Depois do Portugal – Espanha, em que Portugal foi derrotado
nos penalties, as televisões focaram Ronaldo que, sempre com consciência das câmaras,
exclamava “Que injustiça”, como se Portugal tivesse mandado 3 bolas ao ferro
(como o Brasil contra a Argentina em 90). Portugal fez um excelente Europeu,
muito acima de todas as expectativas. Mas perdeu para uma equipa que lhe é
superior. E, meus caros, não foi na lotaria. Foi nos penalties. E os penalties
estão muito longe de ser só sorte.
O Itália 90 é dos Mundias mais desconsiderados pelos críticos,
mas como eu gastei o VHS a vê-lo e revê-lo é o Mundial da minha infância e
adoro-o. E foi um Mundial cheio de penalties. Assim de memória: Irlanda–Roménia,
Argentina–Jugoslávia (Ivkovic a defender outro a Maradona), Argentina–Itália
e Inglaterra–Alemanha. E nos desempates da Argentina, nasceu uma lenda:
Goycochea. Goycochea, que nem foi titular no primeiro jogo, tinha um ar de
chulo da esquina, com o crucifixo fora da camisola e cicatrizes no rosto. Um ar
silencioso e ameaçador. Goycochea defendeu 4 penalties só nesse Mundial (julgo
que é o recorde numa só competição) e com uma grande peculariedade: mijava na
linha de baliza antes dos penalties. Para marcar território. O território que
Pirlo marcou quando, com a Itália a perder, marcou com desprezo, à Panenka, e
olhou de cima para baixo para o guarda-redes inglês, como se tivesse pensado na
lista de compras no caminho até à bola.
Imaginem-se a fazer meio campo a pé, depois de 120 minutos a
correr, com o coração aos saltos e a cabeça numa confusão sem saber para que
lado vão chutar. Chegam lá, o árbitro dá-vos a bola e enquanto a ajeitam, o
guarda-redes mija. Urina ali, como se vos dissesse: daqui não passas. Tudo o
que se pensou no caminho vai ao ar. Foi o que se passou com Donadoni e Serena,
em Nápoles, a casa que Maradona emprestou a Itália para os eliminar nas meias-finais.
Também em 1990, Stuart Pearce acertou em Ilgner (grandíssimo
guarda-redes, que seria depois campeão no fabuloso do Madrid de Capello em
96/97) e falhou o seu penalty. Carregou a cruz seis longos e penosos anos.
Todos os dias, antes de adormecer, Pearce devia pensar porque não chutara para
o outro lado, como aliás o poderá ter pensado durante aquele longo caminho.
“A angústia do guarda
redes antes do penalty” é o título de um livro de Peter Handke. É um título estúpido.
A angústia de quem vai marcar é insuperável. A angústia de Pearce era um nó na
garganta. E em 96, nos quartos-de-final contra a Espanha, Pearce fez outra vez
o mesmo caminho. Um caminho que deve ter levado mais de seis anos a fazer. E
meteu-a lá dentro. E gritou e gritou e gritou e livrou-se da maldição. A cara
de Pearce é um poema ao futebol e à vida.
Portanto, pode uma coisa tão grande, tão emblemática – todos
vamos saber que foram Moutinho e Bruno Alves a falhar aqueles penalties, não
vamos? – ser só sorte, cara ou coroa? Não. Nos penalties, naquele silêncio, há
treino, muita análise (saber os truques todos do guarda-redes e do marcador e
todas as estatísticas) e muitíssimo carácter. E nisso, Portugal perdeu. Perdeu
porque tinha menos especialistas – e isso é que foi decisivo – perdeu porque
Paulo Bento ainda foi alinhavar os marcadores no apito final (a imagem dele com
o bloco foi, para mim, assustadora) e perdeu porque meteu o seu especialista a
marcar o penalty com menos probabilidade de ser batido (porque quem já viu mais
do que uma série de penalties sabe que várias vezes não se chega ao 5º). Repito:
fez um grande Europeu e até um excelente jogo contra a Espanha. Mas perdeu. Sem
injustiças, Ronaldo.
