo mais político da nossa geração. Vamos, finalmente, ver o futebol como representação da vida dos povos. Não é que seja a primeira vez. Afinal, cada vez que vemos um jogo da Liga Espanhola, é fácil identificar ainda as cicatrizes da Guerra Civil em cada emblema. Mas falta-nos um jogo marcante, em que o mundo se una para derrotar o poder. Foi isso que Maradona conseguiu e que Leo dificilmente terá.

Se Messi é, quanto a mim, futebolisticamente superior a Maradona, socialmente não lhe chega aos calcanhares. Apesar de jogar numa equipa que enfrenta um Madrid de milhões e milhões de euros, o Barça não é propriamente uma equipa de pobretanas. Messi nem sequer tee uma juventude de futebol de rua, já que aos 15 já estava em La Masia a ser aperfeiçoado. E isso é muito.

Quando, no dia 22 de Junho de 1986 (26 anos antes do Alemanha–Grécia), Diego Armando Maradona, naquele que é o jogo mais importante de sempre da história do futebol, ganhou sozinho à Inglaterrra, o mundo nunca mais ficou igual. Com um golo com a mão (“foi como tirar uma carteira a um inglês”, disse ele. Poderia Messi, crescido em La Masia, assaltar como numa viela em Buenos Aires?) e com um slalom que ficou eterno, Maradona ganhou os povos para a sua causa.

A invasão inglesa das Falkland pairava sobre o jogo e Maradona, naquele dia, ganhou a guerra. Com uma bola de futebol, um jogador de futebol deu cabo do poder, das armas, dos mais fortes. Naquela hora e meia de 22 de Junho de 1986, não houve fome, não houve injustiças, não houve guerra. Quando Diego driblou os ingleses, foram os povos que driblaram os senhores da guerra e os senhores do dinheiro. Maradona, que foi um género de Robin dos Bosques napolitano (se bem que aquele Nápoles era fortíssimo, não era só Maradona), tornava-se, para sempre, Guevara vestido de jogador de futebol e de charuto ao canto da boca.

É isso que chateia Pelé: Maradona está no coração de todos e Pelé no bolso da FIFA. Pelé pode ter mais de mil golos, mas nunca ganhou uma guerra com uma bola de futebol. Quantos golos valem, afinal, uma guerra?

A Messi falta um Argentina–Inglaterra, falta a possibilidade de entrar não só na história do futebol, mas da humanidade.  Talvez a sorte lhe sorria e ofereça uma vitória no Campeonato do Mundo de 2014, em pleno Rio de Janeiro, contra o Brasil. Mas seria só mais uma vitória futebolística no maravilhoso pé esquerdo de Leo Messi. Para dar, definitivamente, a mão a Maradona, faltava a Messi ser o grego que expulsaria a Alemanha do Euro. 


16 comentários:

  1. Parabéns, grande post, é justamente aquilo que sinto e que penso em relação a Maradona e Messi respectivamente, mas nunca o consegui exprimir, por isso também o meu obrigado.

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  2. FODA-SE... desculpa me a asneira mas... BRILHANTE

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  3. A vocês só vos falta a fama, porque dão 15 a 0 a qq colunista de jornal desportivo da nossa praça.

    Parabéns. Mais um texto brilhante.

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  4. Nao comento o texto (ja' sabes tudo aquilo que tenho para dizer), mas faco um apontamento off-topic porque se impoe: o bar$a enfrenta um Madrid de milhoes e milhoes de euros com... os mesmos milhoes. Se uma e' a equipa que mais milhoes gasta em contratacoes, outra e' a equipa que mais gasta em salarios. O salario medio do plantel do bar$a sao 8 milhoes/ano. Medio. Isto conta com os Thiagos Alcantaras desta vida.

    La Masia e' muito bonito e idilico, mas os rapazes que de la' saem nao ficam a vida toda no clube so' porque sao muito catalaes...

    E e' tambem isto que falta a Messi: dar o salto para um Napoles desta vida (que, como dizes, era forte na altura mas nao era nenhum bar$a) e ergue-lo a patamares nunca antes atingidos.

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    1. Não concordo. Messi não precisa de ir para um clube pobre para ser melhor. O Barça não é nenhum coitadinho, verdade, mas é mais do que isso. E sim, ainda acredito que também ficam porque são muito catalães.

