terça-feira, 24 de julho de 2012

Preciso do Benfica

Preciso de futebol. Preciso daqueles segundinhos antes do jogo começar, em que esfrego as mãos, dou dois pulinhos de nervos e tenho fé. São os dois segundos onde esqueço o meu pessimismo, esqueço as análises e acredito que os onze de vermelho são os melhores do mundo. Dou dois pulinhos e penso um “`Bora!” ou “Vamos lá”, seguido invariavelmente de palavrões.

Preciso dos palavrõs no futebol. Preciso de largar aquela caralhada, de sentir o profundo desprezo que o “Foda-se”, dito sibilinamente, esticando o “assssseeee”, tem pelo azar quando a bola bate na barra. Quero dizer palavrões e insultos estranhos e bizarros aos rivais. Não basta chamar “merdoso” ao Diogo Valente. Temos que exagerar, tornar o insulto uma imagem ridícula e dantesca. O Diogo Valente (que é dos meus alvos preferidos, sempre com aquele olhar de Beckham incompreendido) tem de ser “uma grande montanha de merda” ou um “atrasado mental filho de um boi”. Preciso de gritar a um rival que vá marcar um canto perto de mim que ele “não vale um caralho”, que é o nível último da inaptidão.
                                                                                                     
Quero passar na banca dos cachecóis e olhar para todos e pensar sempre que é hoje que vou comprar um e que vai dar sorte. Tenho saudades de entrar no metro e de avaliar pelo número de pessoas à Benfica se a Luz vai estar cheia ou não. Tenho saudades do número de pessoas que se acumula na estátua do Eusébio, como se aquele fosse o ponto de encontro único para ir à Catedral.

O futebol e, sobretudo, o Benfica, fazem parte de mim. Todos os dias – melhor dizendo, todas as horas – penso no Benfica, em soluções para as laterais, em putativas entrevistas aos jornais enquanto presidente do Benfica, sempre fortíssimo nos ataques aos rivais, com um fino conhecimento histórico que me permitiria desmontar rapidamente os ataques de Pinto da Costa e com argumentos que o levariam à loucura. Imagino-me também jogador, a marcar o sexto em Alvalade, incitando depois a nossa bancada a cantar o “À meia dúzia é mais barato”. O Aimar é o primeiro a chegar para me abraçar. "Es tuyo, Pablo", digo-lhe ao ouvido, agradecendo a fantástica assistência que me deixou na cara de Patrício.

O futebol está em tudo na minha vida e não encontro melhor metáfora em tudo o que faço. Quando digo a um doente que está tudo a correr bem digo-lhes sempre que “em equipa que ganha não se mexe”. Quando meto um catéter à primeira digo que foi à Cardozo.
Uma vez estava na consulta a correr de um lado para o outro – faltavam-me processos, vinhetas e tudo o mais – e estava sempre a passar na sala de espera dos doentes. Um doente vira-se para mim: “Você não pára!”. Respondi-lhe: “Pareço o Witsel a varrer o meio campo”. O senhor, Benfiquista, riu-se a bom rir.
O meu pai, quando fala de alguém que tem a mania que é bom e que é o maior, usa uma expressão de outro grande Benfiquista nosso amigo, senhor já falecido e dono do mais fino humor: “Esse gajo tem a mania que é o Eusébio”. Ter a mania que se é o Eusébio é ter a mania que se é Deus. É a prepotência, a má educação, a falta de respeito. Quando alguém acha que é o Eusébio, não importa quão bom é, já está a exagerar, é um pavão, um convencido que deve ser posto no lugar. Ter a mania que se é o Eusébio devia dar um castigo exemplar que obrigasse o prevaricador a perceber que não só se excedeu, mas que pecou.

Preciso de mais do que amigáveis e notícias de jornal. Preciso de ter que fazer ao fim de semana, de ter um objectivo principal em que pensar, dado que o próximo (Benfica–Braga, primeira jornada) ainda vem longe, com várias semanas vazias de existência pelo meio. Ocupá-las-ei com livros e outros pormenores que nunca me vão preencher tanto como aquele vermelho lindo e berrante do manto sagrado, mas todas as horas estão já contadas em decrescente para a bola, para o Benfica.
Cá em casa a vida segue, mas com uns silêncios estranhos. Continuamos a namorar, a ver séries, a ler, a trabalhar, a pensar em viagens. Mas não estamos completos, não estamos preenchidos. Falta a bola. Falta o bichinho, a pica, o coração aos saltos, quase na boca e às vezes no estômago.

Preciso de futebol. De dar dois saltinhos antes do Aimar tocar para a frente e o Cardozo dar de pé esquerdo para o Witsel. Vamos lá.

4 comentários:

  1. Isto não é o Benfica. Isto é a febre do futebol. É a clubite do futebol.
    Eu também a sinto. Não tem que ver com este ou aquele clube.
    Eu, do FC Porto, sinto uma afinidade enorme com o texto. Basta substituir os nomes vermelhos pelos azuis e as "manias" do M. pelas minhas, e está lá tudo.

    Parabéns M.

    Eu, por mais que viva, também não me habituo a este intervalo de verão. Falta sempre qualquer coisa.

    Cumprimentos,
    PeLiFe

    ResponderEliminar
  2. Exactamente por isso amanha lá estarei num jogo de treta a uma hora incrivel mas bolas são quase dois meses sem o "nosso" Benfica e as saudades...

    ResponderEliminar
  3. Ora nem mais!! Venha o campeonato depressinha, quanto mais não seja para postares mais vezes!! É sempre um prazer ler-te! ;)

    ResponderEliminar