segunda-feira, 2 de julho de 2012

Me da igual

Estamos na Europa. Estamos, aliás, no Sul da Europa, com três equipas nas meias-finais e uma peculiar loucura pela bola. O tempo está bom, o mar sabe a sal e a areia é fina. Ligamos a televisão e respira-se Europeu: a Bola de Ouro é ou não é de Ronaldo, Shakira vai ou não vai ver Piqué, Balotelli faz ou não faz flexões como os outros. Discussões intensas, numa língua quente, apaixonada, que nos faz acreditar que tudo isso é muito mais importante do que o resgate europeu à sua banca. Estamos, claro, em Espanha.

Ou melhor dizendo, estamos no País Basco.

- Me da igual.

O empregado de mesa pergunta-nos a nacionalidade. Ao ouvir Portugal, lembra-se da meia-final do dia seguinte e, em castelhano, ouvimos a primeira de muitas negas à selecção espanhola. É que os bascos são bascos e não querem misturas.


A conversa continuou e o empregado de mesa, a quem o resultado do Portugal-Espanha, como havia sugerido, era completamente indiferente, contou-nos que, no primeiro jogo dos espanhóis, contra a Itália, envergou uma camisola azurra. Coincidência? Talvez. A camisola podia andar lá por casa e ele não ter mais roupa para vestir. Mais uma dose de confiança e chegamos aos quartos-de-final, Espanha-França, e uma camisola francesa para ver o jogo, claro. Sem insistirmos, sem muita pressão, uma promessa: iria comprar uma camisola portuguesa em menos de 24 horas.

Dava-lhe igual, como se nota. Não queria nada saber de futebol. Só não queria era que a Espanha ganhasse. Pensámos que ia ser giro ver aquela meia-final naquele contexto. Imaginámos uma multidão de “portugueses” de ocasião, nuestros hermanos de coração, a torcer por João Moutinho e companhia como se dos pupilos de Bielsa se tratassem. Mas não. Os bascos são ainda mais loucos.

Já se aquecia em Donetsk quando corremos para o restaurante (La Cueva, em San Sebastian, já agora recomendo). A televisão estava apagada. Teríamos entrado no único sítio na Terra que ignorava um campeonato europeu de futebol? Também estes empregados se mostravam muito simpáticos connosco, mas muito insensíveis ao momento. Diziam-nos, claro, que lhes dava igual. Um deles até confessou, baixinho, que só não gosta é do Ronaldo. Tem a mania, diz ele, e o Messi é mais tranquilo. Garantimos-lhe que bateu à porta certa.

O jogo começou e eu e o M. éramos, provavelmente, os dois portugueses menos nervosos do mundo. Eu seguia Moutinho a cada segundo, ele esperava que o tosco (um dos três toscos, para ser exacta) saísse do banco para resolver. Não havia mais ninguém interessado, nem no restaurante, nem em lado nenhum. De repente, lá fora, um golo. Na nossa televisão, nem pitada de emoção que indicasse um atraso ao estilo da Meo. Afinal, ali ao lado, havia um torneio de futebol de rua, uma coisa organizada, com várias equipas e árbitros e polémicas das boas. Estávamos na Europa, dentro das fronteiras do país agora bi-campeão europeu e campeão mundial, e, a eles, dava-lhes igual.


Injustiça. A palavra saiu da boca do capitão português para as páginas dos jornais. E o povo acreditou. Sem se lembrar que, para alguém perder com injustiça, é preciso alguém ganhar injustamente. Sem pensar que não foi, claramente, o caso. Atenção: Portugal fez um grande jogo. Durante 90 minutos, conseguiu anular a fortíssima Espanha. Mesmo sem ter rematado à baliza (tremenda injustiça!), e mesmo ficando a léguas de dar espectáculo, a equipa de Paulo Bento foi inteligente, prática e, sobretudo, apresentou-se bastante acima das expectativas. Moutinho, enfim, com muita pena minha, foi enorme. Pepe e Bruno Alves, apesar de terem exagerado na dose de pancadaria, estiveram muito fortes. A Coentrona até aos meus olhos pareceu um jogador de classe. E, lá na frente, onde Portugal insiste em jogar com um a menos, finalmente o Ronaldo do real madrid, com todas as suas qualidades e os seus defeitos.

Não se podia ter pedido mais. O prolongamento foi uma agonia, com os pequeninos espanhóis a começarem a assustar na área, e os penaltis consumaram a grande injustiça da passagem justa da melhor equipa. Não me interpretem mal: Portugal podia ter ganho o jogo, como é evidente. Mas a Espanha é melhor. Não foi muito melhor ali, mas foi melhor a marcar penaltis e é melhor em tudo, como se viu na final. Por isso não me venham dizer que foi um caso de falta de sorte. Falta de sorte teve o Porto com o zenit, quando o massacre não se traduziu em golos e na consequente passagem aos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Falta de sorte teve o Porto com o gil vicente, quando o árbitro nomeado foi Bruno Paixão. Respira, Catarina, respira.

E, por favor, parem de ficar contentes com a eliminação. Portugal perdeu, foi afastado, veio para casa mais cedo do que os adeptos desejavam (adivinho, porque não sei). E isso é mau, a não ser que estejamos a falar daquela equipa que festeja uma derrota na Liga Europa noite dentro, no próprio estádio. Se me continuarem a mostrar que a selecção portuguesa é feliz se não perder por muitos, então aí é que não me convencem mesmo a torcer por ela. Me da igual.

P.S. Este é o meu último texto sobre o Euro, por isso não posso acabar sem agradecer a Andrés Iniesta por existir. A partir de agora, acabaram-se as divagações. A época começou hoje e há que escrever sobre o Porto.

7 comentários:

  1. Eheh!
    O que vale é que parece que o Paixão desceu de divisão e já não apita mais os nossos jogos.
    A recepção de uma equipa, que não venceu a competição, quase com honras de estado é uma palhaçada.

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  2. Águias de Belmonte3 de julho de 2012 às 09:57

    C,

    É bom estarem de volta ! Quanto ao Euro, não há muito mais a falar, exceto em relação à consagração do melhor árbitro português ! O PP ! Mais uma vez provou que é excelente tecnicamente !
    As suas arbitragens em Portugal provam-no !
    É bom árbitro ! Só que é um ladrão e desonesto, pois sabe beneficiar sempre os mesmos (os foculportos !). Nunca se engana, excelente árbitro, mas ladrão e corrupto !

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    1. (mais) um bitaite cheio de contradições.
      exemplo? «Nunca se engana, excelente árbitro, mas ladrão e corrupto»
      (em que é que ficamos?)

      ps:
      «foculportos»?! isso é uma marca de anti-depressivo?

      saudinha, sim!
      (e, já sabe: 2este ano é que vai for, car@go!!")

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    2. http://www.youtube.com/watch?v=_VGmWE-Cso0

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    3. Ao smalldeal:

      Vou quase fazer um desenho para que entenda melhor !
      Confirmo que o PP é um excelente arbitro !
      Nunca se engana, pois os roubos são premeditados, não direi cirúrgicos, pois são óbvios e previsiveis!
      Nunca engana e apita sempre a favor do homem dos quinhentinhos ! ou já são milinhos e mais fruta ?
      Haja paciência !

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    4. é tanta a "fruta" como o "pó" no pneus.

      (não me leve a mal, mas tem que mudar a cassete - que já está gasta e por mais youtubiu que haja. olhe: inoBe!)

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  3. Em San Sebastian nao há muitos pupilos do Bielsa porque ainda se respeita a Real Sociedad :)

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