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  5. E falta-lhe a humildade para não dizer depois dum empate contra a Venezuela na abertura de mais uma Copa américa com Messi, desta feita disputada em casa, vir dizer que os outros tinham marcado um golo de merda. Messi quando perde, perde tamém o desportivismo, especialmente quando é assobiado ou acossado por um defesa sem que o árbitro expulse o adversário.

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  6. além disso, falta-lhe partirem-lhe um tornozelo como fizeram ao Maradona quando chegou a Espanha, a um Barcelona que era uma equipa mediana

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  7. Alguém disse que vocês dão 15 a 0 à maior parte dos jornalistas, costumo seguir o vosso blog e a única coisa que não gosto é do facto de não ter textos todos os dias:)...

    Quanto ao texto só não consigo concordar com esse brilhantismo que atribuem a um golo marcado com a mão, isso foi uma fraude dum jogador brilhante e deveria ser condenada todos os dias e não elogiada como sempre foi, ou então depois não andem sempre a defender a justiça e a verdade desportiva etc etc, pois quem elogia um golo com a mão depois não pode tentar ser moralista ao ponto de quando um jogador simula penalti contra a nossa equipa dizer que se mandou para a piscina, sendo adepto do FCP e sabendo que quem escreve este blog é do FCP e do SLB, serve este recado para adeptos dos dois clubes em especial e para todos os outros na generalidade..

    Cumprimentos.

    Miguel G.

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  8. Poesia prosaica passe o pleonasmo meu caro :)

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  9. soubesse eu escrever como vocês e seria "A invasão inglesa das Malvinas" :)

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  10. Éme,

    Maradona nasceu para subir ao palco de Woodstock. Por algum problema cósmico, nasceu tarde demais para isso, mas o lugar dele era lá. O principal problema dele é que nasceu tarde demais para ser uma estrela rock hippie, mas a mentalidade continua lá naquele corpo quase mutante. Já Messi nasceu mesmo para a bola... ou então alguém inventou a modalidade já a pensar nele, moldou o campo às caracteristicas deles, definiu as regras ao modo de jogar dele e escolheu o objecto principal da modalidade tendo em conta o tamanho do pé dele. Para nós anónimos jogadores de peladas domingueiras para abater a barriga, é injusta a forma como os deuses do futebol beneficiaram tanto o Messi e a nós lançaram-nos à selva sem bussula e sem cantil, dando-nos apenas a ordem mestra de "agora procura o caminho para casa".

    Só um aparte: jogo mais politico que vi foi o USA - Irão num Mundial qualquer que já nem recordo onde foi. Talvez na Alemanha ou se calhar em França... na Coreia acho que não foi porque aí os americanos estavam entretidos a esfarfalhar a equipa do oliveirinha.

    Abraço

    Abraço.

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    1. Tino, por acaso também me lembrei desse jogo quando o Eme falou no jogo mais político de sempre. Foi no Mundial de 98 em França e os iranianos acabaram por ganhar 2-1 ao "grande satâ". Grande texto, embora continue a achar que Maradona ainda estará no topo. É verdade que Messi já fez muito, mas falta-lhe a grande prova dos 9 que é a nível de selecções.

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  11. « Messi é o melhor de todos os tempos »

    finalmente algo em que concordamos
    (futebolisticamente "falando", claro!) :D

    abr@ço
    Miguel | Tomo II

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  12. Vai escrever para o crl...
    Escreves muito.
    Parabéns, e sim, dás 15 a 0 à maioria das merdas que se lê na comunicação social.

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  13. Pela 1ª vez não concordo contigo!
    Maradona, jogava no Nápoles, em Itália super defensiva! ganha um campeonatos e taça UEFA sozinho. Ganha mundial sozinho!
    R9 19anos o melhor do mundo, até à grande lesão foi a coisa mais impressionante que já vi e, quando recupera fez o que fez no mundial 2002 já sem a corrida de antigamente e vai caindo a pique mas sempre a factorar.
    Zidane? Classe!
    Se estes 3 têm jogado neste Barcelona banalizavam Messi!

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  14. José Lopes da Silva30 de junho de 2012 às 18:55

    A guerra das Falkland/Malvinas foi uma guerra de agressão imperialista contra um povo de língua inglesa que nunca teve dúvidas em afirmar-se como parte do Reino Unido. A questão dos "senhores da guerra" é do ponto de vista do povo argentino.

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