Quando na final do Campeonato do Mundo de 1990, a cerca de 5
minutos do fim, um duvidoso penalty foi assinalado contra a Argentina, Andreas
Brehme, mítico esquerdino neroazzurri, enfrentou a lenda Goycochea. Imagino que
a baliza lhe tenha parecido mínima, o guarda-redes enorme e o silêncio dos 73
mil da bancada e dos milhões e milhões de espectadores pesadíssimo. E chutou. Com o pé direito.
Rasteiro, colocadíssimo. Um penalty de laboratório. Trabalho, truque e carácter.
Não foi injusto. Não é uma lotaria. É o futebol. Que não é
uma questão de vida ou morte. É muito mais do que isso.


(sem palavras, depois de (re)ler mais uma cativante prosa)
ResponderEliminarmuito obrigado!, M., por me teres feito voar, recuando no Tempo e percebendo que, sem rivalidades (bacocas?), o Futebol pode ser (deve, e é) Belo!
abr@ço
Miguel | Tomo II
Lindo o vídeo do Stuart Pearce!
ResponderEliminarO penalti do Brehme é de outro mundo!
Podias ter lembrado, que o King em toda a sua vida só falhou 3 penalties ! tantos quantos o ronaldo esta época: Bilbao,Bayern e Espanha ! Boa prosa, tanto mais que vimos juntos todos esses penalties ! Como é evidente, atendendo à idade, e não só, não me lembro de tantos pormenores !
ResponderEliminarFalta aí o Labreca do Montijo que tirou as luvas para defender e marcar de seguida...
ResponderEliminarMê,
ResponderEliminarO Italia90 é muito desconsiderado porque deu nome a um dos piores simuladores de futebol alguma vez feitos. Nem nas arcadas aquilo tinha bom aspecto, quanto mais numa mega drive paga a peso de ouro.
Também já disse muitas vezes que adoro penalties. A principal coisa que me atrai, é que naqueles 20 segundos não há bons nem maus jogadores, não há bons nem maus redes. Até o maior Emerson do Mundo pode marcar um golo de penalty ao maior Buffon do Mundo. Naqueles 20 segundos todos os jogadores e guarda redes são comuns mortais, todos são directores de departamento comercial a tentar marcar um golo ao pedreiro da empresa e vice versa. E é tão bom quando se pode tirar pessoal do pedestal, nem que seja só por 20 segundos...
Prova do que escrevi atrás, é que o grande defensor de penalties do Italia90 foi um guarda redes abaixo de mediano e o gajo que decidiu a competição foi um defesa esforçado, bom de pés mas que não era nenhum Klinsman nem nenhum Mathaus.
Abraço
Constantino:
EliminarÉ isso mesmo. São democráticos os penalties. Zico, Baggio, Baresi, Sócrates, todos eles falharam. O Emerson podia ter marcado qualquer um desses penalties, o que mostra como o futebol é particularmente confuso.
Adorei! Alto post com uma escrita carregada de carácter. Top, pró mundial!
ResponderEliminarPA, MAS AFINAL QUEM É QUE MANDA LÁ EM CASA?!
ResponderEliminarMuito bom, obrigado.
ResponderEliminarE concordo em absoluto. Os espanhóis ganharam porque marcam melhor penalties. Just as simple as that.
E o Patrício esteve muito bem e não foi inferior ao grande Iker.
Eles é que marcaram mesmo muito bem. Indefensáveis.
Há ainda o paralelismo do Stuart Pierce com o Sergio Ramos. A diferença foi o período que foi muito curto. Mas o Ramos foi mesmo muito gozado pelo falhanço na Champions.
Cumprimentos,
PeLiFe
BASEL84.BLOGSPOT.PT
Estou a conhecer o teu blogue agora e já me questiono, porque carga de água não vi este espaço mais cedo?!?
ResponderEliminarExcelente texto!
Obrigado!
Boas.
ResponderEliminarEu odeio os penalties, odeio-os desde que um lateral-esquerdo do Glorioso SLB falhou um numa final da Taça dos Campeões. Acho mesmo que deveria ser proibido os laterais-esquerdos marcarem penalties (e acredito que muitos ingleses concordem comigo – Ashley Cole).
Li pela primeira vez esta semana e já estou viciado.
Abraço
D.
Você escreveu lotaria ao invés de loteria
ResponderEliminarhttp://vivendonoestrangeiro.blogspot.com.ar/2012/05/facturas-despues-de-una-siestita-la.html