quarta-feira, 25 de julho de 2012

Já fomos mais Porto

O meu pai estacionava o carro no parque que dava para o vazio. Não havia nada ali. Pelo caminho, passávamos pela piscina olímpica que nunca o chegou a ser, pelo pavilhão de basquetebol, andebol e hóquei em patins e pelo campo de treinos de futebol. Antes de entrar para o pavilhão das piscinas, ainda dava sempre uma olhadela ao Estádio das Antas, qual sua majestade num reino azul e branco.

Há 20 anos, o F. C. Porto era assim.

Eu sentia-me especial. Mostrava com orgulho o cartão de sócia com a minha fotografia e as quotas em dia à senhora que “guardava” as piscinas. Ela sabia o meu nome, apesar de eu ser apenas mais uma entre dezenas. O balneário era uma confusão de meninas de fato-de-banho, que se identificavam mais pelas toucas do que pelo talento, mesmo que uma delas se tenha tornado uma atleta olímpica (Boa sorte, Sara, estamos a torcer por ti).

Adorava nadar para as poucas pessoas que estavam a ver. Sentia que aquele era o meu momento, em que fazia alguma coisa pelo meu clube. Não há nada melhor do que nos sentirmos parte do F. C. Porto.

Há umas semanas, vimos um vídeo dessa altura e fiquei chocada. C., uma mulher que se crê com um cadastro moral quase irrepreensível, afinal agarrava-se disfarçadamente às paredes da piscina para ganhar lanço e ultrapassar os outros putos. Enfim, só os mais fortes sobrevivem.

Percebo agora como devia ser uma grande seca para o meu pai estar ali uma hora a olhar para mim. Por isso, compreendo perfeitamente todas as vezes em que o apanhei, disfarçadamente, a sair para ir ver os treinos que decorriam ali ao lado.

As estrelas de futebol treinavam mais cedo. Normalmente, quando estávamos a chegar eles estavam a sair do campo. Ali, naquele F. C. Porto, era perfeitamente normal a grande estrela Domingos cumprimentar uma miúda de cinco anos ou a grande referência Paulinho Santos ficar à conversa com um pai sobre o embate que se avizinhava. Fazíamos todos parte do mesmo.

Enquanto eu nadava, eram as modalidades que treinavam. O meu pai, na altura, devia ser o maior entendido do andebol, do basquetebol e do hóquei em patins portistas. Quando eu saía da piscina e não o via, sabia onde o podia encontrar: no pavilhão. Muitas vezes, sem pressa para jantar, ficávamos os dois ali um bocadinho a vê-los.


Naquele F. C. Porto, era normal uma criança como eu saber quem era Jared Miller, Tó Neves ou Carlos Resende. Naquele F. C. Porto, era normal uma criança conviver de perto com os craques, dizer-lhes um simples olá, invejar um cesto ou ter medo do disco voador do hóquei. Aquele F. C. Porto podia não ter pipocas na bancada, mas sabia como fazer uma criança feliz, passando o domingo entre uma modalidade e outra, sem sequer imaginar que, um dia, as piscinas iam estar dispersas, os futebolistas iam treinar para uma redoma de vidro distante e os outros atletas iam ter de jogar com a camisola azul e branca sem receber salário.

Agora, no vazio que antes víamos do parque de estacionamento, há um estádio e um pavilhão belíssimos, criações de última geração, palcos de um novo século de vitórias. Há um clube maior e um novo mundo de estrelas. Infelizmente, a minha infância já vai longe e a minha proximidade com o F. C. Porto também. Não sei se seria bom continuar a jogar para não ganhar e não sei quantas pessoas terão gerido mal a situação para acabar assim. Não conheço o suficiente do basquetebol para avaliar a decisão e nem sequer posso dizer que tenha sido uma grande adepta da modalidade. Mas ninguém gosta de ver o seu clube morrer um bocadinho.


P.S. Muito obrigada a todos os campeões do nosso basquetebol. Um dia voltaremos.

5 comentários:

  1. Bem haja querida Catarina, isso é que é sentir o nosso F.C.P., como tenho saudades desse tempo, quando ía ver o F.C.P. jogar á tarde, a chover torrencialmente, e mesmo assim ir directamente para o pavilhão, toda encharcada, ver o Basket ou o kóquei, como eu ficava tão feliz, e de facto agora é mesmo uma tristeza, saber que essas modalidades vão acabando, como me sinto mesmo triste!!!!

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  2. Enquanto benfiquista, lamento o abandono da modalidade. Uma vitória - nossa ou vossa - sobre o rival tem sempre um sabor diferente.

    Por outro lado, faz falta aquela rivalidade dos tempos de Lisboa, Jean-Jacques, Pedro Miguel, Henrique Vieira, Mike Plowden, de um lado, e Rui Santos, Kevin, Paulo Pinto (R.I.P.), Nuno Marçal (não gosto da figura, mas ele estava lá) e Miller, do outro.

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  3. se frequentavas a natação, lembras-te certamente do Sr. Alvaro... o nosso querido professor :)

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  4. Ui! Então C.? Tens visto muito pouco hóquei em patins. Hóquei no gelo é que é com disco, no hóquei patins é com bola!

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  5. Porque não escreves Catarina ? Adoro ler-te...as palavras no teu teclado respiram FCP, mas também uma ternura imensa...

    Beijo (não leves a mal, eu podia ser teu Pai!)

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